quarta-feira, 25 de setembro de 2019

O NOSSO QUERIDO MÊS DE AGOSTO


Foto de M

4. O Tempo dos Outros

Eu em casa a ver talvez o filme Lawrence da Arábia, eles baloiçando numa outra luta, as cabeças protegidas do calor de um agosto de cidade deserta no século 21. 
M

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

O NOSSO QUERIDO MÊS DE AGOSTO


Foto de M 

3. Os Agostos da Nossa Juventude 

Várias fotografias e palavras poderia eu escolher para lembrar os agostos da minha juventude mas elas seriam restritivas pela sua condição de eleitas para um objectivo de ocasião. Se distinguisse apenas determinados episódios e as emoções a eles associadas correria o risco de esquecer por momentos a relevância de outros igualmente marcantes guardados no desejo de absoluto que a memória por vezes tem. Assim, num compromisso meu com essa ideia de absoluto, privilegio esta imagem: nela está contida a essência desse tempo da minha vida. 
M

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

O NOSSO QUERIDO MÊS DE AGOSTO


Foto de M

2. As Sombras dos Lugares 

É lugar de emigração aquele, a serra caminho verde para o abraço no regresso às festas do calendário litúrgico de cada aldeia e ao tule a esvoaçar como pássaros no adro da igreja. Conversas abrem risos entre famílias e amigos, visitam a casa em construção, assentam mais uma fiada de tijolos na parede da varanda virada ao pôr do sol, escolhe-se o chão onde pousar o futuro, o pensamento entre là-bas e o depois. No entanto, despedaçados podem ficar os sonhos na curva da estrada que se conhece desde sempre, violentamente expostos na memória da terra-mãe em empresa de sucata à beira das giestas em flor. Tão invasivo e chocante pode ser este nosso mundo! 
M

terça-feira, 27 de agosto de 2019

O NOSSO QUERIDO MÊS DE AGOSTO


Foto de M 

1. A Luz dos Lugares 

A luz dos lugares tem afinidades com os que lhe são íntimos ao longo de muitos anos. 

Em tempos idos, nem as paredes da casa nem as crianças que ali viviam os meses de verão se importavam com as respectivas estaturas. Existia aquela espécie de porta de casa de bonecas que abria e fechava à passagem desenfreada de meninos em busca de brincadeiras novas e pronto, tudo era festa. Apenas os adultos mostravam algum cuidado ao entrar e sair, não fossem as suas cabeças supostamente experientes provocar litígios com o lintel da porta, ao ponto de criarem galos onde ninguém pensa que cresçam, ou verem pássaros a esvoaçar entre estrelas coloridas. E porque, como diz o ditado popular Cada um em sua casa é rei, esses nossos conhecidos de penas apresentam-se sem dúvida mais garbosos quando anunciam um novo dia nas manhãs orvalhadas ou debicam nos campos de terra batida acompanhados da sua prole. 
Ora aconteceu que alguém com artes de desenho, prevendo que os meninos medram como as culturas na aldeia, teve a ideia brilhante de ali colocar um aviso divertido para evitar problemas aos distraídos. E passou a velha casa de grossas paredes de pedra, que em tempos tinha sido curral de cabras, a sentir-se honrada com as vénias que a todo o momento lhe são prestadas. E nós felizes por podermos continuar a observar constelações de estrelas no céu das noites límpidas de verão. 
M

quinta-feira, 18 de abril de 2019

257.


Foto de M 

Do que vejo e me impressiona nas ruas por onde passo. Feridas na pele de um corpo marcado por privações, o abandono escancarado, um aceno deixado ao relento, delicado e branco como a dor pode ser. Quem? Porquê? Quando? 

M

sexta-feira, 12 de abril de 2019

256.


Foto de M 

Lembrei-me deles quando ali passei. Imaginei-os diante deste recanto de luz e sombras, sentados em banquinhos desdobráveis de lona parda, a caixa das tintas pousada no chão, a tela no cavalete enriquecida aos poucos com as pinceladas reveladoras da forma particular como olhavam o mundo. Era um dia de maio e eu passeava pela aldeia respirando a pureza que ela me oferecia. 

M

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

FELIZ NATAL


Foto de M

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

255.


