O Passarito poisou em cima da oliveira com uma ideia muito maluca dentro da cabeça: queria ter asas azuis da cor do céu! – Mas tu tens umas asas tão bonitas, meu pequerrucho! – disse-lhe a mãe, empoleirada a seu lado. – Que ideia a tua de quereres ter asas de outra cor! – Mas eu quero – respondeu o Passarito. E começou a fazer uma birra, abanando muito a cabeça de um lado para o outro, e abrindo e fechando o bico, como se quisesse gritar. – O céu não está longe, podemos muito bem ir lá buscar azul para eu me pintar. – Está muito longe – disse a mãe, ao mesmo tempo que metia com suavidade o bico entre as penas acinzentadas do filho. Era a maneira de ela lhe fazer festas. – As tuas penas são lindas! – Mas eu agora quero ser azul! Tu não percebes nada! Não estás mesmo a ver?... – A ver o quê?! – A mãe olhou para ele admirada. – Eu quero enfeitar esta árvore. Já viste como ela é? É cinzenta, mamã... Com estas minhas asas ficamos iguais, da mesma cor não tem graça nenhuma! É preciso explicar-te tudo!... – Ah, então foi por isso que acordaste com essa ideia maluca! – respondeu a mãe. – Mas... achas que o azul é a melhor cor para enfeitares a oliveira? Anda cá, vamos voar até àquele raminho mais abaixo e tu olhas com atenção para cima... – Para quê? Já disse que gosto de azul, e só do azul do céu! – E, como estava muito zangado, bateu as asas com tanta força que se desequilibrou e foi pelo ar a voar aos trambolhões. Estatelou-se no passeio, escorregou, mas depois lá se endireitou. E olhava para todos os lados, um bocadito envergonhado. – Que grande voo! Até parecia que estavas a ser empurrado por alguma tempestade! – A mãe poisava agora no chão, a seu lado. Entretanto, os pombos que por ali andavam em busca de grãozinhos de milho miravam e remiravam o Passarito, muito espantados, sem perceberem como é que ele, sendo tão pequenino, era tão refilão e fazia tanto barulho. Só o ouviam piar, piar... E eles que gostam de comer sossegados! Passam a vida de um lado para o outro, com aquelas asas compridas que me lembram o fraque que o pai da minha amiga Beatriz veste para ir a casamentos. – Então, já passou a birra? Apanhaste um susto com esse trambolhão, não foi? – A mãe chegou-se mais para junto dele e disse-lhe baixinho: – Olha para o céu. Estás a ver o que acontecia se as tuas asas fossem azuis? Repara bem! O Passarito levantou a cabeça, um bocado contrariado, claro, e espreitou lá para cima. – Não achas que quem olhasse cá de baixo via tudo azul? - perguntou a mãe. - Ninguém reparava em ti... Vamos pensar numa outra cor... Que tal um amarelo? – Amarelo?! – Ele não estava lá muito convencido com a ideia da mãe. – Sim, o amarelo daquelas folhas caídas sobre a relva ali ao fundo... É tão bonito! – sugeriu ela. – Oh, esse já não está amarelo, está quase castanho... – Achas? Pois eu acho-o lindo. Até tenho encontrado aqui um homem a apanhar folhas iguais a estas e a guardá-las dentro de um carrinho de rodas. E é muito engraçada a vassoura com que ele varre a rua... O Passarito olhava para a mãe, olhava para as folhas, olhava para o céu, voltava a olhar para a mãe... Parecia indeciso, mas como era um bocadinho teimoso... – Então e como é que eu faço? – perguntou por fim, baixinho, porque não queria que os pombos o ouvissem. Depois daquela birra de há pouco era uma vergonha. – As folhas estão secas e partem-se se eu lhes tocar... – Vamos fazer assim: continuas com as tuas asas, que são lindas... – Mas tu disseste... – Espera, tem calma! Ficas na mesma com as tuas asas acinzentadas e eu escolho uma folha das mais bonitas, grande, e seguro-a na tua cabeça, como se fosse uma coroa. Achas bem? – Mas... como é que se segura? – O Passarito começava a pensar que a ideia da mãe talvez não fosse de desprezar. – Vamos procurar um fiozinho, daqueles que às vezes andam por aí... Nunca reparaste que algumas pessoas atiram coisas para o chão? Olha, ainda ontem vi uma senhora deixar cair um cordel no passeio. Quando abriu o saco do milho para os pombos e meteu a mão dentro... ele escorregou. E era encarnado! Ficava mesmo bem a segurar a coroa... Que te parece? O Passarito abriu muito os olhos e, sempre aos saltinhos, procurou, procurou, até que encontrou o que queria. – Encontrei um! – Ele estava agora muito contente. – E eu descobri esta folha linda, olha! Vais parecer um príncipe! – E a mãe, pegando cuidadosamente na folha com o bico, prendeu-a com o fiozinho encarnado à cabeça do filho. – Estou bonito? – perguntou o Passarito. – Estás lindo! – disse a mãe, toda vaidosa. – Então e agora? – Ele não parava de fazer perguntas. – Agora já podes voar até ao cimo da árvore. Com cuidado… – E ficou a admirá-lo, enquanto ele subia até ao ramo mais alto da oliveira, devagarinho para não estragar a coroa.
Era uma vez um edifício muito alto que morava numa cidade à beira-rio. Reparei nele. Sobressaía num bairro de ancestralidades e estilos diferentes do seu pelo que dei comigo a pensar no que teria sentido ao ir pouco a pouco tomando consistência entre a terra e o céu, encaixado naquele espaço de criações outras que não a sua. E imaginei que poderia ter estranhado vizinhança tão diversa, o que o levaria a recolher-se atrás dos pequenos rectângulos marcados no corpo que, à distância do meu olhar, me pareciam janelas fechadas. Mas, tanto quanto me é dado fantasiar, a presumível desconfiança e desajuste iniciais entre os residentes ter-se-á dissipado com a convivência diária. E de tal forma íntima ela se tornou, suponho, que a ampla parede do jovem edifício passou a ser lugar de encontro para o pensamento do olhar. M
Quando avistei a fajã lá do alto, lembrei-me dos presépios que a minha Tia Chanel construía com a sua imaginação de tia querida, era eu criança. Recordei-a a amarfanhar folhas de papel pardo com as mãos leves e a dar-lhes forma de montes que, juntamente com o musgo fresco apanhado nos jardins por onde passeávamos, compunham o solo da nossa aldeia natalícia a viver temporariamente em cima de uma cómoda. Havia de tudo nesta aldeia da minha infância: casinhas de barro pintado, pastores, ovelhas, mulheres carregando cântaros à cabeça, flores, passarinhos, lagos que brilhavam em espelhos pequeninos, patos. Mais longe, os Reis Magos desciam pelos caminhos que os levariam à presença das figuras principais abrigadas na cabana, afinal as grandes responsáveis pela existência daquele cenário que nunca mais esqueci. De presépios feitos pelos moradores da Fajã do Ouvidor – assim se chama – nada sei, mas imagino que também os haverá em Dezembro. Ou talvez não, pois vivem o ano inteiro dentro de um. Mas deixando as fantasias, recomendo que espreitem os links abaixo. Neles encontrarão informação interessante sobre as fajãs em geral, sobre esta em particular, e sobre os produtos cultivados nos seus terrenos. M