segunda-feira, 31 de julho de 2017

239. O MEU PÁSSARO - Dia 9


Foto de M 

O monte de livros por ler, à espera que eu levante a pontinha de uma página, um pequeno sinal... Deixa o resto e abre-me. Vais gostar de mim. Na livraria, lembras-te... Eu sei, fiquei em pé contigo na mão, e contigo, e contigo, a folhear-vos. Trouxe-vos porque queria ler-vos, não fossem esgotar-se as edições. Pensava eu que vos lia logo, uns a seguir aos outros, mas depois os afazeres estragam os planos... Pois, às vezes a fazeres coisas inúteis te perdes e nos perdes. Nem sempre apetece estar só convosco, preciso de trocar impressões com outras pessoas. Estás a esquecer-te do que costumas dizer. A tua memória anda pelas ruas da amargura. Pois vou lembrar-te: quando acabas um livro que te fascinou, é hábito contares que te é difícil sair da história, que conviveste com as personagens durante tanto tempo que sentes falta da sua companhia, que tens mais interesses em comum com elas do que... Sim, eu sei, há conversas com certas pessoas que me frustram. Mas tentem entender-me, existem também programas de televisão que me interessam e me “acrescentam”, como diz uma amiga minha. E filmes espantosos... Ora, desculpas. Nem sempre acontece assim. Algumas vezes, em dias solitários, recostas-te no sofá e ficas a olhar para ontem. Ou para amanhã, sei lá. Mais vale olhares para hoje. Ora essa, depende do hoje, alguns são tão aborrecidos que me põem amarras de inércia. Um contra- -senso, aparente, explicável por intermitências de humor. Então e nós, não achas que é demais termos as nossas palavras aprisionadas há meses? Qualquer dia acabamos mudos. Ou amarelecidos por falta de ar. Está bem, não se zanguem comigo, o ser humano é complexo. Não estão vocês fartos de saber isso através de quem vos escreve? Esse convívio é habitualmente longo... E tu, Meu Pássaro, não fiques mal impressionado com esta conversa, eles e eu somos grandes amigos.

M

domingo, 30 de julho de 2017

238. O MEU PÁSSARO - Dia 8


Foto de M


Corre, Corre, Cabacinha foi livro da minha infância. Não este mas um outro que já não tenho, com formato e ilustrações diferentes. Gostava muito da história. Intrigante aquela cabaça a rebolar caminho abaixo, estranho alguém caber dentro dela. Credulidade e incredulidade a bailar, ora uma ora outra. Quem lia a história? A Tia Chanel? Eu? Não sei, apenas me lembro que gostava de repetir: Não vi velha nem velhinha, não vi velha nem velhão! Corre, corre, cabacinha, corre, corre, cabação!

Era uma vez...

M

sábado, 29 de julho de 2017

237. O MEU PÁSSARO - Dia 7


Foto de M

Apanhaste-me aqui. No espaço de ouvir Anouar Brahem em Souvenance, uma palavra muito bela, um disco lindo de morrer, oiço-o e oiço-o e oiço-o mas até agora não morri para sempre, só morri de amor por ele. E pelo outro, The Astounding Eyes Of Rita, dedicado à memória do poeta palestiniano Mahmoud Darwish. Se a tal morte sem regresso for assim valeu a pena ter vivido. Ao lado, 10 Easy Pieces for Piano, os nomes de cada uma delas em sintonia absoluta com a música composta por Zbigniew Preisner. A lembrar uma agenda, o tempo, o nosso e o dos outros, marcado nos dias em minutos e segundos: A Good Morning Melody, To See More, Farewell, A Good Night Melody... Sentida por Leszek Mozdzer em cada nota tocada. Polacos ambos, compositor e pianista. Talking to Myself, o turbilhão que podem ser os estados de alma expressos na limpidez de cada som. A Polónia, a brutalidade da Segunda Guerra Mundial, Gdansk e o âmbar a visitarem-me de novo. Saltaram da prateleira da estante. Tu também. Vais reconhecer-te em The Art of Flying, é exactamente assim o voo dos pássaros.

