sábado, 17 de julho de 2010

O Prazer de Viajar - 25










Fotos de A com algumas adaptações de M

Lugar de férias e de fins-de-semana junto da costa, e porque de certo modo triste e solitário, interrogo-me como se entretêm os que aqui vêm de visita? Levarão para dentro de casa a cor com que aliviam um pouco o negrume da paisagem? Ou serão eles próprios a cor e o espírito que lhes habita as horas, revivendo o passado a seu modo e confiando-lhe a alma da presença viva, para que nada se perca?
M


(Cachorro, Ilha do Pico)

O Prazer de Viajar - 24


Foto de M

Muito belo este negro silêncio habitado onde só as flores parecem ser capazes de sentir a brancura dos dias.
M


(Cachorro, Ilha do Pico)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

O Prazer de Viajar - 23



Fotos de M

Tão bonito tudo isto!
M


(Cachorro, Ilha do Pico)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O Prazer de Viajar - 22


Foto de A

«Esta ilha – a maior dos Açores – é negra até às entranhas, na própria terra, na bagacina das praias, no pó das estradas, nas casas, nos campos divididos e subdivididos por muros de lava, nas igrejinhas das aldeias, requeimadas e tristes. O aspecto é dum grande luto, duma grande desolação. A fuligem caiu sobre a vasta terra e só de quando em quando um grande plaino cinzento, os mistérios, sucede ao negrume como a lepra ao incêndio.»

Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas – Notas e paisagens, Edição Artes e Letras Açores, Setembro de 2009

(Cachorro, Ilha do Pico)

O Prazer de Viajar - 21






Fotos de M e A

«Isto que de longe era roxo e diáfano, violeta e rubro, conforme a luz e o tempo, aparece agora, à medida que o barco se aproxima, negro e disforme, requeimado e negro, devorado por todo o fogo do Inferno. É um torresmo. Nunca labareda mais forte derreteu a pedra até cair em pingos e desfazer-se em cisco. É uma imagem a negro e cinzento que me mete medo. Há por aí buracos e furnas onde a lava formou colunatas e estalactites azuladas, grandes cachos pendentes, derretidos pelo calor e solidificados pelo resfriamento.»

Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas – Notas e paisagens, Edição Artes e Letras Açores, Setembro de 2009


(Cachorro, Ilha do Pico)

domingo, 11 de julho de 2010

O Prazer de Viajar - 20


Foto de A

tem os pés mais cansados
do mundo, dissera-lhe o homem
enquanto seguiam os três com
as hortênsias. a criança sentada

sobre o dorso olhava o burro e
a vida que se abria em cada curva
como uma fotografia a sépia
de que nunca se regressa. muito

mais tarde, na mesma estrada,
viu o homem sozinho, sem o burro
nem as flores, e reconheceu em si
o imenso cansaço do mundo.

Renata Correia Botelho



E Cabras (Primeiro Livro, Renata Correia Botelho – Urbano) in 21 Haiku com Asas, Urbano, e Cabras, Galeria 111


(Parque Natural Ribeira dos Caldeirões, Ilha de São Miguel)

sábado, 10 de julho de 2010

O Prazer de Viajar - 19






Fotos de A

«Há aqui gigantes diante dos quais a gente hesita e que nos arrastam para o desconhecido.
Ponho-me em comunicação com eles e não os entendo. Evidentemente eu não tenho medo duma árvore quando me habituo à sua companhia. Nem tenho medo de todas as árvores. Mas quando me são desconhecidas, quando tomam estas proporções, quando formam florestas enredadas, quando à noite se põem a murmurar umas com as outras – a minha vontade é fugir.»

Raul Brandão in As Ilhas Desconhecidas – Notas e paisagens, Edição Artes e Letras Açores, Setembro de 2009


(Ilha de São Miguel)

O Prazer de Viajar - 18


Foto de M

Dos ângulos e cores onde o meu olhar se reclina em sossego.
M


(Estufa de ananases A. Arruda na Fajã de Baixo, Ilha de São Miguel)

O Prazer de Viajar - 17

















Fotos de M

Às vezes apetece desmembrar as imagens. Para melhor apreciarmos a elegância dos traços marcados na pedra. Linda a expressão do rosto, transparente o olhar pensativo, tranquilos os gestos nos silêncios do passado.
M

(Estufa de ananases A. Arruda na Fajã de Baixo, Ilha de São Miguel)

O Prazer de Viajar - 16





Fotos de M

Da serenidade dos caminhos que me traz à lembrança o meu amado pintor chinês Ho Huai-Shuo.
Que disparate!, pensarão alguns. Bem te entendo, dirão outros.
O que é certo é que, apesar das diferenças entre estas duas realidades, me lembrei do pintor desde a primeira vez que olhei para a minha fotografia. Procurei o quadro com o qual tinha feito a associação de ideias, voltei a observar a fotografia. Olhei, olhei, olhei, quase a medo… Estarei louca?, pensei. Não sei se estou, o que sei é que me conforta ligar Ho Huai-Shuo à paisagem interior que compõe o meu pensamento.

