quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

223.


Foto de M

Antes que seja tarde é expressão usada por aí quando alguém não quer deixar fugir a ocasião de resolver assuntos urgentes, ou pendentes, com receio de os perder no esquecimento. Não conheço a origem da expressão, provavelmente a sabedoria popular observou a vivência real das pessoas nas suas comunidades ao longo dos tempos e acabou por condensá-la desta forma prática. Prática mas arriscada, penso eu, porque há várias sabedorias que por vezes se confrontam ou até se contradizem, fruto de experiências e conceitos diversos como, por exemplo, os que o provérbio Mais vale tarde do que nunca resume. Coitada, a palavra tarde, assim entalada entre outras de estatuto tão diferenciado, deve ficar baralhada com o sentido da sua própria existência. Mas como o gosto de esmiuçar as complexidades da linguagem humana parece enfastiar alguns, há quem encerre o assunto com um firme Mais vale cedo que tarde e tarde que nunca. Pronto. 
Ui! Eu calo-me. Mas antes de ir, só mais uma coisa: de momento prefiro que a tarde me faça companhia entre a manhã e a noite. Completamente despojada de futuro. 
M

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

222.


Foto de M

Aquela casa com ele ali, pensei, embora sem fazer a mínima ideia quem eram, apenas mera conjectura minha baseada num casual encontro de rua. Estando o Sacré Coeur por perto como cenário a acentuar sentimentos e inspirador das coisas sagradas que o coração guarda, à primeira vista não me pareceu estranho. Só depois, perante a vasta equipa de técnicos, máquinas fotográficas, conselheiros de imagem, maquilhadores, fui levada a crer que se tratava possivelmente da composição elaborada de algum anúncio a publicar em revista de moda, canal de televisão ou agência de viagens. Paris, o lugar de sonho ao seu alcance. Até o sorriso estático da noiva me pareceu afinado para o projecto. Pelo menos o dela seria, ao noivo só o vi de costas. Claro que me lembrei também do Museu Grévin e do Madame Tussauds London. Uma hipótese a considerar, muitos de nós desejamos passar à posteridade, nem que seja embrulhados no diáfano tule branco da fantasia. Ui, só a trabalheira que deve ser organizar a conservação de tudo aquilo lá pelos museus! Avaliar o lugar ideal para colocar os corpos ceráceos de gente famosa, escolher os trajes emblemáticos de cada um, mantê-los em bom estado, retocar-lhes a maquilhagem, pentear-lhes as cabeleiras de acordo com a postura preferida em vida. Sei lá, um infindável número de gestos necessários para que cada celebridade continue a apresentar-se como melhor agrada ao seu público. Enfim, a cena deve tornar-se quase tão real que não me admiraria se algum funcionário aproveitasse a proximidade oferecida por essa corte de tarefas para finalmente poder manifestar o seu apreço pela sua figura de eleição, ou até mesmo esclarecer dúvidas quanto à razão da notoriedade deste ou daquele colunável. Mas suponho que sem sucesso na resposta desejada, a mudez das expressões só falará certamente na imaginação dos curiosos. 
Bom, voltando aos noivos em êxtase, espero que se tenham cansado de se olhar a mando de estranhos. Não, escrevi bem a palavra, amando de verdade é outro conceito e outra vivência. 
M

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

221.


Foto de M 

Talvez muito do que faz parte da nossa vida possa ser sentido como um poema. Composto ou não de palavras, somente a presença da beleza das coisas. Numa dimensão maior ou nos pormenores, nos recantos da alma de cada um de nós, na luz que acentua a interioridade de cada objecto, no gesto-poema de quem pinta as cores da natureza e o oferece, tornando-o também poema para quem o recebe de presente. Pertença partilhada, o poema em si mesmo. Emoção estética. 
M

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

220.


Foto de M 

Gosto de palavras. Têm corpo de gente, gestos de gente, voz de gente. E riem, e dão gargalhadas. Choram também, desesperam. E espantam-se tanta vez. Algumas insultam, coram de vergonha os seus alvos, ou enraivecem-nos e fazem ricochete, ui! Outras guardam silêncio escondendo-se dentro da boca de quem as não diz ou no pensamento de quem as pensa. Às palavras que se alinham para desalinhar sentidos acho particular graça: desenham sorrisos discretos nos olhos, nos lábios, nas rugas marcadas. Das palavras pacientes quase me esquecia de falar. Presas dentro de livros, esperam que alguém repare nelas e lhes faça companhia. Estabelecida então uma forte empatia, qualquer desvio de atenção dos seus amigos leitores em momentos de pausa de leitura as leva a seguir-lhes o olhar para lá das páginas abertas sobre a mesa da esplanada. (Aposto que até encontram cenários iguais ou semelhantes aos que compõem os capítulos em que vivem. Cenas, como agora se diz.) A propósito de cenas lembrei-me dos antigos mini teatros ambulantes de praia onde fantoches com cabeça de pau e voz esquisita se batiam freneticamente à paulada. Hoje em dia as pancadarias e os cenários serão outros, certas palavras desapareceram do vocabulário corrente, mas em geral as mais usadas não divergem muito dessa época, apenas a eliminação de determinadas consoantes e acentos as transfigura. Por mor de acordos e desacordos e não só. 
M

sábado, 19 de setembro de 2015

219.


