Foto de M
segunda-feira, 15 de junho de 2020
domingo, 14 de junho de 2020
DO QUE GOSTO 1
quinta-feira, 4 de junho de 2020
263.

Foto de M
Gosto de livros deitados sobre mesas. À beira de sofás e cadeiras na sala de estar, revelam intimidade, atraem olhares curiosos, proporcionam conversas agradáveis. E eles ali, os livros, a participarem também nos convívios, calados ou não, depende da oportunidade, da página que se abriu ao gesto. Gosto de os olhar demoradamente, procurar o que têm para me oferecer, descobri-los, entrar dentro da sua paisagem interior, aconchegá-la junto da minha com perspectivas e cores diferentes em encontros de tempos que me marcam enquanto passam.
No caso deste livro,
lembro-me bem do dia em que o comprei e fotografei mal cheguei a
casa. Pousei-o na mesa, sentei-me no chão perto dele com a máquina
fotográfica nas mãos, desejava-o em lugar especial, ao nível dos
meus olhos, ao alcance dos meus dedos a deslizarem sobre árvores
solitárias no calor dos amarelos. Queria passear nas aldeias
resguardadas entre verdes, naquela outra página assistir à luz a
despontar no horizonte, esperar na praia pelo regresso do barco de
pesca... Tantos são os temas que Silva Porto
pintou a seu modo. Fechado ou aberto, queria este livro presente na
minha vida desde o dia em que visitei a Casa Museu Dr. Anastácio
Gonçalves e me apaixonei pela colecção de pintura e objectos de
arte deste médico oftalmologista sensível à beleza do mundo.
M
(Silva Porto 1850-1893, Exposição comemorativa do centenário da sua morte, Museu Nacional de Soares dos Reis, 1993, Instituto Português de Museus)
terça-feira, 19 de maio de 2020
262.

Foto de M
Se
eu fosse ainda criança voltaria a gostar de receber este postal e de
sentir o mesmo prazer que tenho sempre que lhe pego e leio as
palavras escritas pela minha Mãe. Nada mudaria em mim para lá de um
pequeno ajuste no meu tamanho de adulta.
1952,
a segunda guerra mundial ainda presente na lembrança e na vida das
pessoas. Em viagem de automóvel através dos vários países da
Europa em reconstrução, os meus Pais enviavam-me postais engraçados
com palavras carinhosas. Era uma alegria quando chegavam à caixa do
correio.
2020.
O mundo em sofrimento, a Europa em pesadelo. Uma vez mais os dias e
os meses desabando e reconstruindo-se. O postal desdobrando-se em
harmónio no todo que é. Eu reconhecendo-me nele.
M
M
(Este meu texto fez parte do segundo desafio de Maio proposto pela Justine no Palavra Puxa Palavra para ajudar a passar o confinamento. O tema era Se eu fosse ainda criança)
261.

Foto de M
Amanhecer é palavra luminosa. Supõe desejo. Desejo de mudança, de abandono do que se não quer mais, ou de continuidade, de concretização de pensamentos felizes. Amanhecer é uma palavra linda e é movimento, é o despertar da Natureza e o nosso de seres humanos inseridos nesse ritmo natural a que pertencemos. É abrir os olhos devagarinho e esperar que se habituem à luz, é mandar o sono embora, é empurrá-lo para fora das horas que são outras, é levantar da cama e escancarar as janelas, é respirar frescura, é planear, é sonhar. Ah mas que fazer quando a Natureza fica lá fora e eu tolhida na triste repetição dos passos, sempre os mesmos, esbarrando em minutos lentos? Onde procurar alegrias para alimentar o meu amanhecer sem agenda de futuro? Tento encontrá-las nas pequenas coisas, na memória de momentos vividos entre amarelos e silêncios campestres, na lembrança de gestos afectuosos. Dentro deste saco, feito e oferecido como manifestação de boas vindas pela dona do pequeno hotel onde fiquei uma vez que visitei Serpa com amigos, guardo as molas da roupa. Gosto muito de sacos, têm a macieza das recordações dos lugares que me encantam. E neste sol em miniatura, que também pode ser uma flor, ponho a esperança de um dia voltar ao Alentejo.
M
(Este meu texto fez parte do primeiro desafio de Maio proposto pela Justine no Palavra Puxa Palavra para ajudar a passar o confinamento. O tema era As alegrias do meu amanhecer)
quinta-feira, 16 de abril de 2020
quarta-feira, 8 de janeiro de 2020
260.

