quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

260.


Foto de M
Já cá faltava o pássaro encarrapitar-se no bengaleiro! Escolheu este poleiro improvisado para passar a noite de ontem em vez do cantinho no parapeito da janela da sala de estar onde costuma aconchegar-se. É capaz de sentir a falta de jardins espaçosos com árvores frondosas onde pode saltitar de ramo em ramo. Bem sei que os tectos de uma casa escondem o céu, são de certo modo restritivos para quem aprecia o ar livre, contudo tive sempre o cuidado de o deixar à solta por aqui. Provavelmente num desses seus voos viu o chapéu de palha e pensou que eu o usaria quando saísse de manhã. Uma bela oportunidade para fugir... talvez viajando na minha cabeça... ninguém daria por isso, andam todos na rua com os olhos postos nos telemóveis, indiferentes aos tropeções provocados pelas pedras soltas nos passeios. E ainda que alguma pessoa reparasse nele não acharia estranho aquele ninho ambulante sobre a minha cabeça, há tantas originalidades, tantas evasões à rotina, não é? Compreendo que o Chapim Real se sinta um pouco constrangido neste meu ambiente urbano de cidadã comum. Encontrei-o dentro da loja do Museu Gulbenkian, entre pássaros de diversas linhagens, com nomes e características diferentes, apaixonei-me por ele e trouxe-o comigo, mas parece-me que nunca viveu completamente feliz aqui, provavelmente saudoso do seu jardim, de outros ares e dinastias. Raramente pia, apenas quando as crianças da casa ou eu lhe apertamos suavemente a barriga, para nós um gesto carinhoso, se calhar desconfortável para ele. Enfim, já não sei qual de nós os dois confundiu a realidade com a fantasia, nem quero saber.
M

sábado, 28 de dezembro de 2019

2020 a caminho das nossas vidas


Fotos de M

Recebamos 2020 com flores e pássaros.
M

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

NATAL, UM LUGAR NAS NOSSAS VIDAS


Foto de M

4. E para o ano... há mais Natal? 

Se para o ano haverá mais Natal não sei, essa é uma das perguntas que todos nós fazemos em relação ao futuro e para a qual não temos resposta segura, por causa da finitude humana versus permanência ou renovação da vida. Uma coisa sabemos de certeza e foi David Mourão-Ferreira que a deixou escrita com palavras muito belas no início da sua Ladainha dos Póstumos Natais: «Há-de vir um Natal e será o primeiro/em que se veja à mesa o meu lugar vazio». Mas, haja ou não mais Natal para o ano, a Natureza enfeitar-se-á como de costume e confortará quem a sentir como fazendo parte de si.

M

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

NATAL, UM LUGAR NAS NOSSAS VIDAS


Foto de M

3. A literatura e o Natal
  
TOADA DE NATAL

Um pássaro a cantar na laguna estagnada
Frutos no capitel de uma coluna exangue
É assim que o Natal se nos pousa na alma
É assim que o Natal tem um gosto a laranja

Do gira-discos sobe um concerto de Bach
Que importa que lá fora o vento se levante
É assim que o Natal habita a nossa casa
É assim que o Natal desperta a nossa infância

Mas penso no que seja a noite de hoje em Praga
Vais a dizer Jesus e dizes Vietname
É assim que o Natal nos dilacera a carne
É assim que o Natal nos parece um alfange

E ficamos os dois de mãos entrelaçadas
E filtramos a luz e a sombra deste instante
É assim que o Natal nos vai enchendo a taça
É assim que o Natal nos aperta a garganta

1968

David Mourão-Ferreira, Obra Poética 1948-1988 (Cancioneiro de Natal 1960-1987, páginas 226 e 227), Editorial Presença, Julho de 1996 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

NATAL, UM LUGAR NAS NOSSAS VIDAS


Foto de M 

2. A história de Natal que eu contaria 

AS CONSULTAS DE QUINTA-FEIRA


Havia anos que os vinte quilómetros de estrada secundária o levavam todas as semanas às consultas de quinta-feira. Grande parte dos seus doentes, por quem sentia um afecto muito especial, vinha do tempo da “periferia”, quando ele e outros colegas ali tinham sido colocados, ao abrigo da política de saúde do governo da altura. Para um rapaz novo, praticamente acabado de sair da faculdade, tinha sido difícil trocar os sonhos de uma carreira médica na capital pela pacatez de um posto de saúde algures numa terra longínqua. O trabalho depressa o fizera compreender a utilidade daquela experiência e o convívio com os colegas trouxera-lhe amizades para a vida inteira. Mais tarde, terminada a “periferia”, mantivera as consultas às quintas-feiras. “Ao menos uma vez por semana vou visitar a família!...”, dizia por graça.
Olha quem ali está, comentou para consigo. O Ti Manel e as suas vinhas! Há que meses não o via. Ainda bem, era sinal de saúde. Aparecera-lhe no consultório por alturas do último Natal, não que estivesse doente, o homem era rijo: “Venho desejar-lhe Boas Festas e oferecer-lhe duas garrafinhas de vinho para o Senhor Doutor beber com a sua senhora.” Buzinou e acenou-lhe através da janela.
- Bom dia Nelson, como vai? - disse, ao passar junto do porteiro do Centro de Saúde - Hoje há muita gente para mim?
- Bom dia Doutor Brandão! Alguma... Começa o inverno, aparecem os espirros...
- O pior é se não tenho lenços suficientes para os espirros da alma...

