quinta-feira, 30 de abril de 2009

97.


Foto de M

História, a palavra fotografada esta semana no Fotodicionário.
Assim a interpretei. Como uma espécie de berço que recebe o corpo e a alma do mundo e onde cada um de nós sonha a vida a partir de si e dos outros. Escrita por todos, com as nossas histórias muito particulares de gestos e afectos a ampararem-nos o prazer de crescer, ou os ódios das negligências a endurecerem-nos o coração, na complexidade que é viver. Lençóis de tonalidades a tecerem a espessura do Tempo imaginado eterno, realidade e fantasia imitando-se na ânsia de ser. Um brincar de mãos e pés pequeninos traçando o futuro de adultos que se desejam felizes na plenitude da sua existência. Ao gosto de cada um, no desenho do pensamento guardado, ou tornado acção pela palavra revelada, na música do inefável, na matéria transfigurada, no amor oferecido à Natureza. Nem todos, bem sabemos, a muitos será negado o direito à candura da alegria e a tristeza inundar-lhes-á os olhos baços de vazios. Outros terão apenas farrapos sombrios a agasalhar-lhes os corpos abandonados ao relento da indiferença. E outros, e outros… Tantas as histórias, tantas as marcas deixadas na brevidade dos caminhos trilhados! Só a História habita eternamente a vida e a morte do tempo que nos cabe.

M

sexta-feira, 10 de abril de 2009

96.


Foto de M

Estava eu na esplanada junto ao jardim em conversa amena à mesa de um almoço de açorda de camarão, eis senão quando foi a pacatez do lugar usurpada por voos de pombos atrevidos a rasar as nossas cabeças. Acorreram rápidos os empregados – até àquele momento estáticos no vazio da espera de novos comensais – que, com acenos amplos de braços e mãos, os convidaram a subir aos beirais dos telhados da vizinhança. Empreendimento avisado, claro, não fossem as aves deixar vestígios indesejados sobre a tarde que se queria generosa em matéria de condimentos e degustação. Confesso, no entanto, que este movimento de aterragem e levantamento próprios de um aeroporto a contas com os controladores de tráfego aéreo me perturbou um pouco, o que me levou a desviar a atenção dos esgares preocupados de quem tinha entre mãos voos de alto risco.
Foi então que, ao olhar para cima, tentando assim fugir ao alvoroço terreno a meu lado, vi o silêncio de passos desconhecidos delicadamente pendurados num estendal e de imediato os pensei à procura de sol nas sombras dos dias. O que não me admiraria, já que a janela aberta onde esvoaçava uma cortina ao jeito de bandeira da paz mostrava um buraco negro de proporções inumanas. A não ser que se tratasse da entrada para alguma central de pombos-correios treinados para a entrega de mensagens de índole universal... O que também não me pareceria estranho neste nosso mundo de malabarismos vários usados para tentar resolver o desacerto da linguagem humana. Enfim, agarremo-nos às asas da dúvida sistemática, pois o que importa é o voo do pensamento.

M

quinta-feira, 26 de março de 2009

95.

Foto de M

Porque a palavra desta semana no Fotodicionário foi Pobreza, fotografei-a deste modo, tentando exprimir através dela as minhas reflexões sobre a sua natureza.

Penso na pobreza como resultado do desacerto entre brilhos e planuras de sombras em caminhos estreitos onde só o nada é presença, seja ele individual, social, nacional, mundial, político, económico, espiritual, ético, cultural, estético. Por culpa própria ou alheia, por incapacidades ou desistências, por ignorância, por sonegação do direito à vida inteira, por limites impostos, por arbitrariedades que aviltam o ser humano, por tantas mais razões desconhecidas que ferem ou matam o sonho da existência. Mas também olho para a palavra atribuindo-lhe um outro sentido, a que chamarei despojamento, em escolha pessoal e íntima de renúncia a tudo o que possa ser obstáculo ao desejo de sentir a pureza suprema da vida. Contudo, julgo que só depois de alguém ter possuído os bens mínimos essenciais à sua sobrevivência física e mental com a dignidade que merece, terá disponibilidade interior para fazer essa escolha.
M

sexta-feira, 20 de março de 2009

94.


