quinta-feira, 3 de abril de 2025

Reflexões sem certezas


Fotos de M

«Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa». Não conhecia a expressão, achei-lhe graça a primeira vez que a ouvi. Surgiu-me agora do nada ao pensar como responder à proposta da Mena para esta semana de desafios no PPP. Fantasia versus Realidade ou Mentira versus Verdade? Na minha opinião os conceitos das quatro palavras interligam-se em cada par e com os dois pares entre si. Julgo que uma realidade pode ser realidade para umas pessoas e para outras ser considerada fantasia. Se eu desejar muito uma determinada coisa ou situação, por exemplo, talvez a tome como certa e então essa fantasia passa a ser realidade para mim. Do mesmo modo somos confrontados com o dilema de a mentira poder ser verdade e igualmente o contrário, dependendo de como cada pessoa sente e pensa uma mesma coisa. Portanto, o melhor é não esmiuçar nem fazer disto um quebra cabeças. Fica esta fotografia de dois pássaros. Um é real, vi-o empoleirado no alto das telhas a observar o azul do céu e ouvi-o saudar o amanhecer. Ao outro, de tanto me encantar com ele, fantasiei-lhe penas macias e tomei-o como real.

M

quinta-feira, 27 de março de 2025

E Ficar Ali

Balança vazia

(Foto de S.)

E Ficar Ali

Este prazer imenso de tocar a quietude e de a sentar ao nosso colo! E esperar que ela nos dê um beijo azul. E depois outro, em tons de verde salpicado de branco, cheirando a flores e a laranjas. E ainda outro, límpido de tão calado. E ficar ali à espera do voo dos pássaros, esquecendo os pesos do mundo.

(Texto escrito em 2006, mas tão actual pode ele ser no contexto mundial que vivemos)

segunda-feira, 24 de março de 2025

Dentro do estômago do pensamento

Clair de Lune

(Foto de S.)

   Claire de Lune

Passam as histórias de boca em boca, de ouvido em ouvido, de fantasia em fantasia. Comem-se frases, sílabas, letras. Às vezes. Conforme a boca de quem as conta, conforme o ouvido de quem as ouve, conforme a imaginação de cada um. Mastigam-se e engolem-se. Ficam dentro de nós, em pedaços separados, dentro do estômago do pensamento. Quem sabe então se este Clair de Lune que paira entre as ruínas de um mosteiro no alto da Serra de Montejunto não terá sido o nome de alguém a quem, na ânsia de lhe contar e conhecer a vida (ou de a desprezar), os habitantes das aldeias vizinhas terão feito desaparecer a letra “e” no final do nome? Se assim aconteceu, embora esta ideia não seja mais do que uma suposição minha sem qualquer fundamento, confesso que me apetece acrescentar-lho de novo e chamar-lhe Claire de Lune. E imaginar uma rapariga de cabelos soltos vagueando pelos montes em noites de luar, pela mão de Claude Debussy. Apesar das ruínas. Apesar do tempo que se desmorona mas que igualmente se reconstrói ao modo de cada um. E porque a lua está presente também nos nossos dias, no mistério do que nos toca e se deseja.

M

(2006)

domingo, 9 de março de 2025

Postigos

Foto de M 

Gosto de postigos em portas exteriores, dão-lhes uma certa leveza e graciosidade. Reparei neste numa rua em Moura. Ao vê-lo entreaberto, confesso que me apeteceu espreitá-lo mas, por respeito para com os moradores, que nem sequer sei quem seriam, fotografei-o discretamente de esguelha e continuei o meu caminho.

M

Foto de M

Este postigo, pelo contrário, estava encerrado. Não soube quem resguardava por detrás dele. Encontrei-o na estação de comboios de Sintra. Um posto de venda de bilhetes. Eventualmente na hora de almoço do funcionário ou funcionária. Ou não seria ainda hora de abertura ao público. Apesar de tão mal sentado na ponta da pedra pintada nos azulejos da parede, coitado, chamou-me particular atenção a expressão feliz do menino angelical com duas flores na mão. Não faço ideia se as apanhou perto dali, no Parque da Liberdade, e foi punido pela ousadia e para sempre tornado estático pelas mãos do artista contratado para a obra. Seja como for, se a sua intenção tiver sido colher um raminho de flores para oferecer a alguém, o seu gesto ficou registado per saecula saeculorum. E será sem dúvida inspirador para quem por ali passar.

M