quarta-feira, 10 de junho de 2026

Depois...

Foto de M 

Depois…

Cá está mais uma palavra a empurrar reticências. Por acaso até vem a propósito, serve para continuar a mini história da semana passada sobre os candeeiros de petróleo. 

Depois do fim das férias na aldeia, a família regressava a Lisboa, eu às aulas no velho liceu perto de casa. Encerrado alguns anos após eu já ter saído de lá, foi-se degradando a olhos vistos, à espera de uma outra função. Comprado e restaurado pelo coleccionador de arte Armando Martins para albergar a sua colecção de arte, é agora o belo museu MACAM. Quando o visitei pela primeira vez, tive uma sensação estranha e ao mesmo tempo familiar. Durante cinco anos, tinha descido e subido vezes sem conta aquela escada à esquerda na fotografia que dá acesso ao espaço ajardinado. Do que me recordo, nesse outro meu tempo este espaço ajardinado era apenas um pátio de chão acinzentado sem graça, com o mesmo lago de agora mas sem nenhuma obra de arte pousada nele. Era para lá que corríamos nos intervalos das aulas para jogar ao ringue, à rolha, saltar à corda e rir muito. O antes e o depois juntos na minha vida.

M

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Quando...

Foto de M

Quando...

Gosto de palavras que empurram reticências como se empurrassem um carrinho cheio de surpresas. Serão aqueles três pontinhos convites para elas entrarem em contacto com as pessoas que as leem? Convites envergonhados? Provocadores? Pacientes? Curiosos das reacções de quem repara nelas? Acho que podem ter muitos significados. Estarão ali “Para a troca”, como dizem os miúdos a negociar cromos de jogadores de clubes de futebol em falta nas suas cadernetas. No caso deste Quando…, arrisco interpretá-lo como um pedido para eu contar uma história pequenina, a condizer com o tamanho da menina que fui:

Quando eu era criança e passava férias numa aldeia não havia electricidade dentro das casas. Ao anoitecer, acendíamos candeeiros de petróleo que apagávamos quando nos deitávamos. Eram estes da fotografia. Dormiam em pé o resto da noite em cima daquele móvel, ao lado do prato do galo, e acordavam manhã cedo, estremunhados (e nós também) com o canto dele a anunciar o novo dia.

sábado, 23 de maio de 2026

O saquinho vermelho

Foto de M

Rusga, palavra proposta para o desafio desta semana no PPP. Não a conhecia associada a danças. O único significado que lhe atribuía era o de «operação policial rápida e inesperada em locais considerados suspeitos». Fiquei aliviada quando, nas minhas buscas na Internet, encontrei o significado ajustado ao nosso caso: «Aglomeração festiva de pessoas que desfilam cantando e dançando, comum em festas populares como o S. João.» Vi também imagens de grupos desfilando alegremente nas ruas, entre eles alguns dançarinos a tocar castanholas. Lembrei-me logo das castanholas da minha sogra, guardadas num saquinho vermelho que foi passando de mãos para divertir netos e bisnetos. Ainda há dias lhe tinha mexido, ao arrumar em caixas uma série de brinquedos que ficarão à espera do tempo de serem revisitadas. Porque me parecera ter ele perdido o brilho dos seus anos de festa, tinha-o lavado e passado a ferro e guardado com as suas protegidas. Eis senão quando a Agrades propõe uma rusga! Acordei o saquinho do seu sono recente e relembrei as histórias contadas pela sua dona, comprovativas da importância que as castanholas tiveram na sua vida, quando frequentava uma aula de dança em Lisboa.

M

terça-feira, 19 de maio de 2026

Inesquecível


Foto 1 de M

Foto 2 retirada da NET   

Inesquecível a cena final interpretada pelo bailarino Jorge Donn no filme Les Uns et les Autres de Claude Lelouch realizado em 1981. Lindos de morrer são a música de Maurice Ravel e o movimento cadenciado do corpo do bailarino a dançar o Boléro num crescendo que nos envolve e se deseja interminável. Segundo li, esta obra nasceu do pedido feito ao compositor pela actriz e bailarina russa Ida Lvovna Rubinstein para ele compor a música para um novo bailado. Seria ela a escolhida para o dançar no dia da estreia em Paris na Ópera Garnier, em 22 de Novembro de 1928. De boa vontade teria eu assistido a essa apresentação sentada na plateia, ataviada com um bolero elegante escolhido para a ocasião. Limito-me a vestir roupa mais prática e, no silêncio da minha sala, oiço, sempre que me apetece, o CD comprado em 1987, ou revejo o filme no ecrã da televisão. E ainda, quem sabe, poderei eventualmente ter a possibilidade de voltar a encantar-me com ele nalgum cinema que apresente obras antigas de relevo.

M

Bolero de Ravel - Metropolitana