quarta-feira, 25 de setembro de 2019

O NOSSO QUERIDO MÊS DE AGOSTO


Foto de M

4. O Tempo dos Outros

Eu em casa a ver talvez o filme Lawrence da Arábia, eles baloiçando numa outra luta, as cabeças protegidas do calor de um agosto de cidade deserta no século 21. 
M

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

O NOSSO QUERIDO MÊS DE AGOSTO


Foto de M 

3. Os Agostos da Nossa Juventude 

Várias fotografias e palavras poderia eu escolher para lembrar os agostos da minha juventude mas elas seriam restritivas pela sua condição de eleitas para um objectivo de ocasião. Se distinguisse apenas determinados episódios e as emoções a eles associadas correria o risco de esquecer por momentos a relevância de outros igualmente marcantes guardados no desejo de absoluto que a memória por vezes tem. Assim, num compromisso meu com essa ideia de absoluto, privilegio esta imagem: nela está contida a essência desse tempo da minha vida. 
M

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

O NOSSO QUERIDO MÊS DE AGOSTO


Foto de M

2. As Sombras dos Lugares 

É lugar de emigração aquele, a serra caminho verde para o abraço no regresso às festas do calendário litúrgico de cada aldeia e ao tule a esvoaçar como pássaros no adro da igreja. Conversas abrem risos entre famílias e amigos, visitam a casa em construção, assentam mais uma fiada de tijolos na parede da varanda virada ao pôr do sol, escolhe-se o chão onde pousar o futuro, o pensamento entre là-bas e o depois. No entanto, despedaçados podem ficar os sonhos na curva da estrada que se conhece desde sempre, violentamente expostos na memória da terra-mãe em empresa de sucata à beira das giestas em flor. Tão invasivo e chocante pode ser este nosso mundo! 
M

terça-feira, 27 de agosto de 2019

O NOSSO QUERIDO MÊS DE AGOSTO


Foto de M 

1. A Luz dos Lugares 

A luz dos lugares tem afinidades com os que lhe são íntimos ao longo de muitos anos. 

Em tempos idos, nem as paredes da casa nem as crianças que ali viviam os meses de verão se importavam com as respectivas estaturas. Existia aquela espécie de porta de casa de bonecas que abria e fechava à passagem desenfreada de meninos em busca de brincadeiras novas e pronto, tudo era festa. Apenas os adultos mostravam algum cuidado ao entrar e sair, não fossem as suas cabeças supostamente experientes provocar litígios com o lintel da porta, ao ponto de criarem galos onde ninguém pensa que cresçam, ou verem pássaros a esvoaçar entre estrelas coloridas. E porque, como diz o ditado popular Cada um em sua casa é rei, esses nossos conhecidos de penas apresentam-se sem dúvida mais garbosos quando anunciam um novo dia nas manhãs orvalhadas ou debicam nos campos de terra batida acompanhados da sua prole. 
Ora aconteceu que alguém com artes de desenho, prevendo que os meninos medram como as culturas na aldeia, teve a ideia brilhante de ali colocar um aviso divertido para evitar problemas aos distraídos. E passou a velha casa de grossas paredes de pedra, que em tempos tinha sido curral de cabras, a sentir-se honrada com as vénias que a todo o momento lhe são prestadas. E nós felizes por podermos continuar a observar constelações de estrelas no céu das noites límpidas de verão. 
M

quinta-feira, 18 de abril de 2019

257.


Foto de M 

Do que vejo e me impressiona nas ruas por onde passo. Feridas na pele de um corpo marcado por privações, o abandono escancarado, um aceno deixado ao relento, delicado e branco como a dor pode ser. Quem? Porquê? Quando? 

M

sexta-feira, 12 de abril de 2019

256.


Foto de M 

Lembrei-me deles quando ali passei. Imaginei-os diante deste recanto de luz e sombras, sentados em banquinhos desdobráveis de lona parda, a caixa das tintas pousada no chão, a tela no cavalete enriquecida aos poucos com as pinceladas reveladoras da forma particular como olhavam o mundo. Era um dia de maio e eu passeava pela aldeia respirando a pureza que ela me oferecia. 

M

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

FELIZ NATAL


Foto de M

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

255.