Foto de M

Desproporção. A palavra surgiu no meu olhar mal cheguei ao terreiro repleto de gente entre o Palácio do Louvre e o Jardim das Tulherias e os vi ajoelhados no chão, como se rezassem, indiferentes aos passos de quem atravessava aquela aparente terra de ninguém. Eram seis, com as suas lojas ambulantes de chapéus, óculos escuros da moda, bugigangas e souvenirs para todos os gostos. Organizavam, uma vez mais, os objectos que breves momentos antes, suponho que a um sinal de aviso combinado, tinham enrolado à pressa nos seus panos-montras como precaução para uma fuga iminente. A polícia não apareceu, pelo menos por agora podiam sossegar. A escassos metros, as sólidas paredes do Louvre contrastavam com a fragilidade da existência humana. E eu, testemunha muda, reflectia sobre a realidade que me cercava e me afligia. Este homem em particular impressionou-me. Senti-me comovida pela delicadeza com que pegava nas pequenas réplicas da Torre Eiffel e as colocava em pé, bem alinhadas, tentando cativar o olhar dos transeuntes. Pensei, procurando encontrar algum consolo dentro de mim: talvez só por amar muito o que tem para vender ele consiga sobreviver entre as dicotomias da cidade imensa.
M

terça-feira, 16 de junho de 2015

218.


Foto de M
  
Tivesse eu visto o seu rosto, quem sabe seria capaz de entender o que lhe ia na alma.
Eu estava por ali e reparei nela à distância. Impressionaram-me o desalinho da sua figura e a total imobilidade em que se manteve durante a hora e meia em que permaneci no jardim. Interroguei-me, e interrogo-me ainda, sobre quais seriam os seus pensamentos. Contemplaria calada, ou até de olhos fechados, o rio da saudade de longínqua terra muito sua? Que pobreza a afligiria? Não sei, não lhe vi o rosto. Talvez estivesse feliz. Talvez lhe bastasse poder sentar-se à beira de um rio azul. Talvez fosse essa a sua única riqueza. Eu vim embora sem nada conhecer da mulher. Ela ficou.
M

quinta-feira, 21 de maio de 2015

217.


Foto de M

Eu andava pelo bairro lembrando lugares, reconhecendo-os, descobrindo diferenças trazidas pelos anos de ausência, pisando devagar as pedras do caminho que me levava ao liceu onde fui aluna durante cinco anos. A certa altura, ao olhar para cima, reparei no enquadramento da janela entreaberta: o rosa vivo, a parede fechada do outro lado, os ramos secos das árvores, o céu azul, os telhados escondendo vidas, o pedacinho da plataforma da ponte. Parei, o olhar preso lá longe, à espera que algum carro passasse e eu conseguisse captá-lo através da minha máquina fotográfica, apesar da pressa com que se deslocavam, como se, uns atrás dos outros, fugissem de mim. Aprisionei a camioneta, tão pequenina na distância. E pensei: interessante como a distância pode fazer parte do que nos está mais próximo.
Entre a brevidade dos momentos e a permanência me construo e reconstruo. Eu, a adulta de hoje, e a outra eu, a da infância e da juventude. E no entanto sempre eu, fiel companhia que me sustém no mapa da minha existência.
M

quarta-feira, 13 de maio de 2015

216.


Foto de M 

Restara apenas o cabo do guarda-chuva. Dias antes, um vendaval desabrido arrancara-lhe das mãos a haste com as varetas e arrastara-as pelo ar enroladas no tecido preto rasgado, ao encontro das nuvens cinzentas que corriam apressadas sobre a sua cabeça. Resolvera então pendurá-lo na geringonça instalada no exterior do teatro, talvez alguém achasse graça àquele ponto de interrogação ou encontrasse nele algum simbolismo. Não é o teatro um espaço de permanente reflexão sobre a vida, expressa das formas mais diversas? 
Felizmente o sol abrira-se um pouco a meio da manhã apaziguando com a sua presença os temperamentais assomos outonais. Hoje até podia fumar o seu primeiro cigarro ao ar livre sem se preocupar com imprevistos climáticos. Não o acabou, alguém lhe falava ao ouvido, o tal sensato do costume, um sensaborão. Não estranhou o sussurro, estava habituado a conviver com várias personagens dentro de si. Mergulhou a beata na água de uma das taças abandonando-a à curiosidade de algum pardalito que ali pousasse a refrescar-se. Antes escorrega de bebedouro do que beata!, pensou. Sorriu, divertiam-no os diferentes significados que as palavras podem ter. Sentindo-se mais relaxado depois do breve intervalo, entrou no edifício. Na sala, os outros actores esperavam-no para ensaiarem em conjunto a peça de teatro que assinalava o quadragésimo aniversário da companhia. 
M

(Em novembro de 2011, acompanhei uns amigos na visita à sede do Grupo de Teatro o Bando em Vale de Barris, Palmela, onde tirei esta fotografia por achar graça ao recanto.)

quinta-feira, 7 de maio de 2015

215.


Foto de M 

Debalde foi ali pousado o balde em descanso temporário, pensado como sendo de bom préstimo para quem regasse a horta ou arrecadar nele os legumes colhidos pela manhã. Mas qualquer coisa deve ter corrido mal. Alguma embirração com o seu aspecto antiquado e enferrujado, ou preferência por balde de plástico garrido comprado na feira mensal, talvez uma represália, e vá lá saber-se o motivo, nas aldeias é comum sobreporem-se as vindictas à natureza pura da terra. Em vez do estado de provisória quietude na beira do tanque, passou o balde ao estado de abandono vitalício, ainda por cima taparam-lhe a boca, nem gritar ele pode, coitado. Suplício supremo, penso eu, quase o de Tântalo. 
M