domingo, 30 de julho de 2017

238. O MEU PÁSSARO - Dia 8


Foto de M


Corre, Corre, Cabacinha foi livro da minha infância. Não este mas um outro que já não tenho, com formato e ilustrações diferentes. Gostava muito da história. Intrigante aquela cabaça a rebolar caminho abaixo, estranho alguém caber dentro dela. Credulidade e incredulidade a bailar, ora uma ora outra. Quem lia a história? A Tia Chanel? Eu? Não sei, apenas me lembro que gostava de repetir: Não vi velha nem velhinha, não vi velha nem velhão! Corre, corre, cabacinha, corre, corre, cabação!

Era uma vez...

M

sábado, 29 de julho de 2017

237. O MEU PÁSSARO - Dia 7


Foto de M

Apanhaste-me aqui. No espaço de ouvir Anouar Brahem em Souvenance, uma palavra muito bela, um disco lindo de morrer, oiço-o e oiço-o e oiço-o mas até agora não morri para sempre, só morri de amor por ele. E pelo outro, The Astounding Eyes Of Rita, dedicado à memória do poeta palestiniano Mahmoud Darwish. Se a tal morte sem regresso for assim valeu a pena ter vivido. Ao lado, 10 Easy Pieces for Piano, os nomes de cada uma delas em sintonia absoluta com a música composta por Zbigniew Preisner. A lembrar uma agenda, o tempo, o nosso e o dos outros, marcado nos dias em minutos e segundos: A Good Morning Melody, To See More, Farewell, A Good Night Melody... Sentida por Leszek Mozdzer em cada nota tocada. Polacos ambos, compositor e pianista. Talking to Myself, o turbilhão que podem ser os estados de alma expressos na limpidez de cada som. A Polónia, a brutalidade da Segunda Guerra Mundial, Gdansk e o âmbar a visitarem-me de novo. Saltaram da prateleira da estante. Tu também. Vais reconhecer-te em The Art of Flying, é exactamente assim o voo dos pássaros.

M

sexta-feira, 28 de julho de 2017

236. O MEU PÁSSARO - Dia 6


Foto de M


O Meu Pássaro tem-me prestado atenção desde o dia em que lhe expliquei aquela história do nome. Noto que poisa agora intencionalmente em determinadas prateleiras e que nelas se demora mais do que o normal num ser da sua espécie. Hoje, por exemplo, é um desses casos. Julgo que reparou que, estando eu recostada no sofá diante da estante, fixo muitas vezes um olhar nostálgico em certos livros ali arrumados. Tanto quanto sei, ele pertence a uma família de aves espalhadas pela Europa. No entanto, não faço ideia se Polónia, Praga ou Irlanda significam algo no seu passado, ao ponto de se aconchegar junto delas, mas não é especialmente importante para mim saber isso. Prefiro arriscar dizer que ele quer apenas fazer-me companhia sempre que escrevo mentalmente as minhas memórias de viagens no tempo. Uma questão de empatia.

 
M

quinta-feira, 27 de julho de 2017

235. O MEU PÁSSARO - Dia 5


Foto de M

Pelos vistos o Meu Pássaro preferiu abandonar o poleiro da televisão e voltar a subir às alturas. Posso imaginar a sua estranheza por não ter ouvido qualquer notícia que o levasse a reconhecer o seu mundo: chilreada entre as árvores de um bosque, água límpida de um riacho a correr serra abaixo, o som de chocalhos distantes, algum zumbido de insectos... Possivelmente sentiu-se perdido, sem referências, e afastou-se. Para ele teria feito mais sentido um filme sobre a Natureza do que ser apanhado pela habitual catadupa de notícias pesadas que preocupam e sobressaltam as pessoas e são ininteligíveis para os pássaros. Aliás, também nós sentimos falta do contacto com a Natureza, seja ele directo ou através de imagens. São ninhos onde encontramos alimento para os sentidos e para uma melhor compreensão do universo que habitamos.
De qualquer modo, independentemente da razão que o levou a fugir da moldura televisiva de ontem, agradou-me a sua presença nesta estante onde vivem livros, fotografias, objectos diversos, enfim, pedaços da minha vida que guardo e relembro sempre que os contemplo.
Ficas tão bem sobre essa lisura luminosa, meu companheiro de voos.
 
