quinta-feira, 14 de novembro de 2013

196.


Foto de M

Não feches a porta, disse ela, debruçando-se sobre o parapeito da janela do primeiro andar. 
A amiga tinha acabado de descer as escadas que gemiam sob o peso dos seus passos e chegara naquele momento ao pátio onde as crianças da vizinhança brincavam. Acenaram uma à outra em jeito de despedida.
Não feches a porta, recomendou de novo. Deixa-a encostada. O sol e o vento gostam de se refugiar ali quando brincam às escondidas com os meninos. Lembras-te como era divertido? 
Leonor lembrava-se. Nesse tempo a porta estava pintada de verde vivo e as dobradiças não chiavam. Nem as minhas... respondeu, o sorriso gaiato a abrir caminho entre as rugas do rosto. 

M

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

195.


Foto de M

Quando olhei para cima e vi aquela imagem no vidro da janela pensei como seria quem ali morava. Estaria com a telha? Teria telhas? Dar-lhe-ia na telha sair porta fora por já não suportar tamanha invasão de casa alheia?
Não faço ideia mas eventualmente terão acabado por se entender pois que todos temos telhados de vidro. Ou melhor, neste caso será mais apropriado dizer-se telhado no vidro, o que tornaria a convivência mais frágil, a exigir cuidados redobrados.

M

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

194.


Foto de M 

Entre a terra e o céu, uma história verdadeira.

A menina estava na praia, entretida a brincar.
As gaivotas passavam em bando, não se sabe para onde. Ela olhou para cima e disse:
- O Avô António é uma gaivota.
- Quem te disse isso? Achas que ele está a ver-te, é? - perguntei.
Não respondeu, continuou a brincar com os baldes e a areia.
- Não sabemos onde está – acrescentei.
- Ele está sempre no sítio onde pensamos nele. Acontece assim com as pessoas de quem gostamos muito e que já morreram – disse o Pai.
Então a menina declarou com firmeza:
- Eu quero que o Avô António seja uma gaivota.
M

sábado, 24 de agosto de 2013

193.


Foto de M 

Adoro escargots. Grandes, as casas às costas ajustadas em pocinhas redondinhas escavadas no prato, imóveis em molho saboroso. Hélas!  Les pauvres! Gosto deles, sim, mas não posso pensar no que estou a comer nem olhar muito para eles. Apenas de soslaio. Coisas do paladar. E de imagens incómodas. 
Mas também gosto de os ver em marcha lenta de alpinista por montes corticeiros, caracóis de seu nome, talvez um pouco mais franzinos estes, claro. Singularidades de família. E um outro sentido estético, o deles e o meu. Mais a condizer com a Natureza.  
Ambivalências da minha natureza.
M

terça-feira, 30 de julho de 2013

192.


Foto de M 
   
O rosto da mulher era muito belo e delicado, a lembrar as Madonnas pintadas por Botticelli. Inerte, o olhar calado fixo no chão, segurava numa das mãos um copo de plástico com duas ou três moedas escuras perdidas no fundo, o braço estendido como se não lhe pertencesse. A menina, quase imóvel ainda que desperta, procurando apenas de vez em quando posição mais confortável, mais parecia fazer parte daquele corpo colado ao passeio de distante praça cosmopolita.
Perguntei-me como era possível que uma criança tão pequena – teria cerca de três anos? - se mantivesse assim quieta durante os trinta minutos em que a observei do alto do assento da camioneta em que eu viajava, estacionada por breves momentos à espera de outros passageiros.
Talvez o colo. Sim, talvez fosse o aconchego do colo que a faria esquecer o desassossego da infância. Apesar do que certamente lhe faltaria. E por causa disso.
M

quinta-feira, 23 de maio de 2013

PROVÉRBIOS FOTOGRAFADOS - 21


Foto de M 

«Coisas vistas à noite, de manhã outras parecem» 

Rifoneiro Português por Pedro Chaves (2ª edição), Editorial Domingos Barreira

quinta-feira, 9 de maio de 2013

191.


Foto de M

Há momentos em que me basta a simplicidade de um corrimão para que eu sinta a presença de um lugar. 
M

sexta-feira, 3 de maio de 2013

190.


Foto de M 

É bom quando o sol se senta nos bancos dos jardins e nos pega ao colo para nos contar histórias de estrelas e planetas.
M

sábado, 9 de março de 2013

189.


Foto de M

Uma espécie de casa ambulante é o que me lembram os dois Elevadores da Glória. Ora para cima ora para baixo, assim se cruzam entre carris e cabos aéreos, não vão eles querer libertar-se da rotina dos trilhos diários e passear em liberdade por outros bairros de Lisboa. Mas boas razões tenho eu em encontrar-lhes feições de residência. O espaço rectangular das carruagens com bancos corridos de costas para as janelas onde nos sentamos podia perfeitamente ser uma sala de estar de nossas casas. Ali nos olhamos uns aos outros pensando quem seremos e, fosse o tempo do trajecto mais longo, chegariam certamente à fala conversas íntimas nas mais diversas línguas a propósito dos percursos sugeridos em mapas e roteiros de viagens abertos nas mãos dos passageiros. 
Mas não só de viagens turísticas de máquina a tiracolo se vive, há quem viaje sem sair do seu lugar de trabalho aproveitando de forma aprazível os dez minutos de intervalo entre cada chegada e partida estabelecidos no horário da Carris. Pois é verdade, empoleirado no banco da cabine, além do Bom dia espontâneo e sorridente oferecido a cada pessoa que entrava ou lhe pedia informações sobre o preço dos bilhetes, o jovem guarda-freio lia as últimas páginas do livro Mataram o Sidónio, de Francisco Moita Flores.
Ao regressar dos meus afazeres no Bairro Alto encontrei o mesmo elevador à espera, e o mesmo homem embrulhado no sobretudo azul escuro da farda, protegendo-se assim do frio que atravessava grades e corpos. Não resisti a meter conversa com ele, tal a curiosidade e espanto que em mim provocara algumas horas antes. Da breve conversa, até porque dez minutos voam nas nossas vidas paradas, apenas vos deixo o que considero mais importante: Já o acabei. Amanhã trago outro livro. Gosto muito de ler. Ajuda a passar o tempo.  
Saberá este homem que até finais do século 19, durante as viagens nocturnas, a iluminação dentro da cabine era feita com velas? Presumo que, tivesse ele vivido nessa época, isso não o incomodaria, apenas seriam outros os livros. Talvez Os Mistérios de Lisboa de Camilo Castelo Branco...
M