Foto de M

Quando eu era pequena os meus Pais tinham uma empregada que me contava histórias aterradoras. Uma delas era a de um ladrão que trepava as paredes com pé direito alto do prédio antigo onde vivíamos e entrava dentro de casa pela janela do meu quarto no terceiro andar. Claro que seria impossível alguém chegar até lá, a não ser com andaimes, mas eu não conseguia ter esse raciocínio e ficava apavorada. Assim, mal anoitecia, fechava rapidamente as portadas, e tremia de medo a imaginar o tal homem suspenso pelos braços, as mãos cravadas no parapeito, preparado para entrar. Chegada a hora de me deitar, enroscada em pensamentos assustadores, só conseguia adormecer depois de espreitar debaixo da cama para me certificar de que ninguém se tinha escondido ali. Espreito, não espreito, e se está aqui alguém... Ui, o medo quase me paralisava! Teria sido mais avisado se tivesse revelado aos meus Pais o que me afligia, mas nunca o fiz e eles também nunca se aperceberam da arte de contadora de histórias horríveis da empregada. O prédio existe ainda, enorme e de boa saúde, rondo-o às vezes, mas nunca vejo ninguém com aspecto de ladrão pendurado nele. Só durante as festas natalícias aparecem por lá vários sósias de Pai Natal insuflável com os sacos às costas carregados de presentes sonhados por meninos em cartas escritas pela fantasia. Passam dias e noites equilibrados nos ferros das varandas, plastificados a preceito, o debrum do gorro vermelho misturando-se com as barbas brancas, o cinto preto com fivela dourada envolvendo a barriga proeminente sob o casaco, sem que ninguém lhes abra as janelas e receba as encomendas. Momentos de desilusão, suponho, atenuados pelas descrições divertidas dos percalços encontrados nas suas viagens em trenós puxados por renas, entre a saída da Lapónia e a chegada ao destino. Talvez alguma criança nos oiça, costumam gostar de aventuras, comentavam entre si.
M

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

254.


Foto de M

Sem pensar duas vezes, correram para a pedra. Pelo menos assim me pareceu. Eu ia atrás deles, em passeio de domingo, e fui ouvindo a conversa, uma palavra aqui, outra ali, mas sem prestar grande atenção. Caminhavam em passo lento, a opinar sobre uma qualquer pedra fracturada. À distância afigurava-se- -lhes suficientemente larga para se acomodarem os três. Aposto que cabemos. Pois eu aposto que não. Então dois de cada vez. Dessa estás tu livre, ninguém é deixado de fora, não foi isso o combinado. Ou há coesão ou nada feito. Na última parte do trajecto calaram-se. Mas nem eu nem os pássaros que por ali esvoaçavam, ou as lagartixas fugidias rasteirinhas aos nossos pés, fazíamos ideia que decisão final teria sido tomada. E talvez nem eles. Quem cala consente mas não sempre, portanto o melhor é evitar entrar no silêncio de cada um, por causa das más interpretações. De repente largaram numa correria na direcção da pedra e o resultado está à vista. Não entendo que bicho lhes mordeu, iam tão devagar... Apanharam-me de surpresa, confesso. Mas depressa arranjaram explicação para o aperto em que se meteram. O artesão que nos moldou imaginou-nos assim, não podemos desiludi-lo. Não achas?, perguntavam uns aos outros. Bem encostados até se relaxa um pouco, argumentava um deles. Ora, balelas! A ergonomia funciona apenas contigo, só tu tens sofá esculpido à tua medida. Gente estranha... Deixei-os lá com aquela conversa maluca. Há cada um! 
Limitei-me a dizer Pois... ao meu interlocutor do momento, palavra que utilizo em impasses de conversas.
M

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

253.


Foto de M 

Pousei-a há tempos sobre o braço do sofá e ela ali ficou, dobrada entre tons suaves e franjas entrelaçadas. Foi então num dia calado que dei comigo a olhá-la do outro lado da sala, de um outro lugar, e recebi o afecto macio de uma manta que nada pede. 
M

domingo, 17 de junho de 2018

EXPERIÊNCIAS: AINDA O VOO DOS PÁSSAROS


Foto de M

Voltou a enganar-se, o pássaro. Tomou como nuvem o que era apenas um rolo de papel de cozinha. Coitado, continua no poleiro, virado para a parede.

sábado, 16 de junho de 2018

EXPERIÊNCIAS: UMA QUESTÃO DE DIRECÇÃO DO VOO


Foto de M 

Quando se voa convém saber qual a direcção a tomar. Às vezes o brilho é apenas o de um rolo de folha de alumínio.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

EXPERIÊNCIAS




Fotos de M

quarta-feira, 4 de abril de 2018

252.


