Foto de MTransparência, opacidade e a sua aparente incompatibilidade.
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Foto de M
Foto de MA curva de um silêncio que me fala da natureza das coisas e me faz companhia como um animal de estimação.
(Nem cão nem gato. O meu é pato de história de crianças, oferecido por mãos de meninos num tempo que foi meu e deles.)
Para mim, o silêncio é um corpo que se move no espaço, em diálogo íntimo com os pensamentos e as coisas. Quase que uma dança, qualquer que seja a sua amplitude, onde encontro gestos desenhando curvas e imagens. E onde encontro palavras ditas e ouvidas, minhas e de outros, nessa neblina que as envolve e lhes pertence. Não sendo estático nem linear, porque vivo, o meu silêncio descobre perspectivas e gradações diversas do mundo e entrelaça-as com as memórias que moram dentro de mim. Um caminho mental que percorro, particular e de certo modo solitário, ainda que, por outro lado, acompanhado. É como ter um animal de estimação…
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Maçã oferecida, pousada no limite desconhecido do tempo. Dentro dela o mundo, fragmentado, flutuando na transparência azul. Terra e água, corpos e almas em movimento de encontro e desencontro. Atracção e repulsa. Vida e morte. Indiferentes uma à outra na ilusão da permanência, cruzando-se na incógnita de si mesmas. E no entanto…
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Foto de M
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E há a mão que escreve o pensamento na distância da saudade, contidas as palavras dentro dos limites da fotografia, a pose emoldurando o rosto e o sorriso por medida. Do resto, da brancura interna dos afectos ansiosos por se oferecerem ninguém saberá. A mão fechada sobre o regaço de rendas dir-nos-ia talvez desses segredos, pudesse ela abrir-se livremente e mostrar o que guardara anteriormente ao pousá-la sobre o peito. Não de qualquer maneira, não, mas naquele lugar tão especial onde o coração costuma estar. Mas não pode, que o fotógrafo quis que se mantivesse imóvel. As letras, escassas, apareceram depois, à revelia, desenhadas na margem que sobrou da arte de reter o momento. E outras palavras poderiam ter existido sobre a moldura, não fosse a contenção de sentimentos imposta pelo artista dos gestos mudos. Mas, se pensarmos bem, nada disso importará, pois a pessoa a quem elas são dirigidas tem o privilégio de lhes adivinhar a plenitude.
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Foto de R adaptada por M
Foto de MAinda a luz. Brincando nos jardins de que o mundo é feito. E as papoilas que encontro nos caminhos por onde passo. Sem que elas me vejam, sem que saibamos umas das outras. Apenas as pedrinhas das suas fantasias, apenas o meu olhar preso nelas. Por causa da cor. Por causa do deslumbramento. Por causa da vida.
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É tão antiga e tão presente a luz que poisa nos lugares deste meu mundo onde os objectos permanecem para lá dos gestos perdidos.
A luz é a mesma de então. A mesma dos fins de tarde em que ela se esgueirava por detrás dos prédios altos da rua e nos visitava. Estava sempre afogueada nos dias quentes de Verão e deixava marcas rosadas no azul do céu, nas paredes, nos objectos, nos livros, onde quer que pousasse. Durante o Inverno era fugidia, um pouco apressada, talvez. Demorava-se apenas uns minutos, o tempo de ele a agasalhar dentro da máquina fotográfica, com receio de a perder por causa da pressa dela.
A luz que ainda me visita é a mesma de sempre. Gosta de voltar nos dias em que o sol se mostra, e eu gosto que ela atravesse as vidraças da minha sala. Entra sem que eu a oiça, com o à-vontade de quem conhece a casa, e deixa-me os olhos embaciados, com lágrimas a baloiçar. Eu disfarço, para não a atrapalhar, e consigo embebê-las dentro do meu coração.
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