quarta-feira, 1 de julho de 2020

DO QUE GOSTO 19


Foto de S. (O homem que via passar os comboios)

As Viagens do Pensamento

É curioso como o mundo entra dentro de nós através dos nossos sentidos, viaja pelos atalhos íntimos de cada um e depois regressa ao seu lugar primeiro com os contornos de quem o sentiu.
Acontecia assim com este homem, pescador numa praia deserta, baloiçando os dias sobre as águas. Vivia da pesca. Sentado no seu barco a motor horas a fio, preparava as redes, desembaraçava-as, lançava-as ao mar, esperava. E esperava olhando aquela gigantesca locomotiva avançando pelo oceano adentro.
Sempre tinha gostado de comboios, afeiçoara-se-lhes no livro da escola, sonhava com eles, atravessava cidades e campos em viagens imaginadas por si. Dentro do seu pensamento havia carris sobre os quais deslizavam carruagens apinhadas de famílias, de pessoas a caminho do emprego, de raparigas que lhe acenavam sorrisos à distância, de gente em férias, de malas, de cestos, de sacos de correio com cartas apaixonadas… Cartas que ele sabia de cor, cada frase repetida devagar, palavra a palavra, saboreada até à sílaba, até se derreter na sua boca como um bombom. Homens, mulheres, crianças que embarcavam e desembarcavam com ele em estações a abarrotar de movimento, relógios a marcar o tempo, apeadeiros desertos que estremeciam com o apito do comboio assinalando a sua passagem desenfreada.

Foi-se o último comboio do dia, disse o pescador com um sorriso ao canto da boca. Agora tens que me dar boleia. E, depois de levantar as redes carregadas de peixe e de o despejar nos caixotes no fundo do barco, pôs o motor do Viajante do Mar a trabalhar e largou em direcção a casa.
M

(2005)

2 comentários:

Anónimo disse...

Toda esta beleza de sentimento, olhar, palavra.
Considero importante que se recorde e reveja, tão belos são estes acordes em distância. Como um violino.
B

Justine disse...

um encanto! E eu, que conheço o Gronho há 60 anos, que tantas vezes o subi a pé até mesmo à plataforma superior, de onde observávamos as Berlengas ao pôr-do-sol, nunca me passou pela cabeça compará-lo com uma locomotiva!