segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

2009 vem a caminho






















Foto de M


Que no novo que se aproxima sejamos todos capazes de renovar a nossa esperança de que é possível um mundo melhor.
M

domingo, 28 de dezembro de 2008

88.






















Foto de M


Escombros no universo do pensamento.
Corpos que se degradam na dor do fim.
Almas que se entregam à inevitabilidade da condição humana.
E o azul que nos ronda? É lá que nos resguardamos da violência do nosso desmoronamento? Será a pureza azul a morada eterna dos órfãos da vida?
Ah quem me dera saber por que razão se cala a morte!

M

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

87.

Foto de M

A propósito da palavra Sangue, tema desta semana no Fotodicionário, a fotografia e a reflexão que ela me sugeriu.


Uma certa vida pendurada em muros de pedra larga descida das serranias em carros de bois de passo lento e olhar meigo. Eixe pra diante! Eixe!... Sempre a mesma cadência, o mesmo olhar doce, apesar da ferroada no dorso cor de mel. Agora já não passam na rua estreita de terra batida, de regresso ao curral. Nem vemos através das traves carcomidas da velha cancela a figura magra do Álvaro com a aguilhada ao ombro. Mas o caminho permanece estreito por baixo do alcatrão, a cancela recente range também nos gonzos antigos abrindo e fechando convívios sobre degraus de musgo marcados pelo tempo que vive e morre do cansaço de si e os antepassados perduram na memória do lugar com o olhar pousado sobre uma história que foi sua. Inevitavelmente acrescentada em risos novos e abraços que secam lágrimas, reconhecendo talvez alguns os rostos e os gestos de família que pensavam perdidos, revendo-se neles, recreando a imortalidade desejada. Outros adivinhando na dormência dos campos o eco das palavras que não sabiam seriam ditas pelos que chegaram depois, crianças de dias diferentes, flores de caminhos cruzados, seiva renovada da existência humana. Olá! Olá! Olá! Olá!... Sangue! Sangue! Sangue! Sangue!... … …
M

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

86.


Foto de M

Determinação. Palavra com postura de gente, desconstrói-se na análise de si mesma e reorganiza-se pela força de quem a toma para si.
M

domingo, 30 de novembro de 2008

85.

Foto de M

Nem sempre o que nos sussurramos em solilóquio é companheiro amigo. Às vezes é tortura aguçada dita em palavras com volume desmedido cravadas no próprio corpo do silêncio.
M