M

quarta-feira, 26 de julho de 2017

234. O MEU PÁSSARO - Dia 4


Foto de M 

Vejo que o Meu Pássaro desceu à Terra. Como nos filmes de naves espaciais que sobem e descem no desconhecido encantando crianças e adultos fascinados por estrelas e planetas. Pousou na parte superior do aparelho de televisão, pois pousou, mas está indiferente aos meus chamamentos. Não sei se o aborrece ser tratado por Meu Pássaro, se receia que, por eu usar a palavra Meu, lhe limite a liberdade e o impeça de voar. Longe de mim tal pensamento, o nome que escolhi para ele é carinhoso, é o mesmo que dizer às crianças Meu Riquinho, ou Minha Querida, ou Meus Queridos. Por vezes apetece falar dessa maneira, são beijos e abracinhos embrulhados em palavras que os agasalham melhor contra as intempéries da vida. Os meninos percebem estas coisas muito bem. Hei-de explicar tudo isto ao Meu Pássaro. Tenho a certeza que ele vai entender.
 
M

terça-feira, 25 de julho de 2017

233. O MEU PÁSSARO - Dia 3


Foto de M 

Pouco a pouco o Meu Pássaro vai ganhando confiança. Em si e no espaço que o rodeia. Hoje encontrei-o ainda mais afastado da janela, sentado em cima do abajur branco do candeeiro pousado na mesa de vidro. Mas ele não sabe isso, pensa que está a descansar em cima da Lua, e a recuperar o fôlego, depois de acompanhar as duas aves de graciosas asas brancas naquele voo alto que os levou para lá das nuvens. Só não percebeu por que razão elas continuam a esvoaçar, e ele tão cansado. Procurarão alcançar outro planeta ou estarão apenas a fazer um bailado para iniciarem a descida de regresso à Terra?
 
M

segunda-feira, 24 de julho de 2017

232. O MEU PÁSSARO - Dia 2


Foto de M

Hoje de manhã, ao abrir devagar uma nesga da porta da sala para não assustar o Meu Pássaro, reparei que estava empoleirado no altifalante mais próximo da janela onde ontem se tinha refugiado. Apesar de todo o meu cuidado a porta rangeu ligeiramente e ele mexeu um pouco o corpo e as asas em jeito de levantar voo mas logo se aquietou de novo quando, à distância, lhe falei baixinho. Presumo que terá reconhecido a minha voz.
Não faço ideia do que se terá passado durante a noite. Pergunto-me se permaneceu atrás das cortinas, se saltitou pelo chão com a habitual graciosidade que conhecemos nos passaritos, se esvoaçou para um e outro lado até decidir sobre qual sofá ou móvel ou prateleira adormecer. Independentemente das suas eventuais deambulações nocturnas, acho natural que escolhesse aquele poiso próximo do parapeito da janela onde na véspera se sentira mais seguro. Além disso, certamente também a paisagem pintada pela Bisavó Fernanda no quadro pendurado na parede lhe ofereceu confiança ao trazer-lhe à memória espaços conhecidos. Aliás, não me admiraria que tivesse experimentado empoleirar-se nalguma daquelas árvores, apesar do vento que a imagem parece sugerir.
 
M

domingo, 23 de julho de 2017

231. O MEU PÁSSARO - Dia 1


Foto de M

Noutro dia fui ao Jardim Gulbenkian e apaixonei-me por um pássaro que encontrei empoleirado num raminho. Achei graça ao nome Chapim-Real escrito na etiqueta presa numa das suas patas e logo me surgiu diante dos olhos a imagem de passaritos a chapinharem e a bebericarem em poças de água junto da relva. Fiz-lhe uma festa e ele cantou, como se quisesse dizer-me qualquer coisa. Decidi trazê-lo comigo. Apanhei algumas folhas do chão para lhe preparar um ninho dentro de um saco de papel e pousei-o lá devagarinho, deixando uma abertura suficientemente grande para que pudesse sentir-se confortável a olhar o céu enquanto caminhávamos. Pareceu-me um pouco assustado, uma reacção natural, não me conhecia nem sabia para onde era levado. Pensei que ajudaria a acalmá-lo dizer-lhe onde eu morava, ir-lhe falando de mim, dos objectos que fazem parte da minha vida, do chilrear que oiço manhã cedo no parapeito da janela do meu quarto, dos jardins que espreitam entre os prédios do meu bairro, das varandas floridas onde pousam pombos.
Depois de abrir a porta de casa, arrumei a mala e as chaves no lugar habitual e dediquei-me ao Meu Pássaro. Retirei-o cuidadosamente do saco e, ainda com ele seguro na concha das minhas mãos, peguei na tesoura que guardo na gaveta da escrivaninha que me espera sempre no hall de entrada e cortei a tal etiqueta com o nome Chapim-Real que o impedia de mexer as patas à vontade.
Larguei-o. Surpreendeu-me. Esvoaçou timidamente através da minha sala de estar e escondeu-se atrás das cortinas. Vou dar-lhe tempo. Talvez amanhã já se sinta à vontade para explorar os recantos de que lhe falei durante o trajecto para aqui. Há-de lembrar-se.
 
