quinta-feira, 27 de julho de 2017

235. O MEU PÁSSARO - Dia 5


Foto de M

Pelos vistos o Meu Pássaro preferiu abandonar o poleiro da televisão e voltar a subir às alturas. Posso imaginar a sua estranheza por não ter ouvido qualquer notícia que o levasse a reconhecer o seu mundo: chilreada entre as árvores de um bosque, água límpida de um riacho a correr serra abaixo, o som de chocalhos distantes, algum zumbido de insectos... Possivelmente sentiu-se perdido, sem referências, e afastou-se. Para ele teria feito mais sentido um filme sobre a Natureza do que ser apanhado pela habitual catadupa de notícias pesadas que preocupam e sobressaltam as pessoas e são ininteligíveis para os pássaros. Aliás, também nós sentimos falta do contacto com a Natureza, seja ele directo ou através de imagens. São ninhos onde encontramos alimento para os sentidos e para uma melhor compreensão do universo que habitamos.
De qualquer modo, independentemente da razão que o levou a fugir da moldura televisiva de ontem, agradou-me a sua presença nesta estante onde vivem livros, fotografias, objectos diversos, enfim, pedaços da minha vida que guardo e relembro sempre que os contemplo.
Ficas tão bem sobre essa lisura luminosa, meu companheiro de voos.
 
M

quarta-feira, 26 de julho de 2017

234. O MEU PÁSSARO - Dia 4


Foto de M 

Vejo que o Meu Pássaro desceu à Terra. Como nos filmes de naves espaciais que sobem e descem no desconhecido encantando crianças e adultos fascinados por estrelas e planetas. Pousou na parte superior do aparelho de televisão, pois pousou, mas está indiferente aos meus chamamentos. Não sei se o aborrece ser tratado por Meu Pássaro, se receia que, por eu usar a palavra Meu, lhe limite a liberdade e o impeça de voar. Longe de mim tal pensamento, o nome que escolhi para ele é carinhoso, é o mesmo que dizer às crianças Meu Riquinho, ou Minha Querida, ou Meus Queridos. Por vezes apetece falar dessa maneira, são beijos e abracinhos embrulhados em palavras que os agasalham melhor contra as intempéries da vida. Os meninos percebem estas coisas muito bem. Hei-de explicar tudo isto ao Meu Pássaro. Tenho a certeza que ele vai entender.
 
M

terça-feira, 25 de julho de 2017

233. O MEU PÁSSARO - Dia 3


Foto de M 

Pouco a pouco o Meu Pássaro vai ganhando confiança. Em si e no espaço que o rodeia. Hoje encontrei-o ainda mais afastado da janela, sentado em cima do abajur branco do candeeiro pousado na mesa de vidro. Mas ele não sabe isso, pensa que está a descansar em cima da Lua, e a recuperar o fôlego, depois de acompanhar as duas aves de graciosas asas brancas naquele voo alto que os levou para lá das nuvens. Só não percebeu por que razão elas continuam a esvoaçar, e ele tão cansado. Procurarão alcançar outro planeta ou estarão apenas a fazer um bailado para iniciarem a descida de regresso à Terra?
 
M

segunda-feira, 24 de julho de 2017

232. O MEU PÁSSARO - Dia 2


Foto de M

Hoje de manhã, ao abrir devagar uma nesga da porta da sala para não assustar o Meu Pássaro, reparei que estava empoleirado no altifalante mais próximo da janela onde ontem se tinha refugiado. Apesar de todo o meu cuidado a porta rangeu ligeiramente e ele mexeu um pouco o corpo e as asas em jeito de levantar voo mas logo se aquietou de novo quando, à distância, lhe falei baixinho. Presumo que terá reconhecido a minha voz.
Não faço ideia do que se terá passado durante a noite. Pergunto-me se permaneceu atrás das cortinas, se saltitou pelo chão com a habitual graciosidade que conhecemos nos passaritos, se esvoaçou para um e outro lado até decidir sobre qual sofá ou móvel ou prateleira adormecer. Independentemente das suas eventuais deambulações nocturnas, acho natural que escolhesse aquele poiso próximo do parapeito da janela onde na véspera se sentira mais seguro. Além disso, certamente também a paisagem pintada pela Bisavó Fernanda no quadro pendurado na parede lhe ofereceu confiança ao trazer-lhe à memória espaços conhecidos. Aliás, não me admiraria que tivesse experimentado empoleirar-se nalguma daquelas árvores, apesar do vento que a imagem parece sugerir.
 
M

domingo, 23 de julho de 2017

231. O MEU PÁSSARO - Dia 1


Foto de M

Noutro dia fui ao Jardim Gulbenkian e apaixonei-me por um pássaro que encontrei empoleirado num raminho. Achei graça ao nome Chapim-Real escrito na etiqueta presa numa das suas patas e logo me surgiu diante dos olhos a imagem de passaritos a chapinharem e a bebericarem em poças de água junto da relva. Fiz-lhe uma festa e ele cantou, como se quisesse dizer-me qualquer coisa. Decidi trazê-lo comigo. Apanhei algumas folhas do chão para lhe preparar um ninho dentro de um saco de papel e pousei-o lá devagarinho, deixando uma abertura suficientemente grande para que pudesse sentir-se confortável a olhar o céu enquanto caminhávamos. Pareceu-me um pouco assustado, uma reacção natural, não me conhecia nem sabia para onde era levado. Pensei que ajudaria a acalmá-lo dizer-lhe onde eu morava, ir-lhe falando de mim, dos objectos que fazem parte da minha vida, do chilrear que oiço manhã cedo no parapeito da janela do meu quarto, dos jardins que espreitam entre os prédios do meu bairro, das varandas floridas onde pousam pombos.
Depois de abrir a porta de casa, arrumei a mala e as chaves no lugar habitual e dediquei-me ao Meu Pássaro. Retirei-o cuidadosamente do saco e, ainda com ele seguro na concha das minhas mãos, peguei na tesoura que guardo na gaveta da escrivaninha que me espera sempre no hall de entrada e cortei a tal etiqueta com o nome Chapim-Real que o impedia de mexer as patas à vontade.
Larguei-o. Surpreendeu-me. Esvoaçou timidamente através da minha sala de estar e escondeu-se atrás das cortinas. Vou dar-lhe tempo. Talvez amanhã já se sinta à vontade para explorar os recantos de que lhe falei durante o trajecto para aqui. Há-de lembrar-se.
 