sábado, 22 de novembro de 2008

Texto com que participei no 8º Jogo das 12 Palavras no blog Eremitério

Foto de M

À GUISA DE CARTA


Prezado Eremita,

Confesso que, ao receber a lista de palavras para o 8º Jogo das 12 Palavras, dado o pouco uso de algumas na linguagem corrente dos nossos dias, pensei se estaria a viver noutra época. Vieram-me então à cabeça vários livros de escritores de séculos idos, e de tal maneira a ideia se impôs que cheguei ao ponto de me imaginar vestida com a indumentária desses tempos. Pelo sim pelo não, procurei um espelho que me mostrasse de alto a baixo e constatei que o meu aspecto era o de uma mulher do ano 2008 da era cristã. Afinal aquela fantasia nada mais tinha sido do que uma reacção primária relacionada com a minha preocupação em responder de forma adequada a este desafio de escrever textos com doze palavras obrigatórias sugeridas por outros. Tarefa difícil, pelo menos para mim. Como resolver o problema? Tomei por isso a ousadia de o pôr ao corrente do meu embaraço perante o repto que nos é feito esta semana.
Numa época em que até se comunica através de palavras mutiladas pelos dedos de mãos apressadas em manejar mensagens por telemóveis, e em que vocábulos antigos foram completamente esquecidos, suponho que o meu amigo compreenderá a minha dificuldade em escrever um texto ajustado à proposta. Que não nego poderá vir a ser muito enriquecedor para quem nos ler e assim, consoante a idade, recordará tempos de linguagem requintada, ou, no caso dos mais jovens, os levará, pelo menos e se curiosos, a manusear o dicionário. Confesso, contudo, que tenho algumas dúvidas, e imagino certos obstáculos, quanto à aplicação dessas palavras na vida actual e trivial de todos nós. Dir-me-á que uma língua se constrói na sua utilização. Claro que sim, mas também por isso mesmo, dou-lhe um exemplo que me parece elucidativo. Imagine o que seria encontrar-me eu num autocarro e, já farta de ouvir uma daquelas discussões alimentadas por inflamadas difamações que por vezes animam essas viagens, tentar apaziguar os contendores e dizer‑lhes: Deixem-se dessa aleivosia, meus senhores! De certo olhariam para mim estupefactos e diriam: Olha esta! O que é que você está a insinuar? Penso que, no aceso da disputa verbal, e do gesto esboçado, não seria avisado da minha parte explicar-lhes que é de mau tom urdir calúnias e o melhor seria remeter-me à minha insignificância, não resistindo, no entanto, a aconselhar-lhes: Não percam tempo com ninharias, que ele é uma preciosidade a resguardar nas nossas vidas. (Julgo que, pelo menos, ninharias lhes seria familiar, pois que delas temos o mundo cheio…) Depois sairia do autocarro, deixando atrás de mim, estampado nos rostos dos passageiros, o silêncio da comiseração (não sei se por mim se pelos outros) e do cansaço dos dias em busca do pão que alimenta os estômagos famintos.
Bem, mas prosseguindo na explanação das minhas dificuldades em corresponder ao seu pedido, e porque me parece a propósito, lembro-lhe que esta vida urbana é completamente diferente da que goza no seu eremitério. Aqui, a efervescência devora-nos e poucas horas sobram para o misticismo e para a reflexão filosófica sobre o que quer que seja, como por exemplo o conceito de infinitude. Aqui desejam-se soluções imediatas, aplicadas ao dia-a-dia, como uma espécie de unguento eficaz que se procura para a travessia das rotinas e das dores do corpo que transbordam para a pele ou se embebem na alma. O senhor é que tem o privilégio de poder sentar-se pela manhã à beira do seu pensamento e enriquecer os seus dias com o olhar demorado no sincelo dos beirais dos telhados. Na cidade nem de beirais damos conta, que raramente os há. Temos elevadores em prédios altos e, quando viramos a cabeça para cima à procura de qualquer coisa que nos afaste da realidade que nos consome, vemos o céu à distância. O que apesar de tudo não é mau, porque o céu pode ser um telhado.
Espero, prezado amigo, que não interprete mal a minha carta e que a tome apenas como um desabafo. Sendo o senhor um eremita habituado à reflexão, presumo saberá avaliar melhor do que ninguém as apreensões de uma citadina do século 21.
Um abraço
M

8º Jogo das 12 Palavras no Eremitério

(As 12 palavras de uso obrigatório eram: aleivosia, comiseração, eremitério, infinitude, mãos, misticismo, pão, preciosidade, silêncio, sincelo, unguento, urdir.)

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Para a Licínia Quitério






















Foi especial este último sábado 15 de Novembro. E foi bom ouvir os teus poemas ditos de modos tão diferentes pelos teus amigos, também eles tão diferentes uns dos outros. A singularidade e a universalidade em convívio ameno.

Obrigada, Licínia, por este presente tão bonito que nos ofereceste e que nos deixou felizes e mais completos.
M

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

84.


Foto de M

Foi com esta fotografia que participei no Fotodicionário desta semana no Palavra Puxa Palavra. Assim interpretei a palavra “Saúde”, pensando em três dos seus vastos e possíveis aspectos.
A saúde do corpo que nos permite liberdade de movimentos e de construção de vida em todas as suas facetas humanas.
A saúde mental que nos faculta a lucidez necessária para agir de modo mais consentâneo com a nossa vivência como verdadeiros seres humanos. Ou que, mesmo em situações extremas de desamparo, frustrações ou desgostos, nos oferece a capacidade de ver e sentir as cores do mundo tornando-nos assim menos sombrios.
A saúde a que chamo social e que depende das políticas que os governos de cada país tomam com verdadeiro empenho pelo bem-estar dos seus cidadãos.
Depois, será com maior motivo de regozijo que, em conjunto, poderemos erguer os nossos copos e exclamar: Tchim! Tchim! À nossa!
M

domingo, 26 de outubro de 2008

Texto com que participei no 7º Jogo das 12 Palavras no blog Eremitério

Foto de M

Um bailarino, uma bailarina, e o gesto partilhado de música dançada abrindo luz na escuridão de um palco de teatro.
Na sala, entre a assistência, flutua a liberdade que o prazer dos instantes oferece a cada um de modo diverso, mas quer-se arredado do lugar o galanteio falaz dito em surdina ao ouvido do sentimento vago. Desejamos mais do que o esforço inútil gasto em palavras frívolas, desejamos mais do que capitulação atrás de capitulação. Dos outros e de nós mesmos. É no silêncio do olhar puro que nos tocamos em sintonia apetecida. Talvez breve, sim, talvez breve o encontro, mas que importa a sua brevidade se a harmonia existe naquele momento de Arte, vivida assim a experiência humana da essência das coisas?
M

