quarta-feira, 4 de julho de 2012

«Com as palavras dentro do olhar» no Palavra Puxa Palavra


Foto de Justine proposta para o desafio Com as palavras dentro do olhar, em 21 de junho de 2012, no Palavra Puxa Palavra

E pôs-se ao caminho.
Recebera a notícia no dia anterior, escondia-se então o sol para lá da serrania, mas não ousara enfrentar a noite pois conhecia os seus azedumes ventosos no início da primavera. Preferiu esperar pela manhã, que sabia habitualmente mais amena por aquelas paragens.
Levantou-se cedo, abriu as portadas do quarto para perscrutar os campos em redor da casa e preparou-se para sair. Vestiu a roupa deixada de véspera sobre a cadeira à beira da cama, calçou os sapatos com sola de borracha grossa e fechou-se na casa de banho. Não se demorou. Apareceu daí a minutos na cozinha com o cabelo bem penteado preso no alto da cabeça com o seu gancho predileto, olhou para mim e sussurrou-me um
Bom dia. De pé, mastigou à pressa o naco de pão de centeio que lhe ofereci para acompanhar o café quente bebido de um trago, o pensamento longe na distância da paisagem invisível. Em seguida pousou a caneca em cima da mesa de madeira escurecida pelos anos e enfiou o pesado capote de lã serrana. Abraçou-me então demoradamente e saiu de casa encostando a porta sem fazer ruído.
Fiquei a vê-la por detrás das vidraças. Reparei que estremeceu um pouco ao sentir no corpo a friagem matinal enquanto, com mão firme, aconchegava o cabeção do casaco ao pescoço para se proteger dos farrapos de neve que teimavam em descer sobre os seus ombros.
Não olhou para trás, não voltei a ver-lhe o rosto, mas adivinhei nele a determinação de sempre.


M

«Com as palavras dentro do olhar» no Palavra Puxa Palavra


Foto de Jawaa proposta para o desafio Com as palavras dentro do olhar, em 16 de maio de 2012, no Palavra Puxa Palavra

Sentei-me numa das pedras a sentir o silêncio da paisagem. Relativamente perto de mim, junto de uma senhora que presumi ser sua mãe, um menino segurava nas mãos pequeninas um cone de gelado de baunilha que ora lambia ora trincava, absorto no prazer do momento.Achei-lhe graça e espreitei-o de vez em quando, curiosa. A certa altura reparei que chorava, lágrimas tristes escorrendo dos seus olhos de um azul profundo.
Deixei cair o gelado na água, mamã, e agora está todo derretido.
A mãe acariciou-lhe demoradamente os cabelos e aconchegou-o a si. Não fiques triste, meu querido. Olha! Transformaste o teu gelado numa raia enorme. És um artista!
O menino olhou para a mãe, olhou para o lago, e assim permaneceu durante alguns minutos, como que suspenso nos seus pensamentos. Depois sorriu e disse: Parece a raia do Oceanário de Lisboa!

M

«Com as palavras dentro do olhar» no Palavra Puxa Palavra


Foto de Bettips proposta para o desafio Com as palavras dentro do olhar, em 19 de abril de 2012, no Palavra Puxa Palavra


Esquissos de voos. Precisamos deles como de mobiles sobre berços de meninos. À roda, à roda, provocando risos e gorjeios. Imparáveis. Estás presa por arames, dizia em tempos o meu irmão. Talvez. Ou será nas memórias que estou presa? Estranhas e brancas são as portas da memória. Às vezes confundem-se. Ou ajustam-se vezes outras na diferença entre si abrindo-se à união possível com o passado. E do futuro que me sobra e desconheço, escondido na sombra ao cimo da escada que lhe dá passagem? Onde tenho eu a chave desse mistério de vida ainda? Onde procurá-la? No patamar do presente? Dentro de mim?

M

«Com as palavras dentro do olhar» no Palavra Puxa Palavra



Foto de Agrades proposta para o desafio Com as palavras dentro do olhar, em 16 de fevereiro de 2012, no Palavra Puxa Palavra

Gasta, e no entanto tão bela, pode ser a pele do Tempo, companheiro de viagens que guardam dentro do corpo a aventura do pensamento. 

domingo, 17 de junho de 2012

176.


