sexta-feira, 10 de novembro de 2017

249.


Foto de M 

Quando olhei para cima lembrei-me de uma conhecida expressão usada por muitos de nós em certas ocasiões problemáticas. Pois é, ter uma pedra no sapato acontece por aí, seja de gravilha o solo que se pisa, de alcatrão, cimento ou qualquer outro, até o imaginário onde o nosso pensamento circula. Por causa daquelas pedras no telhado, não sei se periclitantes, se tenazes na postura assumida, dei comigo a questionar-me sobre a expressão Ter uma pedra no sapato e cheguei à conclusão que o seu significado extravasa matérias e territórios. Em Villafranca del Bierzo, por exemplo, há quem as tenha no telhado. E o que aconteceria se o telhado fosse de vidro? Com facilidade se partiria, julgo eu, e pronto, ficava tudo em pratos limpos, ou melhor dizendo, em pedacinhos iridescentes, o que por vezes resolve situações em equilíbrio instável. 
M

terça-feira, 17 de outubro de 2017

248.


Foto de M

O cisne do lago Windermere, o meu cisne. Ontem lembrei-me dele e tirei-o da caixinha onde o guardo. Passaram já tantos anos desde que com ele me encantei numa loja em Bowness-on-Windermere e o trouxe comigo. A recordação de um lugar lindo. Julho de 1996! Tão distante e tão próximo. 
M



Fotografias resguardadas num álbum de tempos.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

247.


Foto de M

Talvez seja esta a cor da solidão, pensei mal a vi. Como fatia de bolo abandonada em mesa de refeição.
M

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

246.


Foto de M 


Dois livros, um legado de letras e afectos na minha vida. Le Petit Chose, um livro especial, a força e a beleza do título inscritas nele, com ilustrações que desde criança me encantavam. Foi-me dado pela minha Tia Chanel em 1957, a dedicatória manuscrita a tinta permanente azul na página de rosto: Maria Manuela - Natal 1957. Mais acima, a lápis, o seu nome e a data 5 de Outubro de 1909 a marcar o dia em que fazia 15 anos. Quando mo ofereceu, tinha eu 16 anos. Curiosa a semelhança das idades de ambas, escolha certamente intencional, pelo gosto de partilhar uma obra que apreciava e o desejo de que as emoções sentidas na sua adolescência se prolongassem em mim. O facto de ser escrito em língua francesa não foi impedimento para eu o ler. No liceu do meu tempo, além do ensino de francês fazer parte do currículo obrigatório durante pelo menos cinco anos, a reconhecida competência, e exigência, da minha professora preparou-me para a leitura deste livro e de outros. Conservei-o durante anos, folheando-o de vez em quando com muito cuidado para evitar a sua degradação, e um dia considerei mais avisado mandar encaderná-lo, mantendo contudo a capa mole original. 
Sobre o outro, Cendrillon, não tenho memória do momento em que o recebi de presente, talvez alguns anos antes do Le Petit Chose. Deste recordo a compaixão que sentia pela vida da Gata Borralheira e o meu fascínio pela imagem daquela rapariga do vestido azul que me levava a sonhar com príncipes e princesas. 
Tão diferentes os dois livros e no entanto...

M


«Ce qui me frappa d'abord, à mon arrivée au collège, c'est que j'étais le seul avec une blouse. A Lyon, les fils de riches ne portent pas de blouses; il n'y a que les enfants de la rue, les gones comme on dit. Moi, j'en avais une, une petite blouse à carreaux qui datait de la fabrique; j'avais une blouse, j'avais l'air d'un gone...Quand j'entrai dans la classe, les élèves ricanèrent. On disait: «Tiens! Il a une blouse!» Le professeur fit la grimace et tout de suite me prit en aversion. Depuis lors, quand il me parla, ce fut toujours du bout des lèvres, d'un air méprisant. Jamais il ne m'appela par mon nom; il disait toujours: «Eh! Vous, là-bas, le petit Chose!» Je lui avais dit pourtant plus de vingt fois que je m'appelais Daniel Eys-set-te... A la fin, mes camarades me surnommèrent «le petit Chose» et le surnom me resta...»
Le Petit Chose, Alphonse Daudet, Illustration de J. Wely, Collection Illustrée Pierre Lafitte & Cie, 90, Avenue des Champs-Élysées, Paris, 1909.

sábado, 5 de agosto de 2017

245. O MEU PÁSSARO - Epílogo


«O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir e traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. O viajante cumpre a sua obrigação: viaja e diz o que vê. Se não parece dizer tudo, será erro seu ou desatenção de quem leu.»