7º Jogo das 12 Palavras no Eremitério

(As 12 palavras de uso obrigatório eram: Bailarino/a, Capitulação, Escuridão, Esforço, Falaz, Galanteio, Gesto, Harmonia, Liberdade, Luz, Sentimento, Sintonia.)

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

83.






















Foto de M


Íntimo. Lugar de coisas. Lugar de nós mesmos, seres que se reconhecem e igualmente se estranham, que se aproximam ou se distanciam de tanto se sentirem e pensarem. Ninho de pássaros. Voos amplos, alguns, perdidos outros, quebrados os bicos dos pássaros nos gritos lançados ao vento. Águas mansas de azul puro abrindo os silêncios das flores em botão nos jardins. Vulcões estilhaçando espessuras, vomitando lava, queimando a vida. Palavras trancadas em paralisias várias, morrendo-lhes desarticuladas as sílabas dentro da própria boca. Nem sempre. Há palavras que renascem da morte e pousam no tempo de espera. Como borboletas.

Mistério este de viver paredes meias com um ser de nome Íntimo que apenas comunica comigo através de mim.
M

domingo, 5 de outubro de 2008

82.


















Foto de M

Neste silêncio de música em lugar de sombras e luz, como é bom recordar-te, mulher de vida calada que vendias as pevides e os tremoços da minha infância, sentada num canto do mundo!

Assim senti esta minha fotografia em tempos idos. Volto hoje a olhá-la. Por causa do que começa e acaba em cada instante e do que nos oferecemos a nós próprios entre um pensamento e outro. O fim e o princípio das coisas em diálogo renovado na presença dos lugares de sempre. Hoje é o gesto musical de festa adivinhado por detrás do silêncio dos instrumentos que se sobrepõe à imagem da mulher que vendia as pevides e os tremoços da minha infância. Assim recostados num tempo de pausa, e quase em jeito de gente, são rebentos de memórias num canto do meu mundo.
M

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

81.


Foto de M


Assim fotografei a palavra “Ruína”, tema desta semana no jogo Fotodicionário, e aqui lhe acrescento o pensamento que me levou a escolhê-la.

Porque me parece que a degradação, qualquer que seja o corpo que habita, poderá fechar a porta ao amor pela vida nas suas diversas e complexas expressões. É ferrugem que corrói, que cava buracos fundos, que prende a esperança em trincos por abrir.
M

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

80.

Foto de M

Por causa da desproporção entre o olhar lançado do alto e as flores rente ao chão apetece pôr-me de cócoras como as crianças e assim me deixar ficar em silêncio de entendimentos. Contemplá-las minutos a fio, sorver-lhes a cor, a delicadeza do recorte, a simplicidade, a luz, a serenidade da sua presença. Tocar em cada uma ao de leve com a ponta dos meus dedos entorpecidos, como se elas fossem pequenos sóis ardentes caídos do céu. E depois, num ímpeto, abraçá-las com o gesto amplo de braçado de flores.
M

domingo, 24 de agosto de 2008

79.