Foto de M

Ainda o Jean Jacques.
Encostado ao frio branco da parede, entretém-se a enroscar e a desenroscar o pensamento entre estruturas e parafusos a lembrar um esqueleto de corpo humano a que não falta também o esboço de um colo. Ri-se, o coelho, acha graça a imaginar colos em cavaletes de madeira enquanto o seu olhar passeia pelo atelier. E é no meio desta bricolage mental em que ocupa o tempo de espera que repara na mola de cabelo, agarrada com unhas e dentes a uma tábua-parapeito, em aparente desacerto entre a sua própria natureza e o lugar. Recorda-se de a ter visto na cabeça da amiga (presume que a agarrar-lhe também as ideias irrequietas). Agora o momento é outro, bem sabe, e é este que ela segura, ou nele se segura, talvez as duas coisas. Não acha estranho, está habituado a que a presença da pintora arraste consigo um torvelinho de gestos em permanente dança de engenho e estética. Mas Jean Jacques é paciente e aguarda o instante em que ela olhará para ele com ternura e lhe levantará uma das orelhas para lhe dizer um segredo.

M

sábado, 14 de março de 2009

93.


Foto de M

Quando o vi, Jean Jacques (o coelho) estava pacientemente sentado no tempo da pintora de palhaços desenhados na tela a embaraçar meteoritos caídos sobre a cidade dos desencantos. E num outro também, o da infância macia: a dele, e a da menina de riso aberto com quem costumava brincar. Ele conserva a estatura da meninice, e talvez também o pensamento, ela deixou de lhe encontrar o olhar na mesma linha do horizonte. Jean Jacques roçou o tamanho dos dias, estranhou-a nos sulcos das rugas e passou a viver dentro de recordações que abrem os silêncios do tempo em conversas de língua de trapos que ambos conhecem. Entre os dois cavaletes e não só.
M

sábado, 21 de fevereiro de 2009

92.


Foto de M

Quando a vi de longe reparei que brincava com o chapéu-de-chuva, aquele gesto vulgar que todos temos de rodar qualquer coisa na mão enquanto o pensamento voa distraído no tempo dos dias. Faria talvez a fantasia de que o sol tinha pousado ali, quase a tocar-lhe o ombro, e que era preciso ensaiar uma dança de domingo a dois. Não admira, o coreto do jardim está por perto, uns metros para cá do canteiro. Não, os músicos não estavam lá, mas isso que importa quando os ouvidos guardam dentro da memória a música de outros domingos?
M

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

91.


Foto de M

Está lá, no pátio de um colégio de meninos pousado à beira de uma rua de Lisboa. Reparei nela quando passeava a pé a palidez de um domingo de Fevereiro. É apenas uma árvore, eu sei, mas o meu olhar desenhou-lhe forma de gente e assim a guardou dentro da minha máquina fotográfica. Corpo enrugado de mulher no silêncio de si, regaço livre na sombra de gestos entrelaçados, berço, trampolim, palavra, ouvido, riso, consolo, afago, pensamento, memória.
Colinho, avó.

M

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

90.

Foto de M

Loneliness. Dei comigo a dizer a palavra baixinho enquanto discorria sobre o desvario do mundo colado aos ecrãs de televisão de nossas casas. Porquê em inglês? Talvez por causa dos momentos em que a língua materna nos magoa tanto ao falar do que nos entra na alma que preferimos ignorar a sua voz e usar uma outra que nos é mais estranha. Ou então, pelo contrário, de tão aturdidos pelo absurdo da violência que nos rodeia e nos faz sentir perdidos de nós e dos outros, procuramos palavras que nos unam no desamparo universal e nos apazigúem o medo da solidão interior. Não aguentamos sozinhos a mágoa do mundo nem a sensação de impotência perante a insanidade de governos e povos, sejam eles quais forem.
Loneliness, uma palavra de solidões.
M

domingo, 4 de janeiro de 2009

89.