José Saramago, Viagem a Portugal, 1981

244. O MEU PÁSSARO - Dia 14


Foto de M
 
Gostei da tua companhia nesta minha viagem do pensamento, Meu Pássaro, mas descansemos agora um pouco no jardim interior onde me refugio tantas vezes. Espero que nele encontres inspiração para falares de ti. Durante estes catorze dias apenas te imaginei.

 
M

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

243. O MEU PÁSSARO - Dia 13


Foto de M

Portugal. Quem nos dera continuasse a ser verde, não fossem os desatinos dos homens que lhe vão devorando a cor. Que diriam dele agora Raul Proença e os seus ilustres colaboradores na realização da obra Guia de Portugal?

« (...) E assim um dia este livro, que eu sonhei nos verdes vales, nos rios plácidos e nas montanhas decorativas da minha terra, nas sua costas de enseadas azuis e de esburacadas grutas misteriosas (sonoras no marulho das ondas como enormes búzios ressonantes), no deslumbramento da sua luz epitalâmica e sob as suas grandes estrelas dormentes – este livro, feito pelo amor e pelo espírito de veracidade de alguns Portugueses para concitar e adjurar a infinita piedade portuguesa, merecerá, talvez, pelo muito que os outros fizeram e farão, e pelo pouco que eu vier ainda a fazer, ser denominado com justiça – o Livro de Amor e Devoção de Portugal

Raúl Proença, Guia de Portugal, Prefácio da 1ª edição publicada pela Biblioteca Nacional de Lisboa em 1924, retirado do 1º Volume Generalidades – Lisboa e Arredores, reedição da Fundação Calouste Gulbenkian, 1979
 
M

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

242. O MEU PÁSSARO - Dia 12


Foto de M

Dos meninos sei eu do seu gosto em subir para cima de bancos ou cadeiras e comparar alturas entre si (Já chego ao teu ombro...) ou, com os pais, fazerem medições de alto a baixo, o livro pousado na horizontal sobre a cabeça, o pescoço esticado, que há pressa de ser grande. Fica o registo na ombreira da porta, o traço do lápis direitinho ao lado da data. Em centímetros ou metros, conforme a idade (Estás tão crescido!). E o sorriso a espreitar na boca, os lábios a abrirem-se... Ah e qual é a largura do vosso sorriso?
Quanto a ti, Meu Pássaro, não sei por que te empoleiraste na tartaruga. Comparar alturas não me parece ser interesse teu, cada um tem o seu tamanho e o seu voo, não é? Nem me lembro de alguma história de patos, pássaros e tartarugas. Mas, de repente, pensei em Pedro e o Lobo, uma história contada através da música composta em 1936 por um senhor chamado Sergei Prokofiev. As personagens são o Passarinho, o Avô, o Lobo, o Pato, o Gato, o Pedro e os Caçadores, cada uma representada por um instrumento musical diferente, mas não há nenhuma tartaruga. Paciência, ouve agora o disco, vais gostar da tua imagem em flauta transversal.
Está bem, faço-te a vontade, mostro a primeira página do dicionário e a outra com os ninhos. Não precisas de piar mais.  Sim, eu sei que as crianças gostam de ninhos.
M