Foto de M

Há momentos em que só as pedras e as flores rente ao chão conhecem a voz dos nossos passos. Assim pensei quando, ao olhar esta fotografia, encontrei nela semelhanças com a imagem de alguém que em desespero se passeia para trás e para diante sobre um caminho estreito aparentemente sem saída.
Mas este universo dos passos é mais vasto do que os labirintos em casa própria e por isso associei depois a esta primeira imagem a realidade com que alguns noticiários de televisão nos apresentam a presença humana neste mundo. Haverá certamente intenções muito particulares no modo como o fazem e na escolha deste ou daquele plano, um misto de exigências profissionais impostas e a sensibilidade de quem olha os outros através da lente de uma máquina. Interrogo-me. Será por causa de tudo isso que tantas vezes nos são mostrados apenas as pernas e os pés das pessoas fotografadas? Uma questão de respeito, uma tentativa de proximidade contida? Ou precisamente o inverso e da necessidade de afastamento perante a impossibilidade de proximidade resulta a rejeição dos corpos no seu todo? Não sei, mas parece-me a mim que desagregar assim os outros se torna ainda mais confrangedor para quem vê essas imagens. Como se, adivinhando nós o sofrimento e o desalento, ou a raiva, naqueles corpos sem rosto, fossemos impedidos de pousar o nosso olhar no deles. Revejo na minha memória as botas pesadas de soldados pisando destroços e ervas queimadas pelo desaforo das guerras, esquecido o gesto natural da coerência do amor no ser humano. Deixada para trás, ignorada assim, a angústia de gente fugindo por ruas esboroadas pelo ódio, arrastando a nudez dos seus pés ou os farrapos com que os protegem. Exangues, alguns morrendo diante de nós em poças de sangue vivo, escondido o olhar que sabemos assustado, mostrados apenas as pernas e os pés. E o seu silêncio. Porque só o chão por onde passam a caminho da vida ou da morte conhece a voz íntima dos seus passos.
M

domingo, 17 de agosto de 2008

78.

Foto de M

E na sequência do texto e fotografia anteriores, confesso-vos que aquela luz dourada da montra me despertou curiosidade e uma vontade imensa de descobrir o que estaria para lá dela.
Entrei na loja. Dentro o espaço é exíguo, apesar do espelho ali posto para nos dar a ilusão de que o não é. Logo à direita, sobre um pequeno balcão, está pousada uma almofada macia. É nela que os clientes apoiam o cotovelo quando querem experimentar o modelo de luva que mais lhes agrade à vista, sob o olhar solícito do empregado e dos seus movimentos bem coordenados. Pareceu-me que se mexia com à-vontade neste cubículo dourado, pois não notei que ele reduzisse o sorriso e a amplitude dos gestos sempre que procurava e abria as caixas onde guardava as luvas. Bem acomodadas e identificadas por modelo e número, descansavam temporariamente em prateleiras por detrás de uma cortininha que as separa do balcão e para lá voltavam, perdido ou não o negócio.
Ora perscrutado o lugar e considerada apetecível a variedade oferecida, talvez não resista a tentar encontrar alguma luva que se ajuste ao meu tamanho de mão…
M

77.

Foto de M

Quem quer que tenha composto esta montra deve entender de comportamentos humanos, ou não se lembraria de colocar ali aquelas luvas em gesto de gente. Contrastando com as outras, um pouco mais na sombra, hirtas e em declive, apartadas dos pares que as completam, como se anónimas fossem, ignorada a cor, esquecidos os botões.
Mas voltando às luvas em gesto de gente, é curioso que imagino mãos dentro delas. As mãos de alguém que se reconhece ao tocar-se e assim se deixa ficar, os dedos mostrando um certo relaxamento. Talvez a expressão de quem aguarda com serenidade o que o mundo lhe traz em cada instante que passa. Ou, pelo contrário, posso também pensá-las em desalento, como sinal do que sente quem já pouco ou nada espera. Apesar das flores plastificadas, ou até por isso mesmo, e assim permanece abúlico, resguardado em pespontos. Ou, ou, ou… Tantas as suposições, tão diversos os rostos a elas associados!
M

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

76.

Foto de M

Será talvez assim a solidão dos homens: uma estufa de silêncios presos em estruturas metálicas de luz coada.
M

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

75.

Foto de M

Sayonara. Madame Butterfly. Puccini. Estufa Fria, jardim de plantas diversas onde a luz é silêncio e sombra húmida e passos serenos de corpos enlaçados em sussurros indecifráveis de países longínquos pisam a pedra miúda de caminhos nossos.
Juntei-os todos na minha imaginação quando ali fotografei esta janela que me lembrou o cenário da ópera Madame Butterfly que em tempos vi. E pensei o adeus e o amor na sua universalidade, para lá das palavras ditas e do seu entendimento. Atravessando mares e continentes, tocando culturas distintas, na fidelidade e na infidelidade, no aceno vago da fuga ou no voo da esperança no encontro. Un bel di vedremo… A comoção na voz dolorida da experiência humana do amor. A voz de cada um, qualquer que seja o lugar onde o amor pousa e o adeus se diz.
M

sábado, 2 de agosto de 2008

74.

Foto de M

Seremos pedras roliças pousadas no prato da balança que é este nosso mundo terreno suspenso no universo?

Chão corroído pelos passos do desespero em círculo?