Foto de M
 
Entretenho-me a espreitar a azáfama destas criaturinhas aladas em bzzs de impor respeito ao mais afoito citadino a deambular pelos campos. Gostaria de entender as suas conversas abelhudas, confesso. Será de Van Gogh que falam? Ah como ele amava o amarelo! 
M

quinta-feira, 7 de junho de 2012

PROVÉRBIOS FOTOGRAFADOS - 18



Foto de M

«Remenda o teu pano, chegará para o ano. Torna a remendar, tornará a chegar»

(sugerido pela Jawaa para o desafio "Provérbios Fotografados no PPP)

No Rifoneiro Português por Pedro Chaves (2ª edição), Editorial Domingos Barreira, aparece ligeiramente diferente:

«Remenda o pano, durar-te-á outro ano, torna a remendar, outro ano há-de passar»

Este postal desenhado por Stuart foi adquirido e escrito pelo meu Avô paterno e enviado a uma das suas irmãs, em 1939.

E, para quem não o conheça, aqui fica alguma informação retirada da net sobre Stuart.



P.S. - Aparentemente não me terei explicado muito bem porque já houve duas pessoas que pensaram que eu era da família de Stuart, por isso esclareço aqui que não sou.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

175.

Foto de M

Ao olhar para cima vi-os. Estavam à beira da estrada florestal, empoleirados entre a terra e o céu, desmembrados os corpos, negro o silêncio de gritos sem nome esvaindo-se dentro das bocas escancaradas. Medonha, desajustada e desumana esta presença pesada de materiais amassados devorando a pureza de uma mata belíssima onde espreitam coelhos e lebres entre as fragrâncias do arvoredo e o canto dos pássaros pousa leve sobre as giestas em flor. 
M

quinta-feira, 3 de maio de 2012

AVISO

O meu computador está com um problema pelo que terei que o levar à vistoria. Não sei quanto tempo estarei ausente da net.
M

PROVÉRBIOS FOTOGRAFADOS - 17

Foto de M
   
«A luz onde está, logo aparece»

Rifoneiro Português por Pedro Chaves (2ª edição), Editorial Domingos Barreira                   

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Porque a Bettips gosta muito de oliveiras, um segundo presentinho que lhe ofereço, retirado do meu baú das memórias


Contrastes
(Foto de S.)

Afastamento

Até a tua sombra me foge na distância de um abraço impossível.

M

(22 de maio de 2005)

Porque a Bettips gosta muito de oliveiras, um presentinho que lhe ofereço, retirado do meu baú das memórias


As contorcionistas
(Foto de S.
)