M

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

NATAL, UM LUGAR NAS NOSSAS VIDAS


Foto de M 

1. As luzes e as sombras do Natal  
Entre as várias fotografias que resguardo na pasta dos meus Natais em família ao longo dos anos escolhi esta, relativamente recente, por me parecer significativa para o tema sugerido. Olho-a demoradamente, o ambiente de luz e sombras encanta-me. Os suportes de vidro das velas vermelhas lembram-me o carreirinho empedrado de um postal meu de criança onde três meninos caminham uns atrás dos outros, com lanternas acesas nas mãos, pelo meio do arvoredo. Imagino-os à procura do Presépio que a minha Tia Chanel fazia, com muitas figuras de barro pintado e musgo apanhado na Tapada da Ajuda. Dezembro tinha sempre uma agenda cheia e a preparação da ementa do jantar de Natal estava na lista. Comprou-se então um perú ao homem que passava na rua (em bairro de Lisboa!) orientando com um graveto o seu bando de perús. Levado ao colo escada acima para a cozinha do nosso terceiro andar, viria mais tarde o pobre animal a cambalear tristemente, embriagado pela aguardente que lhe tinha sido despejada goela abaixo. De tal maneira o episódio me impressionou que ainda o vejo entre as sombras da memória, mais a faca nas mãos da cozinheira pronta para o degolar. Cena cruel, convenhamos. Afastei-me, incomodada, antes que o “perucídio” se consumasse diante de mim, e refugiei-me em pensamentos alegres, antecipando os momentos de festa dos dias seguintes. Na manhã de 25 de Dezembro, em fila indiana, todos de roupão, o meu Pai na frente, a minha Mãe, eu e o meu irmão, dirigimo-nos à cozinha, ansiosos por descobrir que surpresas guardariam os nossos sapatos ali colocados na véspera. Após limpeza primorosa do fogão a gás e da chaminé larga, por onde desceria o Menino Jesus (na casa da minha infância não existiam exaustores nem o Pai Natal era visita da família), tornara-se a cozinha palco digno de coreografia natalícia. 
Um tempo que foi e continua a marcar presença, embora de maneira diferente. Porque o Natal é um lugar nas nossas vidas.

M

domingo, 10 de novembro de 2019

259.


Foto de M 

Andei por aqui e por ali até que ela decidisse qual o melhor recanto onde me colocar para ficarmos no ângulo de visão uma da outra. O aqui e o ali fazem parte da sala de estar, e eu também, desde o dia em que passei a morar neste espaço, tal como sou, com os pés assentes no bloco de pedra-terra e a lua como companhia. Gosto da minha nova casa mas preciso da terra e da lua para continuar viva e aguentar as saudades da Polónia. Trouxeram-me de Varsóvia, ela e ele, há catorze anos. Entraram na galeria onde eu estava e encantaram-se comigo. Ouvi a conversa entre eles e quem os atendeu. Quiseram saber o nome da artista que me tinha criado, a idade, a nacionalidade, a que outros trabalhos artísticos se dedicava. Percebi que costumavam levar para casa algo genuíno dos países por onde passavam. Quando lhe oferecem flores ela pousa-as nesta mesa e então, nesses momentos imagino-me a passear pelos jardins de Varsóvia (se calhar também ela...). Seguro sempre a minha mala na mão, como se não a largar fosse sinal de desejar partir. Ela não se importa, compreende-me, sabe que transportamos connosco os vários tempos das nossas existências. Partilhamos horas caladas e recordamos em silêncio, e de uma maneira muito forte, a bela Varsóvia. De tal maneira forte que por vezes tenho de abrir a mala e tirar de lá o pacote dos lenços para acariciar a emoção. Ela olha para mim e faz o mesmo gesto. Cá em casa existem pacotes de lenços de papel por tudo quanto é sítio, dizem os netos a brincar, até lhe chamam carinhosamente Avó dos lenços. Já os tenho visto por aí a tentar suster o pingo do nariz com aquele ruído húmido que todos nós conhecemos, tão irritante ele é para qualquer pessoa. Então ela dá-lhes um lenço para resolver o problema de forma eficaz e eles lá aceitam a evidência de que não vale a pena perder tempo a fungar ou insistir em secar constipações ou choros com a manga da camisola. Achamos-lhes graça e recordamos a infância, ela em Portugal, eu na Polónia. Talvez tudo seja apenas o aqui e o ali de cada um.
M
A autora da pequena estatueta chama-se Joanna Zakrzewska.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

258.


Fotos de M 

Passadiços das nossas vidas. Eu em passeio, dentro de mim o desejo de me dissolver na quietude da paisagem. Lá em baixo, pessoas provavelmente em trabalho, embebidas de corpo e alma nas águas frias do mar. Lonjuras e proximidades. 
M

(Passadiço na Foz do Arelho)

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

O NOSSO QUERIDO MÊS DE AGOSTO


Foto de M

4. O Tempo dos Outros

Eu em casa a ver talvez o filme Lawrence da Arábia, eles baloiçando numa outra luta, as cabeças protegidas do calor de um agosto de cidade deserta no século 21. 
M

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

O NOSSO QUERIDO MÊS DE AGOSTO


Foto de M 

3. Os Agostos da Nossa Juventude 

Várias fotografias e palavras poderia eu escolher para lembrar os agostos da minha juventude mas elas seriam restritivas pela sua condição de eleitas para um objectivo de ocasião. Se distinguisse apenas determinados episódios e as emoções a eles associadas correria o risco de esquecer por momentos a relevância de outros igualmente marcantes guardados no desejo de absoluto que a memória por vezes tem. Assim, num compromisso meu com essa ideia de absoluto, privilegio esta imagem: nela está contida a essência desse tempo da minha vida. 
M