sábado, 24 de agosto de 2013

193.


Foto de M 

Adoro escargots. Grandes, as casas às costas ajustadas em pocinhas redondinhas escavadas no prato, imóveis em molho saboroso. Hélas!  Les pauvres! Gosto deles, sim, mas não posso pensar no que estou a comer nem olhar muito para eles. Apenas de soslaio. Coisas do paladar. E de imagens incómodas. 
Mas também gosto de os ver em marcha lenta de alpinista por montes corticeiros, caracóis de seu nome, talvez um pouco mais franzinos estes, claro. Singularidades de família. E um outro sentido estético, o deles e o meu. Mais a condizer com a Natureza.  
Ambivalências da minha natureza.
M

terça-feira, 30 de julho de 2013

192.


Foto de M 
   
O rosto da mulher era muito belo e delicado, a lembrar as Madonnas pintadas por Botticelli. Inerte, o olhar calado fixo no chão, segurava numa das mãos um copo de plástico com duas ou três moedas escuras perdidas no fundo, o braço estendido como se não lhe pertencesse. A menina, quase imóvel ainda que desperta, procurando apenas de vez em quando posição mais confortável, mais parecia fazer parte daquele corpo colado ao passeio de distante praça cosmopolita.
Perguntei-me como era possível que uma criança tão pequena – teria cerca de três anos? - se mantivesse assim quieta durante os trinta minutos em que a observei do alto do assento da camioneta em que eu viajava, estacionada por breves momentos à espera de outros passageiros.
Talvez o colo. Sim, talvez fosse o aconchego do colo que a faria esquecer o desassossego da infância. Apesar do que certamente lhe faltaria. E por causa disso.
M

quinta-feira, 23 de maio de 2013

PROVÉRBIOS FOTOGRAFADOS - 21


Foto de M 

«Coisas vistas à noite, de manhã outras parecem» 

Rifoneiro Português por Pedro Chaves (2ª edição), Editorial Domingos Barreira

quinta-feira, 9 de maio de 2013

191.


Foto de M

Há momentos em que me basta a simplicidade de um corrimão para que eu sinta a presença de um lugar. 
M

sexta-feira, 3 de maio de 2013

190.


Foto de M 

É bom quando o sol se senta nos bancos dos jardins e nos pega ao colo para nos contar histórias de estrelas e planetas.
M

sábado, 9 de março de 2013

189.


Foto de M

Uma espécie de casa ambulante é o que me lembram os dois Elevadores da Glória. Ora para cima ora para baixo, assim se cruzam entre carris e cabos aéreos, não vão eles querer libertar-se da rotina dos trilhos diários e passear em liberdade por outros bairros de Lisboa. Mas boas razões tenho eu em encontrar-lhes feições de residência. O espaço rectangular das carruagens com bancos corridos de costas para as janelas onde nos sentamos podia perfeitamente ser uma sala de estar de nossas casas. Ali nos olhamos uns aos outros pensando quem seremos e, fosse o tempo do trajecto mais longo, chegariam certamente à fala conversas íntimas nas mais diversas línguas a propósito dos percursos sugeridos em mapas e roteiros de viagens abertos nas mãos dos passageiros. 
Mas não só de viagens turísticas de máquina a tiracolo se vive, há quem viaje sem sair do seu lugar de trabalho aproveitando de forma aprazível os dez minutos de intervalo entre cada chegada e partida estabelecidos no horário da Carris. Pois é verdade, empoleirado no banco da cabine, além do Bom dia espontâneo e sorridente oferecido a cada pessoa que entrava ou lhe pedia informações sobre o preço dos bilhetes, o jovem guarda-freio lia as últimas páginas do livro Mataram o Sidónio, de Francisco Moita Flores.
Ao regressar dos meus afazeres no Bairro Alto encontrei o mesmo elevador à espera, e o mesmo homem embrulhado no sobretudo azul escuro da farda, protegendo-se assim do frio que atravessava grades e corpos. Não resisti a meter conversa com ele, tal a curiosidade e espanto que em mim provocara algumas horas antes. Da breve conversa, até porque dez minutos voam nas nossas vidas paradas, apenas vos deixo o que considero mais importante: Já o acabei. Amanhã trago outro livro. Gosto muito de ler. Ajuda a passar o tempo.  
Saberá este homem que até finais do século 19, durante as viagens nocturnas, a iluminação dentro da cabine era feita com velas? Presumo que, tivesse ele vivido nessa época, isso não o incomodaria, apenas seriam outros os livros. Talvez Os Mistérios de Lisboa de Camilo Castelo Branco...
M

