
Foto de M
Que no novo que se aproxima sejamos todos capazes de renovar a nossa esperança de que é possível um mundo melhor.
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Foto de MA propósito da palavra Sangue, tema desta semana no Fotodicionário, a fotografia e a reflexão que ela me sugeriu.
Uma certa vida pendurada em muros de pedra larga descida das serranias em carros de bois de passo lento e olhar meigo. Eixe pra diante! Eixe!... Sempre a mesma cadência, o mesmo olhar doce, apesar da ferroada no dorso cor de mel. Agora já não passam na rua estreita de terra batida, de regresso ao curral. Nem vemos através das traves carcomidas da velha cancela a figura magra do Álvaro com a aguilhada ao ombro. Mas o caminho permanece estreito por baixo do alcatrão, a cancela recente range também nos gonzos antigos abrindo e fechando convívios sobre degraus de musgo marcados pelo tempo que vive e morre do cansaço de si e os antepassados perduram na memória do lugar com o olhar pousado sobre uma história que foi sua. Inevitavelmente acrescentada em risos novos e abraços que secam lágrimas, reconhecendo talvez alguns os rostos e os gestos de família que pensavam perdidos, revendo-se neles, recreando a imortalidade desejada. Outros adivinhando na dormência dos campos o eco das palavras que não sabiam seriam ditas pelos que chegaram depois, crianças de dias diferentes, flores de caminhos cruzados, seiva renovada da existência humana. Olá! Olá! Olá! Olá!... … … Sangue! Sangue! Sangue! Sangue!... … …
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Foto de MÀ GUISA DE CARTA
Prezado Eremita,
Confesso que, ao receber a lista de palavras para o 8º Jogo das 12 Palavras, dado o pouco uso de algumas na linguagem corrente dos nossos dias, pensei se estaria a viver noutra época. Vieram-me então à cabeça vários livros de escritores de séculos idos, e de tal maneira a ideia se impôs que cheguei ao ponto de me imaginar vestida com a indumentária desses tempos. Pelo sim pelo não, procurei um espelho que me mostrasse de alto a baixo e constatei que o meu aspecto era o de uma mulher do ano 2008 da era cristã. Afinal aquela fantasia nada mais tinha sido do que uma reacção primária relacionada com a minha preocupação em responder de forma adequada a este desafio de escrever textos com doze palavras obrigatórias sugeridas por outros. Tarefa difícil, pelo menos para mim. Como resolver o problema? Tomei por isso a ousadia de o pôr ao corrente do meu embaraço perante o repto que nos é feito esta semana.
Numa época em que até se comunica através de palavras mutiladas pelos dedos de mãos apressadas em manejar mensagens por telemóveis, e em que vocábulos antigos foram completamente esquecidos, suponho que o meu amigo compreenderá a minha dificuldade em escrever um texto ajustado à proposta. Que não nego poderá vir a ser muito enriquecedor para quem nos ler e assim, consoante a idade, recordará tempos de linguagem requintada, ou, no caso dos mais jovens, os levará, pelo menos e se curiosos, a manusear o dicionário. Confesso, contudo, que tenho algumas dúvidas, e imagino certos obstáculos, quanto à aplicação dessas palavras na vida actual e trivial de todos nós. Dir-me-á que uma língua se constrói na sua utilização. Claro que sim, mas também por isso mesmo, dou-lhe um exemplo que me parece elucidativo. Imagine o que seria encontrar-me eu num autocarro e, já farta de ouvir uma daquelas discussões alimentadas por inflamadas difamações que por vezes animam essas viagens, tentar apaziguar os contendores e dizer‑lhes: Deixem-se dessa aleivosia, meus senhores! De certo olhariam para mim estupefactos e diriam: Olha esta! O que é que você está a insinuar? Penso que, no aceso da disputa verbal, e do gesto esboçado, não seria avisado da minha parte explicar-lhes que é de mau tom urdir calúnias e o melhor seria remeter-me à minha insignificância, não resistindo, no entanto, a aconselhar-lhes: Não percam tempo com ninharias, que ele é uma preciosidade a resguardar nas nossas vidas. (Julgo que, pelo menos, ninharias lhes seria familiar, pois que delas temos o mundo cheio…) Depois sairia do autocarro, deixando atrás de mim, estampado nos rostos dos passageiros, o silêncio da comiseração (não sei se por mim se pelos outros) e do cansaço dos dias em busca do pão que alimenta os estômagos famintos.
