segunda-feira, 14 de setembro de 2026

À descoberta de Lisboa - 4

Aprecio medalhas em bronze. Entre elas, esta de Cesário Verde, comemorativa do centenário da sua morte, da autoria de Irene Vilar (1931-2008, pintora, escultora e medalhista). No anverso da medalha, um bonito retrato do poeta. No verso, a referência ao gosto pela temática cidade/campo representativa, penso eu, da sensibilidade e técnicas impressionistas usadas na sua escrita. A abraçar a paisagem, a transcrição Se eu não morresse, nunca! E eternamente /Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas! Pertence ao poema Horas Mortas que faz parte de O Sentimento dum Ocidental de O Livro de Cesário Verde, edição póstuma da colectânea dos poemas do poeta organizada pelo seu grande amigo Silva Pinto, em 1887. Uma edição de 200 exemplares que não foi posta à venda, apenas distribuída a parentes e amigos do poeta considerados merecedores da oferta.

Recomendo-vos que abram os links abaixo, oiçam os entendidos, comovam-se com a voz magnífica de Mário Viegas a dizer alguns poemas de Cesário Verde e espreitem a vida e obra de Irene Vilar.

M

https://nossaradio.blogspot.com/2016/04/cesario-verde-por-mario-viegas.html

https://ensina.rtp.pt/artigo/o-livro-de-cesario-verde/

https://sigarra.up.pt/up/pt/web_base.gera_pagina?p_pagina=antigos%20estudantes%20ilustres%20-%20irene%20vilar

https://pt.wikipedia.org/wiki/Irene_Vilar


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domingo, 13 de setembro de 2026

À descoberta de Lisboa - 3

O Jardim Cesário Verde fica bem naquela zona residencial histórica do Bairro dos Açores (inicialmente chamado Bairro Linhares) em que as ruas têm nomes das ilhas açorianas: Rua Açores, Rua da Ilha Terceira, Rua da Ilha do Pico, Rua de Ponta Delgada… Uma homenagem aos Açores pelo apoio dado aos liberais durante a luta entre liberais e absolutistas na chamada Guerra dos Dois Irmãos D. Pedro IV e D. Miguel em 1832-1834. É contemporâneo da construção das Avenidas Novas no final do século 19 no plano urbanístico de Frederico Ressano Garcia.

Em tempos idos, tinha já passado pelo jardim, mas só recentemente o espreitei com olhos de ver. Era primavera e o dia estava lindo. Agradou-me o que encontrei naquele espaço aberto de 2500 metros quadrados, árvores, luz e sombras, tão bonitas as correntes verdes a circundar os canteiros de flores, a lembrar mãos dadas. Soube, depois de lá ter estado, que possui desde 1947 uma árvore classificada como Interesse Público, Cedrus atlantica (Endl) Manetti ex Carrière, mas não faço ideia qual delas seria. A ignorância tem destas coisas. Em 2021, a Junta de Freguesia de Arroios reabilitou o jardim executando trabalhos para restituição da permeabilidade dos solos e substituição do piso. O busto de Cesário Verde, à beira do passeio da Rua de Dona Estefânia, foi executado por Maximiano Alves (Lisboa, 1888 – 1954) e inaugurado em 1955. Fiquei também a saber que ele era filho de um gravador da Casa da Moeda, concluiu o Curso de Escultura na Escola de Belas Artes de Lisboa em 1911, e recebeu o grau de Oficial da Ordem Militar de Santiago de Espada em 1932 pela concepção e execução do Monumento aos Mortos da Grande Guerra, na Avenida da Liberdade, inaugurado em 1931.

M








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terça-feira, 8 de setembro de 2026

À descoberta de Lisboa - 2

Contornei o quarteirão à procura do acesso à tal parte cimeira dos edifícios que vi para lá da vedação de obra na Rua de Dona Estefânia. Assim chamada como homenagem póstuma à jovem princesa alemã Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen escolhida para casar com o rei D. Pedro V em abril de 1858. Ambos muito novos, o seu reinado como rainha consorte durou apenas 14 meses. Morreu rainha sem sorte aos 21 anos, de difteria, seguindo-se-lhe a morte do marido com febre tifoide dois anos depois, aos 24. No entanto, pelo que li, no seu breve reinado tiveram ambos um papel relevante no apoio aos desprotegidos. Por influência da rainha, habituada a melhores condições económicas e sanitárias europeias, impressionada com o abandono e estado de pobreza de muitas crianças portuguesas, foi então pensado um hospital moderno exclusivamente para elas. Nasceu assim o Hospital de Dona Estefânia, fundado posteriormente, em 17 de julho de 1877.