Cada um com sua textura muito própria, será no abandono que nos sentimos uns aos outros e rejeitamos o abismo?

Perdidas as palavras do pensamento, falaremos apenas com o silêncio de um entreabrir de lábios indecisos?

Será a estética das coisas e dos sentimentos que nos resgata do lado que nos desequilibra?

Porque não perguntar?

M

quinta-feira, 31 de julho de 2008

73.

Foto de M

No Fotodicionário desta semana a palavra proposta foi Amizade. Palavra de múltiplas interpretações e facetas, penso eu, e de certo modo difícil de exprimir por fotografia.
Participei no jogo mostrando este recanto do jardim de uns amigos. É assim que sinto a amizade. Como espaço de diversidade, cores, tolerâncias e cedências, onde pequenas sementes lançadas à terra germinam sem inquietação de primazias e se oferecem com simplicidade à frescura da vida. Rebentos que se abrem em flor na exuberância dos instantes, murchando também com a morte desses mesmos instantes. E o brilho do sol a rasgar a neblina das manhãs indecisas, e a sentir-se bem na companhia das tardes amenas à beira dos caminhos. Até se perder a luz nas sombras do entardecer, deixando-se ali ficar com os olhos piscos de cansaço, entendendo o silêncio dos pássaros, adormecendo a seu lado.
M

quinta-feira, 24 de julho de 2008

72.

Foto de M

O olhar azul suspenso na curva do caminho e a mão que acena de longe um Já venho, não demoro esvoaçando ali como borboleta de asas delicadas. Momento de encontro na distância dos instantes. Até que a ausência volte a ser presença e afago macio sentido na pele. Agora, mais perto, apetece a urgência de subir e descer a vida em degraus de pedra forrados de musgo.

E haverá uma flor para oferecer. Mais logo.
M

quarta-feira, 23 de julho de 2008

71.


Foto de M

Não fosse a Estética das coisas e dos ângulos que o meu olhar segura e ser-me-ia insuportável o movimento aleatório entre leveza e peso.
M

domingo, 20 de julho de 2008

Na Serra de Montejunto III


Coreto de aldeia (Foto de S.)

À Espera dos Convidados

Foi lá que o vi: no cimo de um monte, em aldeia branca com flores e gatos nas janelas. Parecia uma mesa de festa coberta com toalha de renda, preparada para celebrar a música dos homens no silêncio azul do universo.
M

Publicado no Fotoescrita em Junho de 2006

Na Serra de Montejunto II


A balança (Foto de S.)

E Ficar Ali

Este prazer imenso de tocar a quietude e de a sentar ao nosso colo! E esperar que ela nos dê um beijo azul. E depois outro, em tons de verde salpicado de branco, cheirando a flores e a laranjas. E ainda outro, límpido de tão calado. E ficar ali, à espera do voo dos pássaros. Esquecer os pesos do mundo.
M

Publicado no Fotoescrita em Junho de 2006

Na Serra de Montejunto I


Clair de lune (Foto de S.)

Claire de Lune

Passam as histórias de boca em boca, de ouvido em ouvido, de fantasia em fantasia. Comem-se frases, sílabas, letras. Às vezes. Conforme a boca de quem as conta, conforme o ouvido de quem as ouve, conforme a imaginação de cada um. Comem-se e engolem-se. Ficam dentro de nós, em pedaços separados, dentro do estômago do pensamento.
Quem sabe então se este Clair de Lune que paira entre as ruínas de um mosteiro no alto da Serra de Montejunto não terá sido o nome de alguém a quem, na ânsia de lhe contar e conhecer a vida (ou de a desprezar), os habitantes das aldeias vizinhas terão feito desaparecer a letra "e" no final do nome? Se assim aconteceu, embora esta ideia não seja mais do que uma suposição minha sem qualquer fundamento, confesso que me apetece acrescentar-lho de novo e chamar-lhe Claire de Lune. E imaginar uma rapariga de cabelos soltos vagueando pelos montes em noites de luar pela mão de Claude Debussy. Apesar das ruínas. Apesar do tempo que se desmorona mas que igualmente se reconstrói ao modo de cada um. E porque a lua está presente também nos nossos dias, no mistério do que nos toca e se deseja.
M

Publicado no Fotoescrita em Junho de 2006

Ainda a propósito de ausência





Degraus com passado, degraus com futuro (Foto de S.)