Foto de M

Nesga. Palavra limitada, estreita? Não, poderá não o ser, pois que é também promessa de curiosidades e incógnitas, quiçá intrépida. O que mostra nem ela sabe, apenas contém o olhar de quem a atravessa, sejam breves ou longos os instantes de passagem. É apenas um pequeno espaço de silêncios para os muitos olhos que nela pousam pelos caminhos de ver. Pois, íris pigmentadas, com flores ou céus azuis dentro, borboletas, ou até pássaros, para quem lhes ouve o canto e lhes segue o voo. E a tal pupila a que chamam menina-do-olho, nome bonito, uma questão de infância e de perguntas balbuciadas, quem sabe. A preservar a candura e o riso entre as pálpebras. Indispensável. Por causa da memória, por causa de todos nós, por causa do mundo, por causa da paz. Por causa da própria nesga, que afinal parece ser tanta coisa.
M

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

2009 vem a caminho






















Foto de M


Que no novo que se aproxima sejamos todos capazes de renovar a nossa esperança de que é possível um mundo melhor.
M

domingo, 28 de dezembro de 2008

88.






















Foto de M


Escombros no universo do pensamento.
Corpos que se degradam na dor do fim.
Almas que se entregam à inevitabilidade da condição humana.
E o azul que nos ronda? É lá que nos resguardamos da violência do nosso desmoronamento? Será a pureza azul a morada eterna dos órfãos da vida?
Ah quem me dera saber por que razão se cala a morte!

M

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

87.

Foto de M

A propósito da palavra Sangue, tema desta semana no Fotodicionário, a fotografia e a reflexão que ela me sugeriu.


Uma certa vida pendurada em muros de pedra larga descida das serranias em carros de bois de passo lento e olhar meigo. Eixe pra diante! Eixe!... Sempre a mesma cadência, o mesmo olhar doce, apesar da ferroada no dorso cor de mel. Agora já não passam na rua estreita de terra batida, de regresso ao curral. Nem vemos através das traves carcomidas da velha cancela a figura magra do Álvaro com a aguilhada ao ombro. Mas o caminho permanece estreito por baixo do alcatrão, a cancela recente range também nos gonzos antigos abrindo e fechando convívios sobre degraus de musgo marcados pelo tempo que vive e morre do cansaço de si e os antepassados perduram na memória do lugar com o olhar pousado sobre uma história que foi sua. Inevitavelmente acrescentada em risos novos e abraços que secam lágrimas, reconhecendo talvez alguns os rostos e os gestos de família que pensavam perdidos, revendo-se neles, recreando a imortalidade desejada. Outros adivinhando na dormência dos campos o eco das palavras que não sabiam seriam ditas pelos que chegaram depois, crianças de dias diferentes, flores de caminhos cruzados, seiva renovada da existência humana. Olá! Olá! Olá! Olá!... Sangue! Sangue! Sangue! Sangue!... … …
M

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

86.


Foto de M

Determinação. Palavra com postura de gente, desconstrói-se na análise de si mesma e reorganiza-se pela força de quem a toma para si.
M

domingo, 30 de novembro de 2008

85.

Foto de M

Nem sempre o que nos sussurramos em solilóquio é companheiro amigo. Às vezes é tortura aguçada dita em palavras com volume desmedido cravadas no próprio corpo do silêncio.
M