Foto de M 

Este frasco de elixir ofereceu-mo uma amiga. Tinha dentro um saco pequeno, daqueles todos dobradinhos para trazer na mala, preparados para os imprevistos que não cabem nas nossas mãos. Azul macio, com pássaros amarelos de asas abertas prontas a esvoaçar. Do meu apreço por sacos e pássaros sabe a minha amiga e com esse presente me provocou acomodando-o discretamente por detrás das palavras mágicas pintadas no vidro, certa de que ele e eu nos olharíamos com agrado. Não seria a sua casa definitiva, guardei-o no tal lugar onde os imprevistos o procurariam. Ficou vazio o frasco. Ou talvez não, pois parece-me que o invisível preserva o que desconhecemos e possui arte q.b. para preparar o composto do tal elixir desejado por todos nós. Não importa a língua em que é nomeado, cada um procura descobri-lo como pode e bebe-o de acordo com o seu paladar. Nem sempre tarefa fácil, por vezes a sombra ofusca a luz, sabemos isso por experiência própria. Neste caso, por exemplo, equilibrar o frasco na minha mão esquerda, qual aranha pronta a alimentar-se do que lhe cai na teia, e com a outra premir o botão da máquina fotográfica acoplada ao tripé, constituiu desafio moroso para conseguir uma imagem razoável. Não me admiro, se calhar a felicidade exige-nos disponibilidade para a encontrarmos entre os delicados fios de seda que vai tecendo com mestria para se abrigar do imponderável. 
M

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

251.


Foto de M

Não oiço os músicos nem o toque efusivo dos sinos a ecoar na serra. Talvez estejam a descansar. Imóveis os sinos na torre da igreja, os homens no adro, em conversa animada depois de saborosa refeição, a chanfana e o vinho da região a seduzir-lhes os sentidos. Os mordomos encarregados de organizar as festividades da padroeira da aldeia esmeraram-se na tarefa, que o acontecimento é de relevo numa povoação determinada a manter na memória esta parte da vida que lhe pertence. Escolheu-se a banda, ter-se-ão ajustado os euros a pagar, quantos não faço ideia. As conversações terão demorado várias horas, propostas e contrapropostas, assim me diz a experiência da minha vivência naquele lugar onde cada um observa o outro, nas mãos o copo de vinho da adega da casa, ou de aguardente, oferecidos entre palavras ditas e pensamentos resguardados. O contrato habitual é que toquem os músicos na missa e, finda esta, acompanhem solenemente a procissão atrás do padre e dos andores com as imagens dos santos. Só depois almoçam no salão da Junta de Freguesia, envolvidos pela azáfama das mulheres a servir convidados e mordomos. Um dia de alvoroço na rotina da existência. Festas desejadas ainda pelos escassos habitantes e pelos seus familiares emigrados que em Setembro revivem por breves dias a história de um tempo. Sim, encontrei-os no lugar por mim previsto. A fazer a digestão dos petiscos beirões e a prepararem-se para de novo subir e descer a rua principal da aldeia a tocar, antes de regressarem às suas terras. E eu, comovida, ouvi-os. Como sempre. Naquele momento e na grata lembrança das férias de verão da minha meninice. 
M

sábado, 30 de dezembro de 2017

250. MUDANÇA DE ANO - TEMPO DE LEMBRAR


Foto de M 

Quando um dia vi esta miniatura numa loja comprei-a porque me trouxe ao pensamento o rapaz leiteiro que subia a pé as velhas escadas de madeira do prédio onde eu morava com a minha família, num bairro de Lisboa. Era então no patamar do nosso 3º andar que ele vertia várias vezes o leite da leiteira de alumínio para dentro das medidas, e depois para o nosso fervedor, até completar a quantidade pedida, tão hábil o seu gesto que nem uma pinga de leite caía no chão. Ainda oiço o barulho das medidas e da corrente que as segurava! 
M

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

A MINHA ÁRVORE DE NATAL


Foto de M

E os meus desejos de Boas Festas para quem por aqui passar. 
M

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

249.