M

(Parque Natural Ribeira dos Caldeirões, Ilha de São Miguel
e
Alley in the Rain, in Inner Realms of Ho Huai- Shuo, published in 1982 by Hibiya Co. Ltd.)

(Parque Natural Ribeira dos Caldeirões, Ilha de São Miguel)



O Prazer de Viajar - 15



Fotos de M

Também as árvores morrem e me deixam um silêncio triste.
M


(Ilha de São Miguel)

quarta-feira, 7 de julho de 2010

O Prazer de Viajar - 14


Foto de M
(Poemas de Emanuel Jorge Botelho e ilustrações de Urbano, Terceiro Livro 21 Haiku Com Asas, in 21 Haiku Com Asas, Urbano, e Cabras, Galeria 111)



cada árvore é a mãe
do primeiro voo



uma pena quieta dentro do vento,
uma rosa do céu



a aurora dentro de uma asa,
a manhã descendo pelo vento


Emanuel Jorge Botelho


21 Haiku Com Asas (Terceiro Livro, Emanuel Jorge Botelho – Urbano), in 21 Haiku Com Asas, Urbano, e Cabras, Galeria 111

terça-feira, 6 de julho de 2010

O Prazer de Viajar - 13


Foto de M

Nem sempre convirá usar os parentescos como cartão de visita para preenchimento de lugares. Digo eu. Claro que dependerá das situações e dos lugares, não precisarão de mo lembrar, mas neste parque tão naturalmente belo… Sim, o tal Homo sapiens, eu sei, mais o engenho e o cérebro desenvolvido mas… é que nem a trepadeira lhe disfarça as feições e o pêlo e eu gosto de coisas bonitas.
Não percebes nada de iniciativas, dir-me-ão, as crianças acham-lhe graça.
Ah! Pois… Se calhar não entendo nada de antepassados.
M


(Parque Terra Nostra, Ilha de São Miguel)

segunda-feira, 5 de julho de 2010

O Prazer de Viajar - 12




Fotos de M

No movimento de distanciamento e proximidade do olhar sobre as coisas, o meu encontro com a singeleza das flores.
M

domingo, 4 de julho de 2010

O Prazer de Viajar - 11


Foto de M

às vezes a cor sai da moldura
e fala de ti como se fosse lábio;

é quando, sobre a água,
os peixes têm pétalas.


tudo coisas simples, afinal,
como o sal, calado,
de uma lágrima.

Emanuel Jorge Botelho


Urbano (Segundo Livro, Emanuel Jorge Botelho – Urbano), in 21 Haiku com Asas, Urbano, e Cabras, Galeria 111


(Parque Terra Nostra, Ilha de São Miguel)

sábado, 3 de julho de 2010

O Prazer de Viajar - 10


Foto de M

Do entendimento subtil entre naturezas, as pegadas deixadas pelas folhas nos caminhos dos homens.
M

(Parque Terra Nostra, Ilha de São Miguel)

O Prazer de Viajar - 9






Fotos de M

O abraço de um espantoso silêncio húmido.
M

(Caldeira Velha, Ilha de São Miguel)

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O Prazer de Viajar - 8


Foto de M

Através das estórias deste livro conheci um pouco mais daquilo a que chamo “intimidade” de um lugar e de uma sociedade. Uma escrita e desenhos reveladores de grande sensibilidade, observação, sabedoria, compreensão e sentido de humor do autor.
O prazer de viajar. Sem dúvida.
M

O Prazer de Viajar - 7


Foto de M

Rabo de Peixe, a maior vila piscatória dos Açores, também a mais desfavorecida, assim me foi dito e assim a senti no contacto directo com o lugar.
M

quarta-feira, 30 de junho de 2010

O Prazer de Viajar - 6


Foto de M

Talvez as asas do vento ou algum pássaro generoso se tenham apiedado da semente perdida nas ruas da cidade e a tenham pousado ali. Para que crescesse longe do olhar ausente dos homens de passos pesados.
M