Foto de M

Quando eu era pequena os meus Pais tinham uma empregada que me contava histórias aterradoras. Uma delas era a de um ladrão que trepava as paredes com pé direito alto do prédio antigo onde vivíamos e entrava dentro de casa pela janela do meu quarto no terceiro andar. Claro que seria impossível alguém chegar até lá, a não ser com andaimes, mas eu não conseguia ter esse raciocínio e ficava apavorada. Assim, mal anoitecia, fechava rapidamente as portadas, e tremia de medo a imaginar o tal homem suspenso pelos braços, as mãos cravadas no parapeito, preparado para entrar. Chegada a hora de me deitar, enroscada em pensamentos assustadores, só conseguia adormecer depois de espreitar debaixo da cama para me certificar de que ninguém se tinha escondido ali. Espreito, não espreito, e se está aqui alguém... Ui, o medo quase me paralisava! Teria sido mais avisado se tivesse revelado aos meus Pais o que me afligia, mas nunca o fiz e eles também nunca se aperceberam da arte de contadora de histórias horríveis da empregada. O prédio existe ainda, enorme e de boa saúde, rondo-o às vezes, mas nunca vejo ninguém com aspecto de ladrão pendurado nele. Só durante as festas natalícias aparecem por lá vários sósias de Pai Natal insuflável com os sacos às costas carregados de presentes sonhados por meninos em cartas escritas pela fantasia. Passam dias e noites equilibrados nos ferros das varandas, plastificados a preceito, o debrum do gorro vermelho misturando-se com as barbas brancas, o cinto preto com fivela dourada envolvendo a barriga proeminente sob o casaco, sem que ninguém lhes abra as janelas e receba as encomendas. Momentos de desilusão, suponho, atenuados pelas descrições divertidas dos percalços encontrados nas suas viagens em trenós puxados por renas, entre a saída da Lapónia e a chegada ao destino. Talvez alguma criança nos oiça, costumam gostar de aventuras, comentavam entre si.
M

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

254.


Foto de M

Sem pensar duas vezes, correram para a pedra. Pelo menos assim me pareceu. Eu ia atrás deles, em passeio de domingo, e fui ouvindo a conversa, uma palavra aqui, outra ali, mas sem prestar grande atenção. Caminhavam em passo lento, a opinar sobre uma qualquer pedra fracturada. À distância afigurava-se- -lhes suficientemente larga para se acomodarem os três. Aposto que cabemos. Pois eu aposto que não. Então dois de cada vez. Dessa estás tu livre, ninguém é deixado de fora, não foi isso o combinado. Ou há coesão ou nada feito. Na última parte do trajecto calaram-se. Mas nem eu nem os pássaros que por ali esvoaçavam, ou as lagartixas fugidias rasteirinhas aos nossos pés, fazíamos ideia que decisão final teria sido tomada. E talvez nem eles. Quem cala consente mas não sempre, portanto o melhor é evitar entrar no silêncio de cada um, por causa das más interpretações. De repente largaram numa correria na direcção da pedra e o resultado está à vista. Não entendo que bicho lhes mordeu, iam tão devagar... Apanharam-me de surpresa, confesso. Mas depressa arranjaram explicação para o aperto em que se meteram. O artesão que nos moldou imaginou-nos assim, não podemos desiludi-lo. Não achas?, perguntavam uns aos outros. Bem encostados até se relaxa um pouco, argumentava um deles. Ora, balelas! A ergonomia funciona apenas contigo, só tu tens sofá esculpido à tua medida. Gente estranha... Deixei-os lá com aquela conversa maluca. Há cada um! 
Limitei-me a dizer Pois... ao meu interlocutor do momento, palavra que utilizo em impasses de conversas.
M

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

253.


Foto de M 

Pousei-a há tempos sobre o braço do sofá e ela ali ficou, dobrada entre tons suaves e franjas entrelaçadas. Foi então num dia calado que dei comigo a olhá-la do outro lado da sala, de um outro lugar, e recebi o afecto macio de uma manta que nada pede. 
M

domingo, 17 de junho de 2018

EXPERIÊNCIAS: AINDA O VOO DOS PÁSSAROS


Foto de M

Voltou a enganar-se, o pássaro. Tomou como nuvem o que era apenas um rolo de papel de cozinha. Coitado, continua no poleiro, virado para a parede.

sábado, 16 de junho de 2018

EXPERIÊNCIAS: UMA QUESTÃO DE DIRECÇÃO DO VOO


Foto de M 

Quando se voa convém saber qual a direcção a tomar. Às vezes o brilho é apenas o de um rolo de folha de alumínio.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

EXPERIÊNCIAS




Fotos de M

quarta-feira, 4 de abril de 2018

252.