M

sexta-feira, 14 de julho de 2017

230.


Foto de M 

Que sei eu do pensamento dos rios?
M

229.


Foto de M

E ela ali, entregue a si mesma, tão bela a cor discreta do seu silêncio.
M

quinta-feira, 15 de junho de 2017

228.


Foto de Isabel (*)

Ao olhar para esta imagem lembrei-me logo da personagem Pantera Cor de Rosa e da mímica divertida e provocatória entre ela e os vários intervenientes nas séries de desenhos animados dos anos sessenta, deliciosamente acompanhados pela música de Henry Mancini. 
E acrescento que o braço cor de rosa, talvez apercebendo-se de que o sujeito magrinho tinha espreitado o seu espaço redondo, não achou graça à ousadia e apertou-o, apertou-o, até lhe provocar suores frios e pensamentos negros. Quais, não sei, pois de os revelar foi impedido. Uma flor negra?, arrisco perguntar-me. Uma flor não é um pensamento mau de todo. Depois de liberto do apertão, basta que a pinte com uma cor alegre, a regue abundantemente e a prenda no chapéu em sinal de resistência às adversidades. Tenho a certeza que o gesto será deveras apreciado pelos seus conterrâneos e que passará a ser conhecido pelo nome O Homem do Pensamento Flor

(*) Fotografia proposta pela Isabel para o desafio desta semana Com as palavras dentro do olhar no meu outro blog Palavra Puxa Palavra, onde ela participa. Os blogs da Isabel são:

http://fotografiasdaquiedali.blogspot.pt/
 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

227.


Foto de M

O mar tem amigos que, por gostarem muito dele, chamaram Casa do Mar a esta casa, belo refúgio quando a praia transborda de gente. Apenas conjecturas minhas, não conheço quem aqui mora nem os seus hábitos, mas sei o que, em dias quentes de verão, acontece um pouco por todo o lado. Instalam-se multidões no areal, carregadas com chapéus de sol, cadeiras, toalhas, lancheiras, jornais, revistas, bolas, e tudo o mais de que precisam para entreter as horas. Os apressados, ávidos de liberdade, correm para a beira-mar, experimentam a temperatura da água, gritam e riem sempre que o mar lhes acena com ondas a crescer devagarinho lá de longe e as deixa depois cair sobre os seus corpos em desequilíbrio. Há quem enfrente a ameaça com os pés fincados no fundo invisível, a lembrar toureiros a incitar os touros na Praça do Campo Pequeno. A postura é semelhante, só lhes falta dizer Touro, é touro! e levantar os braços com uma bandarilha em cada mão. Mas aqui ninguém tem bandarilhas para espetar, os braços são como ferros a furar o bramido aquoso, arrastam o resto do corpo, e submergem por instantes no desconhecido. Continuam as ondas o seu caminho na imensidão azul verde, indiferentes a quem ousou fazer-lhes frente, e desenrolam-se sobre castelos enfeitados com algas e conchas por mãos de meninos. Oh! Que pena! Não faz mal, tem graça sentar dentro das pocinhas e desejar que a menina da história A Menina do Mar os visite, antes de aquela água rendilhada desaparecer na rotina das marés. 
M

quinta-feira, 11 de maio de 2017

226.