sábado, 22 de novembro de 2008

Texto com que participei no 8º Jogo das 12 Palavras no blog Eremitério

Foto de M

À GUISA DE CARTA


Prezado Eremita,

Confesso que, ao receber a lista de palavras para o 8º Jogo das 12 Palavras, dado o pouco uso de algumas na linguagem corrente dos nossos dias, pensei se estaria a viver noutra época. Vieram-me então à cabeça vários livros de escritores de séculos idos, e de tal maneira a ideia se impôs que cheguei ao ponto de me imaginar vestida com a indumentária desses tempos. Pelo sim pelo não, procurei um espelho que me mostrasse de alto a baixo e constatei que o meu aspecto era o de uma mulher do ano 2008 da era cristã. Afinal aquela fantasia nada mais tinha sido do que uma reacção primária relacionada com a minha preocupação em responder de forma adequada a este desafio de escrever textos com doze palavras obrigatórias sugeridas por outros. Tarefa difícil, pelo menos para mim. Como resolver o problema? Tomei por isso a ousadia de o pôr ao corrente do meu embaraço perante o repto que nos é feito esta semana.
Numa época em que até se comunica através de palavras mutiladas pelos dedos de mãos apressadas em manejar mensagens por telemóveis, e em que vocábulos antigos foram completamente esquecidos, suponho que o meu amigo compreenderá a minha dificuldade em escrever um texto ajustado à proposta. Que não nego poderá vir a ser muito enriquecedor para quem nos ler e assim, consoante a idade, recordará tempos de linguagem requintada, ou, no caso dos mais jovens, os levará, pelo menos e se curiosos, a manusear o dicionário. Confesso, contudo, que tenho algumas dúvidas, e imagino certos obstáculos, quanto à aplicação dessas palavras na vida actual e trivial de todos nós. Dir-me-á que uma língua se constrói na sua utilização. Claro que sim, mas também por isso mesmo, dou-lhe um exemplo que me parece elucidativo. Imagine o que seria encontrar-me eu num autocarro e, já farta de ouvir uma daquelas discussões alimentadas por inflamadas difamações que por vezes animam essas viagens, tentar apaziguar os contendores e dizer‑lhes: Deixem-se dessa aleivosia, meus senhores! De certo olhariam para mim estupefactos e diriam: Olha esta! O que é que você está a insinuar? Penso que, no aceso da disputa verbal, e do gesto esboçado, não seria avisado da minha parte explicar-lhes que é de mau tom urdir calúnias e o melhor seria remeter-me à minha insignificância, não resistindo, no entanto, a aconselhar-lhes: Não percam tempo com ninharias, que ele é uma preciosidade a resguardar nas nossas vidas. (Julgo que, pelo menos, ninharias lhes seria familiar, pois que delas temos o mundo cheio…) Depois sairia do autocarro, deixando atrás de mim, estampado nos rostos dos passageiros, o silêncio da comiseração (não sei se por mim se pelos outros) e do cansaço dos dias em busca do pão que alimenta os estômagos famintos.
Bem, mas prosseguindo na explanação das minhas dificuldades em corresponder ao seu pedido, e porque me parece a propósito, lembro-lhe que esta vida urbana é completamente diferente da que goza no seu eremitério. Aqui, a efervescência devora-nos e poucas horas sobram para o misticismo e para a reflexão filosófica sobre o que quer que seja, como por exemplo o conceito de infinitude. Aqui desejam-se soluções imediatas, aplicadas ao dia-a-dia, como uma espécie de unguento eficaz que se procura para a travessia das rotinas e das dores do corpo que transbordam para a pele ou se embebem na alma. O senhor é que tem o privilégio de poder sentar-se pela manhã à beira do seu pensamento e enriquecer os seus dias com o olhar demorado no sincelo dos beirais dos telhados. Na cidade nem de beirais damos conta, que raramente os há. Temos elevadores em prédios altos e, quando viramos a cabeça para cima à procura de qualquer coisa que nos afaste da realidade que nos consome, vemos o céu à distância. O que apesar de tudo não é mau, porque o céu pode ser um telhado.
Espero, prezado amigo, que não interprete mal a minha carta e que a tome apenas como um desabafo. Sendo o senhor um eremita habituado à reflexão, presumo saberá avaliar melhor do que ninguém as apreensões de uma citadina do século 21.
Um abraço
M

8º Jogo das 12 Palavras no Eremitério

(As 12 palavras de uso obrigatório eram: aleivosia, comiseração, eremitério, infinitude, mãos, misticismo, pão, preciosidade, silêncio, sincelo, unguento, urdir.)

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Para a Licínia Quitério






















Foi especial este último sábado 15 de Novembro. E foi bom ouvir os teus poemas ditos de modos tão diferentes pelos teus amigos, também eles tão diferentes uns dos outros. A singularidade e a universalidade em convívio ameno.

Obrigada, Licínia, por este presente tão bonito que nos ofereceste e que nos deixou felizes e mais completos.
M

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

84.


