quinta-feira, 27 de setembro de 2012

179.


Fotos de M 

Estava ali, junto do lagar de azeite da aldeia que conheço desde menina: uma espécie de tríptico num silêncio de abandono que me pareceu de há muito.
Reparei primeiro no casaco pendurado no prego, a parede branca, a porta vermelha fechada. Aproximei-me, como se precisasse de descobrir-lhe a alma dentro do forro. Ao lado, o chapéu de chuva prendeu-me a atenção. Desviei o olhar, emocionada. Porquê? Há quanto tempo naquele lugar de solidão? Só depois vi a garrafa. Quase encostada ao murete, metade cheia, metade vazia, a tampa calando-lhe a medida. Que líquido? Vinho? De quem? Para quem? Porquê este desamparo sem nome?
Não muito distante, a curva do caminho de terra batida. 
Terrível este mistério de presença que me tocou naquele dia de verão. Quem seria? Quem foi? Quem é ainda?

M

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

PRECE

Adaptação de foto de B. 

PRECE
 
Meu Deus, dai-me paciência! Tende piedade de mim, desventurada criatura que sou, injustamente forçada a aturar inteligentes complexados!
Meu Deus, se sois meu verdadeiro amigo, libertai-me daqueles outros que o dizem ser!
Protegei-me das palavras vãs dos néscios, Senhor! 
Desfaleço neste caminho de pedras que me atrapalham o passo.
Deus meu, tende misericórdia desta pobre cibernauta que anda com os pés na terra e o pensamento no céu! Mas, Senhor, se for de vossa vontade, que passe eu a estar ao contrário, com os pés no céu e o pensamento na terra! Talvez assim me seja dado um melhor entendimento das coisas, nem que seja pela posição em que o meu corpo passará a estar.
Tende compaixão de mim, Senhor!

M

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

178.


Foto de M 

Como num filme. O movimento da vida em repouso e o silêncio do olhar deixado sobre a mesa.
Longe, o murmúrio do arvoredo na leveza do vento e o canto dos pássaros abrindo a manhã.
Como num filme de encontros.

M

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

PROVÉRBIOS FOTOGRAFADOS - 20


 Foto de M

«O sono é bom conselheiro»

Rifoneiro Português por Pedro Chaves (2ª edição), Editorial Domingos Barreira

sábado, 25 de agosto de 2012

Still there (o último post de uma série de 14)


Foto de M

Still there




Fotos de M 

« He walked listlessly round Stephen's Green and then Grafton Stret. Though his eyes took note of many elements of the crowd through which he passed (...)»

Dubliners (Two Gallants), James Joyce, Granada Publishing Limited
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«Com o espírito alheado, contornou Stephen's Green e desceu Grafton Street. Os seus olhos não deixaram de notar muitos elementos da multidão que atravessou (...)»

Dublinenses (Dois Galãs), James Joyce, Relógio D'Água Editores

Still there




Fotos de M

«Mrs Mooney's young men paid fifteen shillings a week for board and lodgings (beer or stout at dinner excluded). (...)»

Dubliners (The Boarding House)), James Joyce, Granada Publishing Limited

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«Os jovens cavalheiros de Mrs Mooney pagavam quinze xelins à semana por pensão completa (cerveja, branca ou preta, não incluída na refeição). (...)»

Dublinenses (A Casa de Hóspedes), James Joyce, Relógio D'Água Editores

Still there


Foto de M 
  
«She sat at the window watching the evening invade the avenue. Her head was leaned against the window curtains and in her nostrils was the odour of dusty cretone. She was tired.
Few people passed. The man out of the last house passed on his way home; she heard his footsteps clacking along the concrete pavement and afterwards crunching on the cinder path before the new red houses. One time there used to be a field in which they used to play every evening with other people's children. Then a man from Belfast bought the field and built houses in it – not like their little brown houses, but brick houses with shining roofs. (...)»