M

sexta-feira, 28 de julho de 2017

236. O MEU PÁSSARO - Dia 6


Foto de M


O Meu Pássaro tem-me prestado atenção desde o dia em que lhe expliquei aquela história do nome. Noto que poisa agora intencionalmente em determinadas prateleiras e que nelas se demora mais do que o normal num ser da sua espécie. Hoje, por exemplo, é um desses casos. Julgo que reparou que, estando eu recostada no sofá diante da estante, fixo muitas vezes um olhar nostálgico em certos livros ali arrumados. Tanto quanto sei, ele pertence a uma família de aves espalhadas pela Europa. No entanto, não faço ideia se Polónia, Praga ou Irlanda significam algo no seu passado, ao ponto de se aconchegar junto delas, mas não é especialmente importante para mim saber isso. Prefiro arriscar dizer que ele quer apenas fazer-me companhia sempre que escrevo mentalmente as minhas memórias de viagens no tempo. Uma questão de empatia.

 
M

quinta-feira, 27 de julho de 2017

235. O MEU PÁSSARO - Dia 5


Foto de M

Pelos vistos o Meu Pássaro preferiu abandonar o poleiro da televisão e voltar a subir às alturas. Posso imaginar a sua estranheza por não ter ouvido qualquer notícia que o levasse a reconhecer o seu mundo: chilreada entre as árvores de um bosque, água límpida de um riacho a correr serra abaixo, o som de chocalhos distantes, algum zumbido de insectos... Possivelmente sentiu-se perdido, sem referências, e afastou-se. Para ele teria feito mais sentido um filme sobre a Natureza do que ser apanhado pela habitual catadupa de notícias pesadas que preocupam e sobressaltam as pessoas e são ininteligíveis para os pássaros. Aliás, também nós sentimos falta do contacto com a Natureza, seja ele directo ou através de imagens. São ninhos onde encontramos alimento para os sentidos e para uma melhor compreensão do universo que habitamos.
De qualquer modo, independentemente da razão que o levou a fugir da moldura televisiva de ontem, agradou-me a sua presença nesta estante onde vivem livros, fotografias, objectos diversos, enfim, pedaços da minha vida que guardo e relembro sempre que os contemplo.
Ficas tão bem sobre essa lisura luminosa, meu companheiro de voos.
 
M

quarta-feira, 26 de julho de 2017

234. O MEU PÁSSARO - Dia 4


Foto de M 

Vejo que o Meu Pássaro desceu à Terra. Como nos filmes de naves espaciais que sobem e descem no desconhecido encantando crianças e adultos fascinados por estrelas e planetas. Pousou na parte superior do aparelho de televisão, pois pousou, mas está indiferente aos meus chamamentos. Não sei se o aborrece ser tratado por Meu Pássaro, se receia que, por eu usar a palavra Meu, lhe limite a liberdade e o impeça de voar. Longe de mim tal pensamento, o nome que escolhi para ele é carinhoso, é o mesmo que dizer às crianças Meu Riquinho, ou Minha Querida, ou Meus Queridos. Por vezes apetece falar dessa maneira, são beijos e abracinhos embrulhados em palavras que os agasalham melhor contra as intempéries da vida. Os meninos percebem estas coisas muito bem. Hei-de explicar tudo isto ao Meu Pássaro. Tenho a certeza que ele vai entender.
 
M

terça-feira, 25 de julho de 2017

233. O MEU PÁSSARO - Dia 3


Foto de M 

Pouco a pouco o Meu Pássaro vai ganhando confiança. Em si e no espaço que o rodeia. Hoje encontrei-o ainda mais afastado da janela, sentado em cima do abajur branco do candeeiro pousado na mesa de vidro. Mas ele não sabe isso, pensa que está a descansar em cima da Lua, e a recuperar o fôlego, depois de acompanhar as duas aves de graciosas asas brancas naquele voo alto que os levou para lá das nuvens. Só não percebeu por que razão elas continuam a esvoaçar, e ele tão cansado. Procurarão alcançar outro planeta ou estarão apenas a fazer um bailado para iniciarem a descida de regresso à Terra?
 