 
Foto de M

Apenas coisas, início de frase proposto pela Bettips para o desafio de hoje no Palavra Puxa Palavra, levou-me a pensar que talvez nem sempre seja linear considerar as coisas como apenas coisas. Ligada a palavra apenas à que se lhe segue, julgo que nalguns contextos lhe retira a substância da sua individualidade, noutros, pelo contrário, acrescentará qualidade ao que se pretende exprimir. Importará conhecer o que se enuncia, de que se trata. Objectos, ideias ou casos, argumentos relevantes ou não, reflexões, tudo isso pode ser considerado coisas. Dependerá de cada pessoa o valor que lhes atribui, o afecto que as une, de como as olha, como delas se serve. Esta fotografia campestre, por exemplo, mostra um conjunto de objectos com significado muito especial para o seu dono, meu irmão. Para ele não são apenas coisas, são pedaços de recordações saborosas que deseja continuem a tomar parte activa no presente. Foram intencionalmente colocados ali para seduzir preguiças ou espevitar gostos e artes rurais, pacientemente ordenados na quietude sem tempo, à margem da urgência ou da indiferença de quem neles venha a reparar. Conheço bem este plano sorrateiro, a composição cuidada, porventura até estética nos pormenores, é-me familiar o gesto silenciosamente provocador de expor e esperar pela reacção de alguém, a tentação dos frutos. Depois é o pegar de novo no livro que abandonou sobre a mesa em breve pousio, sentar-se à distância na sombra da árvore e ir libertando o olhar num vaivém entre as páginas da história e aquela espécie de isco e logo se vê o que acontece. À mão de semear: adequada a expressão à função intrínseca dos utensílios aprisionados. 
M

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

225.


Foto de M 

Pouco passava do meio dia quando deixei Santiago de Compostela a caminho de casa. Já tinha visitado algumas partes da cidade mas faltava-me espreitar uns certos recantos assinalados na agenda da viagem. Foi então que o vi, empoleirado no alto da parede. Lá estava ele, com o elegante ferro cravado no corpo a marcar a passagem do tempo: 9 horas e 35 minutos, segundo a leitura de um amigo mais entendido nestas coisas do que eu. Nada de pressas, ainda a manhã começava a adaptar-se à luz e o ambiente de séculos convidava-me a permanecer naquele claustro até ao limite possível concedido pelo guia galego que acompanhava o grupo. Esta mania de o sol ditar a nossa vida contraria- -me, restringe-me os passos, atormenta o tempo que me pertence. A mim e a outros, talvez por isso há quem fique para trás a provocar horas e avisos. Seja como for, parece-me que esta coisa da sombra na pedra nos dá a sensação de que a vida se demora naquele jogo de sombras e luz. Tão diferente dos mostradores de relógios com ponteiros a rodar em conversas desencontradas de horas, minutos e segundos, dentro de caixas fechadas sem escapatória possível, à prova de água, à prova de choques, à prova de publicidade. Tão diferente também dos outros relógios onde se desdobram algarismos a um ritmo de presença e fuga diante dos nossos olhos. Apesar da inevitável interferência solar nas nossas existências, é bem mais bonito este rectângulo de pedra ao ar livre onde poisa o canto dos pássaros e escorrem gotas de água embaladas pelo vento. No entanto, para lá deste meu fervor idílico, imagino que talvez este tipo de relógio traga problemas a algumas pessoas: quando o sol se esconde e leva consigo os sinais de orientação, há quem possa ficar desatinado sem saber que rumo tomar. No caso dos nossos antepassados, resolveriam esse contratempo usando clepsidras para medir o tempo durante a noite. Quem as pudesse pagar, claro, a maioria das pessoas seria obrigada a contentar-se com a informação dada pelos sinos das igrejas. 
M

domingo, 23 de outubro de 2016

224.


Foto de M 

Um recanto da minha sala de estar onde tantas vezes o meu olhar e o meu pensamento se encontram em conversa aprazível sobre os objectos que ali moram. Amo estas personagens a quem atribuo sentido e ligação com o mundo a que pertenço como ser humano. Um mundo de universalidade e de particularidades, de realidade e sonho, de intenções, de beleza, de fealdade, de amor e ódios, de desalento, de esperança, de solidariedade e abandono, de devaneios e desilusão, de energia e lassidão, de bondade e brutalidade, de angústias, de comportamentos ora idênticos ora diferentes perante o desenrolar da existência. Ramificações, julgo eu, de uma raiz inicial a que chamo desejo de vida, comum a todas as gerações, ainda que com os traços peculiares de cada época. A propósito... a forma arredondada a espreitar do lado direito da fotografia cativa-me. Bem sei que ela é, na realidade, a parte visível do abat-jour branco de um candeeiro pousado na mesa mas lembra-me uma barriga grávida de vida. Não me digas que é por eu dar a luz. Não estarás a divagar demais? A rapariga não te merece nenhuma referência? Claro que merece, gosto muito dela. Caminha entre luz e sombras, entre pausas e passos, consciente das ambivalências existentes. Contudo, suponho que lhe agradaria embarcar naquela nave estacionada ali atrás. Para ter uma visão mais ampla do Universo.  
Pronto, rendo-me às tuas conjecturas. Noutra ocasião falaremos nós de ti. Também te observamos quando te sentas nesse sofá, pensativa. 
M

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

223.