O Silêncio da Ausência

Sempre me impressionaram os espaços vazios onde me cruzo com a ausência dos outros. Lugares onde pressinto presenças que eu não conheço, pessoas que ali se demoraram, ou que passaram apenas, que nunca mais voltaram. Ou ainda lugares onde reencontro a memória dos que estiveram a meu lado num determinado momento. Dos que aí riram comigo, que brincaram, que exprimiram pensamentos e dúvidas, que calaram mágoas, que sussurraram inquietações ao meu ouvido, que me escutaram, que me acompanharam no meu silêncio.
Lá longe, numa universidade em Gdansk, emocionei-me também na presença calada desta escada pejada de movimento adivinhado. Não porque conheça quem tenha subido e descido estes degraus magníficos, ou que pressa ou ócio de viver os pisou. Emocionei-me unicamente por causa da tal ausência. Não sei que pedaços de vidas se apoiaram neste corrimão, apenas os imaginei, mulheres e homens plenos de actividade, professores e alunos trocando experiências e entusiasmos, ocupando este lugar de passagem entre o passado e o futuro. Imaginei-os também em desespero, excluídos, usurpado o seu espaço de saber, transformado num hospital dos nazis, a desumanidade da guerra desmoronando-se pouco a pouco com o edifício. O caos. E de novo a esperança poisada nas mãos dos alunos que seguraram cada pedra, cada tijolo, cada minuto do seu tempo, e assim contribuíram para dignificar a sua casa destruída pela insanidade da guerra.
Foi assim que os senti, a meu lado no silêncio dos seus passos e das suas existências.
M

Publicado no Fotoescrita em Agosto de 2005

domingo, 13 de julho de 2008

70.

Foto de M

Será a ausência um contorno por preencher?
M

domingo, 29 de junho de 2008

69.





















Foto de M

Do Tempo que nos rasga os bolsos e nos fere a nudez. Ou do cansaço que pára as máquinas e os corpos. A corda que se parte no gesto lento de a dar, o pensamento rodando o seu próprio silêncio em espasmos de tiquetaques por detrás do vidro frágil. As horas e os segundos da escala humana marcados na pele de cada um.


Havia por aí um anúncio que me lembro de ver com frequência num dos canais de televisão. Não sei descrevê-lo com rigor, apenas tenho a ideia vaga de que se fazia nele a exaltação de um iogurte. A sua eficácia sorridente era explicada através da imagem de um relógio desenhado na barriga de uma rapariga vestida com elegância, e em que o movimento giratório dos ponteiros apontava a duração ideal de um determinado processo fisiológico. E em nós, os espectadores a convencer, misturava-se nos olhos aquela imagem de brinquedo a par com a outra, a da máquina real e invisível que habita os nossos corpos e se deseja que funcione. A tal que começou por ser aberta a bisturi e desenhada com minúcia nos compêndios das escolas médicas, ou nos quadros de moribundos expostos nos consultórios antigos de cortinados soturnos. O desejo de vida, se alguém a queria em momentos difíceis, afugentado logo ali, antes do confronto com o diagnóstico do doutor. Ou seria porventura um aviso subtil sobre a fragilidade do saber humano. Mas felizmente que nos dias de hoje as salas de espera dos consultórios são tão alegres como os anúncios, e as paredes de cores claras mostram serigrafias de flores e pássaros. Ou riscos emoldurados que não entendemos, mas isso não tem importância, porque enquanto adivinhamos o que vemos não pensamos no que não vemos e imaginamos para lá da nossa nudez. Depois, no gabinete do médico que nos recebe, as nossas palavras cruzar-se-ão com a realidade das radiografias expostas sob a luz brilhante das novas tecnologias e a interpretação criteriosa do clínico. Será o modo moderno de sermos desventrados, menos assustador do que os quadros de bisturis, mas mesmo assim o pudor de ser gente continuará a tocar-nos. Talvez por causa desse sentimento o tal anúncio da televisão mostre um relógio desenhado num corpo vestido. Porque sabemos que só a nudez nos acompanha no limite de sermos deixando de ser. E temos medo.
M


segunda-feira, 16 de junho de 2008

E com as cores de outros vos deixo, enquanto vou à procura das minhas reflexões. Devo tê-las guardado muito bem em qualquer lado pois não as encontro de momento no lugar habitual. A persiana fica entreaberta, para que possam espreitar.
M

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As cores de outros IV


Fotos de M