M

segunda-feira, 24 de julho de 2017

232. O MEU PÁSSARO - Dia 2


Foto de M

Hoje de manhã, ao abrir devagar uma nesga da porta da sala para não assustar o Meu Pássaro, reparei que estava empoleirado no altifalante mais próximo da janela onde ontem se tinha refugiado. Apesar de todo o meu cuidado a porta rangeu ligeiramente e ele mexeu um pouco o corpo e as asas em jeito de levantar voo mas logo se aquietou de novo quando, à distância, lhe falei baixinho. Presumo que terá reconhecido a minha voz.
Não faço ideia do que se terá passado durante a noite. Pergunto-me se permaneceu atrás das cortinas, se saltitou pelo chão com a habitual graciosidade que conhecemos nos passaritos, se esvoaçou para um e outro lado até decidir sobre qual sofá ou móvel ou prateleira adormecer. Independentemente das suas eventuais deambulações nocturnas, acho natural que escolhesse aquele poiso próximo do parapeito da janela onde na véspera se sentira mais seguro. Além disso, certamente também a paisagem pintada pela Bisavó Fernanda no quadro pendurado na parede lhe ofereceu confiança ao trazer-lhe à memória espaços conhecidos. Aliás, não me admiraria que tivesse experimentado empoleirar-se nalguma daquelas árvores, apesar do vento que a imagem parece sugerir.
 
M

domingo, 23 de julho de 2017

231. O MEU PÁSSARO - Dia 1


Foto de M

Noutro dia fui ao Jardim Gulbenkian e apaixonei-me por um pássaro que encontrei empoleirado num raminho. Achei graça ao nome Chapim-Real escrito na etiqueta presa numa das suas patas e logo me surgiu diante dos olhos a imagem de passaritos a chapinharem e a bebericarem em poças de água junto da relva. Fiz-lhe uma festa e ele cantou, como se quisesse dizer-me qualquer coisa. Decidi trazê-lo comigo. Apanhei algumas folhas do chão para lhe preparar um ninho dentro de um saco de papel e pousei-o lá devagarinho, deixando uma abertura suficientemente grande para que pudesse sentir-se confortável a olhar o céu enquanto caminhávamos. Pareceu-me um pouco assustado, uma reacção natural, não me conhecia nem sabia para onde era levado. Pensei que ajudaria a acalmá-lo dizer-lhe onde eu morava, ir-lhe falando de mim, dos objectos que fazem parte da minha vida, do chilrear que oiço manhã cedo no parapeito da janela do meu quarto, dos jardins que espreitam entre os prédios do meu bairro, das varandas floridas onde pousam pombos.
Depois de abrir a porta de casa, arrumei a mala e as chaves no lugar habitual e dediquei-me ao Meu Pássaro. Retirei-o cuidadosamente do saco e, ainda com ele seguro na concha das minhas mãos, peguei na tesoura que guardo na gaveta da escrivaninha que me espera sempre no hall de entrada e cortei a tal etiqueta com o nome Chapim-Real que o impedia de mexer as patas à vontade.
Larguei-o. Surpreendeu-me. Esvoaçou timidamente através da minha sala de estar e escondeu-se atrás das cortinas. Vou dar-lhe tempo. Talvez amanhã já se sinta à vontade para explorar os recantos de que lhe falei durante o trajecto para aqui. Há-de lembrar-se.
 
M

sexta-feira, 14 de julho de 2017

230.


Foto de M 

Que sei eu do pensamento dos rios?
M

229.


Foto de M

E ela ali, entregue a si mesma, tão bela a cor discreta do seu silêncio.
M