Ao virar da esquina eis-me na Praça Ilha do Faial, um espaço aberto e luminoso em redor do Jardim Cesário Verde. Encantaram-me as cores vivas dos prédios e as suas características arquitectónicas diversas com vista sobre o jardim. Subi então a escadaria que se vê na fotografia, entre o prédio cor de rosa forte e o prédio amarelo. Notável o letreiro em Braille colocado no corrimão. Lá estavam, junto das traseiras de edifícios com suas antigas escadas de ferro exteriores, o arvoredo e os telhados baixos que eu tinha avistado da Rua de Dona Estefânia. Voltei um mês depois e encontrei um chão nu de terra batida, certamente à espera de novas construções.

M





Fotos de M

Link sobre a vida de Louis Braille: 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Louis_Braille

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

À descoberta de Lisboa - 1

Neste último ano, passei várias vezes a pé na Rua de Dona Estefânia, no troço entre o Arco do Cego e o Largo de Dona Estefânia, uma rua de trânsito intenso. A arquitectura dos edifícios é uma miscelânea de estilos e épocas, as montras das lojas parecendo estagnadas na determinação dos donos de outros tempos. Nos passeios largos, copas frondosas de árvores enormes espreitam janelas. Mas a minha especial atenção recaiu sempre sobre uma casa de dois andares baixos, entalada entre dois prédios com vários pisos. Paredes em mau estado, janelas amordaçadas, cortinas rasgadas morrendo nos vidros, a porta, calada. Impressionava-me aquele abandono triste e perguntava-me quem ali teria vivido, desde quando. Em junho passado fiquei surpreendida: a casa tinha sido demolida, podendo-se avistar, para lá do gradeamento de protecção colocado no passeio, das máquinas e do entulho, algum arvoredo e uns telhados baixos, entre a rua de Dona Estefânia e os edifícios ao longe no plano mais acima. Teriam sido o último reduto de famílias resistentes a novos projectos urbanísticos no bairro? Não sei, apenas encontrei uma referência na Internet sobre ter sido apresentado, em abril de 1892, um requerimento à Câmara Municipal de Lisboa para o loteamento e abertura de ruas na antiga propriedade dos condes de Linhares. Pelos vistos, vão ser construídas novas vidas naquele espaço, porque as dos condes de Linhares e as da casa demolida já “foram à vida”.

M







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sábado, 27 de junho de 2026

Antes...

Fotos de M

Antes da apanha da pera rocha. Tão bonita a terra avermelhada em silêncios de fim de tarde, os cestos espalhados sobre ela a lembrar flocos de neve caídos de um céu indeciso entre o cinzento e o branco.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Ainda...

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Ainda…

Ainda me lembro do almoço de família de há muitos anos em que este prato me levou a pensar numa paleta de pintor. Gostei de o imaginar assim, os docinhos como tintas disponíveis para serem usadas em tela de ternuras pendurada para sempre nas paredes da minha casa-memória.

M

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Depois...

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Depois…

Cá está mais uma palavra a empurrar reticências. Por acaso até vem a propósito, serve para continuar a mini história da semana passada sobre os candeeiros de petróleo. 

Depois do fim das férias na aldeia, a família regressava a Lisboa, eu às aulas no velho liceu perto de casa. Encerrado alguns anos após eu já ter saído de lá, foi-se degradando a olhos vistos, à espera de uma outra função. Comprado e restaurado pelo coleccionador de arte Armando Martins para albergar a sua colecção de arte, é agora o belo museu MACAM. Quando o visitei pela primeira vez, tive uma sensação estranha e ao mesmo tempo familiar. Durante cinco anos, tinha descido e subido vezes sem conta aquela escada à esquerda na fotografia que dá acesso ao espaço ajardinado. Do que me recordo, nesse outro meu tempo este espaço era apenas um pátio de chão acinzentado sem graça, com o mesmo lago de agora mas sem nenhuma obra de arte pousada nele. Era para lá que corríamos nos intervalos das aulas para jogar ao ringue, à rolha, saltar à corda e rir muito. O antes e o depois juntos na minha vida.

M