Foto de M 

Quando olhei para cima lembrei-me de uma conhecida expressão usada por muitos de nós em certas ocasiões problemáticas. Pois é, ter uma pedra no sapato acontece por aí, seja de gravilha o solo que se pisa, de alcatrão, cimento ou qualquer outro, até o imaginário onde o nosso pensamento circula. Por causa daquelas pedras no telhado, não sei se periclitantes, se tenazes na postura assumida, dei comigo a questionar-me sobre a expressão Ter uma pedra no sapato e cheguei à conclusão que o seu significado extravasa matérias e territórios. Em Villafranca del Bierzo, por exemplo, há quem as tenha no telhado. E o que aconteceria se o telhado fosse de vidro? Com facilidade se partiria, julgo eu, e pronto, ficava tudo em pratos limpos, ou melhor dizendo, em pedacinhos iridescentes, o que por vezes resolve situações em equilíbrio instável. 
M

terça-feira, 17 de outubro de 2017

248.


Foto de M

O cisne do lago Windermere, o meu cisne. Ontem lembrei-me dele e tirei-o da caixinha onde o guardo. Passaram já tantos anos desde que com ele me encantei numa loja em Bowness-on-Windermere e o trouxe comigo. A recordação de um lugar lindo. Julho de 1996! Tão distante e tão próximo. 
M



Fotografias resguardadas num álbum de tempos.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

247.


Foto de M

Talvez seja esta a cor da solidão, pensei mal a vi. Como fatia de bolo abandonada em mesa de refeição.
M

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

246.


Foto de M 


Dois livros, um legado de letras e afectos na minha vida. Le Petit Chose, um livro especial, a força e a beleza do título inscritas nele, com ilustrações que desde criança me encantavam. Foi-me dado pela minha Tia Chanel em 1957, a dedicatória manuscrita a tinta permanente azul na página de rosto: Maria Manuela - Natal 1957. Mais acima, a lápis, o seu nome e a data 5 de Outubro de 1909 a marcar o dia em que fazia 15 anos. Quando mo ofereceu, tinha eu 16 anos. Curiosa a semelhança das idades de ambas, escolha certamente intencional, pelo gosto de partilhar uma obra que apreciava e o desejo de que as emoções sentidas na sua adolescência se prolongassem em mim. O facto de ser escrito em língua francesa não foi impedimento para eu o ler. No liceu do meu tempo, além do ensino de francês fazer parte do currículo obrigatório durante pelo menos cinco anos, a reconhecida competência, e exigência, da minha professora preparou-me para a leitura deste livro e de outros. Conservei-o durante anos, folheando-o de vez em quando com muito cuidado para evitar a sua degradação, e um dia considerei mais avisado mandar encaderná-lo, mantendo contudo a capa mole original. 
Sobre o outro, Cendrillon, não tenho memória do momento em que o recebi de presente, talvez alguns anos antes do Le Petit Chose. Deste recordo a compaixão que sentia pela vida da Gata Borralheira e o meu fascínio pela imagem daquela rapariga do vestido azul que me levava a sonhar com príncipes e princesas. 
Tão diferentes os dois livros e no entanto...

M


«Ce qui me frappa d'abord, à mon arrivée au collège, c'est que j'étais le seul avec une blouse. A Lyon, les fils de riches ne portent pas de blouses; il n'y a que les enfants de la rue, les gones comme on dit. Moi, j'en avais une, une petite blouse à carreaux qui datait de la fabrique; j'avais une blouse, j'avais l'air d'un gone...Quand j'entrai dans la classe, les élèves ricanèrent. On disait: «Tiens! Il a une blouse!» Le professeur fit la grimace et tout de suite me prit en aversion. Depuis lors, quand il me parla, ce fut toujours du bout des lèvres, d'un air méprisant. Jamais il ne m'appela par mon nom; il disait toujours: «Eh! Vous, là-bas, le petit Chose!» Je lui avais dit pourtant plus de vingt fois que je m'appelais Daniel Eys-set-te... A la fin, mes camarades me surnommèrent «le petit Chose» et le surnom me resta...»
Le Petit Chose, Alphonse Daudet, Illustration de J. Wely, Collection Illustrée Pierre Lafitte & Cie, 90, Avenue des Champs-Élysées, Paris, 1909.

sábado, 5 de agosto de 2017

245. O MEU PÁSSARO - Epílogo


«O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir e traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. O viajante cumpre a sua obrigação: viaja e diz o que vê. Se não parece dizer tudo, será erro seu ou desatenção de quem leu.»



José Saramago, Viagem a Portugal, 1981

244. O MEU PÁSSARO - Dia 14


Foto de M
 
Gostei da tua companhia nesta minha viagem do pensamento, Meu Pássaro, mas descansemos agora um pouco no jardim interior onde me refugio tantas vezes. Espero que nele encontres inspiração para falares de ti. Durante estes catorze dias apenas te imaginei.