Foto de M 

Este frasco de elixir ofereceu-mo uma amiga. Tinha dentro um saco pequeno, daqueles todos dobradinhos para trazer na mala, preparados para os imprevistos que não cabem nas nossas mãos. Azul macio, com pássaros amarelos de asas abertas prontas a esvoaçar. Do meu apreço por sacos e pássaros sabe a minha amiga e com esse presente me provocou acomodando-o discretamente por detrás das palavras mágicas pintadas no vidro, certa de que ele e eu nos olharíamos com agrado. Não seria a sua casa definitiva, guardei-o no tal lugar onde os imprevistos o procurariam. Ficou vazio o frasco. Ou talvez não, pois parece-me que o invisível preserva o que desconhecemos e possui arte q.b. para preparar o composto do tal elixir desejado por todos nós. Não importa a língua em que é nomeado, cada um procura descobri-lo como pode e bebe-o de acordo com o seu paladar. Nem sempre tarefa fácil, por vezes a sombra ofusca a luz, sabemos isso por experiência própria. Neste caso, por exemplo, equilibrar o frasco na minha mão esquerda, qual aranha pronta a alimentar-se do que lhe cai na teia, e com a outra premir o botão da máquina fotográfica acoplada ao tripé, constituiu desafio moroso para conseguir uma imagem razoável. Não me admiro, se calhar a felicidade exige-nos disponibilidade para a encontrarmos entre os delicados fios de seda que vai tecendo com mestria para se abrigar do imponderável. 
M

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

251.


Foto de M

Não oiço os músicos nem o toque efusivo dos sinos a ecoar na serra. Talvez estejam a descansar. Imóveis os sinos na torre da igreja, os homens no adro, em conversa animada depois de saborosa refeição, a chanfana e o vinho da região a seduzir-lhes os sentidos. Os mordomos encarregados de organizar as festividades da padroeira da aldeia esmeraram-se na tarefa, que o acontecimento é de relevo numa povoação determinada a manter na memória esta parte da vida que lhe pertence. Escolheu-se a banda, ter-se-ão ajustado os euros a pagar, quantos não faço ideia. As conversações terão demorado várias horas, propostas e contrapropostas, assim me diz a experiência da minha vivência naquele lugar onde cada um observa o outro, nas mãos o copo de vinho da adega da casa, ou de aguardente, oferecidos entre palavras ditas e pensamentos resguardados. O contrato habitual é que toquem os músicos na missa e, finda esta, acompanhem solenemente a procissão atrás do padre e dos andores com as imagens dos santos. Só depois almoçam no salão da Junta de Freguesia, envolvidos pela azáfama das mulheres a servir convidados e mordomos. Um dia de alvoroço na rotina da existência. Festas desejadas ainda pelos escassos habitantes e pelos seus familiares emigrados que em Setembro revivem por breves dias a história de um tempo. Sim, encontrei-os no lugar por mim previsto. A fazer a digestão dos petiscos beirões e a prepararem-se para de novo subir e descer a rua principal da aldeia a tocar, antes de regressarem às suas terras. E eu, comovida, ouvi-os. Como sempre. Naquele momento e na grata lembrança das férias de verão da minha meninice. 
M

sábado, 30 de dezembro de 2017

250. MUDANÇA DE ANO - TEMPO DE LEMBRAR


Foto de M 

Quando um dia vi esta miniatura numa loja comprei-a porque me trouxe ao pensamento o rapaz leiteiro que subia a pé as velhas escadas de madeira do prédio onde eu morava com a minha família, num bairro de Lisboa. Era então no patamar do nosso 3º andar que ele vertia várias vezes o leite da leiteira de alumínio para dentro das medidas, e depois para o nosso fervedor, até completar a quantidade pedida, tão hábil o seu gesto que nem uma pinga de leite caía no chão. Ainda oiço o barulho das medidas e da corrente que as segurava! 
M

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

A MINHA ÁRVORE DE NATAL


Foto de M

E os meus desejos de Boas Festas para quem por aqui passar. 
M

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

249.


Foto de M 

Quando olhei para cima lembrei-me de uma conhecida expressão usada por muitos de nós em certas ocasiões problemáticas. Pois é, ter uma pedra no sapato acontece por aí, seja de gravilha o solo que se pisa, de alcatrão, cimento ou qualquer outro, até o imaginário onde o nosso pensamento circula. Por causa daquelas pedras no telhado, não sei se periclitantes, se tenazes na postura assumida, dei comigo a questionar-me sobre a expressão Ter uma pedra no sapato e cheguei à conclusão que o seu significado extravasa matérias e territórios. Em Villafranca del Bierzo, por exemplo, há quem as tenha no telhado. E o que aconteceria se o telhado fosse de vidro? Com facilidade se partiria, julgo eu, e pronto, ficava tudo em pratos limpos, ou melhor dizendo, em pedacinhos iridescentes, o que por vezes resolve situações em equilíbrio instável. 
M

terça-feira, 17 de outubro de 2017

248.


Foto de M

O cisne do lago Windermere, o meu cisne. Ontem lembrei-me dele e tirei-o da caixinha onde o guardo. Passaram já tantos anos desde que com ele me encantei numa loja em Bowness-on-Windermere e o trouxe comigo. A recordação de um lugar lindo. Julho de 1996! Tão distante e tão próximo. 
M



Fotografias resguardadas num álbum de tempos.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

247.


Foto de M

Talvez seja esta a cor da solidão, pensei mal a vi. Como fatia de bolo abandonada em mesa de refeição.
M