M

sexta-feira, 14 de julho de 2017

230.


Foto de M 

Que sei eu do pensamento dos rios?
M

229.


Foto de M

E ela ali, entregue a si mesma, tão bela a cor discreta do seu silêncio.
M

quinta-feira, 15 de junho de 2017

228.


Foto de Isabel (*)

Ao olhar para esta imagem lembrei-me logo da personagem Pantera Cor de Rosa e da mímica divertida e provocatória entre ela e os vários intervenientes nas séries de desenhos animados dos anos sessenta, deliciosamente acompanhados pela música de Henry Mancini. 
E acrescento que o braço cor de rosa, talvez apercebendo-se de que o sujeito magrinho tinha espreitado o seu espaço redondo, não achou graça à ousadia e apertou-o, apertou-o, até lhe provocar suores frios e pensamentos negros. Quais, não sei, pois de os revelar foi impedido. Uma flor negra?, arrisco perguntar-me. Uma flor não é um pensamento mau de todo. Depois de liberto do apertão, basta que a pinte com uma cor alegre, a regue abundantemente e a prenda no chapéu em sinal de resistência às adversidades. Tenho a certeza que o gesto será deveras apreciado pelos seus conterrâneos e que passará a ser conhecido pelo nome O Homem do Pensamento Flor

(*) Fotografia proposta pela Isabel para o desafio desta semana Com as palavras dentro do olhar no meu outro blog Palavra Puxa Palavra, onde ela participa. Os blogs da Isabel são:

http://fotografiasdaquiedali.blogspot.pt/
 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

227.


Foto de M

O mar tem amigos que, por gostarem muito dele, chamaram Casa do Mar a esta casa, belo refúgio quando a praia transborda de gente. Apenas conjecturas minhas, não conheço quem aqui mora nem os seus hábitos, mas sei o que, em dias quentes de verão, acontece um pouco por todo o lado. Instalam-se multidões no areal, carregadas com chapéus de sol, cadeiras, toalhas, lancheiras, jornais, revistas, bolas, e tudo o mais de que precisam para entreter as horas. Os apressados, ávidos de liberdade, correm para a beira-mar, experimentam a temperatura da água, gritam e riem sempre que o mar lhes acena com ondas a crescer devagarinho lá de longe e as deixa depois cair sobre os seus corpos em desequilíbrio. Há quem enfrente a ameaça com os pés fincados no fundo invisível, a lembrar toureiros a incitar os touros na Praça do Campo Pequeno. A postura é semelhante, só lhes falta dizer Touro, é touro! e levantar os braços com uma bandarilha em cada mão. Mas aqui ninguém tem bandarilhas para espetar, os braços são como ferros a furar o bramido aquoso, arrastam o resto do corpo, e submergem por instantes no desconhecido. Continuam as ondas o seu caminho na imensidão azul verde, indiferentes a quem ousou fazer-lhes frente, e desenrolam-se sobre castelos enfeitados com algas e conchas por mãos de meninos. Oh! Que pena! Não faz mal, tem graça sentar dentro das pocinhas e desejar que a menina da história A Menina do Mar os visite, antes de aquela água rendilhada desaparecer na rotina das marés. 
M

quinta-feira, 11 de maio de 2017

226.

 
Foto de M

Apenas coisas, início de frase proposto pela Bettips para o desafio de hoje no Palavra Puxa Palavra, levou-me a pensar que talvez nem sempre seja linear considerar as coisas como apenas coisas. Ligada a palavra apenas à que se lhe segue, julgo que nalguns contextos lhe retira a substância da sua individualidade, noutros, pelo contrário, acrescentará qualidade ao que se pretende exprimir. Importará conhecer o que se enuncia, de que se trata. Objectos, ideias ou casos, argumentos relevantes ou não, reflexões, tudo isso pode ser considerado coisas. Dependerá de cada pessoa o valor que lhes atribui, o afecto que as une, de como as olha, como delas se serve. Esta fotografia campestre, por exemplo, mostra um conjunto de objectos com significado muito especial para o seu dono, meu irmão. Para ele não são apenas coisas, são pedaços de recordações saborosas que deseja continuem a tomar parte activa no presente. Foram intencionalmente colocados ali para seduzir preguiças ou espevitar gostos e artes rurais, pacientemente ordenados na quietude sem tempo, à margem da urgência ou da indiferença de quem neles venha a reparar. Conheço bem este plano sorrateiro, a composição cuidada, porventura até estética nos pormenores, é-me familiar o gesto silenciosamente provocador de expor e esperar pela reacção de alguém, a tentação dos frutos. Depois é o pegar de novo no livro que abandonou sobre a mesa em breve pousio, sentar-se à distância na sombra da árvore e ir libertando o olhar num vaivém entre as páginas da história e aquela espécie de isco e logo se vê o que acontece. À mão de semear: adequada a expressão à função intrínseca dos utensílios aprisionados. 
M