Foto de M

Antes que seja tarde é expressão usada por aí quando alguém não quer deixar fugir a ocasião de resolver assuntos urgentes, ou pendentes, com receio de os perder no esquecimento. Não conheço a origem da expressão, provavelmente a sabedoria popular observou a vivência real das pessoas nas suas comunidades ao longo dos tempos e acabou por condensá-la desta forma prática. Prática mas arriscada, penso eu, porque há várias sabedorias que por vezes se confrontam ou até se contradizem, fruto de experiências e conceitos diversos como, por exemplo, os que o provérbio Mais vale tarde do que nunca resume. Coitada, a palavra tarde, assim entalada entre outras de estatuto tão diferenciado, deve ficar baralhada com o sentido da sua própria existência. Mas como o gosto de esmiuçar as complexidades da linguagem humana parece enfastiar alguns, há quem encerre o assunto com um firme Mais vale cedo que tarde e tarde que nunca. Pronto. 
Ui! Eu calo-me. Mas antes de ir, só mais uma coisa: de momento prefiro que a tarde me faça companhia entre a manhã e a noite. Completamente despojada de futuro. 
M

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

222.


Foto de M

Aquela casa com ele ali, pensei, embora sem fazer a mínima ideia quem eram, apenas mera conjectura minha baseada num casual encontro de rua. Estando o Sacré Coeur por perto como cenário a acentuar sentimentos e inspirador das coisas sagradas que o coração guarda, à primeira vista não me pareceu estranho. Só depois, perante a vasta equipa de técnicos, máquinas fotográficas, conselheiros de imagem, maquilhadores, fui levada a crer que se tratava possivelmente da composição elaborada de algum anúncio a publicar em revista de moda, canal de televisão ou agência de viagens. Paris, o lugar de sonho ao seu alcance. Até o sorriso estático da noiva me pareceu afinado para o projecto. Pelo menos o dela seria, ao noivo só o vi de costas. Claro que me lembrei também do Museu Grévin e do Madame Tussauds London. Uma hipótese a considerar, muitos de nós desejamos passar à posteridade, nem que seja embrulhados no diáfano tule branco da fantasia. Ui, só a trabalheira que deve ser organizar a conservação de tudo aquilo lá pelos museus! Avaliar o lugar ideal para colocar os corpos ceráceos de gente famosa, escolher os trajes emblemáticos de cada um, mantê-los em bom estado, retocar-lhes a maquilhagem, pentear-lhes as cabeleiras de acordo com a postura preferida em vida. Sei lá, um infindável número de gestos necessários para que cada celebridade continue a apresentar-se como melhor agrada ao seu público. Enfim, a cena deve tornar-se quase tão real que não me admiraria se algum funcionário aproveitasse a proximidade oferecida por essa corte de tarefas para finalmente poder manifestar o seu apreço pela sua figura de eleição, ou até mesmo esclarecer dúvidas quanto à razão da notoriedade deste ou daquele colunável. Mas suponho que sem sucesso na resposta desejada, a mudez das expressões só falará certamente na imaginação dos curiosos. 
Bom, voltando aos noivos em êxtase, espero que se tenham cansado de se olhar a mando de estranhos. Não, escrevi bem a palavra, amando de verdade é outro conceito e outra vivência. 
M

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

221.


Foto de M 

Talvez muito do que faz parte da nossa vida possa ser sentido como um poema. Composto ou não de palavras, somente a presença da beleza das coisas. Numa dimensão maior ou nos pormenores, nos recantos da alma de cada um de nós, na luz que acentua a interioridade de cada objecto, no gesto-poema de quem pinta as cores da natureza e o oferece, tornando-o também poema para quem o recebe de presente. Pertença partilhada, o poema em si mesmo. Emoção estética. 
M

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

220.


