quinta-feira, 25 de outubro de 2012

181.


Foto de M 
(Claustro do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, em Coimbra)

 
Uma espécie de osteoporose no corpo da História. À semelhança dos nossos corpos de gente anquilosada descrente dos desempenhos de articulações e rendilhados ocultos dentro desta enorme complexidade que nos habita. Desconfortos. Parafusos e barras de titânio a segurarem-nos, a manterem-nos de pé, recompondo as nossas vidas, cicatrizes assinalando as nossas histórias muito particulares. Valem-nos os ortopedistas. E os arqueólogos. E os antropólogos. E os sociólogos. E os historiadores. E os cientistas. Todos eles ávidos de entendimento do universo, à procura do que nos explica e explica a vida nas suas semelhanças e diferenças ao longo dos séculos. E os artesãos. Sem pressas, o perfeccionismo guiando o ritmo de cada gesto, a imaginação em permanente viagem entre o real e o simbólico, entre o todo e o detalhe que as suas mãos são capazes de imprimir nas pedras de todos os tempos, talvez eles sejam... Sim, talvez eles sejam presenças especiais onde encontramos conforto perante a dolorosa consciência da fragilidade do mundo terreno. Porque, ao deixarem tantas vezes a sua marca de criatividade sublime na arte que fazem, exprimem o desejo de Beleza imensa sentido pelo ser humano e assim a imortalizam. Apesar das ruínas e por causa delas.

M

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

180.


Foto de M 
(Claustro do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova em Coimbra)

Estava ali há muito tempo, o recorte do abandono marcado na parede, no colo o silêncio em meditação. 

M

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

179.


Fotos de M 

Estava ali, junto do lagar de azeite da aldeia que conheço desde menina: uma espécie de tríptico num silêncio de abandono que me pareceu de há muito.
Reparei primeiro no casaco pendurado no prego, a parede branca, a porta vermelha fechada. Aproximei-me, como se precisasse de descobrir-lhe a alma dentro do forro. Ao lado, o chapéu de chuva prendeu-me a atenção. Desviei o olhar, emocionada. Porquê? Há quanto tempo naquele lugar de solidão? Só depois vi a garrafa. Quase encostada ao murete, metade cheia, metade vazia, a tampa calando-lhe a medida. Que líquido? Vinho? De quem? Para quem? Porquê este desamparo sem nome?
Não muito distante, a curva do caminho de terra batida. 
Terrível este mistério de presença que me tocou naquele dia de verão. Quem seria? Quem foi? Quem é ainda?

M

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

PRECE

Adaptação de foto de B. 

PRECE
 
Meu Deus, dai-me paciência! Tende piedade de mim, desventurada criatura que sou, injustamente forçada a aturar inteligentes complexados!
Meu Deus, se sois meu verdadeiro amigo, libertai-me daqueles outros que o dizem ser!
Protegei-me das palavras vãs dos néscios, Senhor! 
Desfaleço neste caminho de pedras que me atrapalham o passo.
Deus meu, tende misericórdia desta pobre cibernauta que anda com os pés na terra e o pensamento no céu! Mas, Senhor, se for de vossa vontade, que passe eu a estar ao contrário, com os pés no céu e o pensamento na terra! Talvez assim me seja dado um melhor entendimento das coisas, nem que seja pela posição em que o meu corpo passará a estar.
Tende compaixão de mim, Senhor!

M

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

178.


Foto de M 

Como num filme. O movimento da vida em repouso e o silêncio do olhar deixado sobre a mesa.
Longe, o murmúrio do arvoredo na leveza do vento e o canto dos pássaros abrindo a manhã.
Como num filme de encontros.

M

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

PROVÉRBIOS FOTOGRAFADOS - 20


 Foto de M

«O sono é bom conselheiro»

Rifoneiro Português por Pedro Chaves (2ª edição), Editorial Domingos Barreira

sábado, 25 de agosto de 2012

Still there (o último post de uma série de 14)


Foto de M

Still there




Fotos de M 

« He walked listlessly round Stephen's Green and then Grafton Stret. Though his eyes took note of many elements of the crowd through which he passed (...)»

Dubliners (Two Gallants), James Joyce, Granada Publishing Limited
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«Com o espírito alheado, contornou Stephen's Green e desceu Grafton Street. Os seus olhos não deixaram de notar muitos elementos da multidão que atravessou (...)»

Dublinenses (Dois Galãs), James Joyce, Relógio D'Água Editores

Still there




Fotos de M

«Mrs Mooney's young men paid fifteen shillings a week for board and lodgings (beer or stout at dinner excluded). (...)»

Dubliners (The Boarding House)), James Joyce, Granada Publishing Limited

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«Os jovens cavalheiros de Mrs Mooney pagavam quinze xelins à semana por pensão completa (cerveja, branca ou preta, não incluída na refeição). (...)»

Dublinenses (A Casa de Hóspedes), James Joyce, Relógio D'Água Editores

Still there


Foto de M 
  
«She sat at the window watching the evening invade the avenue. Her head was leaned against the window curtains and in her nostrils was the odour of dusty cretone. She was tired.
Few people passed. The man out of the last house passed on his way home; she heard his footsteps clacking along the concrete pavement and afterwards crunching on the cinder path before the new red houses. One time there used to be a field in which they used to play every evening with other people's children. Then a man from Belfast bought the field and built houses in it – not like their little brown houses, but brick houses with shining roofs. (...)»

Dubliners (Eveline), James Joyce, Granada Publishing Limited

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«Estava sentada à janela, vendo a noite invadir a avenida. Tinha a cabeça apoiada às cortinas e o cheiro do cretone empoeirado invadia-lhe as narinas. Estava cansada.
Passava pouca gente. O homem que morava ao fundo da rua passou a caminho de casa; ouviu-lhe o ruído dos passos no passeio de cimento, e depois a rangerem na cinza prensada do caminho que ladeava as novas casas vermelhas. Em tempos houvera ali um campo onde eles costumavam brincar todas as tardes com os filhos de outros moradores. Depois um homem de Belfast comprou o campo e construiu lá casas – não como as suas pequenas casas castanhas, mas casas de cor viva, de tijolo, com telhados luzidios. (...)»

Dublinenses (Eveline), James Joyce, Relógio D'Água Editores