terça-feira, 7 de julho de 2020

DO QUE GOSTO 25


Foto de S. (Espaços vazios)

A Luz do Vazio

A luz deste lugar vazio de gente, talvez um pouco tímida, discreta, toca com delicadeza cada objecto que descobre na sua passagem, abraça sombras fugidias, encosta-se às paredes, paira. Espera alguém que lhe pegue na mão e suba a escada com ela.
M

(2005)

segunda-feira, 6 de julho de 2020

DO QUE GOSTO 24


Foto de S. (Homenagem a Carlos Paredes)

Sonoridades Entrelaçadas

Quando manifestei ao Sérgio as dificuldades que estava a sentir para conseguir escrever um texto que acompanhasse a sua fotografia com o título Homenagem a Carlos Paredes, ele respondeu-me com um ditado inglês: Honesty is the best policy. Em tradução à minha moda, para quem não conheça a língua, o sentido prático e o pensamento atento dos súbditos de Sua Majestade, direi: A melhor política é ser-se honesto.
É verdade, o melhor é confessar-me... Andava há dias a olhar para esta fotografia, incapaz de escrever uma única letra, e com um incómodo permanente atrás de mim. E sabia porquê: faltava-me conhecer para poder sentir. Nunca assisti a nenhum espectáculo ao vivo de Carlos Paredes e, quando o via na televisão, estava distraída. Não tão distraída, contudo, que não me lembre da sua figura discreta, e de certo modo imbuída de mistério, que, apesar da minha desatenção, me prendia o olhar, ainda que por alguns instantes apenas. Mas a vida tem destas coisas: passamos às vezes pelas pessoas e pelas realidades sem lhes prestarmos a atenção merecida. Atravessamos momentos como se eles não tivessem corpo, como se fossem invisíveis, e nós também, ao ponto de nem sequer nos vermos a nós próprios. Não conheço a razão de tamanha lacuna, deve haver tantas!
Mas, pensei eu, se gosto desta fotografia, se sei que o Sérgio gosta muito dela, se acho que a imagem e o título se completam, e eu não sou capaz de lhe dedicar uma palavra, tenho que remediar este percalço. Foi então que um amigo me emprestou um livro sobre Carlos Paredes e uma mão cheia de CDs para eu ouvir. Passei o fim-de-semana a escutá-lo atentamente e a sentir o que até hoje deixei escapar. Mas afinal que importa a distância do tempo, se formos capazes de viver um passado que é ao mesmo tempo presente?
Entro dentro da sala onde a luz de um holofote incide redonda em cima de um homem, figura única sobressaindo na escuridão do palco, rente ao silêncio dos espectadores. Debruçado sobre uma guitarra portuguesa, tem ele ali uma conversa entre mãos, sonoridades entrelaçadas que tocam os nossos corpos e nos deixam presos às cadeiras. Não ouso falar, as minhas palavras seriam intromissões num momento de tanta beleza.
M

(2005)

domingo, 5 de julho de 2020

DO QUE GOSTO 23


Foto de S. (Pórtico)

Uma Questão de Proporção

O gigante subia a serra em passadas largas, a sacola de linho grosso baloiçando ao ritmo do seu caminhar. Parava de quando em quando, para recuperar o fôlego que a pressa de chegar lhe roubava.
Finalmente o cimo verde do monte! Ali se sentou, as pernas cruzadas sobre o chão húmido, absorvendo nos seus olhos grandes as lonjuras em redor. O ar limpo das alturas antecipava-lhe o apetite: procurou dentro do saco o imprescindível nougat, companheiro de sempre nos passeios sem horas marcadas. Retirou-lhe cuidadosamente a película amarela que o protegia, lambeu os dedos pegajosos, deu-lhe a primeira dentada e, com um sorriso nos lábios, mastigou a beleza da serra.
M

(2004)

sábado, 4 de julho de 2020

DO QUE GOSTO 22


Foto de S. (Perder o chão)

Recordação

A memória da vida não precisa de chão, esvoaça dentro de nós. Tem crianças e adultos; quartos habitados e quartos vazios; portas por onde entramos com um sorriso nos lábios; salas com janelas onde nos encostamos para dizer adeus; vozes e silêncios; música e risos; árvores e flores; cor e sombras. Umas vezes conversa connosco, outras vezes cala-se, para que a ouçamos melhor.
M

(2005)

sexta-feira, 3 de julho de 2020

DO QUE GOSTO 21


Foto de S. (Texturas)