 
M

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

243. O MEU PÁSSARO - Dia 13


Foto de M

Portugal. Quem nos dera continuasse a ser verde, não fossem os desatinos dos homens que lhe vão devorando a cor. Que diriam dele agora Raul Proença e os seus ilustres colaboradores na realização da obra Guia de Portugal?

« (...) E assim um dia este livro, que eu sonhei nos verdes vales, nos rios plácidos e nas montanhas decorativas da minha terra, nas sua costas de enseadas azuis e de esburacadas grutas misteriosas (sonoras no marulho das ondas como enormes búzios ressonantes), no deslumbramento da sua luz epitalâmica e sob as suas grandes estrelas dormentes – este livro, feito pelo amor e pelo espírito de veracidade de alguns Portugueses para concitar e adjurar a infinita piedade portuguesa, merecerá, talvez, pelo muito que os outros fizeram e farão, e pelo pouco que eu vier ainda a fazer, ser denominado com justiça – o Livro de Amor e Devoção de Portugal

Raúl Proença, Guia de Portugal, Prefácio da 1ª edição publicada pela Biblioteca Nacional de Lisboa em 1924, retirado do 1º Volume Generalidades – Lisboa e Arredores, reedição da Fundação Calouste Gulbenkian, 1979
 
M

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

242. O MEU PÁSSARO - Dia 12


Foto de M

Dos meninos sei eu do seu gosto em subir para cima de bancos ou cadeiras e comparar alturas entre si (Já chego ao teu ombro...) ou, com os pais, fazerem medições de alto a baixo, o livro pousado na horizontal sobre a cabeça, o pescoço esticado, que há pressa de ser grande. Fica o registo na ombreira da porta, o traço do lápis direitinho ao lado da data. Em centímetros ou metros, conforme a idade (Estás tão crescido!). E o sorriso a espreitar na boca, os lábios a abrirem-se... Ah e qual é a largura do vosso sorriso?
Quanto a ti, Meu Pássaro, não sei por que te empoleiraste na tartaruga. Comparar alturas não me parece ser interesse teu, cada um tem o seu tamanho e o seu voo, não é? Nem me lembro de alguma história de patos, pássaros e tartarugas. Mas, de repente, pensei em Pedro e o Lobo, uma história contada através da música composta em 1936 por um senhor chamado Sergei Prokofiev. As personagens são o Passarinho, o Avô, o Lobo, o Pato, o Gato, o Pedro e os Caçadores, cada uma representada por um instrumento musical diferente, mas não há nenhuma tartaruga. Paciência, ouve agora o disco, vais gostar da tua imagem em flauta transversal.
Está bem, faço-te a vontade, mostro a primeira página do dicionário e a outra com os ninhos. Não precisas de piar mais.  Sim, eu sei que as crianças gostam de ninhos.
M

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

241. O MEU PÁSSARO - Dia 11







 
Fotos de M

Está bem, faço-te a vontade, mostro-te a primeira página do dicionário e a outra com os ninhos. Não precisas de piar mais. Sim, sei que as crianças gostam de ninhos.
M

terça-feira, 1 de agosto de 2017

240. O MEU PÁSSARO - Dia 10


Foto de M 

Um livro com uma capa lindíssima, não é, Meu Pássaro? Julgo perceber o teu interesse por ele. De certeza que reconheceste alguma semelhança com paisagens onde esvoaçam penachos brancos que se soltam dos dentes-de-leão pelo sopro do vento e nos encantam pela leveza.
Este dicionário pertenceu à minha Tia Chanel. Curiosa como era, usava-o constantemente, em busca de resposta para as suas dúvidas sobre os significados das palavras. Bem me lembro de a ver manusear as páginas com muito cuidado e de me mostrar as gravuras que, nalguns casos, identificam as palavras e as complementam, outras vezes apenas pelo gosto de observar os seus traços finos e minuciosos. E também não esqueço que nem ela nem os meus Pais me poupavam quando eu, por preguiça, aliás frequente nas crianças nos primeiros anos de escolaridade, tentava obter junto deles o sentido de determinada palavra ou frase. A resposta era invariavelmente: Procura no dicionário. Não este, claro, só aprendi francês no liceu, uma língua lindíssima que me toca em particular. Não sei se foi por causa do hábito, se algum gene herdado, se a frase da Librairie Larousse na edição de 1931 Je sème à tout vent, ou tudo isso junto, que tenho a mania de me apoiar em dicionários para tentar exprimir o melhor possível o meu pensamento. Ainda por cima o acesso à Internet veio agravar esta minha doença crónica. Que diria a minha Tia Chanel se fosse viva? Ela que, tendo nascido em 1894 e morrido em 1988, costumava dizer com alguma ironia Nasci no século passado.
 