Foto de M
Já cá faltava o
pássaro encarrapitar-se no bengaleiro! Escolheu este poleiro
improvisado para passar a noite de ontem em vez do cantinho no
parapeito da janela da sala de estar onde costuma aconchegar-se. É
capaz de sentir a falta de jardins espaçosos com árvores frondosas
onde pode saltitar de ramo em ramo. Bem sei que os tectos de uma casa
escondem o céu, são de certo modo restritivos para quem aprecia o
ar livre, contudo tive sempre o cuidado de o deixar à solta por
aqui. Provavelmente num desses seus voos viu o chapéu de palha e
pensou que eu o usaria quando saísse de manhã. Uma bela
oportunidade para fugir... talvez viajando na minha cabeça...
ninguém daria por isso, andam todos na rua com os olhos postos nos
telemóveis, indiferentes aos tropeções provocados pelas pedras
soltas nos passeios. E ainda que alguma pessoa reparasse nele não
acharia estranho aquele ninho ambulante sobre a minha cabeça, há
tantas originalidades, tantas evasões à rotina, não é? Compreendo
que o Chapim Real se sinta um pouco constrangido neste meu ambiente
urbano de cidadã comum. Encontrei-o dentro da loja do Museu
Gulbenkian, entre pássaros de diversas linhagens, com nomes e
características diferentes, apaixonei-me por ele e trouxe-o comigo,
mas parece-me que nunca viveu completamente feliz aqui, provavelmente
saudoso do seu jardim, de outros ares e dinastias. Raramente pia,
apenas quando as crianças da casa ou eu lhe apertamos suavemente a
barriga, para nós um gesto carinhoso, se calhar desconfortável para
ele. Enfim, já não sei qual de nós os dois confundiu a realidade
com a fantasia, nem quero saber.
M
sábado, 28 de dezembro de 2019
quarta-feira, 25 de dezembro de 2019
NATAL, UM LUGAR NAS NOSSAS VIDAS

Foto de M
4. E para o ano... há mais Natal?
Se
para o ano haverá mais Natal não sei, essa é uma das perguntas que
todos nós fazemos em relação ao futuro e para a qual não temos
resposta segura, por causa da finitude humana versus permanência ou
renovação da vida. Uma coisa sabemos de certeza e foi David
Mourão-Ferreira que a deixou escrita com palavras muito belas no
início da sua
Ladainha dos Póstumos Natais:
«Há-de vir um Natal e será o primeiro/em que se veja à mesa o meu
lugar vazio». Mas, haja ou não mais Natal para o ano, a Natureza
enfeitar-se-á como de costume e confortará quem a sentir como
fazendo parte de si.
M
quinta-feira, 19 de dezembro de 2019
NATAL, UM LUGAR NAS NOSSAS VIDAS

Foto de M
3. A
literatura e o Natal
TOADA
DE NATAL
Um
pássaro a cantar na laguna estagnada
Frutos
no capitel de uma coluna exangue
É
assim que o Natal se nos pousa na alma
É
assim que o Natal tem um gosto a laranja
Do gira-discos sobe um concerto de Bach
Que
importa que lá fora o vento se levante
É
assim que o Natal habita a nossa casa
É
assim que o Natal desperta a nossa infância
Mas penso no que seja a noite de hoje em Praga
Vais
a dizer Jesus e dizes Vietname
É
assim que o Natal nos dilacera a carne
É
assim que o Natal nos parece um alfange
E ficamos os dois de mãos entrelaçadas
E
filtramos a luz e a sombra deste instante
É
assim que o Natal nos vai enchendo a taça
É
assim que o Natal nos aperta a garganta
1968
David
Mourão-Ferreira, Obra
Poética
1948-1988 (Cancioneiro
de Natal 1960-1987, páginas 226 e 227),
Editorial Presença, Julho de 1996
quinta-feira, 12 de dezembro de 2019
NATAL, UM LUGAR NAS NOSSAS VIDAS

