quinta-feira, 8 de abril de 2021

PAISAGENS HUMANAS

  Foto de M

Desde que acompanhada por pessoas de quem gosto, tanto aprecio uma ida ao restaurante como um piquenique no campo, uma esplanada simpática, ou nem sair da minha casa, onde os encontros e as refeições são mais íntimos. Ir a casa dos amigos agrada-me também. Lembro, por exemplo, os jantares em casa de um amigo meu de que sinto falta, a pandemia meteu-se em todo o lado a atrapalhar a vida das pessoas. Ali tudo é original, a começar por ele, pela cozinha de cariz artesanal com certos equipamentos construídos ou adaptados pelas suas mãos inventivas para os tornar mais eficazes, os petiscos que nos oferece, os temperos usados, a mesa posta com simplicidade, a conversa provocadora entre os convivas - e tão diferentes somos todos -, os risos, os objectos antigos de família de que se rodeia. Tenho saudades deste conjunto de elementos, constituem o ambiente de uma das minhas paisagens humanas em que me sinto bem.

M

sábado, 3 de abril de 2021

PÁSCOA DE 2021 EM FAMÍLIA RESTRITA (DE CHOCOLATE)

Vestiu-se de amarelo o ovo de chocolate e visitou os seus primos tristemente confinados no quarto mais frio da casa.

 


Satisfazendo a sua curiosidade entre livros, ali se refugiou o ovo vestido de verde com um coelho sentado na relva a fazer um piquenique.

 

Escondeu-se o coelho envergonhado dentro da gaveta da mesa pequena da sala.

 


A irmã coelha vestida de cor de rosa preferiu espreitar o armário dos objectos antigos e por lá ficou toda contente a descobrir antiguidades.

 


A galinha branca gosta muito de música e de cantar, por isso escolheu ficar junto dos CDs, enquanto a sua irmã gémea foi visitar a amiga amarela que vive numa estante cheia de objectos. Acha graça a vê-la abrir as asas quando põe 5 ovos pequeninos: 4 brancos e 1 amarelo! 

 

Texto e fotografias de M

sexta-feira, 2 de abril de 2021

PASSEAR AO AR LIVRE

Foto de M
 
Passear ao ar livre tem sido liberdade vedada já lá vão alguns meses excepto, entre intermitências, permitir os chamados passeios higiénicos. Esses tenho eu cumprido para desenferrujar as pernas e arejar a mente, mas confesso que passear com boca e nariz tapados à força reduz o prazer de os fazer e corta a respiração que nas coisas belas da vida costumo sentir. Nas minhas curtas deambulações, entre árvores e flores, chamou-me a atenção o Olá que encontrei pintado em porta fechada de jardim aberto. Mudo, claro, o que se compreende perante a falta de gente em verdadeiros passeios ao ar livre de outros dias que eram nossos e deixaram de ser. Achei-lhe graça, é um aceno a quem passeia a sua solidão e um incentivo para se imaginar num futuro acompanhado a saborear um gelado à beira do lago.

M

quinta-feira, 25 de março de 2021

INTERROGANDO-ME

Foto de M 
 
Serão as obras de Miró a expressão da plenitude do pensamento da infância? Pensamento íntimo, indecifrável por vezes porque em permanente movimento de entendimento de si, observação, busca de explicação do Universo, experimentação no que ela tem de traço de mão firme ou de mancha. Assim acontece com as crianças através das livres expressões do pensamento em desenvolvimento que me encantam pela simplicidade e beleza. Com Miró o processo terá sido semelhante, levando a sua criatividade crescente e por vezes enigmática a atingir a plenitude na idade adulta. A nenhum dos casos aplico o significado de doidice, isso seria desculpar-me de forma ligeira sobre o que eventualmente não serei capaz de compreender no modo como cada pessoa revela o seu mundo interior.

M

quinta-feira, 18 de março de 2021

AS CORES DA JUVENTUDE

Foto de M
 
Gosto muito das pinturas de Amadeo de Souza-Cardoso. Gosto das cores, gosto da espécie de mistério por desvendar que sinto nalguns quadros. Apetece-me abrir caminho entre a exuberância de tons, tocar ao de leve na letra solta, na palavra incompleta por cima da janela, experimentar o som da corda do violino, tantas coisas para descobrir, e esconder-me lá dentro enrolada na minha comoção. Tão breve foi a juventude na sua vida.

M

sábado, 13 de março de 2021

PONTES

O espanto pode ser um estado permanente que acompanha a vida de algumas pessoas, felizes, diria eu, por terem essa companhia que não as deixará morrer de tédio. Penso que Pablo Picasso terá sido uma dessas pessoas e Paris terá contribuído para isso. Sei que visitou a cidade uma primeira vez e logo se apaixonou por ela. Conhecida como centro efervescente de artistas, pintores, escultores, escritores, músicos, pensadores de todo o mundo, sentiu nela a oportunidade de tomar contacto com novos horizontes. 

Do que julgo saber sobre a vida e obra deste homem talentoso, encontro nesta fotografia tirada em 2015, na minha última ida a Paris, um conjunto de aspectos que a ele e às diferentes fases da sua obra associo. As formas, os traços, os arcos, os ângulos, os planos num misto de distanciamento, proximidade e sobreposição, os tons, as pessoas, o movimento adivinhado, fazem-me pensar nalguns quadros que conheço de Picasso. Os lugares por onde passava, as pessoas com quem se ia cruzando, os artistas, as técnicas e modos diferentes de interpretar o mundo, os museus que visitou, tudo o levou a renovar continuamente o seu olhar sobre a realidade e a exprimi-lo de forma inovadora nas obras que nos deixou.

Foto de M