domingo, 16 de março de 2008

54.

Foto de M

Tem aquele hábito de se compor para sair, o meu irmão. Os gestos dele são lentos, absortos em reflexões, e é demorado o seu gesto de segurar o chapéu na mão e de o levar à cabeça. Quase parece que o afeiçoa, pelo modo como lhe toca enquanto não o acomoda nos lugares que lhe consagra. Pensados ao pormenor, julgo eu, como se o chapéu fosse um prolongamento do seu corpo, que convém tratar com esmero. Ou como alguém com vida própria que lhe serve de companhia nos passos que vai dando pelos dias que o ocupam.
Quando me sentei no carro, estava poisado no assento a meu lado. Eu tinha observado o cuidado com que o meu irmão compusera o espaço que lhe reservara. Um espaço limpo e adequado, o chapéu-de-chuva colocado no chão, o saco do jornal de sábado ao alto, de encontro às costas do banco. Achei graça a vê-lo ali, tão preservado, e senti-o como presença humana a acompanhar-nos durante o trajecto, ainda que imóvel, ouvindo como nós a voz magnífica de Antony Hegarty. De vez em quando eu olhava‑o, como se olha para quem vai ao nosso lado em viagem e, não fosse a música a aconselhar-nos silêncio, creio que teria metido conversa com o chapéu. Ter-lhe-ia dito o que me ia na cabeça a respeito da ligação entre as pessoas e os objectos e do fascínio que essas congeminações me trazem. A reacção dele não sei qual seria, mas imagino que, se me compreendesse as palavras, manteria diálogo comigo, ajudando-me porventura a entender melhor estas coisas de gentes com objectos dentro das nossas existências.
M

9 comentários:

Anónimo disse...

M.
Que bem observado e exposto . . . como eu te percebo!
Eu também tenho ligações com certos objectos que eu própria não entendo essa relação. . . e por vezes, sinto-me prisioneira deles!
Uma boa semana. Bjs
mj

TINTA PERMANENTE disse...

Quase apetece dizer que no ar perpassa uma fragância com tons secos de canela à mistura duns acordes de jazz saídos do rádio...
Brilhante!

Abraços!

bettips disse...

Se falasse, o chapéu "tirar-te-ia" o chapéu, embevecido com o sentimento que lhe atribuis. E sim, as coisas e objectos falam e ouvem, com vida própria que lhes emprestamos: em surdina por vezes, outras com gritos antigos.
Pacientemente, recompomos o nosso ar humano e disfarçamos o sorriso para o chapéu, para a estatueta, para o quadro.
Beijinhos M.

Justine disse...

Aqui, chegou claro o cheiro a alfazema que levemente se sentia dentro do carro, o suspiro que libertaste do teu peito por te sentires acompanhada, o sorriso de ternura que a voz do Hegarty te fez nascer nos lábios.
Os objectos povoam-nos, nós damos-lhes vida.Eles retribuem

mena m. disse...

Uma delícia este teu texto, de onde transparece muita ternura.
O teu irmão o chapéu, o meu a boina.
Inseparáveis!!!!

Um beijinho

Licínia Quitério disse...

If it be your will...

...tudo será tão claro como os gestos de um homem cuidando do seu chapéu.

Na foto tudo se adivinha.

Beijo.

rui disse...

Olá Manuela

Lindo!Lindo!
Por onde andam, a tua imaginação e os teus pensamentos!
Gosto do teu repousado divagar cheio de ternura e sentires!
Adorei.

Abraço

Maria Laura disse...

Suave, terno, quase dá para ver o teu olhar pousado no chapéu. Há objectos que preenchem bocados da nossa vida. Ou que nos reflectem.

Boa Páscoa!

Sonia disse...

Como os objetos ficam impregnados pela vida daqueles que os tocaram. Há um certo baú na mesa aqui ao meu lado, que me fala de segredos de família.