«…O homem que teve a ideia de bordar as estradas com estas plantas devia ter uma estátua na ilha. Em nenhum outro lugar elas prosperam melhor: querem luz velada, humidade e calor – estão no seu meio. O seu azul é o azul esmaltado dos Açores nos dias límpidos. Nos dias turvos substituem a cor do céu: são o azul desta terra enevoada e uma das suas maiores belezas. Imaginem o cinzento que se derrete e alastra e torna o céu mais escuro, a atmosfera mais húmida, e sob isto o azul cada vez mais azul, as molhadas de flores duma cor cada vez mais intensa e mais fresca. Há-as por toda a parte: nas estradas formando alas e nos campos formando sebes; servindo para dividir os terrenos e de tapagem aos animais pacíficos. Enchem a terra de exuberância e de azul.»
Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas – Notas e paisagens, Edição Artes e Letras, Setembro de 2009
Chamam-lhe Ilha Azul. Por causa das hortênsias que por todo o lado nos saúdam. À beira das estradas, ou a dividir os terrenos - que no Faial não há quase pedra -, impedindo assim incursões indesejadas das vacas em casa alheia, e servindo de protecção ao gado que fica ao ar livre. Felizmente que as simpáticas vacas não apreciam este manjar azul, deixando-o à disposição da criatividade dos artesãos. Porque fáceis de manipular, os troncos das hortênsias permitem trabalhos artesanais que, segundo me foi dito, terão começado no séc.18 pelas mãos das freiras nos conventos, com projecção internacional no séc.19, na Exposição Universal de Paris. M
Estrada para Praia do Norte, Ilha do Faial, Açores
Porque encontrei na net um site muito bem feito e muito interessante, com informação detalhada sobre a história do mundialmente conhecido Peter Café Sport, apenas partilho convosco algumas fotografias que tirei nesse lugar especial. M
Lugar de presenças onde não ousei sentar-me. Preferi olhá-los de frente e imaginar-lhes a vida. M
Hotel do Canal, Horta, Ilha do Faial, Açores
(Alan Villiers (1903–1982), nascido em Melbourne, na Austrália, escritor, fotógrafo, capitão de navio mercante apaixonado pelo mar, navegou pelo mundo relatando as suas experiências marítimas. Em 1950, convidado por Pedro Teotónio Pereira, embaixador português em Washington, a documentar a pesca do bacalhau na Terra Nova a bordo do lugre português Argus, regista as duras fainas dos pescadores durante os cinco meses de viagem. Mais tarde, com base nessas anotações, escreveu o livro A Campanha do Argus em que manifesta a sua admiração por aqueles homens.)
Presença cosmopolita na distância de mares e continentes em estratégias de guerras passadas, permanece a cidade debruçada sobre o universo da História. Agora num outro tempo, o nosso, também ele feito de viagens e constâncias. M
Ter o mapa do território diante dos olhos ao mesmo tempo que viajava dentro desse mesmo território foi fascinante para mim. Como se precisasse de o ver em escala reduzida, para melhor o imaginar e sentir antecipadamente e nele me entranhar depois sem limites de sensações. M
«Debruçado sobre a popa do vapor, vi-as, pouco maiores do que andorinhas, todas pretas e com uma pinta branca ao pé do rabo, passar e repassar em bando pela água remexida da hélice, pela água esbranquiçada de sabão, mergulharem, levantarem, voltar ao redemoinho. E isto sempre, sempre, a poder de asas e no alto mar, muito longe da terra. São as pardelas, que nunca deixam de acompanhar a hélice, procurando o alimento na água revolvida e acompanhando o vapor pelos sítios mais arredados do oceano Atlântico. Os marinheiros, que nunca as vêem pousadas, e quando olham as encontram sempre voando na esteira do barco, dizem que fazem o ninho debaixo da asa. Este frenesi, este bater de asas, esta fragilidade incansável na solidão tremenda do oceano, deram-me uma impressão de vida e de frescura extraordinárias, como se eu visse estes bichos, nados e criados no mar, saírem das suas entranhas.»
Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas – Notas e paisagens, Edição Artes e Letras, Açores, Setembro de 2009
Ainda os cagarros, agora e aqui, em histórias de aves e meninos. Segundo me foi contado, estas aves, durante a noite, só veem quando afastadas do mar, onde passam o dia no embalo das ondas buscando peixe até catorze metros de profundidade. Retiram-se para terra ao anoitecer e aí descansam da azáfama piscatória ao som de um canto muito seu que lembra, a quem o escuta, Agarra, agarra! Felizmente que eu não o ouvi, senão morria de susto, como os meninos açorianos a quem os pais ameaçam com a frase Olha que vem lá o cagarro! sempre que eles fogem ao cumprimento das suas ordens. Ou então portei-me bem. Não, talvez o mais certo seja eu não ter medo de papões. E de cagarros ainda menos, são tão bonitos onde quer que estejam. M
Apaixonei-me por este pássaro há mais de trinta anos. Tinha o seu ninho entre objectos muito belos e únicos, numa loja em Inglaterra de nome Four Seasons. Trouxe-o comigo. Vivia eu então o verão da minha vida. M
«Os cagarros toda a noite pairam e levam o dia pousados no mar, em bandos enormes, sobre o cardume do chicharro. O delicado garajau cinzento e branco com a cabeça preta, que vem na Primavera e emigra para África em Outubro e Novembro, e a gaivinha, que gosta da tormenta e aparece no Inverno, enchem o azul de revoadas e a vida de encanto. Nos penedos da Madalena é que é criar, voar, voar, viver o delicado garajau. São duas grandes rochas vermelhas no meio do mar – o Ilhéu Deitado e o Ilhéu em Pé. Têm ali os ninhos e levantam voos extraordinários enchendo tudo de penas.»
Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas – Notas e paisagens, Edição Artes e Letras, Açores, Setembro de 2009
Entre Vila da Madalena, na Ilha do Pico, e a Horta, na Ilha do Faial
«Em mil sítios do Pico a água entra e fica parada. Fora, o rumor das ondas que nos deixa sonâmbulos. Ninguém: só água nos charcos, e tão transparente que se distingue perfeitamente o fundo, leve e translúcida como ar, e lá em baixo mantas de pequenos peixes, espinhosos e com bicos, e outros que parecem aves aos bandos.»
Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas – Notas e paisagens, Edição Artes e Letras, Açores, Setembro de 2009
De tão enorme que é, e visível de quase todos os lugares onde estejamos nas ilhas dos Açores, a Montanha do Pico faz-me pensar em crianças de pouca idade a brincar às escondidas. Tantas vezes se resguardam por detrás de um cortinado, um braço de fora, a cabecita a espreitar, os olhos a brilhar num Estou aqui! Outras vezes mal cabendo debaixo de uma mesa, ou de uma cadeira, o corpo pequeno à vista, a meia a fugir do pé, felizes por se julgarem invisíveis aos olhos dos adultos. E nós, supostamente gente crescida, a fingir que não as vemos, o espanto nos Ah, marotos, estavam aí! Apenas porque também nos apetece brincar à maneira da nossa infância. Claro que é tudo uma questão de proporções. Evidentemente que, neste caso, os papéis estão invertidos: a criança serei eu e a montanha o adulto a ver-me lá do alto. E isto partindo eu da fantasia de que ela quer brincar comigo. M