Foto de M 

Gosto de palavras. Têm corpo de gente, gestos de gente, voz de gente. E riem, e dão gargalhadas. Choram também, desesperam. E espantam-se tanta vez. Algumas insultam, coram de vergonha os seus alvos, ou enraivecem-nos e fazem ricochete, ui! Outras guardam silêncio escondendo-se dentro da boca de quem as não diz ou no pensamento de quem as pensa. Às palavras que se alinham para desalinhar sentidos acho particular graça: desenham sorrisos discretos nos olhos, nos lábios, nas rugas marcadas. Das palavras pacientes quase me esquecia de falar. Presas dentro de livros, esperam que alguém repare nelas e lhes faça companhia. Estabelecida então uma forte empatia, qualquer desvio de atenção dos seus amigos leitores em momentos de pausa de leitura as leva a seguir-lhes o olhar para lá das páginas abertas sobre a mesa da esplanada. (Aposto que até encontram cenários iguais ou semelhantes aos que compõem os capítulos em que vivem. Cenas, como agora se diz.) A propósito de cenas lembrei-me dos antigos mini teatros ambulantes de praia onde fantoches com cabeça de pau e voz esquisita se batiam freneticamente à paulada. Hoje em dia as pancadarias e os cenários serão outros, certas palavras desapareceram do vocabulário corrente, mas em geral as mais usadas não divergem muito dessa época, apenas a eliminação de determinadas consoantes e acentos as transfigura. Por mor de acordos e desacordos e não só. 
M

sábado, 19 de setembro de 2015

219.


Foto de M

Desproporção. A palavra surgiu no meu olhar mal cheguei ao terreiro repleto de gente entre o Palácio do Louvre e o Jardim das Tulherias e os vi ajoelhados no chão, como se rezassem, indiferentes aos passos de quem atravessava aquela aparente terra de ninguém. Eram seis, com as suas lojas ambulantes de chapéus, óculos escuros da moda, bugigangas e souvenirs para todos os gostos. Organizavam, uma vez mais, os objectos que breves momentos antes, suponho que a um sinal de aviso combinado, tinham enrolado à pressa nos seus panos-montras como precaução para uma fuga iminente. A polícia não apareceu, pelo menos por agora podiam sossegar. A escassos metros, as sólidas paredes do Louvre contrastavam com a fragilidade da existência humana. E eu, testemunha muda, reflectia sobre a realidade que me cercava e me afligia. Este homem em particular impressionou-me. Senti-me comovida pela delicadeza com que pegava nas pequenas réplicas da Torre Eiffel e as colocava em pé, bem alinhadas, tentando cativar o olhar dos transeuntes. Pensei, procurando encontrar algum consolo dentro de mim: talvez só por amar muito o que tem para vender ele consiga sobreviver entre as dicotomias da cidade imensa.
M

terça-feira, 16 de junho de 2015

218.


Foto de M
  
Tivesse eu visto o seu rosto, quem sabe seria capaz de entender o que lhe ia na alma.
Eu estava por ali e reparei nela à distância. Impressionaram-me o desalinho da sua figura e a total imobilidade em que se manteve durante a hora e meia em que permaneci no jardim. Interroguei-me, e interrogo-me ainda, sobre quais seriam os seus pensamentos. Contemplaria calada, ou até de olhos fechados, o rio da saudade de longínqua terra muito sua? Que pobreza a afligiria? Não sei, não lhe vi o rosto. Talvez estivesse feliz. Talvez lhe bastasse poder sentar-se à beira de um rio azul. Talvez fosse essa a sua única riqueza. Eu vim embora sem nada conhecer da mulher. Ela ficou.
M

quinta-feira, 21 de maio de 2015

217.


Foto de M

Eu andava pelo bairro lembrando lugares, reconhecendo-os, descobrindo diferenças trazidas pelos anos de ausência, pisando devagar as pedras do caminho que me levava ao liceu onde fui aluna durante cinco anos. A certa altura, ao olhar para cima, reparei no enquadramento da janela entreaberta: o rosa vivo, a parede fechada do outro lado, os ramos secos das árvores, o céu azul, os telhados escondendo vidas, o pedacinho da plataforma da ponte. Parei, o olhar preso lá longe, à espera que algum carro passasse e eu conseguisse captá-lo através da minha máquina fotográfica, apesar da pressa com que se deslocavam, como se, uns atrás dos outros, fugissem de mim. Aprisionei a camioneta, tão pequenina na distância. E pensei: interessante como a distância pode fazer parte do que nos está mais próximo.
Entre a brevidade dos momentos e a permanência me construo e reconstruo. Eu, a adulta de hoje, e a outra eu, a da infância e da juventude. E no entanto sempre eu, fiel companhia que me sustém no mapa da minha existência.
M

quarta-feira, 13 de maio de 2015

216.