M

segunda-feira, 31 de julho de 2017

239. O MEU PÁSSARO - Dia 9


Foto de M 

O monte de livros por ler, à espera que eu levante a pontinha de uma página, um pequeno sinal... Deixa o resto e abre-me. Vais gostar de mim. Na livraria, lembras-te... Eu sei, fiquei em pé contigo na mão, e contigo, e contigo, a folhear-vos. Trouxe-vos porque queria ler-vos, não fossem esgotar-se as edições. Pensava eu que vos lia logo, uns a seguir aos outros, mas depois os afazeres estragam os planos... Pois, às vezes a fazeres coisas inúteis te perdes e nos perdes. Nem sempre apetece estar só convosco, preciso de trocar impressões com outras pessoas. Estás a esquecer-te do que costumas dizer. A tua memória anda pelas ruas da amargura. Pois vou lembrar-te: quando acabas um livro que te fascinou, é hábito contares que te é difícil sair da história, que conviveste com as personagens durante tanto tempo que sentes falta da sua companhia, que tens mais interesses em comum com elas do que... Sim, eu sei, há conversas com certas pessoas que me frustram. Mas tentem entender-me, existem também programas de televisão que me interessam e me “acrescentam”, como diz uma amiga minha. E filmes espantosos... Ora, desculpas. Nem sempre acontece assim. Algumas vezes, em dias solitários, recostas-te no sofá e ficas a olhar para ontem. Ou para amanhã, sei lá. Mais vale olhares para hoje. Ora essa, depende do hoje, alguns são tão aborrecidos que me põem amarras de inércia. Um contra- -senso, aparente, explicável por intermitências de humor. Então e nós, não achas que é demais termos as nossas palavras aprisionadas há meses? Qualquer dia acabamos mudos. Ou amarelecidos por falta de ar. Está bem, não se zanguem comigo, o ser humano é complexo. Não estão vocês fartos de saber isso através de quem vos escreve? Esse convívio é habitualmente longo... E tu, Meu Pássaro, não fiques mal impressionado com esta conversa, eles e eu somos grandes amigos.

M

domingo, 30 de julho de 2017

238. O MEU PÁSSARO - Dia 8


Foto de M


Corre, Corre, Cabacinha foi livro da minha infância. Não este mas um outro que já não tenho, com formato e ilustrações diferentes. Gostava muito da história. Intrigante aquela cabaça a rebolar caminho abaixo, estranho alguém caber dentro dela. Credulidade e incredulidade a bailar, ora uma ora outra. Quem lia a história? A Tia Chanel? Eu? Não sei, apenas me lembro que gostava de repetir: Não vi velha nem velhinha, não vi velha nem velhão! Corre, corre, cabacinha, corre, corre, cabação!

Era uma vez...

M

sábado, 29 de julho de 2017

237. O MEU PÁSSARO - Dia 7


Foto de M

Apanhaste-me aqui. No espaço de ouvir Anouar Brahem em Souvenance, uma palavra muito bela, um disco lindo de morrer, oiço-o e oiço-o e oiço-o mas até agora não morri para sempre, só morri de amor por ele. E pelo outro, The Astounding Eyes Of Rita, dedicado à memória do poeta palestiniano Mahmoud Darwish. Se a tal morte sem regresso for assim valeu a pena ter vivido. Ao lado, 10 Easy Pieces for Piano, os nomes de cada uma delas em sintonia absoluta com a música composta por Zbigniew Preisner. A lembrar uma agenda, o tempo, o nosso e o dos outros, marcado nos dias em minutos e segundos: A Good Morning Melody, To See More, Farewell, A Good Night Melody... Sentida por Leszek Mozdzer em cada nota tocada. Polacos ambos, compositor e pianista. Talking to Myself, o turbilhão que podem ser os estados de alma expressos na limpidez de cada som. A Polónia, a brutalidade da Segunda Guerra Mundial, Gdansk e o âmbar a visitarem-me de novo. Saltaram da prateleira da estante. Tu também. Vais reconhecer-te em The Art of Flying, é exactamente assim o voo dos pássaros.

M