sábado, 9 de março de 2013

189.


Foto de M

Uma espécie de casa ambulante é o que me lembram os dois Elevadores da Glória. Ora para cima ora para baixo, assim se cruzam entre carris e cabos aéreos, não vão eles querer libertar-se da rotina dos trilhos diários e passear em liberdade por outros bairros de Lisboa. Mas boas razões tenho eu em encontrar-lhes feições de residência. O espaço rectangular das carruagens com bancos corridos de costas para as janelas onde nos sentamos podia perfeitamente ser uma sala de estar de nossas casas. Ali nos olhamos uns aos outros pensando quem seremos e, fosse o tempo do trajecto mais longo, chegariam certamente à fala conversas íntimas nas mais diversas línguas a propósito dos percursos sugeridos em mapas e roteiros de viagens abertos nas mãos dos passageiros. 
Mas não só de viagens turísticas de máquina a tiracolo se vive, há quem viaje sem sair do seu lugar de trabalho aproveitando de forma aprazível os dez minutos de intervalo entre cada chegada e partida estabelecidos no horário da Carris. Pois é verdade, empoleirado no banco da cabine, além do Bom dia espontâneo e sorridente oferecido a cada pessoa que entrava ou lhe pedia informações sobre o preço dos bilhetes, o jovem guarda-freio lia as últimas páginas do livro Mataram o Sidónio, de Francisco Moita Flores.
Ao regressar dos meus afazeres no Bairro Alto encontrei o mesmo elevador à espera, e o mesmo homem embrulhado no sobretudo azul escuro da farda, protegendo-se assim do frio que atravessava grades e corpos. Não resisti a meter conversa com ele, tal a curiosidade e espanto que em mim provocara algumas horas antes. Da breve conversa, até porque dez minutos voam nas nossas vidas paradas, apenas vos deixo o que considero mais importante: Já o acabei. Amanhã trago outro livro. Gosto muito de ler. Ajuda a passar o tempo.  
Saberá este homem que até finais do século 19, durante as viagens nocturnas, a iluminação dentro da cabine era feita com velas? Presumo que, tivesse ele vivido nessa época, isso não o incomodaria, apenas seriam outros os livros. Talvez Os Mistérios de Lisboa de Camilo Castelo Branco...
M

4 comentários:

Justine disse...

Sabes que também me fascinam as pessoas que, depois de um dia de trabalho, com o ar cansado de quem volta para casa, se sentam nas carruagens do Metro, pegam num livro e soltam-se da realidade difícil, lendo!`Como a leitura pode alterar um quotidiano duro!
(o teu texto é um encanto)

heretico disse...

o sortilégio das "pequenas coisas" na distância de um século...

delicado e subtil como fio da chama - Camilo iria gostar do teu texto. certamente...

beijo

Anónimo disse...

Bonito de saber que anonimamente se lê assim! Onde aqui se reflecte o pensamento latente da cidade e alguém que a atravessa olhando atenta. E onde se aprendem antigos "mistérios de Lisboa", os escritores desse tempo que tantas vidas nos deixaram contadas.
(também... como andei a ler a biografia do Eça quase imaginei os frou-frou da sociedade de então!)
Abç da bettips

Mónica disse...

mto rapida a tirar a fotografia ;)