
Fotos de M
Gosto de tantos livros e a minha ligação com cada um deles é tão forte que não consigo escolher nenhum como preferido. Limito-me a mostrar esta reedição relativamente recente do outro onde aprendi a ler e a fazer contas. Comprei-a porque já não tinha o meu primeiro livro e pintei-o. Embora com os defeitos e qualidades de uma época, como todas com conceitos e programas de educação a ela associados, este livro abriu-me portas para mundos mais vastos. Lembro-me perfeitamente do entusiasmo com que fui conhecendo as letras do alfabeto, consoantes, vogais, maiúsculas e minúsculas, sílabas, palavras por elas formadas, frases, acentos, pontuação. Igualmente os algarismos, as operações e os exemplos concretos de Aritmética. Tudo isso acompanhado de imagens coloridas que me fascinavam. Pura magia foi aquelas palavras caladas nas páginas do livro, à espera de quem se interessasse por elas, absorverem também o som da minha voz e o meu pensamento quando passei a saber lê-las! Que coisa maravilhosa fazerem parte de mim e eu delas, e ser capaz de as desenhar! Primeiro num caderno de caligrafia com duas linhas, devagar, uma força imensa dos dedos da mão sobre a ponta do lápis de carvão quase a furar o papel. Depois, atrevendo-se a deslizar sobre uma só linha, mais independentes, às vezes fora do sítio, até parecia que saltavam à corda, para cima, para baixo, a borracha sempre pronta a “pô-las na linha”. Pouco a pouco, o treino a dar-lhes firmeza e perfeição, o meu cunho pessoal a afirmar-se, cada pessoa tem o seu, ligado à sua personalidade. Foi tão bom! E gostei tanto de pintar os desenhos da capa de dentro do livro com os lápis de cor da minha caixa de estimação. Que sorte tive entre tantas outras crianças a quem, nessa época longínqua, foi (e infelizmente continua a ser) negado algo tão essencial para as suas vidas.
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