Bem, mas prosseguindo na explanação das minhas dificuldades em corresponder ao seu pedido, e porque me parece a propósito, lembro-lhe que esta vida urbana é completamente diferente da que goza no seu eremitério. Aqui, a efervescência devora-nos e poucas horas sobram para o misticismo e para a reflexão filosófica sobre o que quer que seja, como por exemplo o conceito de infinitude. Aqui desejam-se soluções imediatas, aplicadas ao dia-a-dia, como uma espécie de unguento eficaz que se procura para a travessia das rotinas e das dores do corpo que transbordam para a pele ou se embebem na alma. O senhor é que tem o privilégio de poder sentar-se pela manhã à beira do seu pensamento e enriquecer os seus dias com o olhar demorado no sincelo dos beirais dos telhados. Na cidade nem de beirais damos conta, que raramente os há. Temos elevadores em prédios altos e, quando viramos a cabeça para cima à procura de qualquer coisa que nos afaste da realidade que nos consome, vemos o céu à distância. O que apesar de tudo não é mau, porque o céu pode ser um telhado.
Espero, prezado amigo, que não interprete mal a minha carta e que a tome apenas como um desabafo. Sendo o senhor um eremita habituado à reflexão, presumo saberá avaliar melhor do que ninguém as apreensões de uma citadina do século 21.
Um abraço
M
8º Jogo das 12 Palavras no Eremitério
(As 12 palavras de uso obrigatório eram: aleivosia, comiseração, eremitério, infinitude, mãos, misticismo, pão, preciosidade, silêncio, sincelo, unguento, urdir.)


Foi com esta fotografia que participei no Fotodicionário desta semana no Palavra Puxa Palavra. Assim interpretei a palavra “Saúde”, pensando em três dos seus vastos e possíveis aspectos.
A saúde do corpo que nos permite liberdade de movimentos e de construção de vida em todas as suas facetas humanas.
A saúde mental que nos faculta a lucidez necessária para agir de modo mais consentâneo com a nossa vivência como verdadeiros seres humanos. Ou que, mesmo em situações extremas de desamparo, frustrações ou desgostos, nos oferece a capacidade de ver e sentir as cores do mundo tornando-nos assim menos sombrios.
A saúde a que chamo social e que depende das políticas que os governos de cada país tomam com verdadeiro empenho pelo bem-estar dos seus cidadãos.
Depois, será com maior motivo de regozijo que, em conjunto, poderemos erguer os nossos copos e exclamar: Tchim! Tchim! À nossa!
M
Foto de MUm bailarino, uma bailarina, e o gesto partilhado de música dançada abrindo luz na escuridão de um palco de teatro.
Na sala, entre a assistência, flutua a liberdade que o prazer dos instantes oferece a cada um de modo diverso, mas quer-se arredado do lugar o galanteio falaz dito em surdina ao ouvido do sentimento vago. Desejamos mais do que o esforço inútil gasto em palavras frívolas, desejamos mais do que capitulação atrás de capitulação. Dos outros e de nós mesmos. É no silêncio do olhar puro que nos tocamos em sintonia apetecida. Talvez breve, sim, talvez breve o encontro, mas que importa a sua brevidade se a harmonia existe naquele momento de Arte, vivida assim a experiência humana da essência das coisas?
M
7º Jogo das 12 Palavras no Eremitério
(As 12 palavras de uso obrigatório eram: Bailarino/a, Capitulação, Escuridão, Esforço, Falaz, Galanteio, Gesto, Harmonia, Liberdade, Luz, Sentimento, Sintonia.)

Íntimo. Lugar de coisas. Lugar de nós mesmos, seres que se reconhecem e igualmente se estranham, que se aproximam ou se distanciam de tanto se sentirem e pensarem. Ninho de pássaros. Voos amplos, alguns, perdidos outros, quebrados os bicos dos pássaros nos gritos lançados ao vento. Águas mansas de azul puro abrindo os silêncios das flores em botão nos jardins. Vulcões estilhaçando espessuras, vomitando lava, queimando a vida. Palavras trancadas em paralisias várias, morrendo-lhes desarticuladas as sílabas dentro da própria boca. Nem sempre. Há palavras que renascem da morte e pousam no tempo de espera. Como borboletas.
