quinta-feira, 12 de março de 2015

212.


Foto de M 

Não te espantes com o que ainda vais encontrando nalgumas zonas rurais de Portugal, em contraste com as tecnologias do mundo actual.
Ao olhar para a senhora da minha fotografia, penso de imediato nas máquinas de lavar roupa cheias de automatismos e na facilidade que é meter-lhes dentro a roupa e esperar apenas que ela cumpra a tarefa até ao fim, de acordo com o programa escolhido. Embora no dia em que ali passei não me tenha parecido que esta senhora estivesse contrariada com o trabalho que executava, nem faço ideia se se trataria de uma escolha esporádica, na verdade todos sabemos ser muito mais penoso lavar roupa manualmente. Exige ensaboar cada peça em separado, enxaguá-la uma e outra vez, torcê-la com a força de braços e mãos, senti-las geladas, os dedos doridos, e depois carregar o fardo no alguidar, porventura à cabeça, ou amparado nos braços. Vermelho o alguidar, a lembrar o coração que se transporta sempre connosco, breve o repouso, longas as horas marcadas nas rotinas diárias. Reconheço tudo isso, mas encanta-me a arquitectura destes tanques amplos, testemunhas de ocupações e convívios antigos. Não há muitos anos era lugar de risos, de mágoas ora confessadas ora adivinhadas, de boatos, de segredos, de histórias de fugas pela calada da noite, a fronteira com Espanha tão perto, à distância de um salto arriscado. Permanecerá lugar de encontros, embora esvaziada de gente a aldeia, adormecidas as casas aguardando os emigrantes do verão?
Atravessei a pé Soutelinho da Raia em agosto de 2010 a caminho de Santiago de Compostela, abordei a senhora lavadeira com o propósito de lhe pedir autorização para a incluir na fotografia que eu desejava tirar, e ela aceitou, sorridente. Quase cinco anos passados, pergunto-me como se chamará, se ainda vive, onde mora. Sozinha? Acompanhada? Terá nascido na aldeia? E imagino-a criança, ajudando a mãe, talvez debruçada na janela à espera do pai, talvez a brincar com outros meninos ao jogo da macaca desenhado com um graveto qualquer no chão de terra batida. Talvez... Talvez...
Sem respostas às minhas interrogações, apenas sei que o tempo escorre nas diversas paisagens da existência.
M

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

211.


Foto de M

Atrai-me a personalidade dos objectos e a sua aparente solidão no mundo das pessoas. Atribuo-lhes alma humana, nalguns encantam-me a elegância, a delicadeza dos traços, a graciosidade dos gestos naquela espécie de movimento suspenso no tempo. As flores pintadas no corpo lácteo, tão discretas, o vestido comprido e esguio rente aos pés, os braços erguidos em jeito de dança, as cores do voo no íntimo dos pássaros. Na sala de estar de minha casa, eles pousados sobre o móvel, eu sentada no sofá onde me refugio do cansaço, olhamo-nos e comunicamos no silêncio das nossas existências. De vez em quando levanto-me e aproximo-me deles, toco-lhes, lembro-lhes histórias antigas, mudo a posição em que se encontram para que não se sintam entorpecidos. Depois, regresso devagar a tudo o resto que compõe a minha vida. 
M

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

210.


Foto de M 

Nunca te esqueças. Se o terão dito um ao outro não sei, nem faço ideia quem eram e de onde vinham. Eu andava por ali e vi-os ao longe, acompanhados pelo fotógrafo, a máquina fotográfica na mão, a de filmar pendurada ao ombro, a lente especial resguardada dentro do estojo. Ensaiavam o cenário a compor, o momento a registar na memória, o lugar. De certo modo insólita, e tão bela, aquela imagem fugidia entre arcadas de silêncios anónimos num lugar de fé esvaziado de peregrinos onde os anos foram fechando portas e costumes. Nunca te esqueças, terão prometido um ao outro. 


http://www.infopedia.pt/$santuario-de-n.-sra.-do-cabo-espichel

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

209.