No Jardim

O Passarito poisou em cima da oliveira com uma ideia muito maluca dentro da cabeça: queria ter asas azuis da cor do céu!
– Mas tu tens umas asas tão bonitas, meu pequerrucho! – disse-lhe a mãe, empoleirada a seu lado. – Que ideia a tua de quereres ter asas de outra cor!
– Mas eu quero – respondeu o Passarito. E começou a fazer uma birra, abanando muito a cabeça de um lado para o outro, e abrindo e fechando o bico, como se quisesse gritar. ­– O céu não está longe, podemos muito bem ir lá buscar azul para eu me pintar.
– Está muito longe – disse a mãe, ao mesmo tempo que metia com suavidade o bico entre as penas acinzentadas do filho. Era a maneira de ela lhe fazer festas. – As tuas penas são lindas!
– Mas eu agora quero ser azul! Tu não percebes nada! Não estás mesmo a ver?...
– A ver o quê?! – A mãe olhou para ele admirada.
– Eu quero enfeitar esta árvore. Já viste como ela é? É cinzenta, mamã... Com estas minhas asas ficamos iguais, da mesma cor não tem graça nenhuma! É preciso explicar-te tudo!...
– Ah, então foi por isso que acordaste com essa ideia maluca! – respondeu a mãe. – Mas... achas que o azul é a melhor cor para enfeitares a oliveira? Anda cá, vamos voar até àquele raminho mais abaixo e tu olhas com atenção para cima...
– Para quê? Já disse que gosto de azul, e só do azul do céu! – E, como estava muito zangado, bateu as asas com tanta força que se desequilibrou e foi pelo ar a voar aos trambolhões. Estatelou-se no passeio, escorregou, mas depois lá se endireitou. E olhava para todos os lados, um bocadito envergonhado.
– Que grande voo! Até parecia que estavas a ser empurrado por alguma tempestade! – A mãe poisava agora no chão, a seu lado.
Entretanto, os pombos que por ali andavam em busca de grãozinhos de milho miravam e remiravam o Passarito, muito espantados, sem perceberem como é que ele, sendo tão pequenino, era tão refilão e fazia tanto barulho. Só o ouviam piar, piar... E eles que gostam de comer sossegados! Passam a vida de um lado para o outro, com aquelas asas compridas que me lembram o fraque que o pai da minha amiga Beatriz veste para ir a casamentos.
– Então, já passou a birra? Apanhaste um susto com esse trambolhão, não foi? – A mãe chegou-se mais para junto dele e disse-lhe baixinho: – Olha para o céu. Estás a ver o que acontecia se as tuas asas fossem azuis? Repara bem!
O Passarito levantou a cabeça, um bocado contrariado, claro, e espreitou lá para cima.
– Não achas que quem olhasse cá de baixo via tudo azul? - perguntou a mãe. - Ninguém reparava em ti... Vamos pensar numa outra cor... Que tal um amarelo?
– Amarelo?! – Ele não estava lá muito convencido com a ideia da mãe.
– Sim, o amarelo daquelas folhas caídas sobre a relva ali ao fundo... É tão bonito! – sugeriu ela.
– Oh, esse já não está amarelo, está quase castanho...
– Achas? Pois eu acho-o lindo. Até tenho encontrado aqui um homem a apanhar folhas iguais a estas e a guardá-las dentro de um carrinho de rodas. E é muito engraçada a vassoura com que ele varre a rua...
O Passarito olhava para a mãe, olhava para as folhas, olhava para o céu, voltava a olhar para a mãe... Parecia indeciso, mas como era um bocadinho teimoso...
– Então e como é que eu faço? – perguntou por fim, baixinho, porque não queria que os pombos o ouvissem. Depois daquela birra de há pouco era uma vergonha. – As folhas estão secas e partem-se se eu lhes tocar...
– Vamos fazer assim: continuas com as tuas asas, que são lindas...
– Mas tu disseste...
– Espera, tem calma! Ficas na mesma com as tuas asas acinzentadas e eu escolho uma folha das mais bonitas, grande, e seguro-a na tua cabeça, como se fosse uma coroa. Achas bem?
– Mas... como é que se segura? – O Passarito começava a pensar que a ideia da mãe talvez não fosse de desprezar.
– Vamos procurar um fiozinho, daqueles que às vezes andam por aí... Nunca reparaste que algumas pessoas atiram coisas para o chão? Olha, ainda ontem vi uma senhora deixar cair um cordel no passeio. Quando abriu o saco do milho para os pombos e meteu a mão dentro... ele escorregou. E era encarnado! Ficava mesmo bem a segurar a coroa... Que te parece?
O Passarito abriu muito os olhos e, sempre aos saltinhos, procurou, procurou, até que encontrou o que queria.
– Encontrei um! – Ele estava agora muito contente.
– E eu descobri esta folha linda, olha! Vais parecer um príncipe! – E a mãe, pegando cuidadosamente na folha com o bico, prendeu-a com o fiozinho encarnado à cabeça do filho.
– Estou bonito? – perguntou o Passarito.
– Estás lindo! – disse a mãe, toda vaidosa.
– Então e agora? – Ele não parava de fazer perguntas.
– Agora já podes voar até ao cimo da árvore. Com cuidado… – E ficou a admirá-lo, enquanto ele subia até ao ramo mais alto da oliveira, devagarinho para não estragar a coroa.

M

(31 de maio de 2005)

domingo, 8 de abril de 2012

PROVÉRBIOS FOTOGRAFADOS - 16


Foto de M

«Asado é o pau para a colher»

Rifoneiro Português por Pedro Chaves (2ª edição), Editorial Domingos Barreira

quarta-feira, 7 de março de 2012

174.