Foto de M 

Restara apenas o cabo do guarda-chuva. Dias antes, um vendaval desabrido arrancara-lhe das mãos a haste com as varetas e arrastara-as pelo ar enroladas no tecido preto rasgado, ao encontro das nuvens cinzentas que corriam apressadas sobre a sua cabeça. Resolvera então pendurá-lo na geringonça instalada no exterior do teatro, talvez alguém achasse graça àquele ponto de interrogação ou encontrasse nele algum simbolismo. Não é o teatro um espaço de permanente reflexão sobre a vida, expressa das formas mais diversas? 
Felizmente o sol abrira-se um pouco a meio da manhã apaziguando com a sua presença os temperamentais assomos outonais. Hoje até podia fumar o seu primeiro cigarro ao ar livre sem se preocupar com imprevistos climáticos. Não o acabou, alguém lhe falava ao ouvido, o tal sensato do costume, um sensaborão. Não estranhou o sussurro, estava habituado a conviver com várias personagens dentro de si. Mergulhou a beata na água de uma das taças abandonando-a à curiosidade de algum pardalito que ali pousasse a refrescar-se. Antes escorrega de bebedouro do que beata!, pensou. Sorriu, divertiam-no os diferentes significados que as palavras podem ter. Sentindo-se mais relaxado depois do breve intervalo, entrou no edifício. Na sala, os outros actores esperavam-no para ensaiarem em conjunto a peça de teatro que assinalava o quadragésimo aniversário da companhia. 
M

(Em novembro de 2011, acompanhei uns amigos na visita à sede do Grupo de Teatro o Bando em Vale de Barris, Palmela, onde tirei esta fotografia por achar graça ao recanto.)

quinta-feira, 7 de maio de 2015

215.


Foto de M 

Debalde foi ali pousado o balde em descanso temporário, pensado como sendo de bom préstimo para quem regasse a horta ou arrecadar nele os legumes colhidos pela manhã. Mas qualquer coisa deve ter corrido mal. Alguma embirração com o seu aspecto antiquado e enferrujado, ou preferência por balde de plástico garrido comprado na feira mensal, talvez uma represália, e vá lá saber-se o motivo, nas aldeias é comum sobreporem-se as vindictas à natureza pura da terra. Em vez do estado de provisória quietude na beira do tanque, passou o balde ao estado de abandono vitalício, ainda por cima taparam-lhe a boca, nem gritar ele pode, coitado. Suplício supremo, penso eu, quase o de Tântalo. 
M

quinta-feira, 16 de abril de 2015

214.


Foto de M

Gosto de cadeiras. Encontro nelas personalidade e comportamentos de gente. Simples ou não, umas mais espartanas do que outras, mais arrebique menos arrebique, com estofo ou sem ele, não resisto a fotografá-las. Reparei nesta. Lembrou-me meninos que se recostam seja onde for, de qualquer maneira, a descansar das brincadeiras, algumas vezes apenas por curiosidade em descobrir de que forma sentem no corpo cada bocadinho do chão onde se deitam. Alguém diligente a colocara ali como cancela improvisada num espaço ao ar livre onde decorria uma festa de crianças. Achei-lhe graça, mas estranhei que a nenhuma tenha passado pela cabeça desafiar aquela vedação frágil, saltando-lhe por cima ou retirando-a dali. Talvez se tenham reconhecido nela pensando que, cansada de brincar, tinha adormecido no degrau. 
M

quinta-feira, 9 de abril de 2015

213.


Foto de M

Imagina, imagina, imagina sempre. Faz como as crianças que vão crescendo num mundo muito seu de realidade- -fantasia, ou de fantasia-realidade, vá-se lá saber onde começa uma e acaba a outra. E querem tanto ser crescidas. A vontade de imitar os “grandes” é-lhes inerente e, talvez porque pressentem nesses seus heróis a existência de uma convivência natural entre realidade e fantasia, não se sentem ameaçadas. Hum!... Pois, mas em tamanho grande a qualidade, o peso e a percentagem de cada um destes dois ingredientes com sabor humano serão outros. E há prazos de validade a ter em conta, mais as balanças, de tempos a tempos aparece alguém a aferi-las, o que poderá causar alguns transtornos no que se considera ou não como certo em questões de dinâmicas vivenciais.
Imagina, imagina, imagina. Não te canses de imaginar. Para não sofreres de claustrofobia mental.
Está bem, eu digo o que vejo neste pequeno quadro: um passeio à beira-mar durante a maré baixa.
M

quinta-feira, 12 de março de 2015

212.