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Talvez não completamente desadequado ao momento presente


Linhas cruzadas 
(Foto de S.)

A Turista

Não, esta não é uma história de fadas. Como aquela da princesa que ficou tolhida no encanto de um sono por tempo indeterminado, até ao aparecimento do príncipe encantado que a despertou com um beijo. Doce, presumo. E como falo de imaginários deslumbramentos, lembro ainda as caixas russas em forma de mulheres de sorriso colorido presas umas dentro das outras, ainda que aparentemente sob a forma de uma só figura. Há quem as liberte, por curiosidade, claro, mas mesmo assim sujeitam-nas ao alinhamento a que a sua própria escala de estatura as obriga no espaço a que habitualmente estão confinadas. Não sei se por conveniência de espaço, se pela ideia generosa de possibilitar a alguns o encantamento de desdobrar encantos dentro dos encantos. Um pouco ao invés da tal princesa que não teve de desdobrar nada dentro da vida, pois dormiu e acordou no mesmo espaço ad aeternum. Pelo menos é o que me sugerem os contadores de contos de fadas.
A minha história é outra, é a de uma mulher que se dizia tolhida pelo desencanto. Encontrei-a há pouco no cais da estação de comboios, sentada num banco. Tinha a cabeça um pouco descaída sobre o peito, como se não pudesse segurar-lhe o peso, e os braços pareceram-me entrelaçados um no outro, atrás das costas. Invisivelmente atados, pois não vi corda alguma.
Estranhei vê-la ali. Costumava cruzar-me com ela pelas ruas do mundo, de mochila às costas, e até conversámos várias vezes, quando a ocasião se proporcionou. Intrigava-me, quando a conheci. Dava-me a ideia de uma turista de passagem por Lisboa mas, ao mesmo tempo, o sorriso divertido ou as respostas prontas deixadas em aberto levaram-me a crer que conhecia a minha linguagem perfeitamente e que seria residente neste país.
– Que faz aqui sentada? – perguntei, aproximando-me devagarinho.
– Como? – Ela entreabriu um pouco os olhos. – Quem é você?
– Não se lembra de mim? O meu nome é I…
– Imbecil, suponho… – interrompeu-me, agastada.
– Podia ser… – respondi-lhe, com um sorriso nos lábios. – Até podia chamar-me Imbecil, mas por acaso não acertou.
– Não acertei? Não acha a sua pergunta absurda? – E olhava para mim com um misto de irritação e de desafio. – Não vê que estou tolhida pelo desencanto?
– Confesso que me pareceu apenas cansada. Uma turista cansada… Costumávamos encontrar-nos por aí… Lembro-me de a ver de nariz no ar, sempre à procura… nem sei bem de quê. A sua mochila, aí no chão… Um dia falou-me do que guardava dentro dela…
– A minha mochila? Ah! Que importa? – Pela maneira de me olhar, pareceu-me que se recordava.
Um dia, sentadas num banco da avenida a refrescarmo-nos da caminhada, comemos juntas uma sanduíche e ela falou-me do que escondia dentro da mochila. Lembro-me que lhe achei graça. Alternava a trincadela no pão com fiambre com o que me ia mostrando: “Isto é alento, olhe aqui o ânimo, o encanto, a ilusão, o entusiasmo, este é o silêncio. Também faz falta, não acha? Preciso disto tudo, sabe. Umas vezes esvazio a mochila, porque gasto tudo, outras vezes são sobras que ficam de reserva. Depende daquilo em que tropeço, dos caminhos por onde vou, alguns cansam-me mais do que outros.”
– A sua mochila… Lembra-se? – Baixei-me ligeiramente para lhe pegar.