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

241. O MEU PÁSSARO - Dia 11







 
Fotos de M

Está bem, faço-te a vontade, mostro-te a primeira página do dicionário e a outra com os ninhos. Não precisas de piar mais. Sim, sei que as crianças gostam de ninhos.
M

terça-feira, 1 de agosto de 2017

240. O MEU PÁSSARO - Dia 10


Foto de M 

Um livro com uma capa lindíssima, não é, Meu Pássaro? Julgo perceber o teu interesse por ele. De certeza que reconheceste alguma semelhança com paisagens onde esvoaçam penachos brancos que se soltam dos dentes-de-leão pelo sopro do vento e nos encantam pela leveza.
Este dicionário pertenceu à minha Tia Chanel. Curiosa como era, usava-o constantemente, em busca de resposta para as suas dúvidas sobre os significados das palavras. Bem me lembro de a ver manusear as páginas com muito cuidado e de me mostrar as gravuras que, nalguns casos, identificam as palavras e as complementam, outras vezes apenas pelo gosto de observar os seus traços finos e minuciosos. E também não esqueço que nem ela nem os meus Pais me poupavam quando eu, por preguiça, aliás frequente nas crianças nos primeiros anos de escolaridade, tentava obter junto deles o sentido de determinada palavra ou frase. A resposta era invariavelmente: Procura no dicionário. Não este, claro, só aprendi francês no liceu, uma língua lindíssima que me toca em particular. Não sei se foi por causa do hábito, se algum gene herdado, se a frase da Librairie Larousse na edição de 1931 Je sème à tout vent, ou tudo isso junto, que tenho a mania de me apoiar em dicionários para tentar exprimir o melhor possível o meu pensamento. Ainda por cima o acesso à Internet veio agravar esta minha doença crónica. Que diria a minha Tia Chanel se fosse viva? Ela que, tendo nascido em 1894 e morrido em 1988, costumava dizer com alguma ironia Nasci no século passado.
 
M

segunda-feira, 31 de julho de 2017

239. O MEU PÁSSARO - Dia 9


Foto de M 

O monte de livros por ler, à espera que eu levante a pontinha de uma página, um pequeno sinal... Deixa o resto e abre-me. Vais gostar de mim. Na livraria, lembras-te... Eu sei, fiquei em pé contigo na mão, e contigo, e contigo, a folhear-vos. Trouxe-vos porque queria ler-vos, não fossem esgotar-se as edições. Pensava eu que vos lia logo, uns a seguir aos outros, mas depois os afazeres estragam os planos... Pois, às vezes a fazeres coisas inúteis te perdes e nos perdes. Nem sempre apetece estar só convosco, preciso de trocar impressões com outras pessoas. Estás a esquecer-te do que costumas dizer. A tua memória anda pelas ruas da amargura. Pois vou lembrar-te: quando acabas um livro que te fascinou, é hábito contares que te é difícil sair da história, que conviveste com as personagens durante tanto tempo que sentes falta da sua companhia, que tens mais interesses em comum com elas do que... Sim, eu sei, há conversas com certas pessoas que me frustram. Mas tentem entender-me, existem também programas de televisão que me interessam e me “acrescentam”, como diz uma amiga minha. E filmes espantosos... Ora, desculpas. Nem sempre acontece assim. Algumas vezes, em dias solitários, recostas-te no sofá e ficas a olhar para ontem. Ou para amanhã, sei lá. Mais vale olhares para hoje. Ora essa, depende do hoje, alguns são tão aborrecidos que me põem amarras de inércia. Um contra- -senso, aparente, explicável por intermitências de humor. Então e nós, não achas que é demais termos as nossas palavras aprisionadas há meses? Qualquer dia acabamos mudos. Ou amarelecidos por falta de ar. Está bem, não se zanguem comigo, o ser humano é complexo. Não estão vocês fartos de saber isso através de quem vos escreve? Esse convívio é habitualmente longo... E tu, Meu Pássaro, não fiques mal impressionado com esta conversa, eles e eu somos grandes amigos.

M

domingo, 30 de julho de 2017

238. O MEU PÁSSARO - Dia 8


Foto de M


Corre, Corre, Cabacinha foi livro da minha infância. Não este mas um outro que já não tenho, com formato e ilustrações diferentes. Gostava muito da história. Intrigante aquela cabaça a rebolar caminho abaixo, estranho alguém caber dentro dela. Credulidade e incredulidade a bailar, ora uma ora outra. Quem lia a história? A Tia Chanel? Eu? Não sei, apenas me lembro que gostava de repetir: Não vi velha nem velhinha, não vi velha nem velhão! Corre, corre, cabacinha, corre, corre, cabação!

Era uma vez...