O Medalhão

O medalhão, que mais parece poisado ao de leve na parede desta casa de pedra em tons ferruginosos, trouxe-me à ideia aquelas senhoras que põem uma jóia no decote da blusa quando se alindam para sair. Outras vezes de lado, em equilíbrio no ombro do vestido, para lhe dar realce, ou ainda noutras ocasiões, preso na lapela do casaco. Casaco de Inverno, de tecido de lã quente, fofo, encorpado, com borbotos a acrescentar-lhe certa graça. Não, não é comprado no armazém de pronto-a-vestir, que há hábitos antigos que ainda se mantêm por aí. Estou a vê-lo, o empregado da loja atencioso, retirando da prateleira atrás de si a tábua de enrolar fazenda. Poisa-a em cima do balcão, desdobra o tecido com mãos de conhecedor, dá-lhe alguma forma para que a cliente o imagine em figura de gente. Veja o toque desta peça, minha senhora. E espera, e observa, e sugere. E mede, a régua de madeira incrustada no balcão, gasta de tanto toque, de tanta medição rápida, de tanta elegância de gestos. Depois corta, a tesoura em pressa afiada de atleta cortando a meta: tantos metros para casaco curto, outros tantos se o quiser comprido.
Seguidamente é a modista quem toma conta da situação: mostra a revista da moda de Outono-Inverno, a estação da melancolia, dos tons suaves, da resignação da Natureza. E aguarda. E aconselha, que a sua função não é apenas a de talhar, alinhavar e coser tecidos. Conhece os gostos da cliente: − Parece-me que à senhora a favorece mais um casaco a direito, bem comprido. Realça-lhe o corpo. Como é magra…
A cliente está indecisa, folheia de novo a revista (a modista é paciente). Decide-se pelo modelo de gola estreita e rebuço, a pensar no medalhão que pertenceu à avó. Fica ali muito bem, sóbrio e elegante, a condizer com os tons do casaco. Sorri. Lembra-se daquele outro medalhão maior que ornamenta uma das paredes da casa antiga dos bisavós, no meio do jardim onde brincava em criança. Como um alfinete preso na lapela de um casaco…
M

(2005)

quinta-feira, 2 de julho de 2020

DO QUE GOSTO 20


Foto de S. (Fim de tarde em Saturno)

A Caixa de Bombons

Tinham combinado encontrar-se pelas oito horas da noite e ele ainda na loja, com as calças e o blusão de todos os dias, o cabelo grisalho mal penteado, a barba descuidada. Tirava uma caixa da prateleira, voltava a colocá-la no mesmo sítio, pegava noutra, retirava vagarosamente os óculos do bolso da camisa, ajustava-os bem ao nariz, espreitava por cima dos aros em busca de ajuda de quem estivesse por perto. “Não sei qual hei-de levar. É difícil escolher. O que lhe parece esta, minha senhora?”, perguntava, ao mesmo tempo que procurava o prazo de validade na embalagem, o preço, o peso do conteúdo… Tudo quanto fosse letra, pequena, grande, em português, em chinês, em todas as línguas, era esmiuçado até à exaustão. “O senhor já se decidiu? Os chocolates dessa caixa que tem na mão são de muito boa qualidade…”, aconselhou o empregado, um meio sorriso esboçado, o olhar vagueando pelos rostos dos outros clientes. Para ele era um jogo de adivinhas saltitar de uns para os outros, tentando descobrir nas expressões de cada freguês os seus desejos ou indecisões.
Estou na dúvida entre esta caixa de bombons e aquela… Gostava de dar um presente bonito…
Depende da pessoa para quem é… – respondeu o empregado, solícito.
É para uma senhora que não vejo há muito. Vou jantar com ela hoje à noite. Reviver bons momentos do passado…
Então porque não lhe oferece a caixa com a paisagem? É bonita para um jantar romântico…
- Tem razão. Até lembra o dia em que a conheci… – confidenciou o cliente com um sorriso a escapar-se-lhe da memória. – Faça então o favor de a embrulhar. O meu mal foi ter sido sempre tão indeciso…
M

(2004)

quarta-feira, 1 de julho de 2020

DO QUE GOSTO 19


Foto de S. (O homem que via passar os comboios)

As Viagens do Pensamento

É curioso como o mundo entra dentro de nós através dos nossos sentidos, viaja pelos atalhos íntimos de cada um e depois regressa ao seu lugar primeiro com os contornos de quem o sentiu.
Acontecia assim com este homem, pescador numa praia deserta, baloiçando os dias sobre as águas. Vivia da pesca. Sentado no seu barco a motor horas a fio, preparava as redes, desembaraçava-as, lançava-as ao mar, esperava. E esperava olhando aquela gigantesca locomotiva avançando pelo oceano adentro.
Sempre tinha gostado de comboios, afeiçoara-se-lhes no livro da escola, sonhava com eles, atravessava cidades e campos em viagens imaginadas por si. Dentro do seu pensamento havia carris sobre os quais deslizavam carruagens apinhadas de famílias, de pessoas a caminho do emprego, de raparigas que lhe acenavam sorrisos à distância, de gente em férias, de malas, de cestos, de sacos de correio com cartas apaixonadas… Cartas que ele sabia de cor, cada frase repetida devagar, palavra a palavra, saboreada até à sílaba, até se derreter na sua boca como um bombom. Homens, mulheres, crianças que embarcavam e desembarcavam com ele em estações a abarrotar de movimento, relógios a marcar o tempo, apeadeiros desertos que estremeciam com o apito do comboio assinalando a sua passagem desenfreada.