Foto de M

Foi com esta fotografia que participei no Fotodicionário desta semana no Palavra Puxa Palavra. Assim interpretei a palavra “Saúde”, pensando em três dos seus vastos e possíveis aspectos.
A saúde do corpo que nos permite liberdade de movimentos e de construção de vida em todas as suas facetas humanas.
A saúde mental que nos faculta a lucidez necessária para agir de modo mais consentâneo com a nossa vivência como verdadeiros seres humanos. Ou que, mesmo em situações extremas de desamparo, frustrações ou desgostos, nos oferece a capacidade de ver e sentir as cores do mundo tornando-nos assim menos sombrios.
A saúde a que chamo social e que depende das políticas que os governos de cada país tomam com verdadeiro empenho pelo bem-estar dos seus cidadãos.
Depois, será com maior motivo de regozijo que, em conjunto, poderemos erguer os nossos copos e exclamar: Tchim! Tchim! À nossa!
M

domingo, 26 de outubro de 2008

Texto com que participei no 7º Jogo das 12 Palavras no blog Eremitério

Foto de M

Um bailarino, uma bailarina, e o gesto partilhado de música dançada abrindo luz na escuridão de um palco de teatro.
Na sala, entre a assistência, flutua a liberdade que o prazer dos instantes oferece a cada um de modo diverso, mas quer-se arredado do lugar o galanteio falaz dito em surdina ao ouvido do sentimento vago. Desejamos mais do que o esforço inútil gasto em palavras frívolas, desejamos mais do que capitulação atrás de capitulação. Dos outros e de nós mesmos. É no silêncio do olhar puro que nos tocamos em sintonia apetecida. Talvez breve, sim, talvez breve o encontro, mas que importa a sua brevidade se a harmonia existe naquele momento de Arte, vivida assim a experiência humana da essência das coisas?
M

7º Jogo das 12 Palavras no Eremitério

(As 12 palavras de uso obrigatório eram: Bailarino/a, Capitulação, Escuridão, Esforço, Falaz, Galanteio, Gesto, Harmonia, Liberdade, Luz, Sentimento, Sintonia.)

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

83.






















Foto de M


Íntimo. Lugar de coisas. Lugar de nós mesmos, seres que se reconhecem e igualmente se estranham, que se aproximam ou se distanciam de tanto se sentirem e pensarem. Ninho de pássaros. Voos amplos, alguns, perdidos outros, quebrados os bicos dos pássaros nos gritos lançados ao vento. Águas mansas de azul puro abrindo os silêncios das flores em botão nos jardins. Vulcões estilhaçando espessuras, vomitando lava, queimando a vida. Palavras trancadas em paralisias várias, morrendo-lhes desarticuladas as sílabas dentro da própria boca. Nem sempre. Há palavras que renascem da morte e pousam no tempo de espera. Como borboletas.

Mistério este de viver paredes meias com um ser de nome Íntimo que apenas comunica comigo através de mim.
M

domingo, 5 de outubro de 2008

82.


















Foto de M

Neste silêncio de música em lugar de sombras e luz, como é bom recordar-te, mulher de vida calada que vendias as pevides e os tremoços da minha infância, sentada num canto do mundo!

Assim senti esta minha fotografia em tempos idos. Volto hoje a olhá-la. Por causa do que começa e acaba em cada instante e do que nos oferecemos a nós próprios entre um pensamento e outro. O fim e o princípio das coisas em diálogo renovado na presença dos lugares de sempre. Hoje é o gesto musical de festa adivinhado por detrás do silêncio dos instrumentos que se sobrepõe à imagem da mulher que vendia as pevides e os tremoços da minha infância. Assim recostados num tempo de pausa, e quase em jeito de gente, são rebentos de memórias num canto do meu mundo.
M

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

81.


Foto de M


Assim fotografei a palavra “Ruína”, tema desta semana no jogo Fotodicionário, e aqui lhe acrescento o pensamento que me levou a escolhê-la.

Porque me parece que a degradação, qualquer que seja o corpo que habita, poderá fechar a porta ao amor pela vida nas suas diversas e complexas expressões. É ferrugem que corrói, que cava buracos fundos, que prende a esperança em trincos por abrir.
M

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

80.