Tão belos os dragoeiros em convívio com o vermelho e a frescura verde entre a sisudez da pedra escura. E o nosso olhar preso nesta paisagem espantosa, um bem-estar a entrar-nos pelos olhos, a percorrer-nos o corpo, a demorar-se dentro de nós. Devagar, como o lento crescimento dos dragoeiros, que, sem pressas, podem chegar aos dois mil anos. Neste espaço do Museu do Vinho, pensa-se que um deles tem oitocentos anos e que, tanto quanto se sabe, será o maior na Europa. M
Museu do Pico, Núcleo do Museu do Vinho, Vila da Madalena, Ilha do Pico, Açores
Muito belo o vermelho sorrindo entre os dragoeiros, o branco das paredes e a pedra escura a proteger as vinhas neste núcleo do Museu do Vinho na Vila da Madalena. Não entrei, que o tempo não mo permitiu, apenas espreitei do lado de fora dos muros. Segundo me disseram, no século 15, um frade siciliano trouxe para o Pico a casta verdelho branco, seco e forte, que veio a desenvolver-se nesta ilha em grandes extensões, e de forma curiosa. Os pés de vinha, um ou dois apenas, crescem dentro de espaços delimitados por muros de pedra que armazenam calor durante o dia (no interior a temperatura pode ter mais dez graus do que no exterior) e assim os protegem do vento e do frio. A partir do século 18, este vinho, muito conceituado na altura, era servido nas festas dos czares da Rússia e foi escolhido para as cerimónias de inauguração da Torre Eiffel. Curioso também na História da cultura do vinho nos Açores à época do Marquês de Pombal é o nome do imposto pago pelos vinhateiros, muitos deles do Faial: o Imposto Literário, usado para renovar o ensino em Portugal. M
Ai quem me dera partir Na canoa da esperança E ir ancorar noutras praias Noutros varadouros Ai quem me dera voltar A gozar dos tesouros Da felicidade que eu tinha Quando era criança
Ai quem me dera ser garça E voar no canal Só entre o Pico e o Faial Me quedar dividida Ai quem me dera mão firme No leme da vida Ai este amor que me mirra Me mata e faz mal
Ai quem me dera de novo As certezas e os medos Ai quem me dera ter credos E não ser indiferente Ai o amor passa ao largo Da vida da gente… Ai já o tempo se escoa Como areia entre os dedos…
Faixa 5 do CD HELENA CANT’AUTORES AÇORIANOS Música e Letra: Aníbal Raposo; Arranjo e Piano: Carlos Frazão; Contrabaixo: Mike Ross; Violinos: Manuel Rocha; Bateria e Percussões: Joaquim Teles (Quiné); Voz: Helena
(*) Inspirado na personagem Margarida do livro Mau Tempo no Canal de Vitorino Nemésio. E são tão belos todos: o livro, o poema, a música e a voz de Helena!
Entre a Vila da Madalena na Ilha do Pico e a cidade da Horta na Ilha do Faial, Açores
Um cais tem sempre dois sentidos Um que vai, outro que vem, E nós os dois pr’áqui perdidos Sem saber se é de partir ou de voltar, Como saber se partimos? Como saber se chegando vem alguém? Um cais tem sempre dois sentidos, Um que vai, outro que vem…
Trazes tanta água nos olhos Ficam espelhos onde vejo os meus, Sei que nos meus olhos ainda moram os teus Quase que me apetece ficar… Trazes tanta água nos olhos Que ao correr parece dizer adeus Fica com os meus olhos Levo comigo os teus Para melhor acreditar
Um cais tem sempre dois sentidos Um que vai, outro que vem, E nós com todos os sentidos Já sabendo que o melhor era ficar Mas foi aí que partimos Um adeus às vezes faz-nos sentir bem Um cais perde todo o sentido Se não embarca ninguém.