Foi-se o último comboio do dia, disse o pescador com um sorriso ao canto da boca. Agora tens que me dar boleia. E, depois de levantar as redes carregadas de peixe e de o despejar nos caixotes no fundo do barco, pôs o motor do Viajante do Mar a trabalhar e largou em direcção a casa.
M

(2005)

terça-feira, 30 de junho de 2020

DO QUE GOSTO 18


Foto de S. (Silhuetas de amigos)
 
Podia ser o título de um filme


Silhuetas de amigos. Podia ser o título de um filme a preto e branco. Mudo, com gestos apenas, daqueles em que se adivinham os afectos por detrás das fisionomias, desenrolados no mutismo da bobina, o argumento saltando para o ecrã do nosso silêncio. O silêncio do entendimento das imagens sem voz audível dentro de nós, o prazer da conjectura sobre o que não é claramente revelado.
Julgo que o ritual da pesca é também calado e pensativo, cada gesto lento, avaliado antes de a linha ser lançada longe. Um diálogo de palavras guardadas entre o pescador e a cana de pesca, expectativas atiradas sobre a água que corre mansa, desejos que flutuam, que mergulham, que desafiam. A tentação espetada no anzol, e o peixe lá em baixo, um pequeno isco atravessando-se na sua estrada azulada, obrigando a um desvio de caminho, a uma paragem. Um salto, um paladar a experimentar, um sabor a que se não resiste, um puxão na linha, um sinal rapidamente enrolado no carreto. Uma desilusão agarrada ao anzol? Que importa? Existem mais engodos miúdos dentro da cesta à espera dos dedos hábeis do pescador.
Acção! De novo o ritual da cilada, luz e sombra, contrastes na paisagem. Há que respeitar o fim do filme: um peixe preso num voo contrafeito, dançando o seu último bailado prateado a solo, pingando azul sobre o sorriso do pescador, debatendo-se a seus pés com a vida. Desistindo dela, impotente perante a degustação adiada de um homem paciente.
M

(2005)

DO QUE GOSTO 17


Foto de S. (Volto já)

Um Quiosque na Praia


Um chapéu amarelo tapando-lhe o cocuruto, a condizer com o resto da toilette e com o lugar ao sol porque, mesmo tratando-se de um quiosque, convém cobrir a cabeça. Por causa do calor outonal encoberto, resquícios do Verão, dos dias em que o sol escaldava os corpos despidos.
Um certo ar oriental, também, naquela aba revirada para cima, à semelhança das bailarinas tailandesas, braços e dedos esguios graciosamente levantados dançando ao som de músicas longínquas para lá da linha do horizonte. Ou minarete de mesquita, não se dê o caso de algum veraneante precisar de ser discretamente lembrado das suas obrigações espirituais, que em indumentárias balneares se esquecem por vezes as religiões e os seus preceitos.
Ali em cima está escrito: Volto já. Não sei se volta, quem quer que tenha deixado o aviso. Falsas promessas, possivelmente. O Verão fechou as portas e com ele levou a rapariga que aqui trabalhou durante as férias. Talvez de costas para o mar, ou talvez não. Quem sabe abria todas as janelas em redor desta casa emprestada e poisava o seu olhar no azul imenso. Para lá das revistas e dos jornais que pendurava do lado de fora do quiosque, em exposição. Longe das bóias e das braçadeiras balançando leves; indiferente aos pentes e aos ganchos de cabelo coloridos; alheia aos baldes com pás e formas dentro, figuras plastificadas de caranguejos, patos, estrelas-do-mar, peixes, conchas, barcos… Tudo ali dependurado: tentação de criança, berros de criança, sorrisos e tristezas de meninos, sonhos de meninos, birras também. Ralhos de adulto, equívocos de adulto, benevolências de adulto, recordações em fato de banho, baldes vermelhos repletos de infâncias antigas à espera da água colhida no mar. Castelos, bolos e sabores de areia de outros tempos dissolvidos num ápice; novos castelos e novos sabores agora, outros bolos moldados pelas mãos dos filhos e dos netos, e dos sobrinhos. Buracos cavados na areia molhada pela fantasia de outros filhos, de outros netos, de outros sobrinhos, os dos amigos no toldo ao lado. Que importam as mãos, que importam os baldes? Repetem-se os gestos, ainda que a areia escorregue entre os dedos.
Espero que não volte tão cedo, quem quer que tenha deixado o aviso lá em cima. Gosto do quiosque no Outono da praia, despido das cores estivais, recolhido em meditação neste vazio de gente.
M
 
(2005)

segunda-feira, 29 de junho de 2020

DO QUE GOSTO 16


Foto de S. (Solidão)

Alguém

Costumava acompanhar-se a si mesmo na vastidão da praia, os bolsos das calças repletos de conchas e búzios, pequenos presentes que o mar lançava nas suas mãos.
M

(2005)