M

sábado, 29 de julho de 2017

237. O MEU PÁSSARO - Dia 7


Foto de M

Apanhaste-me aqui. No espaço de ouvir Anouar Brahem em Souvenance, uma palavra muito bela, um disco lindo de morrer, oiço-o e oiço-o e oiço-o mas até agora não morri para sempre, só morri de amor por ele. E pelo outro, The Astounding Eyes Of Rita, dedicado à memória do poeta palestiniano Mahmoud Darwish. Se a tal morte sem regresso for assim valeu a pena ter vivido. Ao lado, 10 Easy Pieces for Piano, os nomes de cada uma delas em sintonia absoluta com a música composta por Zbigniew Preisner. A lembrar uma agenda, o tempo, o nosso e o dos outros, marcado nos dias em minutos e segundos: A Good Morning Melody, To See More, Farewell, A Good Night Melody... Sentida por Leszek Mozdzer em cada nota tocada. Polacos ambos, compositor e pianista. Talking to Myself, o turbilhão que podem ser os estados de alma expressos na limpidez de cada som. A Polónia, a brutalidade da Segunda Guerra Mundial, Gdansk e o âmbar a visitarem-me de novo. Saltaram da prateleira da estante. Tu também. Vais reconhecer-te em The Art of Flying, é exactamente assim o voo dos pássaros.

M

sexta-feira, 28 de julho de 2017

236. O MEU PÁSSARO - Dia 6


Foto de M


O Meu Pássaro tem-me prestado atenção desde o dia em que lhe expliquei aquela história do nome. Noto que poisa agora intencionalmente em determinadas prateleiras e que nelas se demora mais do que o normal num ser da sua espécie. Hoje, por exemplo, é um desses casos. Julgo que reparou que, estando eu recostada no sofá diante da estante, fixo muitas vezes um olhar nostálgico em certos livros ali arrumados. Tanto quanto sei, ele pertence a uma família de aves espalhadas pela Europa. No entanto, não faço ideia se Polónia, Praga ou Irlanda significam algo no seu passado, ao ponto de se aconchegar junto delas, mas não é especialmente importante para mim saber isso. Prefiro arriscar dizer que ele quer apenas fazer-me companhia sempre que escrevo mentalmente as minhas memórias de viagens no tempo. Uma questão de empatia.

 
M

quinta-feira, 27 de julho de 2017

235. O MEU PÁSSARO - Dia 5


Foto de M

Pelos vistos o Meu Pássaro preferiu abandonar o poleiro da televisão e voltar a subir às alturas. Posso imaginar a sua estranheza por não ter ouvido qualquer notícia que o levasse a reconhecer o seu mundo: chilreada entre as árvores de um bosque, água límpida de um riacho a correr serra abaixo, o som de chocalhos distantes, algum zumbido de insectos... Possivelmente sentiu-se perdido, sem referências, e afastou-se. Para ele teria feito mais sentido um filme sobre a Natureza do que ser apanhado pela habitual catadupa de notícias pesadas que preocupam e sobressaltam as pessoas e são ininteligíveis para os pássaros. Aliás, também nós sentimos falta do contacto com a Natureza, seja ele directo ou através de imagens. São ninhos onde encontramos alimento para os sentidos e para uma melhor compreensão do universo que habitamos.
De qualquer modo, independentemente da razão que o levou a fugir da moldura televisiva de ontem, agradou-me a sua presença nesta estante onde vivem livros, fotografias, objectos diversos, enfim, pedaços da minha vida que guardo e relembro sempre que os contemplo.
Ficas tão bem sobre essa lisura luminosa, meu companheiro de voos.
 
M

quarta-feira, 26 de julho de 2017

234. O MEU PÁSSARO - Dia 4


Foto de M 

Vejo que o Meu Pássaro desceu à Terra. Como nos filmes de naves espaciais que sobem e descem no desconhecido encantando crianças e adultos fascinados por estrelas e planetas. Pousou na parte superior do aparelho de televisão, pois pousou, mas está indiferente aos meus chamamentos. Não sei se o aborrece ser tratado por Meu Pássaro, se receia que, por eu usar a palavra Meu, lhe limite a liberdade e o impeça de voar. Longe de mim tal pensamento, o nome que escolhi para ele é carinhoso, é o mesmo que dizer às crianças Meu Riquinho, ou Minha Querida, ou Meus Queridos. Por vezes apetece falar dessa maneira, são beijos e abracinhos embrulhados em palavras que os agasalham melhor contra as intempéries da vida. Os meninos percebem estas coisas muito bem. Hei-de explicar tudo isto ao Meu Pássaro. Tenho a certeza que ele vai entender.
 