Foto de M

Sonho muitas vezes durante a noite mas raramente consigo, ao despertar pela manhã, lembrar com nitidez o que viajou pela minha cabeça nesse espaço de tempo. Imediatamente esqueço o que acompanhou o meu sono e, ainda que deseje recordar tudo direitinho, sobra-me apenas a vaga ideia de uma mistura de imagens que se interligam e se estranham umas às outras, num atropelo de pensamentos, cores, sombras, pedaços de histórias, vivências, palavras, diálogos, vozes conhecidas, desconhecidas, rostos, gestos. Enfim, o melhor será sonhar acordada, deixa o futuro em aberto. 
M

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

OS MEUS VOTOS DE NATAL


Foto de M

Com os meus desejos de que o Natal seja momento e lugar de união.
M

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

208.


Foto de M 

E depois do adeus... Terríveis alguns, separados para sempre os gestos que os exprimem, o olhar, a palavra, o silêncio, o sorriso, a lágrima que se guarda dentro da tristeza. São tantos os que se vão dizendo ao longo da vida e deixam perdidos o pensamento e o coração, confuso o traço do caminho, desbotada a cor da sobrevivência. 
M

sábado, 6 de setembro de 2014

domingo, 13 de julho de 2014

207.


Foto de M 

Uma cena campestre que me trouxe Adão e Eva ao pensamento. Contudo, neste lugar, os répteis que por aqui aparecem são apenas lagartixas fugidias à procura de esconderijos nas fissuras de velhos muros. Por outro lado, independentemente da inexistência por estas paragens de répteis de maior porte, e ao contrário da maçã perfeita e luzidia das habituais imagens que acompanham a história bíblica, não me parece que algum fruto deste cesto cativasse qualquer serpente a ponto de o usar para convencer Eva e Adão a experimentar-lhe o sabor. Mas, admito, posso estar a avaliar mal o grau de exigência dessa espécie rastejante perante interesses próprios. Enfim, tivesse ela sido bem sucedida nos seus intentos, atrevo-me a imaginar um início de vida para o casal com amargos de boca a colocar em risco o sonhado paraíso.

M

quinta-feira, 10 de julho de 2014

206.


Foto de M

Azáfama à beira-mar. Negócio de família, passado de geração em geração. Que importa se a receita do bolo de morangos não é exatamente a mesma da bisavó? Que importa se as mãos são outras? Lembram... pois, não admira. Ah e aquele sinalzinho a parecer um salpico de canela sobre a pele macia da menina? Percalços de pasteleiro. O formato moderno do balde, em plástico, tão frágil, estraga-se num instante, parte-se, pensarão os adeptos de materiais mais resistentes. Não tem importância, até é divertida a leveza do modelo comparado com os de tempos idos. Talvez este seja Made in China. Ou terá a marca de alguma pequena fábrica portuguesa do centro do país gravada no fundo? Não faço ideia. Para satisfazer curiosidades precisava de o virar ao contrário. Impensável, não quero provocar desilusões. Tanto cuidado a alisar a superfície do bolo, quase pronto para ser metido no forno ao ar livre, amplo e comunitário, a temperatura desejada ideal... Entornava-se a massa, tenho a certeza, e lá ia por água abaixo – com a agravante de ser salgada - a festa de anos imaginada, mais as velas e os enfeites, arrumadinhos ali ao lado, à espera do momento cantado.
Repetem-se os gestos, ainda que a areia escorregue entre os dedos, e permanece o sabor de infâncias comuns numa confeitaria à beira-mar.

M

quinta-feira, 12 de junho de 2014

205.


Foto de M

Foi bom voltar a vê-la passados tantos anos. Continua lá, pousada naquele lugar lindo, a casinha solitária que me encantava em criança quando passeava com a minha Tia Chanel na Tapada da Ajuda. Caminhávamos devagar ao longo da estrada ladeada de arvoredo, de flores, de sombras, a luz a esgueirar-se entre a folhagem. E eu absorvia tudo aquilo, inspirava a leveza do ar, guardava o canto dos pássaros, seguia-lhes o voo breve, tocava a presença do silêncio. Senti o mesmo agora e confirmei, uma vez mais, que entre mim e a Natureza existiu sempre um entendimento muito íntimo difícil de exprimir por palavras.

M