quinta-feira, 13 de setembro de 2018

254.


Foto de M

Sem pensar duas vezes, correram para a pedra. Pelo menos assim me pareceu. Eu ia atrás deles, em passeio de domingo, e fui ouvindo a conversa, uma palavra aqui, outra ali, mas sem prestar grande atenção. Caminhavam em passo lento, a opinar sobre uma qualquer pedra fracturada. À distância afigurava-se- -lhes suficientemente larga para se acomodarem os três. Aposto que cabemos. Pois eu aposto que não. Então dois de cada vez. Dessa estás tu livre, ninguém é deixado de fora, não foi isso o combinado. Ou há coesão ou nada feito. Na última parte do trajecto calaram-se. Mas nem eu nem os pássaros que por ali esvoaçavam, ou as lagartixas fugidias rasteirinhas aos nossos pés, fazíamos ideia que decisão final teria sido tomada. E talvez nem eles. Quem cala consente mas não sempre, portanto o melhor é evitar entrar no silêncio de cada um, por causa das más interpretações. De repente largaram numa correria na direcção da pedra e o resultado está à vista. Não entendo que bicho lhes mordeu, iam tão devagar... Apanharam-me de surpresa, confesso. Mas depressa arranjaram explicação para o aperto em que se meteram. O artesão que nos moldou imaginou-nos assim, não podemos desiludi-lo. Não achas?, perguntavam uns aos outros. Bem encostados até se relaxa um pouco, argumentava um deles. Ora, balelas! A ergonomia funciona apenas contigo, só tu tens sofá esculpido à tua medida. Gente estranha... Deixei-os lá com aquela conversa maluca. Há cada um! 
Limitei-me a dizer Pois... ao meu interlocutor do momento, palavra que utilizo em impasses de conversas.
M

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

253.


Foto de M 

Pousei-a há tempos sobre o braço do sofá e ela ali ficou, dobrada entre tons suaves e franjas entrelaçadas. Foi então num dia calado que dei comigo a olhá-la do outro lado da sala, de um outro lugar, e recebi o afecto macio de uma manta que nada pede. 
M

domingo, 17 de junho de 2018

EXPERIÊNCIAS: AINDA O VOO DOS PÁSSAROS


Foto de M

Voltou a enganar-se, o pássaro. Tomou como nuvem o que era apenas um rolo de papel de cozinha. Coitado, continua no poleiro, virado para a parede.

sábado, 16 de junho de 2018

EXPERIÊNCIAS: UMA QUESTÃO DE DIRECÇÃO DO VOO


Foto de M 

Quando se voa convém saber qual a direcção a tomar. Às vezes o brilho é apenas o de um rolo de folha de alumínio.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

EXPERIÊNCIAS




Fotos de M

quarta-feira, 4 de abril de 2018

252.


Foto de M 

Este frasco de elixir ofereceu-mo uma amiga. Tinha dentro um saco pequeno, daqueles todos dobradinhos para trazer na mala, preparados para os imprevistos que não cabem nas nossas mãos. Azul macio, com pássaros amarelos de asas abertas prontas a esvoaçar. Do meu apreço por sacos e pássaros sabe a minha amiga e com esse presente me provocou acomodando-o discretamente por detrás das palavras mágicas pintadas no vidro, certa de que ele e eu nos olharíamos com agrado. Não seria a sua casa definitiva, guardei-o no tal lugar onde os imprevistos o procurariam. Ficou vazio o frasco. Ou talvez não, pois parece-me que o invisível preserva o que desconhecemos e possui arte q.b. para preparar o composto do tal elixir desejado por todos nós. Não importa a língua em que é nomeado, cada um procura descobri-lo como pode e bebe-o de acordo com o seu paladar. Nem sempre tarefa fácil, por vezes a sombra ofusca a luz, sabemos isso por experiência própria. Neste caso, por exemplo, equilibrar o frasco na minha mão esquerda, qual aranha pronta a alimentar-se do que lhe cai na teia, e com a outra premir o botão da máquina fotográfica acoplada ao tripé, constituiu desafio moroso para conseguir uma imagem razoável. Não me admiro, se calhar a felicidade exige-nos disponibilidade para a encontrarmos entre os delicados fios de seda que vai tecendo com mestria para se abrigar do imponderável. 
M

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

251.


Foto de M

Não oiço os músicos nem o toque efusivo dos sinos a ecoar na serra. Talvez estejam a descansar. Imóveis os sinos na torre da igreja, os homens no adro, em conversa animada depois de saborosa refeição, a chanfana e o vinho da região a seduzir-lhes os sentidos. Os mordomos encarregados de organizar as festividades da padroeira da aldeia esmeraram-se na tarefa, que o acontecimento é de relevo numa povoação determinada a manter na memória esta parte da vida que lhe pertence. Escolheu-se a banda, ter-se-ão ajustado os euros a pagar, quantos não faço ideia. As conversações terão demorado várias horas, propostas e contrapropostas, assim me diz a experiência da minha vivência naquele lugar onde cada um observa o outro, nas mãos o copo de vinho da adega da casa, ou de aguardente, oferecidos entre palavras ditas e pensamentos resguardados. O contrato habitual é que toquem os músicos na missa e, finda esta, acompanhem solenemente a procissão atrás do padre e dos andores com as imagens dos santos. Só depois almoçam no salão da Junta de Freguesia, envolvidos pela azáfama das mulheres a servir convidados e mordomos. Um dia de alvoroço na rotina da existência. Festas desejadas ainda pelos escassos habitantes e pelos seus familiares emigrados que em Setembro revivem por breves dias a história de um tempo. Sim, encontrei-os no lugar por mim previsto. A fazer a digestão dos petiscos beirões e a prepararem-se para de novo subir e descer a rua principal da aldeia a tocar, antes de regressarem às suas terras. E eu, comovida, ouvi-os. Como sempre. Naquele momento e na grata lembrança das férias de verão da minha meninice. 
M

sábado, 30 de dezembro de 2017

250. MUDANÇA DE ANO - TEMPO DE LEMBRAR


Foto de M 

Quando um dia vi esta miniatura numa loja comprei-a porque me trouxe ao pensamento o rapaz leiteiro que subia a pé as velhas escadas de madeira do prédio onde eu morava com a minha família, num bairro de Lisboa. Era então no patamar do nosso 3º andar que ele vertia várias vezes o leite da leiteira de alumínio para dentro das medidas, e depois para o nosso fervedor, até completar a quantidade pedida, tão hábil o seu gesto que nem uma pinga de leite caía no chão. Ainda oiço o barulho das medidas e da corrente que as segurava! 
M

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

A MINHA ÁRVORE DE NATAL


Foto de M

E os meus desejos de Boas Festas para quem por aqui passar. 
M

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

249.


Foto de M 

Quando olhei para cima lembrei-me de uma conhecida expressão usada por muitos de nós em certas ocasiões problemáticas. Pois é, ter uma pedra no sapato acontece por aí, seja de gravilha o solo que se pisa, de alcatrão, cimento ou qualquer outro, até o imaginário onde o nosso pensamento circula. Por causa daquelas pedras no telhado, não sei se periclitantes, se tenazes na postura assumida, dei comigo a questionar-me sobre a expressão Ter uma pedra no sapato e cheguei à conclusão que o seu significado extravasa matérias e territórios. Em Villafranca del Bierzo, por exemplo, há quem as tenha no telhado. E o que aconteceria se o telhado fosse de vidro? Com facilidade se partiria, julgo eu, e pronto, ficava tudo em pratos limpos, ou melhor dizendo, em pedacinhos iridescentes, o que por vezes resolve situações em equilíbrio instável. 
M