M

terça-feira, 25 de julho de 2017

233. O MEU PÁSSARO - Dia 3


Foto de M 

Pouco a pouco o Meu Pássaro vai ganhando confiança. Em si e no espaço que o rodeia. Hoje encontrei-o ainda mais afastado da janela, sentado em cima do abajur branco do candeeiro pousado na mesa de vidro. Mas ele não sabe isso, pensa que está a descansar em cima da Lua, e a recuperar o fôlego, depois de acompanhar as duas aves de graciosas asas brancas naquele voo alto que os levou para lá das nuvens. Só não percebeu por que razão elas continuam a esvoaçar, e ele tão cansado. Procurarão alcançar outro planeta ou estarão apenas a fazer um bailado para iniciarem a descida de regresso à Terra?
 
M

segunda-feira, 24 de julho de 2017

232. O MEU PÁSSARO - Dia 2


Foto de M

Hoje de manhã, ao abrir devagar uma nesga da porta da sala para não assustar o Meu Pássaro, reparei que estava empoleirado no altifalante mais próximo da janela onde ontem se tinha refugiado. Apesar de todo o meu cuidado a porta rangeu ligeiramente e ele mexeu um pouco o corpo e as asas em jeito de levantar voo mas logo se aquietou de novo quando, à distância, lhe falei baixinho. Presumo que terá reconhecido a minha voz.
Não faço ideia do que se terá passado durante a noite. Pergunto-me se permaneceu atrás das cortinas, se saltitou pelo chão com a habitual graciosidade que conhecemos nos passaritos, se esvoaçou para um e outro lado até decidir sobre qual sofá ou móvel ou prateleira adormecer. Independentemente das suas eventuais deambulações nocturnas, acho natural que escolhesse aquele poiso próximo do parapeito da janela onde na véspera se sentira mais seguro. Além disso, certamente também a paisagem pintada pela Bisavó Fernanda no quadro pendurado na parede lhe ofereceu confiança ao trazer-lhe à memória espaços conhecidos. Aliás, não me admiraria que tivesse experimentado empoleirar-se nalguma daquelas árvores, apesar do vento que a imagem parece sugerir.
 
M

domingo, 23 de julho de 2017

231. O MEU PÁSSARO - Dia 1


Foto de M

Noutro dia fui ao Jardim Gulbenkian e apaixonei-me por um pássaro que encontrei empoleirado num raminho. Achei graça ao nome Chapim-Real escrito na etiqueta presa numa das suas patas e logo me surgiu diante dos olhos a imagem de passaritos a chapinharem e a bebericarem em poças de água junto da relva. Fiz-lhe uma festa e ele cantou, como se quisesse dizer-me qualquer coisa. Decidi trazê-lo comigo. Apanhei algumas folhas do chão para lhe preparar um ninho dentro de um saco de papel e pousei-o lá devagarinho, deixando uma abertura suficientemente grande para que pudesse sentir-se confortável a olhar o céu enquanto caminhávamos. Pareceu-me um pouco assustado, uma reacção natural, não me conhecia nem sabia para onde era levado. Pensei que ajudaria a acalmá-lo dizer-lhe onde eu morava, ir-lhe falando de mim, dos objectos que fazem parte da minha vida, do chilrear que oiço manhã cedo no parapeito da janela do meu quarto, dos jardins que espreitam entre os prédios do meu bairro, das varandas floridas onde pousam pombos.
Depois de abrir a porta de casa, arrumei a mala e as chaves no lugar habitual e dediquei-me ao Meu Pássaro. Retirei-o cuidadosamente do saco e, ainda com ele seguro na concha das minhas mãos, peguei na tesoura que guardo na gaveta da escrivaninha que me espera sempre no hall de entrada e cortei a tal etiqueta com o nome Chapim-Real que o impedia de mexer as patas à vontade.
Larguei-o. Surpreendeu-me. Esvoaçou timidamente através da minha sala de estar e escondeu-se atrás das cortinas. Vou dar-lhe tempo. Talvez amanhã já se sinta à vontade para explorar os recantos de que lhe falei durante o trajecto para aqui. Há-de lembrar-se.
 