Foto de M

Era uma vez um edifício muito alto que morava numa cidade à beira-rio. Reparei nele. Sobressaía num bairro de ancestralidades e estilos diferentes do seu pelo que dei comigo a pensar no que teria sentido ao ir pouco a pouco tomando consistência entre a terra e o céu, encaixado naquele espaço de criações outras que não a sua. E imaginei que poderia ter estranhado vizinhança tão diversa, o que o levaria a recolher-se atrás dos pequenos rectângulos marcados no corpo que, à distância do meu olhar, me pareciam janelas fechadas. Mas, tanto quanto me é dado fantasiar, a presumível desconfiança e desajuste iniciais entre os residentes ter-se-á dissipado com a convivência diária. E de tal forma íntima ela se tornou, suponho, que a ampla parede do jovem edifício passou a ser lugar de encontro para o pensamento do olhar.
M

sexta-feira, 2 de março de 2012

Provérbios Fotografados - 15


Foto de M

«Antes de morder, vê com atenção se é pedra ou pão»

Rifoneiro Português por Pedro Chaves (2ª edição), Editorial Domingos Barreira

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

173.


Foto de M

Gosto de espreitar o meu mundo através das frestas que o Tempo me oferece.
M

domingo, 19 de fevereiro de 2012

REGRESSO

Estou de volta. Foi mais rápido do que supunha.

M

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

AVISO

Possivelmente vou estar uns dias sem computador, portanto não se admirem com o meu silêncio.

M

domingo, 12 de fevereiro de 2012

O Prazer de Viajar - 73


Foto de M

Quando avistei a fajã lá do alto, lembrei-me dos presépios que a minha Tia Chanel construía com a sua imaginação de tia querida, era eu criança. Recordei-a a amarfanhar folhas de papel pardo com as mãos leves e a dar-lhes forma de montes que, juntamente com o musgo fresco apanhado nos jardins por onde passeávamos, compunham o solo da nossa aldeia natalícia a viver temporariamente em cima de uma cómoda. Havia de tudo nesta aldeia da minha infância: casinhas de barro pintado, pastores, ovelhas, mulheres carregando cântaros à cabeça, flores, passarinhos, lagos que brilhavam em espelhos pequeninos, patos. Mais longe, os Reis Magos desciam pelos caminhos que os levariam à presença das figuras principais abrigadas na cabana, afinal as grandes responsáveis pela existência daquele cenário que nunca mais esqueci.
De presépios feitos pelos moradores da Fajã do Ouvidor – assim se chama – nada sei, mas imagino que também os haverá em Dezembro. Ou talvez não, pois vivem o ano inteiro dentro de um.
Mas deixando as fantasias, recomendo que espreitem os links abaixo. Neles encontrarão informação interessante sobre as fajãs em geral, sobre esta em particular, e sobre os produtos cultivados nos seus terrenos.
M

http://pt.wikipedia.org/wiki/Faj%C3%A3_do_Ouvidor
http://pt.wikipedia.org/wiki/Inhame
http://pt.wikipedia.org/wiki/Inhame_dos_A%C3%A7ores
http://pt.wikipedia.org/wiki/Revolta_dos_inhames

Fajã do Ouvidor, Ilha de São Jorge, Açores

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O Prazer de Viajar - 72






Fotos de M

Não, não “Era uma vez uma casa branca nas dunas voltada para o mar”, nem vi nenhum rapazinho. E, por mais que olhasse para dentro das poças de água transparente e linda, não descobri “uma menina muito pequenina a rir”, que a história A Menina do Mar de Sophia de Mello Breyner é outra.
Não duvido que aqui em Biscoitos os meninos açorianos lêem Sophia, mas também Gaspar Frutuoso (*), no seu livro Saudades da Terra, conta histórias muito interessantes que lhes irá satisfazer a curiosidade. De um outro modo será, certamente adaptadas à curiosidade que com as crianças vai crescendo. E como ainda existe em mim um misto de criança e de adulta, apeteceu-me trincar a pedra negra da parede ali ao lado, a lembrar o pão biscotum que, preto porque cozido duas vezes para durar, alimentava os navegadores de então. Claro que não ousei pôr em prática essa minha ideia, por mor do bom estado futuro dos meus dentes. Contentei-me com a informação de que o solo de Biscoitos tem uma pedra muito parecida com o tal alimento das viagens marítimas, e que à semelhança entre ambos se deve o nome da povoação. E imaginei o sabor de uns outros biscoitos referidos numa passagem do livro Mau Tempo no Canal que terão feito as delícias de Margarida durante a sua estadia em casa do barão e da baronesa da Urzelina:

« - E amanhã de manhã traz-se-lhe o leitinho à cama… - disse a baronesa.
- Quer pão com manteiga ou biscoitos?
- Olhe que é tudo de casa… - declarou o barão. – Só comemos manteiga de pêlo, batida à vista. O engenho trabalha só para o vapor. Amanhã mostra-se-lhe tudo, Angélica!»

M

Mau tempo no Canal, Vitorino Nemésio, Publicações Dom Quixote

Biscoitos, Ilha de São Jorge, Açores

(*)
http://asilhasencantadas.blogspot.com/2011/01/gaspar-frutuoso.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Gaspar_Frutuoso

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

172.


Foto de M

Lindo o gesto de aliviar feridas no corpo das árvores, a lembrar beijos pousados em dói-dói de menino.
M

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O Prazer de Viajar - 71


Foto de M

«Os primeiros dias do desterro de Margarida correram suaves na Urzelina. Bem na Urzelina, não. A casa do capitão José Urbanino – como a conheciam ainda – ficava um pouco retirada da linha da povoação, apontando com os telhados baixos e longos, com a sua eira e o engenho, na direcção da «Serra» - a Serra vaga e toda lombar de São Jorge, mãe de milhares de vacas que parecem encarregadas de berrar de dor por ela e de milhões de vitelas enterradas no seu seio de fogo, virgens do garfo do gourmet.
Construída numa leve ondulação do terreno, a vivenda do barão via em baixo a chamada Torre Velha e a casa que servira de passal, relíquias dos rastos humanos que a grande erupção de 1808 soterrara na lava.»

«Ao poente estendia-se a terra lambida e negra que o grande respiradoiro de repente aberto na ilha amontoara ali – a Queimada – com um ar de capuz de penitente envolvido num crime fantástico, e que por isso mesmo o povo chama nas ilhas «mistério», pois todas elas são dadas a esse fadário telúrico que não teve Abel nem Caim. A vegetação, porém, começava a ganhar o duelo travado há mais de um século entre aquele borralho negro e as forças escondidas no chão; e a urzela, o pinheiro, a ruivinha que pinta os queijos e as saias, o incenseiro de florinha cerosa e de baga melada vestiam de folhas e de pássaros a desesperada solidão.»

Mau Tempo no Canal, Vitorino Nemésio, Publicações Dom Quixote

Torre sineira da Urzelina (o que resta da igreja destruída pela erupção de 1808), Ilha de São Jorge, Açores

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O Prazer de Viajar - 70


Foto de A.

A velha torre sineira da Urzelina é o que resta da igreja destruída pela terrível erupção de 1808, cuja descrição poderão encontrar no link abaixo indicado. O nome Urzelina vem de urzela, planta tintureira.
M

«Vulcão da Urzelina é a designação dada à erupção vulcânica que em 1808 destruiu a freguesia da Urzelina, na ilha de São Jorge, Açores, criando o extenso mistério basáltico que hoje forma a Ponta da Urzelina.»
«Mistério (geologia) é o nome dado nos Açores às formações lávicas recentes, em particular às originadas por erupções ocorridas após o povoamento das ilhas.»

http://pt.wikipedia.org/wiki/Vulc%C3%A3o_da_Urzelina

Freguesia de Urzelina, Ilha de São Jorge, Açores

Link

sábado, 4 de fevereiro de 2012

O Prazer de Viajar - 69






Fotos de M

Felizmente eu estava longe, empoleirada em cima da diminuta base de um muro, com uma vaca amistosa por perto, ambas entre a terra verde e o mar azul, ela com brincos, eu sem eles.
Tipos de valentia haverá muitos e diversos por esse mundo fora, claro. A minha, ao invés daquela outra mais belicosa, lá em baixo ao fundo da estrada, foi a de ousar encurtar a distância de uma tradição insular equilibrando-a dentro da máquina fotográfica. A da minha pensativa companheira de paisagem não faço ideia qual fosse.

