quinta-feira, 18 de abril de 2019

257.


Foto de M 

Do que vejo e me impressiona nas ruas por onde passo. Feridas na pele de um corpo marcado por privações, o abandono escancarado, um aceno deixado ao relento, delicado e branco como a dor pode ser. Quem? Porquê? Quando? 

M

sexta-feira, 12 de abril de 2019

256.


Foto de M 

Lembrei-me deles quando ali passei. Imaginei-os diante deste recanto de luz e sombras, sentados em banquinhos desdobráveis de lona parda, a caixa das tintas pousada no chão, a tela no cavalete enriquecida aos poucos com as pinceladas reveladoras da forma particular como olhavam o mundo. Era um dia de maio e eu passeava pela aldeia respirando a pureza que ela me oferecia. 

M

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

FELIZ NATAL


Foto de M

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

255.


Foto de M

Quando eu era pequena os meus Pais tinham uma empregada que me contava histórias aterradoras. Uma delas era a de um ladrão que trepava as paredes com pé direito alto do prédio antigo onde vivíamos e entrava dentro de casa pela janela do meu quarto no terceiro andar. Claro que seria impossível alguém chegar até lá, a não ser com andaimes, mas eu não conseguia ter esse raciocínio e ficava apavorada. Assim, mal anoitecia, fechava rapidamente as portadas, e tremia de medo a imaginar o tal homem suspenso pelos braços, as mãos cravadas no parapeito, preparado para entrar. Chegada a hora de me deitar, enroscada em pensamentos assustadores, só conseguia adormecer depois de espreitar debaixo da cama para me certificar de que ninguém se tinha escondido ali. Espreito, não espreito, e se está aqui alguém... Ui, o medo quase me paralisava! Teria sido mais avisado se tivesse revelado aos meus Pais o que me afligia, mas nunca o fiz e eles também nunca se aperceberam da arte de contadora de histórias horríveis da empregada. O prédio existe ainda, enorme e de boa saúde, rondo-o às vezes, mas nunca vejo ninguém com aspecto de ladrão pendurado nele. Só durante as festas natalícias aparecem por lá vários sósias de Pai Natal insuflável com os sacos às costas carregados de presentes sonhados por meninos em cartas escritas pela fantasia. Passam dias e noites equilibrados nos ferros das varandas, plastificados a preceito, o debrum do gorro vermelho misturando-se com as barbas brancas, o cinto preto com fivela dourada envolvendo a barriga proeminente sob o casaco, sem que ninguém lhes abra as janelas e receba as encomendas. Momentos de desilusão, suponho, atenuados pelas descrições divertidas dos percalços encontrados nas suas viagens em trenós puxados por renas, entre a saída da Lapónia e a chegada ao destino. Talvez alguma criança nos oiça, costumam gostar de aventuras, comentavam entre si.
M

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

254.


Foto de M

Sem pensar duas vezes, correram para a pedra. Pelo menos assim me pareceu. Eu ia atrás deles, em passeio de domingo, e fui ouvindo a conversa, uma palavra aqui, outra ali, mas sem prestar grande atenção. Caminhavam em passo lento, a opinar sobre uma qualquer pedra fracturada. À distância afigurava-se- -lhes suficientemente larga para se acomodarem os três. Aposto que cabemos. Pois eu aposto que não. Então dois de cada vez. Dessa estás tu livre, ninguém é deixado de fora, não foi isso o combinado. Ou há coesão ou nada feito. Na última parte do trajecto calaram-se. Mas nem eu nem os pássaros que por ali esvoaçavam, ou as lagartixas fugidias rasteirinhas aos nossos pés, fazíamos ideia que decisão final teria sido tomada. E talvez nem eles. Quem cala consente mas não sempre, portanto o melhor é evitar entrar no silêncio de cada um, por causa das más interpretações. De repente largaram numa correria na direcção da pedra e o resultado está à vista. Não entendo que bicho lhes mordeu, iam tão devagar... Apanharam-me de surpresa, confesso. Mas depressa arranjaram explicação para o aperto em que se meteram. O artesão que nos moldou imaginou-nos assim, não podemos desiludi-lo. Não achas?, perguntavam uns aos outros. Bem encostados até se relaxa um pouco, argumentava um deles. Ora, balelas! A ergonomia funciona apenas contigo, só tu tens sofá esculpido à tua medida. Gente estranha... Deixei-os lá com aquela conversa maluca. Há cada um! 
Limitei-me a dizer Pois... ao meu interlocutor do momento, palavra que utilizo em impasses de conversas.
M

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

253.


Foto de M 

Pousei-a há tempos sobre o braço do sofá e ela ali ficou, dobrada entre tons suaves e franjas entrelaçadas. Foi então num dia calado que dei comigo a olhá-la do outro lado da sala, de um outro lugar, e recebi o afecto macio de uma manta que nada pede. 
M

domingo, 17 de junho de 2018

EXPERIÊNCIAS: AINDA O VOO DOS PÁSSAROS


Foto de M

Voltou a enganar-se, o pássaro. Tomou como nuvem o que era apenas um rolo de papel de cozinha. Coitado, continua no poleiro, virado para a parede.

sábado, 16 de junho de 2018

EXPERIÊNCIAS: UMA QUESTÃO DE DIRECÇÃO DO VOO


Foto de M 

Quando se voa convém saber qual a direcção a tomar. Às vezes o brilho é apenas o de um rolo de folha de alumínio.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

EXPERIÊNCIAS




Fotos de M

quarta-feira, 4 de abril de 2018

252.


Foto de M 

Este frasco de elixir ofereceu-mo uma amiga. Tinha dentro um saco pequeno, daqueles todos dobradinhos para trazer na mala, preparados para os imprevistos que não cabem nas nossas mãos. Azul macio, com pássaros amarelos de asas abertas prontas a esvoaçar. Do meu apreço por sacos e pássaros sabe a minha amiga e com esse presente me provocou acomodando-o discretamente por detrás das palavras mágicas pintadas no vidro, certa de que ele e eu nos olharíamos com agrado. Não seria a sua casa definitiva, guardei-o no tal lugar onde os imprevistos o procurariam. Ficou vazio o frasco. Ou talvez não, pois parece-me que o invisível preserva o que desconhecemos e possui arte q.b. para preparar o composto do tal elixir desejado por todos nós. Não importa a língua em que é nomeado, cada um procura descobri-lo como pode e bebe-o de acordo com o seu paladar. Nem sempre tarefa fácil, por vezes a sombra ofusca a luz, sabemos isso por experiência própria. Neste caso, por exemplo, equilibrar o frasco na minha mão esquerda, qual aranha pronta a alimentar-se do que lhe cai na teia, e com a outra premir o botão da máquina fotográfica acoplada ao tripé, constituiu desafio moroso para conseguir uma imagem razoável. Não me admiro, se calhar a felicidade exige-nos disponibilidade para a encontrarmos entre os delicados fios de seda que vai tecendo com mestria para se abrigar do imponderável. 
M