M

sexta-feira, 14 de julho de 2017

230.


Foto de M 

Que sei eu do pensamento dos rios?
M

229.


Foto de M

E ela ali, entregue a si mesma, tão bela a cor discreta do seu silêncio.
M

quinta-feira, 15 de junho de 2017

228.


Foto de Isabel (*)

Ao olhar para esta imagem lembrei-me logo da personagem Pantera Cor de Rosa e da mímica divertida e provocatória entre ela e os vários intervenientes nas séries de desenhos animados dos anos sessenta, deliciosamente acompanhados pela música de Henry Mancini. 
E acrescento que o braço cor de rosa, talvez apercebendo-se de que o sujeito magrinho tinha espreitado o seu espaço redondo, não achou graça à ousadia e apertou-o, apertou-o, até lhe provocar suores frios e pensamentos negros. Quais, não sei, pois de os revelar foi impedido. Uma flor negra?, arrisco perguntar-me. Uma flor não é um pensamento mau de todo. Depois de liberto do apertão, basta que a pinte com uma cor alegre, a regue abundantemente e a prenda no chapéu em sinal de resistência às adversidades. Tenho a certeza que o gesto será deveras apreciado pelos seus conterrâneos e que passará a ser conhecido pelo nome O Homem do Pensamento Flor

(*) Fotografia proposta pela Isabel para o desafio desta semana Com as palavras dentro do olhar no meu outro blog Palavra Puxa Palavra, onde ela participa. Os blogs da Isabel são:

http://fotografiasdaquiedali.blogspot.pt/
 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

227.


Foto de M

O mar tem amigos que, por gostarem muito dele, chamaram Casa do Mar a esta casa, belo refúgio quando a praia transborda de gente. Apenas conjecturas minhas, não conheço quem aqui mora nem os seus hábitos, mas sei o que, em dias quentes de verão, acontece um pouco por todo o lado. Instalam-se multidões no areal, carregadas com chapéus de sol, cadeiras, toalhas, lancheiras, jornais, revistas, bolas, e tudo o mais de que precisam para entreter as horas. Os apressados, ávidos de liberdade, correm para a beira-mar, experimentam a temperatura da água, gritam e riem sempre que o mar lhes acena com ondas a crescer devagarinho lá de longe e as deixa depois cair sobre os seus corpos em desequilíbrio. Há quem enfrente a ameaça com os pés fincados no fundo invisível, a lembrar toureiros a incitar os touros na Praça do Campo Pequeno. A postura é semelhante, só lhes falta dizer Touro, é touro! e levantar os braços com uma bandarilha em cada mão. Mas aqui ninguém tem bandarilhas para espetar, os braços são como ferros a furar o bramido aquoso, arrastam o resto do corpo, e submergem por instantes no desconhecido. Continuam as ondas o seu caminho na imensidão azul verde, indiferentes a quem ousou fazer-lhes frente, e desenrolam-se sobre castelos enfeitados com algas e conchas por mãos de meninos. Oh! Que pena! Não faz mal, tem graça sentar dentro das pocinhas e desejar que a menina da história A Menina do Mar os visite, antes de aquela água rendilhada desaparecer na rotina das marés. 
M

quinta-feira, 11 de maio de 2017

226.