M

Estrada para o Povoado Santo António, Ilha de São Jorge, Açores

O Prazer de Viajar - 68




Fotos de A.

E de repente, ali na íngreme estrada de alcatrão para Santo António, uma tourada à corda! Uma fila de carros enorme, um aglomerado de gente e touros ao fundo, desconhecida a duração do evento.
Trepo ao muro mais próximo e nele me equilibro para fotografar à distância aquele feito de valentias que a tradição insular exibe. Perto de mim, do outro lado do muro, entre a terra e o mar, uma vaca espia-me.
M

«Tourada à corda, toirada à corda ou corrida de touros à corda, é um divertimento tauromáquico tradicional nos Açores, com particular expressão na ilha Terceira, acreditando-se ser a mais antiga tradição de folguedo popular do arquipélago. A modalidade tauromáquica é específica dos Açores e caracteriza-se pela corrida de 4 touros adultos da raça brava da ilha Terceira ao longo de um arraial montado numa rua ou estrada, num percurso máximo que regra geral é de 500 m. O animal é controlado por uma corda atada ao seu pescoço (daí a designação do tipo de tourada) e segura por 6 homens (os pastores) que conduzem a lide e impedem a sua saída para além do troço de via estipulado. A lide é conduzida por membros do público, em geral rapazes, embora seja admissível a presença de capinhas contratados. Após a lide, os animais são devolvidos às pastagens sendo repetidamente utilizados, embora com um período de descanso mínimo de 8 dias.
O primeiro registo conhecido da realização de uma tourada à corda data de 1622, ano em que a Câmara de Angra organizou um daqueles eventos, enquadrado nas celebrações da canonização de São Francisco Xavier e de Santo Inácio de Loiola. Contudo, presume-se que as corridas de touros à corda nos folguedos populares já ocorressem há muito, o que justifica a inclusão daquele evento numa festividade oficial.
A realização de corridas de touros à corda foi adquirindo ao longo dos tempos um conjunto de características, fixadas por normas e regras de cariz popular que hoje se encontram legalmente codificadas. Aquelas normas estabelecem os procedimentos de saúde e bem-estar animal a seguir em relação aos touros, os sinais correspondentes aos limites do arraial (riscos no chão), os sinais a utilizar na largada e recolha do touro (foguetes). Para protecção dos espectadores os touros não estão "em pontas", isto é, têm sempre a ponta dos chifres cobertas por algo que proporcione a protecção do espectador, as regras a seguir na armação dos palanques e na protecção dos espectadores e ainda a actuação dos capinhas (toureiros improvisados que executam sortes recorrendo a um guarda-sol, uma varinha, um bordão enconteirado ou uma samarra).»
(Retirado do site abaixo indicado)

http://pt.wikipedia.org/wiki/Tourada_%C3%A0_corda

(Estrada para o Povoado Santo António, Ilha de São Jorge, Açores)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O Prazer de Viajar - 67




Fotos de M (o melhor que consegui)

«Desde a igreja de Santa Bárbara, onde o barão levara Margarida a ver os célebres azulejos, a estrada trocava os muros e a corda de casas acesas do lume da ceia por uma lomba inóspita e interminável, bordada ainda de terras de semeadura, mas já espaldada pelo baldio vulcânico da ilha, a que a lua dava um brilho singular de crateras mortas e cobertas de um verde adolescente. Era o logradoiro do gado de quem é pobre – «a Serra», a assentada dos ventos convocados para o grupo central dos Açores e encarregados da ronda de todo o arquipélago, desde os calcários de Santa Maria à estátua de Chactas no Corvo e aos sargaços do Gulf Stream.»