(Igreja Matriz de Ponta Delgada)

segunda-feira, 28 de junho de 2010

O Prazer de Viajar - 5







Fotos de M

Sete Cidades e o Caminho das Ruas. O dos seus habitantes como membros de uma comunidade que presumo activa, e o de cada um na sua singularidade. Também o meu caminho ali, porque diferente e ao mesmo tempo reconhecível nos passos que vou dando nas ruas da minha vida.
Pouco vi da intimidade da povoação, do que observei guardo apenas pinceladas de impressões, que os relógios são implacáveis com as horas marcadas por outros dentro dos nossos dias.
Chamou-me a atenção a álea imponente que acolhe a fé dos que se dirigem a pé para a igreja de São Nicolau. Contrasta com as veredas vizinhas onde flores e pássaros fazem ninho em pedras de ruínas abandonadas ao relento.
Nos quintais abrigados do vento cresciam hortas debruadas de hortênsias e um sol tímido acariciava a roupa pousada sobre a erva. Vais corar, ai vais, vais…, murmuraria a mulher que não encontrei e que adivinho divertida em segredos do coração.
Ao fundo do caminho de chão vermelho a lagoa, agora tão próxima, e aquele banco onde gostava de me sentar a sorver toda a serenidade das cores em redor.
M

sexta-feira, 25 de junho de 2010

O Prazer de Viajar - 4


Foto de M


há mãos assim, que de castas,
como as tuas,
prolongam o tempo que há dentro da cor,
e trazem o lume e o brilho da sombra
com que as horas desenham o despojo da luz.

Emanuel Jorge Botelho

21 Haiku com Asas, Urbano, e Cabras, (Segundo Livro, Urbano, de Emanuel Jorge Botelho – Urbano), Galeria 111
Poemas de Emanuel Jorge Botelho
Ilustrações de João Urbano Melo Resendes
Ambos naturais da ilha de São Miguel

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O Prazer de Viajar - 3


Foto de M

«Na minha frente entreabre-se um abismo que nos atira para fora da vida, para regiões inesperadas de sonho. A convulsão, a brutalidade e o fogo levantaram até ao céu grandes paredes vulcânicas, dispondo no fundo do caos alguns campinhos meigos e dois lagos, um inteiramente verde, outro inteiramente azul, separados por um fio de terra e quietos, adormecidos, cismáticos. As forças desencadeadas chegaram a este resultado: - Um pouco de azul, um pouco de verde, ternura e idílio…»

Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas – Notas e paisagens, Edição Artes e Letras, Açores, Setembro de 2009

O Prazer de Viajar - 2


Foto de M

«…O carácter da paisagem é delicado e oculto. Embora a gente veja o campanário e as casas minúsculas no fundo da enorme cratera, duvida, e chega a supor que a vara dum mágico fez parar o tempo, e aquilo se conserva encantado entre montes desmedidos e brutos que o guardam prisioneiro. O tempo passa, os homens passam; só ali tudo está suspenso, na atitude fixa no momento do prodígio. Na solidão mágica não se ouve cantar um pássaro, a água não bole, as flores não bolem. Tudo se mostra na amplidão da cratera aberta para o céu e num grande silêncio estarrecido…»

Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas – Notas e paisagens, Edição Artes e Letras, Açores, Setembro de 2009

O Prazer de Viajar - 1


Foto de M

Of course, SATA, I wouldn´t dare to walk outside this area…


Tenho bem a noção dos meus limites humanos, por isso nem o entusiasmo com que me instalei na barriga deste pássaro enorme ao encontro de cinco ilhas magníficas fundeadas no Atlântico me levaria à tentação de antecipar a aterragem.
Nunca foi desejo meu descer aos trambolhões entre azuis e algodão doce com a ideia de pôr os pés no chão antes da hora prevista, que tudo tem o seu tempo. Certo ou incerto, claro, todos nós o sabemos já de experiência feita, que essa particularidade é parte integrante da condição da vida. E com uma agravante, que pode ser também uma questão de fé: encontraria eu algum anjo de asas brancas disposto a amparar-me na descida e a pousar-me suavemente em solo firme? Supostamente firme, ou assim o desejamos, que a História por aquelas paragens bem tem provado o contrário.
É profundo o azul deste mar de baleias e golfinhos, láctea a espuma instável das ondas sobre as quais baloiçam barcos e cagarros ávidos de peixe. E a terra ali tão perto, em convivência espantosa de fertilidades e securas pardacentas de anos. Belíssima a presença das pedras negras na brancura das casas e nos muros que dividem campos de verde húmido. E as flores, tão harmoniosas em colorações várias, a debruar caminhos na vastidão do silêncio. Obedientes as vacas, o olhar ruminante e pensativo, pesando-lhes o leite na hora do passo lento para a ordenha. Discreto, quase tímido, o cântico dos pássaros à beira das lagoas abraçadas por árvores seculares que a bruma toca, diáfana e misteriosa.
Quem sabe não será toda esta exuberância que encontrei nos Açores uma espécie de presente oferecido, compensação generosa pelos acessos de mau génio, tantas vezes imprevisíveis, que levam as suas ilhas a cuspir o fogo e a lava que queimam a existência dos seus habitantes.
M

sábado, 5 de junho de 2010

111.


Foto de M

Talvez seja na desproporção do que sinto que me encontro. Na luz que atravessa as sombras do indizível, na dispersão da cor que é vínculo, no diálogo das formas embebendo o silêncio.
M