Dubliners (Eveline), James Joyce, Granada Publishing Limited

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«Estava sentada à janela, vendo a noite invadir a avenida. Tinha a cabeça apoiada às cortinas e o cheiro do cretone empoeirado invadia-lhe as narinas. Estava cansada.
Passava pouca gente. O homem que morava ao fundo da rua passou a caminho de casa; ouviu-lhe o ruído dos passos no passeio de cimento, e depois a rangerem na cinza prensada do caminho que ladeava as novas casas vermelhas. Em tempos houvera ali um campo onde eles costumavam brincar todas as tardes com os filhos de outros moradores. Depois um homem de Belfast comprou o campo e construiu lá casas – não como as suas pequenas casas castanhas, mas casas de cor viva, de tijolo, com telhados luzidios. (...)»

Dublinenses (Eveline), James Joyce, Relógio D'Água Editores

Still there



 
 Fotos de M 
 (Midleton Distillery)

« (…) Little Chandler allowed his whisky to be very much diluted.
- You don't know what's good for you, my boy, said Ignatius Gallaher. I drink mine neat.
- I drink very little as a rule, said Little Chandler modestly. An old half-one or so when I meet any of the old crowd: that's all.
- Ah, well, said Ignatius Gallaher, cheerfully, here's to us and to old times and old acquaintance.
They clinked glasses and drank the toast. (...)»

Dubliners (A Little Cloud), James Joyce, Granada Publishing Limited

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« (…) Little Chandler deixou que o seu uísque fosse abundantemente diluído.
«Tu não sabes o que é bom, rapaz, disse Ignatius Gallaher. «Eu bebo o meu puro.»
«Por norma bebo muito pouco», retorquiu Little Chandler com modéstia. «Meio uísque uma vez por acaso, quando encontro alguém do antigo grupo, e é tudo.»
«Pois bem», disse Ignatius Gallaher jovialmente, «cá vai à nossa, e aos bons velhos tempos e aos velhos companheiros.»
Fizeram retinir os copos e levaram-nos à boca. (...)»

Dublinenses (Uma Pequena Nuvem), James Joyce, Relógio D'Água Editores

Still there


Foto de M
(Pub em Belfast)
 
« (...) Little Chandler finished his whisky and, after some trouble, succeeded in catching the barman's eye. He ordered the same again.
- I've been to the Moulin Rouge, Ignatius Gallaher continued when the barman removed their glasses, and I've been to all the Bohemian cafés. Hot stuff! Not for a pious chap like you, Tommy.
Little Chandler said nothing until the barman returned with the two glasses: then he touched his friend's glass lightly and reciprocated the former toast. He was beginning to feel somewhat desillusioned. Gallaher's accent and way of expressing himself did not please him. There was something vulgar in his friend which he had not observed before. But perhaps it was only the result of living in London amid the bustle and competition of the Press. The old personal charm was still there under this new gaudy manner. And, after all, Gallaher had lived, he had seen the world. Little Chandler looked at his friend enviously. (...)»

Dubliners (A Little Cloud), James Joyce, Granada Publishing Limited

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« (…) Little Chandler terminou o uísque e, com uma certa dificuldade, conseguiu atrair a atenção do barman. Pediu outra rodada igual.
«Fui ao Moulin Rouge», prosseguiu Ignatius Gallaher depois de o barman recolher os copos, «e a todos os cafés boémios. Coisa de estalo! Não é para um tipo recatado como tu, Tommy.»
Little Chandler nada disse até o barman regressar com dois copos; depois, com um toque ligeiro no copo do amigo, retribuiu o brinde anterior. Começava a sentir-se um pouco desiludido. O sotaque de Gallaher e a maneira de se expressar não lhe agradavam. Havia nele uma vulgaridade que não lhe notara antes. Mas talvez fosse apenas o resultado de viver em Londres, no meio da lufa-lufa e da concorrência do meio jornalístico. O encanto pessoal de outrora ainda subsistia sob estes novos modos exuberantes. E o que é certo é que Gallaher tinha vivido, tinha visto o mundo. Little Chandler olhou para o amigo com inveja. (...)»

Dublinenses (Uma Pequena Nuvem), James Joyce, Relógio D'Água Editores