Mau Tempo no Canal, Vitorino Nemésio, Publicações Dom Quixote

Igreja de Santa Bárbara, Manadas, Ilha de São Jorge, Açores

O Prazer de Viajar - 66


Foto de M

Em Manadas, um complexo vulcânico no centro da Ilha de São Jorge, encontra-se a riquíssima igreja de Santa Bárbara, com azulejos e talhas de relevo no seu interior, “erguida em 1770, sobre os restos de um antigo templo que remontava a 1485. Dele ainda existem vestígios que, atualmente, se resumem à sacristia. Da primitiva resta a sacristia da actual igreja”. (*)

Igreja de Santa Bárbara, Manadas, Ilha de São Jorge, Açores

(*) Aos mais curiosos recomendo que visitem:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_de_Santa_B%C3%A1rbara_%28Manadas%29

http://pt.wikipedia.org/wiki/Cedro-do-mato

O Prazer de Viajar - 65






Foto de M

«Os momentos de fraqueza, recordou, tivera-os de joelhos, à boca do confessionário e ao ouvido do director espiritual. Nunca revelara a ninguém os segredos profundos, com medo de ser denunciado pelos seminaristas que espiavam o comportamento dos elementos suspeitos. Dissera ao seu director espiritual que o pior de Deus é quando entra em agonia dentro do homem. Em agonia, Deus é uma larva corrosiva: rói o estômago dos seus hóspedes, chupa, um a um, todos os ossos, é um animal roedor. Mas isso fora dito em estado de desespero, quando pediu conselho acerca do pouco sentido que explica e não explica uma existência parada entre os muros dum seminário.
- Dúvidas, filho, crises de fé, horas de angústia – respondera-lhe a vozinha do confessor através da rede -, quem as não tem? Os padres, o bispo, talvez até o papa. Só os espíritos tíbios não acusam a lucidez da dúvida. Vai descansado.»

Gente Feliz com Lágrimas, João de Melo, Colecção Mil Folhas Público

Igreja de Santa Bárbara, Ilha de São Jorge, Açores

O Prazer de Viajar - 64


Foto de M

«Com uma noite quase em claro, João Garcia conseguiu chegar à Matriz a tempo. As cerimónias decorriam com um ritmo grave e inalterável. Não se ouvia uma mosca. Os padres iam e vinham do altar armado no transepto; e aquela alteração no estilo do culto, aproximando-os do povo, como que tornava mais íntimo o seu sentido trágico, humanizado no celebrante de alva cingida e tufada, autenticamente compungido naquela melopeia precursora da imolação de um Cordeiro que desencadeava a cólera do Deus da Montanha e a representação do fim de tudo.
Na Matriz da Horta, quando havia endoenças, comprava-se só cera amarela. Metiam-na num soluto sujo, como se fosse engraxada. Com a desnudação dos altares e os cortinados negros, já desfranzidos nas janelas à espera da hóstia consumida, enlutava-se tudo; caía uma sombra quase táctil, cortada das palavras rituais: In spiritu humilitatis, et in animo contricto suscipiamur a te, Domine…»

Mau Tempo no Canal, Vitorino Nemésio, Publicações Dom Quixote


Igreja Matriz da Horta, Ilha do Faial, Açores

Para os mais curiosos, aqui fica esta interessante informação:

http://orgaos-a-cores.blogspot.com/2009/06/actualmente-o-unico-funcional-na-ilha-o.html

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O Prazer de Viajar - 63


Foto de A.

«Entrava em pormenores. Margarida ouvia-o agora vagamente distraída, de cabeça voltada às nuvens, como quem tem uma coisa que incomoda no pescoço, um mau jeito. O cabelo, um pouco solto, ficava com toda a luz da lâmpada defronte, de maneira que a testa reflectia o vaivém da sombra ao vento.
Estavam quase ao alcance da respiração um do outro: ela debruçada num muro de pedra de lava; ele na rampa de terra que bordava a estrada ali larga, acabando com a fita de quintarolas que vinha das Angústias até quase ao fim do Pasteleiro e dava ao trote dos cavalos das vitórias da Horta um bater surdo, encaixado. Dali à entrada da quinta corria um muro de pedra solta onde espreitavam trepadeiras, e só a uns vinte metros se erguia a parede nobre com o grande portão verde de padieira grossa, que ao abrir bem atrás, devido a uma posição mal calculada, batia na borda da sineta arrematada do naufrágio de um veleiro.(…)»

Mau Tempo no Canal, Vitorino Nemésio, Publicações Dom Quixote

Horta, Ilha do Faial, Açores

Provérbios Fotografados - 14


Foto de M

«Antes embebedar que constipar»

Rifoneiro Português por Pedro Chaves (2ª edição), Editorial Domingos Barreira