Foto de M
2. A história de Natal que eu contaria
AS
CONSULTAS DE QUINTA-FEIRA
Havia
anos que os vinte quilómetros de estrada secundária o levavam todas
as semanas às consultas de quinta-feira. Grande parte dos seus
doentes, por quem sentia um afecto muito especial, vinha do tempo da
“periferia”, quando ele e outros colegas ali tinham sido
colocados, ao abrigo da política de saúde do governo da altura.
Para um rapaz novo, praticamente acabado de sair da faculdade, tinha
sido difícil trocar os sonhos de uma carreira médica na capital
pela pacatez de um posto de saúde algures numa terra longínqua. O
trabalho depressa o fizera compreender a utilidade daquela
experiência e o convívio com os colegas trouxera-lhe amizades para
a vida inteira. Mais tarde, terminada a “periferia”, mantivera as
consultas às quintas-feiras. “Ao menos uma vez por semana vou
visitar a família!...”, dizia por graça.
Olha quem ali está, comentou para consigo. O Ti Manel e as suas vinhas! Há que meses não o via. Ainda bem, era sinal de saúde. Aparecera-lhe no consultório por alturas do último Natal, não que estivesse doente, o homem era rijo: “Venho desejar-lhe Boas Festas e oferecer-lhe duas garrafinhas de vinho para o Senhor Doutor beber com a sua senhora.” Buzinou e acenou-lhe através da janela.
- Bom dia Nelson, como vai? - disse, ao passar junto do porteiro do Centro de Saúde - Hoje há muita gente para mim?
- Bom dia Doutor Brandão! Alguma... Começa o inverno, aparecem os espirros...
- O pior é se não tenho lenços suficientes para os espirros da alma...
Olha quem ali está, comentou para consigo. O Ti Manel e as suas vinhas! Há que meses não o via. Ainda bem, era sinal de saúde. Aparecera-lhe no consultório por alturas do último Natal, não que estivesse doente, o homem era rijo: “Venho desejar-lhe Boas Festas e oferecer-lhe duas garrafinhas de vinho para o Senhor Doutor beber com a sua senhora.” Buzinou e acenou-lhe através da janela.
- Bom dia Nelson, como vai? - disse, ao passar junto do porteiro do Centro de Saúde - Hoje há muita gente para mim?
- Bom dia Doutor Brandão! Alguma... Começa o inverno, aparecem os espirros...
- O pior é se não tenho lenços suficientes para os espirros da alma...
M
sexta-feira, 6 de dezembro de 2019
NATAL, UM LUGAR NAS NOSSAS VIDAS

Foto de M
1. As luzes e as sombras do Natal
Entre as várias
fotografias que resguardo na pasta dos meus Natais em família ao
longo dos anos escolhi esta, relativamente recente, por me parecer
significativa para o tema sugerido. Olho-a demoradamente, o ambiente
de luz e sombras encanta-me. Os suportes de vidro das velas vermelhas
lembram-me o carreirinho empedrado de um postal meu de criança onde
três meninos caminham uns atrás dos outros, com lanternas acesas
nas mãos, pelo meio do arvoredo. Imagino-os à procura do Presépio
que a minha Tia Chanel fazia, com muitas figuras de barro pintado e
musgo apanhado na Tapada da Ajuda. Dezembro tinha sempre uma agenda
cheia e a preparação da ementa do jantar de Natal estava na lista.
Comprou-se então um perú ao homem que passava na rua (em bairro de
Lisboa!) orientando com um graveto o seu bando de perús. Levado ao
colo escada acima para a cozinha do nosso terceiro andar, viria mais
tarde o pobre animal a cambalear tristemente, embriagado pela
aguardente que lhe tinha sido despejada goela abaixo. De tal maneira
o episódio me impressionou que ainda o vejo entre as sombras da
memória, mais a faca nas mãos da cozinheira pronta para o degolar.
Cena cruel, convenhamos. Afastei-me, incomodada, antes que o
“perucídio” se consumasse diante de mim, e refugiei-me em
pensamentos alegres, antecipando os momentos de festa dos dias
seguintes. Na manhã de 25 de Dezembro, em fila indiana, todos de
roupão, o meu Pai na frente, a minha Mãe, eu e o meu irmão,
dirigimo-nos à cozinha, ansiosos por descobrir que surpresas
guardariam os nossos sapatos ali colocados na véspera. Após limpeza
primorosa do fogão a gás e da chaminé larga, por onde desceria o
Menino Jesus (na casa da minha infância não existiam exaustores nem
o Pai Natal era visita da família), tornara-se a cozinha palco digno
de coreografia natalícia.
Um tempo que foi e continua a marcar presença, embora de maneira diferente. Porque o Natal é um lugar nas nossas vidas.
M
Um tempo que foi e continua a marcar presença, embora de maneira diferente. Porque o Natal é um lugar nas nossas vidas.
M
domingo, 10 de novembro de 2019
259.