Mistério este de viver paredes meias com um ser de nome Íntimo que apenas comunica comigo através de mim.
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Foto de MPor causa da desproporção entre o olhar lançado do alto e as flores rente ao chão apetece pôr-me de cócoras como as crianças e assim me deixar ficar em silêncio de entendimentos. Contemplá-las minutos a fio, sorver-lhes a cor, a delicadeza do recorte, a simplicidade, a luz, a serenidade da sua presença. Tocar em cada uma ao de leve com a ponta dos meus dedos entorpecidos, como se elas fossem pequenos sóis ardentes caídos do céu. E depois, num ímpeto, abraçá-las com o gesto amplo de braçado de flores.
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Foto de MHá momentos em que só as pedras e as flores rente ao chão conhecem a voz dos nossos passos. Assim pensei quando, ao olhar esta fotografia, encontrei nela semelhanças com a imagem de alguém que em desespero se passeia para trás e para diante sobre um caminho estreito aparentemente sem saída.
Mas este universo dos passos é mais vasto do que os labirintos em casa própria e por isso associei depois a esta primeira imagem a realidade com que alguns noticiários de televisão nos apresentam a presença humana neste mundo. Haverá certamente intenções muito particulares no modo como o fazem e na escolha deste ou daquele plano, um misto de exigências profissionais impostas e a sensibilidade de quem olha os outros através da lente de uma máquina. Interrogo-me. Será por causa de tudo isso que tantas vezes nos são mostrados apenas as pernas e os pés das pessoas fotografadas? Uma questão de respeito, uma tentativa de proximidade contida? Ou precisamente o inverso e da necessidade de afastamento perante a impossibilidade de proximidade resulta a rejeição dos corpos no seu todo? Não sei, mas parece-me a mim que desagregar assim os outros se torna ainda mais confrangedor para quem vê essas imagens. Como se, adivinhando nós o sofrimento e o desalento, ou a raiva, naqueles corpos sem rosto, fossemos impedidos de pousar o nosso olhar no deles. Revejo na minha memória as botas pesadas de soldados pisando destroços e ervas queimadas pelo desaforo das guerras, esquecido o gesto natural da coerência do amor no ser humano. Deixada para trás, ignorada assim, a angústia de gente fugindo por ruas esboroadas pelo ódio, arrastando a nudez dos seus pés ou os farrapos com que os protegem. Exangues, alguns morrendo diante de nós em poças de sangue vivo, escondido o olhar que sabemos assustado, mostrados apenas as pernas e os pés. E o seu silêncio. Porque só o chão por onde passam a caminho da vida ou da morte conhece a voz íntima dos seus passos.
M
Foto de ME na sequência do texto e fotografia anteriores, confesso-vos que aquela luz dourada da montra me despertou curiosidade e uma vontade imensa de descobrir o que estaria para lá dela.
Entrei na loja. Dentro o espaço é exíguo, apesar do espelho ali posto para nos dar a ilusão de que o não é. Logo à direita, sobre um pequeno balcão, está pousada uma almofada macia. É nela que os clientes apoiam o cotovelo quando querem experimentar o modelo de luva que mais lhes agrade à vista, sob o olhar solícito do empregado e dos seus movimentos bem coordenados. Pareceu-me que se mexia com à-vontade neste cubículo dourado, pois não notei que ele reduzisse o sorriso e a amplitude dos gestos sempre que procurava e abria as caixas onde guardava as luvas. Bem acomodadas e identificadas por modelo e número, descansavam temporariamente em prateleiras por detrás de uma cortininha que as separa do balcão e para lá voltavam, perdido ou não o negócio.
Ora perscrutado o lugar e considerada apetecível a variedade oferecida, talvez não resista a tentar encontrar alguma luva que se ajuste ao meu tamanho de mão…
M
Foto de MQuem quer que tenha composto esta montra deve entender de comportamentos humanos, ou não se lembraria de colocar ali aquelas luvas em gesto de gente. Contrastando com as outras, um pouco mais na sombra, hirtas e em declive, apartadas dos pares que as completam, como se anónimas fossem, ignorada a cor, esquecidos os botões.