Foto de M 

Não te espantes com o que ainda vais encontrando nalgumas zonas rurais de Portugal, em contraste com as tecnologias do mundo actual.
Ao olhar para a senhora da minha fotografia, penso de imediato nas máquinas de lavar roupa cheias de automatismos e na facilidade que é meter-lhes dentro a roupa e esperar apenas que ela cumpra a tarefa até ao fim, de acordo com o programa escolhido. Embora no dia em que ali passei não me tenha parecido que esta senhora estivesse contrariada com o trabalho que executava, nem faço ideia se se trataria de uma escolha esporádica, na verdade todos sabemos ser muito mais penoso lavar roupa manualmente. Exige ensaboar cada peça em separado, enxaguá-la uma e outra vez, torcê-la com a força de braços e mãos, senti-las geladas, os dedos doridos, e depois carregar o fardo no alguidar, porventura à cabeça, ou amparado nos braços. Vermelho o alguidar, a lembrar o coração que se transporta sempre connosco, breve o repouso, longas as horas marcadas nas rotinas diárias. Reconheço tudo isso, mas encanta-me a arquitectura destes tanques amplos, testemunhas de ocupações e convívios antigos. Não há muitos anos era lugar de risos, de mágoas ora confessadas ora adivinhadas, de boatos, de segredos, de histórias de fugas pela calada da noite, a fronteira com Espanha tão perto, à distância de um salto arriscado. Permanecerá lugar de encontros, embora esvaziada de gente a aldeia, adormecidas as casas aguardando os emigrantes do verão?
Atravessei a pé Soutelinho da Raia em agosto de 2010 a caminho de Santiago de Compostela, abordei a senhora lavadeira com o propósito de lhe pedir autorização para a incluir na fotografia que eu desejava tirar, e ela aceitou, sorridente. Quase cinco anos passados, pergunto-me como se chamará, se ainda vive, onde mora. Sozinha? Acompanhada? Terá nascido na aldeia? E imagino-a criança, ajudando a mãe, talvez debruçada na janela à espera do pai, talvez a brincar com outros meninos ao jogo da macaca desenhado com um graveto qualquer no chão de terra batida. Talvez... Talvez...
Sem respostas às minhas interrogações, apenas sei que o tempo escorre nas diversas paisagens da existência.
M

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

211.


Foto de M

Atrai-me a personalidade dos objectos e a sua aparente solidão no mundo das pessoas. Atribuo-lhes alma humana, nalguns encantam-me a elegância, a delicadeza dos traços, a graciosidade dos gestos naquela espécie de movimento suspenso no tempo. As flores pintadas no corpo lácteo, tão discretas, o vestido comprido e esguio rente aos pés, os braços erguidos em jeito de dança, as cores do voo no íntimo dos pássaros. Na sala de estar de minha casa, eles pousados sobre o móvel, eu sentada no sofá onde me refugio do cansaço, olhamo-nos e comunicamos no silêncio das nossas existências. De vez em quando levanto-me e aproximo-me deles, toco-lhes, lembro-lhes histórias antigas, mudo a posição em que se encontram para que não se sintam entorpecidos. Depois, regresso devagar a tudo o resto que compõe a minha vida. 
M

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

210.


Foto de M 

Nunca te esqueças. Se o terão dito um ao outro não sei, nem faço ideia quem eram e de onde vinham. Eu andava por ali e vi-os ao longe, acompanhados pelo fotógrafo, a máquina fotográfica na mão, a de filmar pendurada ao ombro, a lente especial resguardada dentro do estojo. Ensaiavam o cenário a compor, o momento a registar na memória, o lugar. De certo modo insólita, e tão bela, aquela imagem fugidia entre arcadas de silêncios anónimos num lugar de fé esvaziado de peregrinos onde os anos foram fechando portas e costumes. Nunca te esqueças, terão prometido um ao outro. 


http://www.infopedia.pt/$santuario-de-n.-sra.-do-cabo-espichel