Foto de M
Andei
por aqui e por ali até que ela decidisse qual o melhor recanto onde
me colocar para ficarmos no ângulo de visão uma da outra. O aqui e
o ali fazem parte da sala de estar, e eu também, desde o dia em que
passei a morar neste espaço, tal como sou, com os pés assentes no
bloco de pedra-terra e a lua como companhia. Gosto da minha nova casa
mas preciso da terra e da lua para continuar viva e aguentar as
saudades da Polónia. Trouxeram-me de Varsóvia, ela e ele, há
catorze anos. Entraram na galeria onde eu estava e encantaram-se
comigo. Ouvi a conversa entre eles e quem os atendeu. Quiseram saber
o nome da artista que me tinha criado, a idade, a nacionalidade, a
que outros trabalhos artísticos se dedicava. Percebi que costumavam
levar para casa algo genuíno dos países por onde passavam. Quando
lhe oferecem flores ela pousa-as nesta mesa e então, nesses momentos
imagino-me a passear pelos jardins de Varsóvia (se calhar também
ela...). Seguro sempre a minha mala na mão, como se não a largar
fosse sinal de desejar partir. Ela não se importa, compreende-me,
sabe que transportamos connosco os vários tempos das nossas
existências. Partilhamos horas caladas e recordamos em silêncio, e
de uma maneira muito forte, a bela Varsóvia. De tal maneira forte
que por vezes tenho de abrir a mala e tirar de lá o pacote dos
lenços para acariciar a emoção. Ela olha para mim e faz o mesmo
gesto. Cá
em casa existem pacotes de lenços de papel por tudo quanto é sítio,
dizem os netos a brincar, até lhe chamam carinhosamente Avó
dos lenços.
Já os tenho visto por aí a tentar suster o pingo do nariz com
aquele ruído húmido que todos nós conhecemos, tão irritante ele é
para qualquer pessoa. Então ela dá-lhes um lenço para resolver o
problema de forma eficaz e eles lá aceitam a evidência de que não
vale a pena perder tempo a fungar ou insistir em secar constipações
ou choros com a manga da camisola. Achamos-lhes graça e recordamos a
infância, ela em Portugal, eu na Polónia. Talvez tudo seja apenas o
aqui e o ali de
cada um.
M
A
autora da pequena estatueta chama-se Joanna Zakrzewska.
quinta-feira, 24 de outubro de 2019
258.
quarta-feira, 25 de setembro de 2019
O NOSSO QUERIDO MÊS DE AGOSTO
quarta-feira, 18 de setembro de 2019
O NOSSO QUERIDO MÊS DE AGOSTO

Foto de M
3. Os Agostos da Nossa Juventude
Várias fotografias e palavras poderia eu escolher para lembrar os agostos da minha juventude mas elas seriam restritivas pela sua condição de eleitas para um objectivo de ocasião. Se distinguisse apenas determinados episódios e as emoções a eles associadas correria o risco de esquecer por momentos a relevância de outros igualmente marcantes guardados no desejo de absoluto que a memória por vezes tem. Assim, num compromisso meu com essa ideia de absoluto, privilegio esta imagem: nela está contida a essência desse tempo da minha vida.
M
quarta-feira, 11 de setembro de 2019
O NOSSO QUERIDO MÊS DE AGOSTO

Foto de M
2. As Sombras dos Lugares
É lugar de emigração aquele, a serra caminho verde para o abraço no regresso às festas do calendário litúrgico de cada aldeia e ao tule a esvoaçar como pássaros no adro da igreja. Conversas abrem risos entre famílias e amigos, visitam a casa em construção, assentam mais uma fiada de tijolos na parede da varanda virada ao pôr do sol, escolhe-se o chão onde pousar o futuro, o pensamento entre là-bas e o depois. No entanto, despedaçados podem ficar os sonhos na curva da estrada que se conhece desde sempre, violentamente expostos na memória da terra-mãe em empresa de sucata à beira das giestas em flor. Tão invasivo e chocante pode ser este nosso mundo!
M
terça-feira, 27 de agosto de 2019
O NOSSO QUERIDO MÊS DE AGOSTO