 
Foto de M

Apenas coisas, início de frase proposto pela Bettips para o desafio de hoje no Palavra Puxa Palavra, levou-me a pensar que talvez nem sempre seja linear considerar as coisas como apenas coisas. Ligada a palavra apenas à que se lhe segue, julgo que nalguns contextos lhe retira a substância da sua individualidade, noutros, pelo contrário, acrescentará qualidade ao que se pretende exprimir. Importará conhecer o que se enuncia, de que se trata. Objectos, ideias ou casos, argumentos relevantes ou não, reflexões, tudo isso pode ser considerado coisas. Dependerá de cada pessoa o valor que lhes atribui, o afecto que as une, de como as olha, como delas se serve. Esta fotografia campestre, por exemplo, mostra um conjunto de objectos com significado muito especial para o seu dono, meu irmão. Para ele não são apenas coisas, são pedaços de recordações saborosas que deseja continuem a tomar parte activa no presente. Foram intencionalmente colocados ali para seduzir preguiças ou espevitar gostos e artes rurais, pacientemente ordenados na quietude sem tempo, à margem da urgência ou da indiferença de quem neles venha a reparar. Conheço bem este plano sorrateiro, a composição cuidada, porventura até estética nos pormenores, é-me familiar o gesto silenciosamente provocador de expor e esperar pela reacção de alguém, a tentação dos frutos. Depois é o pegar de novo no livro que abandonou sobre a mesa em breve pousio, sentar-se à distância na sombra da árvore e ir libertando o olhar num vaivém entre as páginas da história e aquela espécie de isco e logo se vê o que acontece. À mão de semear: adequada a expressão à função intrínseca dos utensílios aprisionados. 
M

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

225.


Foto de M 

Pouco passava do meio dia quando deixei Santiago de Compostela a caminho de casa. Já tinha visitado algumas partes da cidade mas faltava-me espreitar uns certos recantos assinalados na agenda da viagem. Foi então que o vi, empoleirado no alto da parede. Lá estava ele, com o elegante ferro cravado no corpo a marcar a passagem do tempo: 9 horas e 35 minutos, segundo a leitura de um amigo mais entendido nestas coisas do que eu. Nada de pressas, ainda a manhã começava a adaptar-se à luz e o ambiente de séculos convidava-me a permanecer naquele claustro até ao limite possível concedido pelo guia galego que acompanhava o grupo. Esta mania de o sol ditar a nossa vida contraria- -me, restringe-me os passos, atormenta o tempo que me pertence. A mim e a outros, talvez por isso há quem fique para trás a provocar horas e avisos. Seja como for, parece-me que esta coisa da sombra na pedra nos dá a sensação de que a vida se demora naquele jogo de sombras e luz. Tão diferente dos mostradores de relógios com ponteiros a rodar em conversas desencontradas de horas, minutos e segundos, dentro de caixas fechadas sem escapatória possível, à prova de água, à prova de choques, à prova de publicidade. Tão diferente também dos outros relógios onde se desdobram algarismos a um ritmo de presença e fuga diante dos nossos olhos. Apesar da inevitável interferência solar nas nossas existências, é bem mais bonito este rectângulo de pedra ao ar livre onde poisa o canto dos pássaros e escorrem gotas de água embaladas pelo vento. No entanto, para lá deste meu fervor idílico, imagino que talvez este tipo de relógio traga problemas a algumas pessoas: quando o sol se esconde e leva consigo os sinais de orientação, há quem possa ficar desatinado sem saber que rumo tomar. No caso dos nossos antepassados, resolveriam esse contratempo usando clepsidras para medir o tempo durante a noite. Quem as pudesse pagar, claro, a maioria das pessoas seria obrigada a contentar-se com a informação dada pelos sinos das igrejas. 
M

domingo, 23 de outubro de 2016

224.


Foto de M 

Um recanto da minha sala de estar onde tantas vezes o meu olhar e o meu pensamento se encontram em conversa aprazível sobre os objectos que ali moram. Amo estas personagens a quem atribuo sentido e ligação com o mundo a que pertenço como ser humano. Um mundo de universalidade e de particularidades, de realidade e sonho, de intenções, de beleza, de fealdade, de amor e ódios, de desalento, de esperança, de solidariedade e abandono, de devaneios e desilusão, de energia e lassidão, de bondade e brutalidade, de angústias, de comportamentos ora idênticos ora diferentes perante o desenrolar da existência. Ramificações, julgo eu, de uma raiz inicial a que chamo desejo de vida, comum a todas as gerações, ainda que com os traços peculiares de cada época. A propósito... a forma arredondada a espreitar do lado direito da fotografia cativa-me. Bem sei que ela é, na realidade, a parte visível do abat-jour branco de um candeeiro pousado na mesa mas lembra-me uma barriga grávida de vida. Não me digas que é por eu dar a luz. Não estarás a divagar demais? A rapariga não te merece nenhuma referência? Claro que merece, gosto muito dela. Caminha entre luz e sombras, entre pausas e passos, consciente das ambivalências existentes. Contudo, suponho que lhe agradaria embarcar naquela nave estacionada ali atrás. Para ter uma visão mais ampla do Universo.  
Pronto, rendo-me às tuas conjecturas. Noutra ocasião falaremos nós de ti. Também te observamos quando te sentas nesse sofá, pensativa. 
M

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

223.