Mas voltando às luvas em gesto de gente, é curioso que imagino mãos dentro delas. As mãos de alguém que se reconhece ao tocar-se e assim se deixa ficar, os dedos mostrando um certo relaxamento. Talvez a expressão de quem aguarda com serenidade o que o mundo lhe traz em cada instante que passa. Ou, pelo contrário, posso também pensá-las em desalento, como sinal do que sente quem já pouco ou nada espera. Apesar das flores plastificadas, ou até por isso mesmo, e assim permanece abúlico, resguardado
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Foto de MSayonara. Madame Butterfly. Puccini. Estufa Fria, jardim de plantas diversas onde a luz é silêncio e sombra húmida e passos serenos de corpos enlaçados em sussurros indecifráveis de países longínquos pisam a pedra miúda de caminhos nossos.
Juntei-os todos na minha imaginação quando ali fotografei esta janela que me lembrou o cenário da ópera Madame Butterfly que em tempos vi. E pensei o adeus e o amor na sua universalidade, para lá das palavras ditas e do seu entendimento. Atravessando mares e continentes, tocando culturas distintas, na fidelidade e na infidelidade, no aceno vago da fuga ou no voo da esperança no encontro. Un bel di vedremo… A comoção na voz dolorida da experiência humana do amor. A voz de cada um, qualquer que seja o lugar onde o amor pousa e o adeus se diz.
M
Foto de MChão corroído pelos passos do desespero em círculo?
Foto de MNo Fotodicionário desta semana a palavra proposta foi Amizade. Palavra de múltiplas interpretações e facetas, penso eu, e de certo modo difícil de exprimir por fotografia.
Participei no jogo mostrando este recanto do jardim de uns amigos. É assim que sinto a amizade. Como espaço de diversidade, cores, tolerâncias e cedências, onde pequenas sementes lançadas à terra germinam sem inquietação de primazias e se oferecem com simplicidade à frescura da vida. Rebentos que se abrem em flor na exuberância dos instantes, murchando também com a morte desses mesmos instantes. E o brilho do sol a rasgar a neblina das manhãs indecisas, e a sentir-se bem na companhia das tardes amenas à beira dos caminhos. Até se perder a luz nas sombras do entardecer, deixando-se ali ficar com os olhos piscos de cansaço, entendendo o silêncio dos pássaros, adormecendo a seu lado.
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Foto de M

Este prazer imenso de tocar a quietude e de a sentar ao nosso colo! E esperar que ela nos dê um beijo azul. E depois outro, em tons de verde salpicado de branco, cheirando a flores e a laranjas. E ainda outro, límpido de tão calado. E ficar ali, à espera do voo dos pássaros. Esquecer os pesos do mundo.
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Claire de Lune

O Silêncio da Ausência
Sempre me impressionaram os espaços vazios onde me cruzo com a ausência dos outros. Lugares onde pressinto presenças que eu não conheço, pessoas que ali se demoraram, ou que passaram apenas, que nunca mais voltaram. Ou ainda lugares onde reencontro a memória dos que estiveram a meu lado num determinado momento. Dos que aí riram comigo, que brincaram, que exprimiram pensamentos e dúvidas, que calaram mágoas, que sussurraram inquietações ao meu ouvido, que me escutaram, que me acompanharam no meu silêncio.
Lá longe, numa universidade em Gdansk, emocionei-me também na presença calada desta escada pejada de movimento adivinhado. Não porque conheça quem tenha subido e descido estes degraus magníficos, ou que pressa ou ócio de viver os pisou. Emocionei-me unicamente por causa da tal ausência. Não sei que pedaços de vidas se apoiaram neste corrimão, apenas os imaginei, mulheres e homens plenos de actividade, professores e alunos trocando experiências e entusiasmos, ocupando este lugar de passagem entre o passado e o futuro. Imaginei-os também em desespero, excluídos, usurpado o seu espaço de saber, transformado num hospital dos nazis, a desumanidade da guerra desmoronando-se pouco a pouco com o edifício. O caos. E de novo a esperança poisada nas mãos dos alunos que seguraram cada pedra, cada tijolo, cada minuto do seu tempo, e assim contribuíram para dignificar a sua casa destruída pela insanidade da guerra.
Foi assim que os senti, a meu lado no silêncio dos seus passos e das suas existências.
M

Do Tempo que nos rasga os bolsos e nos fere a nudez. Ou do cansaço que pára as máquinas e os corpos. A corda que se parte no gesto lento de a dar, o pensamento rodando o seu próprio silêncio em espasmos de tiquetaques por detrás do vidro frágil. As horas e os segundos da escala humana marcados na pele de cada um.
M