Foto de M
1. A Luz dos Lugares
A luz dos lugares tem afinidades com os que lhe são íntimos ao longo de muitos anos.
Em tempos idos, nem as paredes da casa nem as crianças que ali viviam os meses de verão se importavam com as respectivas estaturas. Existia aquela espécie de porta de casa de bonecas que abria e fechava à passagem desenfreada de meninos em busca de brincadeiras novas e pronto, tudo era festa. Apenas os adultos mostravam algum cuidado ao entrar e sair, não fossem as suas cabeças supostamente experientes provocar litígios com o lintel da porta, ao ponto de criarem galos onde ninguém pensa que cresçam, ou verem pássaros a esvoaçar entre estrelas coloridas. E porque, como diz o ditado popular Cada um em sua casa é rei, esses nossos conhecidos de penas apresentam-se sem dúvida mais garbosos quando anunciam um novo dia nas manhãs orvalhadas ou debicam nos campos de terra batida acompanhados da sua prole.
Ora aconteceu que alguém com artes de desenho, prevendo que os meninos medram como as culturas na aldeia, teve a ideia brilhante de ali colocar um aviso divertido para evitar problemas aos distraídos. E passou a velha casa de grossas paredes de pedra, que em tempos tinha sido curral de cabras, a sentir-se honrada com as vénias que a todo o momento lhe são prestadas. E nós felizes por podermos continuar a observar constelações de estrelas no céu das noites límpidas de verão.
Ora aconteceu que alguém com artes de desenho, prevendo que os meninos medram como as culturas na aldeia, teve a ideia brilhante de ali colocar um aviso divertido para evitar problemas aos distraídos. E passou a velha casa de grossas paredes de pedra, que em tempos tinha sido curral de cabras, a sentir-se honrada com as vénias que a todo o momento lhe são prestadas. E nós felizes por podermos continuar a observar constelações de estrelas no céu das noites límpidas de verão.
M
quinta-feira, 18 de abril de 2019
257.
sexta-feira, 12 de abril de 2019
256.

Foto de M
Lembrei-me deles quando ali passei. Imaginei-os diante deste recanto de luz e sombras, sentados em banquinhos desdobráveis de lona parda, a caixa das tintas pousada no chão, a tela no cavalete enriquecida aos poucos com as pinceladas reveladoras da forma particular como olhavam o mundo. Era um dia de maio e eu passeava pela aldeia respirando a pureza que ela me oferecia.
M
quinta-feira, 20 de dezembro de 2018
quinta-feira, 29 de novembro de 2018
255.

Foto de M
Quando
eu era pequena os meus Pais tinham uma empregada que me contava
histórias aterradoras. Uma delas era a de um ladrão que trepava as
paredes com pé direito alto do prédio antigo onde vivíamos e
entrava dentro de casa pela janela do meu quarto no terceiro andar.
Claro que seria impossível alguém chegar até lá, a não ser com
andaimes, mas eu não conseguia ter esse raciocínio e ficava
apavorada. Assim, mal anoitecia, fechava rapidamente as portadas, e
tremia de medo a imaginar o tal homem suspenso pelos braços, as mãos
cravadas no parapeito, preparado para entrar. Chegada a hora de me
deitar, enroscada em pensamentos assustadores, só conseguia
adormecer depois de espreitar debaixo da cama para me certificar de
que ninguém se tinha escondido ali. Espreito, não espreito, e se
está aqui alguém... Ui, o medo quase me paralisava! Teria sido mais
avisado se tivesse revelado aos meus Pais o que me afligia, mas nunca
o fiz e eles também nunca se aperceberam da arte de contadora de
histórias horríveis da empregada. O prédio existe ainda, enorme e
de boa saúde, rondo-o às vezes, mas nunca vejo ninguém com aspecto
de ladrão pendurado nele. Só durante as festas natalícias aparecem
por lá vários sósias de Pai Natal insuflável com os sacos às
costas carregados de presentes sonhados por meninos em cartas
escritas pela fantasia. Passam dias e noites equilibrados nos ferros
das varandas, plastificados a preceito, o debrum do gorro vermelho
misturando-se com as barbas brancas, o cinto preto com fivela dourada
envolvendo a barriga proeminente sob o casaco, sem que ninguém lhes
abra as janelas e receba as encomendas. Momentos de desilusão,
suponho, atenuados pelas descrições divertidas dos percalços
encontrados nas suas viagens em trenós puxados por renas, entre a
saída da Lapónia e a chegada ao destino. Talvez alguma criança
nos oiça, costumam gostar de aventuras,
comentavam entre si.
M
quinta-feira, 13 de setembro de 2018
254.