– Já não contém nada do que lhe mostrei um dia. Conhece o vírus das três letras? O “des”…
– O “des”? Perfeitamente. – Sorri. – Julgo que os meus dedos nem chegam para enumerar as várias doenças provocadas por ele. Despeito, desproporção, desqualificação, desrespeito, desamor, despromoção, desvalorização, desconsideração, desavergonhado… Bem, nesta última apareceu uma outra estirpe de vírus, o “a”… Não há antibiótico eficaz para ele… Por enquanto, claro. Valem-nos os avanços da medicina actual para debelar esta proliferação de enfermidades…
– Esse vírus é activo, estimula doenças em cadeia que se vão espalhando, é quase uma epidemia. O meu é de outra espécie, é restrito no seu ataque – respondeu-me rapidamente.
– Restrito?! – perguntei, admirada.
– Sim, fiquei tolhida. O vírus que atacou a minha mochila deixou-me desalento, desânimo, desencanto… Tirou-me a energia. Acha que há alguma coisa pior do que isso?
– Mas não a privou de tudo, pois não? O silêncio…?
– Ah, o silêncio está sempre calado, por isso ninguém deu por ele. Continua comigo, intacto. – Vislumbrei-lhe um olhar temporariamente divertido e provocador.
– Vá lá, nos tempos que correm traz algumas vantagens…
– Nada se aguenta eternamente sem mudança, pois não? Às vezes o silêncio também se cansa e adoece com falta de palavras ouvidas bem alto, noutros tons diferentes dos meus. Precisamos de treinar a voz, senão perdemos a capacidade de cantar.
– Um antibiótico de largo espectro será portanto o mais indicado… – Pisquei-lhe o olho.
– Afinal não é imbecil… – disse, provocando-me. – Gosto da sua companhia. Quase que apostava que sei como se chama…
– Pois sabe. Já nos conhecemos há muito tempo. Mas olhe, vou seguir o meu caminho que…
– Mas eu estou tolhida pelo desencanto, não vê? – Interrompeu-me. Pareceu-me preocupada por eu a deixar.
– Eu estou sempre consigo, só que às vezes esquece-se de mim. Vou prender-lhe entre os dentes a ponta desse fio que a tolhe.
– Entre os dentes?! – exclamou, admirada. – Dói.
– Não é uma corda, é apenas um fio. Quando conseguir rir um pouco, o fio é puxado pelo movimento do seu sorriso, o nó desfaz-se, e os seus braços ficarão livres, vai ver. A nossa vida é uma cadeia de gestos.


Ironia
M


(Publicado no meu antigo blog Fotoescrita em Fevereiro de 2005)

domingo, 27 de janeiro de 2013

188.


Foto de M 

Reparei que olhava com atenção para a taça que eu tinha acabado de pousar sobre o velho móvel de família à entrada de casa.
- Gostas? - perguntei-lhe. - Pareceu-me, pelo teu olhar silencioso...
- Gosto. – Sorriu. - É bonita.
- Para mim é uma espécie de taça da vida. Foi oferecida aos teus avós maternos quando casaram. Sempre a vi lá em casa. Em dias de festa a minha Mãe cobria o fundo com um naperon de linho bordado para ali aconchegar uns biscoitos deliciosos cozinhados por ela. De resto, permanecia em cima do aparador, vazia. O seu rendilhado encanta-me. Ao fim destes anos todos resolvi guardar dentro dela as pedrinhas que me têm sido oferecidas por amigos, algumas apanhadas nos campos por onde passeamos. Pedacinhos da Natureza que me recebe... Ah como são belos aqueles tons!
- Uma taça de memórias – disse, dando-me um beijo. - Os tons... encontra-os também agora dentro de si, não é?

M

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

187.


Foto de M 

Um abraço.

M