Faixa 14 do CD HELENA CANT’AUTORES AÇORIANOS Música e Letra: António Bulcão; Arranjo e Piano: Carlos Frazão; Contrabaixo: Mike Ross; Violino: Manuel Rocha; Bateria e Percussões: Joaquim Teles (Quiné);Voz: Helena
Bagagens-invólucros-contentores ambulantes. Personagens, contentores de nós mesmos. A etiqueta com o nome, o modelo das malas, a cor, o tamanho, o modo mais ou menos sôfrego como são agarradas e levadas de um lugar de espera para outro lugar, a claustrofobia a que são votadas, entre tantas outras da sua espécie. Ou a simplicidade da mochila que pouco mais precisa do que o apoio das costas daquele jovem desprendido que guarda no corpo a aventura do pensamento. Depois, é imaginarmos o que viaja dentro de cada mala. As roupas dobradas no vinco certo, ou, pelo contrário, dobradas precisamente no vinco ao lado, ou do avesso, fora do canto a que pertencem, misturadas com o saco da espuma de barbear ou com o creme para as rugas e com o camisolão extra sugerido pelo boletim meteorológico antes da viagem. Naquela outra, o vestido chique para o jantar onde não convém perder o brilho, pousado mesmo no cimo para não se amarrotar, os sapatos de salto alto pensados para o tal vestido elegante (depende do conceito de elegância, claro) a juntar às sandálias de reserva, não vá romper-se a sola de tanto pisar terras desconhecidas. E haverá mais. Os extras da devoção e os da tentação. A obrigar o joelho do homenzarrão a poisar com força sobre o tampo da mala, um dos fechos a ceder de esforço, num gemido metálico: Já não posso mais, sufoco! E o outro, o do lado esquerdo, a boca escancarada, um grito rouco entre os dentes, a sua personalidade a recusar-se, a impor-se perante a prepotência: Rebento! Deixem-me! E, presumindo eu que o dono do tal joelho, mais quadrado do que redondo, os poderia ter ouvido, imagino também que ele seria impelido a responder-lhes: Como corresponder aos vossos desejos se transportamos aqui lembranças para os nossos amigos? É assim mesmo, levamo-nos connosco para todo o lado, conforme a maneira de ser de cada um. Se calhar temos medo de nos perdermos de nós mesmos. M
O tempo que viaja nos nossos olhos tem particularidades curiosas. Quando, há cerca de dois anos, tirei esta fotografia à estátua do Infante D. Henrique, foi porque gostei dela, claro. Chamou-me a atenção a brancura calcária sentada sobre a dureza negra do pedestal de basalto, a perfeição do trabalho. Agora, ao revê-la, sinto-a de outro modo. É como se ali estivesse um homem de carne e osso, a descansar numa vulgar pedra encontrada no caminho, o gesto da mão sob o queixo a escorar o pensamento em travessias para lá do mundo pequeno, as veias à flor da pele a agarrar os azuis de céus e mares. Tão diferente da figura distante de vestes imponentes que sempre encontrei nos quadros a óleo dos museus e que de certo modo me impediam de imaginá-lo como um ser real. Pena é que alguém, talvez muito zangado, lhe tenha maltratado o nariz. Mas quem sabe, não será também isso que acentuará o traço humano que me atrai nesta estátua belíssima. M
(Informação retirada da net: Estátua do Infante D. Henrique, de José Simões de Almeida (sobrinho) (1880-1950), inaugurada em 1932, para comemorar os 500 anos da chegada dos portugueses ao Arquipélago dos Açores, mais precisamente a Santa Maria e a São Miguel, em 1432. O monumento situa-se sobranceiro ao Porto de Vila Franca do Campo na Ilha de São Miguel.)
Ó baía do silêncio Na voz dos mal amados Nos veios que a lonjura desenhou Ó baía do silêncio Do pranto das cidades Anseios que a tristeza ensombrou
Rosa negra tatuada Nesta sorte tão magoada Na voragem desta noite um arrepio Neste amargo cativeiro Um lamento derradeiro Coração a latejar, um desvario
Quem se perdeu nos labirintos do amor Quem se queimou nesta fogueira, nesta dor Quem se perdeu nos labirintos da paixão Quem se rasgou nesta navalha, neste arpão
Dança de sombra e de luz Neste jogo de espelhos Teatro nesta imensa solidão
Faixa 1 do CD HELENA CANT’AUTORES AÇORIANOS Música e Letra: José Medeiros; Arranjo e Piano: Carlos Frazão; Contrabaixo: Mike Ross; Violinos: Manuel Rocha; Bateria e Percussões: Joaquim Teles (Quiné); Voz: Helena