Foto de M
Sem pensar duas vezes, correram para a pedra. Pelo menos assim me pareceu. Eu ia atrás deles, em passeio de domingo, e fui ouvindo a conversa, uma palavra aqui, outra ali, mas sem prestar grande atenção. Caminhavam em passo lento, a opinar sobre uma qualquer pedra fracturada. À distância afigurava-se- -lhes suficientemente larga para se acomodarem os três. Aposto que cabemos. Pois eu aposto que não. Então dois de cada vez. Dessa estás tu livre, ninguém é deixado de fora, não foi isso o combinado. Ou há coesão ou nada feito. Na última parte do trajecto calaram-se. Mas nem eu nem os pássaros que por ali esvoaçavam, ou as lagartixas fugidias rasteirinhas aos nossos pés, fazíamos ideia que decisão final teria sido tomada. E talvez nem eles. Quem cala consente mas não sempre, portanto o melhor é evitar entrar no silêncio de cada um, por causa das más interpretações. De repente largaram numa correria na direcção da pedra e o resultado está à vista. Não entendo que bicho lhes mordeu, iam tão devagar... Apanharam-me de surpresa, confesso. Mas depressa arranjaram explicação para o aperto em que se meteram. O artesão que nos moldou imaginou-nos assim, não podemos desiludi-lo. Não achas?, perguntavam uns aos outros. Bem encostados até se relaxa um pouco, argumentava um deles. Ora, balelas! A ergonomia funciona apenas contigo, só tu tens sofá esculpido à tua medida. Gente estranha... Deixei-os lá com aquela conversa maluca. Há cada um!
Limitei-me a dizer Pois... ao meu interlocutor do momento, palavra que utilizo em impasses de conversas.
M
segunda-feira, 27 de agosto de 2018
253.
domingo, 17 de junho de 2018
EXPERIÊNCIAS: AINDA O VOO DOS PÁSSAROS
sábado, 16 de junho de 2018
EXPERIÊNCIAS: UMA QUESTÃO DE DIRECÇÃO DO VOO
quarta-feira, 13 de junho de 2018
quarta-feira, 4 de abril de 2018
252.

Foto de M
Este frasco de elixir ofereceu-mo uma amiga. Tinha dentro um saco pequeno, daqueles todos dobradinhos para trazer na mala, preparados para os imprevistos que não cabem nas nossas mãos. Azul macio, com pássaros amarelos de asas abertas prontas a esvoaçar. Do meu apreço por sacos e pássaros sabe a minha amiga e com esse presente me provocou acomodando-o discretamente por detrás das palavras mágicas pintadas no vidro, certa de que ele e eu nos olharíamos com agrado. Não seria a sua casa definitiva, guardei-o no tal lugar onde os imprevistos o procurariam. Ficou vazio o frasco. Ou talvez não, pois parece-me que o invisível preserva o que desconhecemos e possui arte q.b. para preparar o composto do tal elixir desejado por todos nós. Não importa a língua em que é nomeado, cada um procura descobri-lo como pode e bebe-o de acordo com o seu paladar. Nem sempre tarefa fácil, por vezes a sombra ofusca a luz, sabemos isso por experiência própria. Neste caso, por exemplo, equilibrar o frasco na minha mão esquerda, qual aranha pronta a alimentar-se do que lhe cai na teia, e com a outra premir o botão da máquina fotográfica acoplada ao tripé, constituiu desafio moroso para conseguir uma imagem razoável. Não me admiro, se calhar a felicidade exige-nos disponibilidade para a encontrarmos entre os delicados fios de seda que vai tecendo com mestria para se abrigar do imponderável.
M
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