Foto de M

Antes que seja tarde é expressão usada por aí quando alguém não quer deixar fugir a ocasião de resolver assuntos urgentes, ou pendentes, com receio de os perder no esquecimento. Não conheço a origem da expressão, provavelmente a sabedoria popular observou a vivência real das pessoas nas suas comunidades ao longo dos tempos e acabou por condensá-la desta forma prática. Prática mas arriscada, penso eu, porque há várias sabedorias que por vezes se confrontam ou até se contradizem, fruto de experiências e conceitos diversos como, por exemplo, os que o provérbio Mais vale tarde do que nunca resume. Coitada, a palavra tarde, assim entalada entre outras de estatuto tão diferenciado, deve ficar baralhada com o sentido da sua própria existência. Mas como o gosto de esmiuçar as complexidades da linguagem humana parece enfastiar alguns, há quem encerre o assunto com um firme Mais vale cedo que tarde e tarde que nunca. Pronto. 
Ui! Eu calo-me. Mas antes de ir, só mais uma coisa: de momento prefiro que a tarde me faça companhia entre a manhã e a noite. Completamente despojada de futuro. 
M

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

222.


Foto de M

Aquela casa com ele ali, pensei, embora sem fazer a mínima ideia quem eram, apenas mera conjectura minha baseada num casual encontro de rua. Estando o Sacré Coeur por perto como cenário a acentuar sentimentos e inspirador das coisas sagradas que o coração guarda, à primeira vista não me pareceu estranho. Só depois, perante a vasta equipa de técnicos, máquinas fotográficas, conselheiros de imagem, maquilhadores, fui levada a crer que se tratava possivelmente da composição elaborada de algum anúncio a publicar em revista de moda, canal de televisão ou agência de viagens. Paris, o lugar de sonho ao seu alcance. Até o sorriso estático da noiva me pareceu afinado para o projecto. Pelo menos o dela seria, ao noivo só o vi de costas. Claro que me lembrei também do Museu Grévin e do Madame Tussauds London. Uma hipótese a considerar, muitos de nós desejamos passar à posteridade, nem que seja embrulhados no diáfano tule branco da fantasia. Ui, só a trabalheira que deve ser organizar a conservação de tudo aquilo lá pelos museus! Avaliar o lugar ideal para colocar os corpos ceráceos de gente famosa, escolher os trajes emblemáticos de cada um, mantê-los em bom estado, retocar-lhes a maquilhagem, pentear-lhes as cabeleiras de acordo com a postura preferida em vida. Sei lá, um infindável número de gestos necessários para que cada celebridade continue a apresentar-se como melhor agrada ao seu público. Enfim, a cena deve tornar-se quase tão real que não me admiraria se algum funcionário aproveitasse a proximidade oferecida por essa corte de tarefas para finalmente poder manifestar o seu apreço pela sua figura de eleição, ou até mesmo esclarecer dúvidas quanto à razão da notoriedade deste ou daquele colunável. Mas suponho que sem sucesso na resposta desejada, a mudez das expressões só falará certamente na imaginação dos curiosos. 
Bom, voltando aos noivos em êxtase, espero que se tenham cansado de se olhar a mando de estranhos. Não, escrevi bem a palavra, amando de verdade é outro conceito e outra vivência. 
M

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

221.


Foto de M 

Talvez muito do que faz parte da nossa vida possa ser sentido como um poema. Composto ou não de palavras, somente a presença da beleza das coisas. Numa dimensão maior ou nos pormenores, nos recantos da alma de cada um de nós, na luz que acentua a interioridade de cada objecto, no gesto-poema de quem pinta as cores da natureza e o oferece, tornando-o também poema para quem o recebe de presente. Pertença partilhada, o poema em si mesmo. Emoção estética. 
M