Foto de M

Por causa da desproporção entre o olhar lançado do alto e as flores rente ao chão apetece pôr-me de cócoras como as crianças e assim me deixar ficar em silêncio de entendimentos. Contemplá-las minutos a fio, sorver-lhes a cor, a delicadeza do recorte, a simplicidade, a luz, a serenidade da sua presença. Tocar em cada uma ao de leve com a ponta dos meus dedos entorpecidos, como se elas fossem pequenos sóis ardentes caídos do céu. E depois, num ímpeto, abraçá-las com o gesto amplo de braçado de flores.
M

domingo, 24 de agosto de 2008

79.

Foto de M

Há momentos em que só as pedras e as flores rente ao chão conhecem a voz dos nossos passos. Assim pensei quando, ao olhar esta fotografia, encontrei nela semelhanças com a imagem de alguém que em desespero se passeia para trás e para diante sobre um caminho estreito aparentemente sem saída.
Mas este universo dos passos é mais vasto do que os labirintos em casa própria e por isso associei depois a esta primeira imagem a realidade com que alguns noticiários de televisão nos apresentam a presença humana neste mundo. Haverá certamente intenções muito particulares no modo como o fazem e na escolha deste ou daquele plano, um misto de exigências profissionais impostas e a sensibilidade de quem olha os outros através da lente de uma máquina. Interrogo-me. Será por causa de tudo isso que tantas vezes nos são mostrados apenas as pernas e os pés das pessoas fotografadas? Uma questão de respeito, uma tentativa de proximidade contida? Ou precisamente o inverso e da necessidade de afastamento perante a impossibilidade de proximidade resulta a rejeição dos corpos no seu todo? Não sei, mas parece-me a mim que desagregar assim os outros se torna ainda mais confrangedor para quem vê essas imagens. Como se, adivinhando nós o sofrimento e o desalento, ou a raiva, naqueles corpos sem rosto, fossemos impedidos de pousar o nosso olhar no deles. Revejo na minha memória as botas pesadas de soldados pisando destroços e ervas queimadas pelo desaforo das guerras, esquecido o gesto natural da coerência do amor no ser humano. Deixada para trás, ignorada assim, a angústia de gente fugindo por ruas esboroadas pelo ódio, arrastando a nudez dos seus pés ou os farrapos com que os protegem. Exangues, alguns morrendo diante de nós em poças de sangue vivo, escondido o olhar que sabemos assustado, mostrados apenas as pernas e os pés. E o seu silêncio. Porque só o chão por onde passam a caminho da vida ou da morte conhece a voz íntima dos seus passos.
M

domingo, 17 de agosto de 2008

78.

Foto de M

E na sequência do texto e fotografia anteriores, confesso-vos que aquela luz dourada da montra me despertou curiosidade e uma vontade imensa de descobrir o que estaria para lá dela.
Entrei na loja. Dentro o espaço é exíguo, apesar do espelho ali posto para nos dar a ilusão de que o não é. Logo à direita, sobre um pequeno balcão, está pousada uma almofada macia. É nela que os clientes apoiam o cotovelo quando querem experimentar o modelo de luva que mais lhes agrade à vista, sob o olhar solícito do empregado e dos seus movimentos bem coordenados. Pareceu-me que se mexia com à-vontade neste cubículo dourado, pois não notei que ele reduzisse o sorriso e a amplitude dos gestos sempre que procurava e abria as caixas onde guardava as luvas. Bem acomodadas e identificadas por modelo e número, descansavam temporariamente em prateleiras por detrás de uma cortininha que as separa do balcão e para lá voltavam, perdido ou não o negócio.
Ora perscrutado o lugar e considerada apetecível a variedade oferecida, talvez não resista a tentar encontrar alguma luva que se ajuste ao meu tamanho de mão…
M

77.

Foto de M

Quem quer que tenha composto esta montra deve entender de comportamentos humanos, ou não se lembraria de colocar ali aquelas luvas em gesto de gente. Contrastando com as outras, um pouco mais na sombra, hirtas e em declive, apartadas dos pares que as completam, como se anónimas fossem, ignorada a cor, esquecidos os botões.
Mas voltando às luvas em gesto de gente, é curioso que imagino mãos dentro delas. As mãos de alguém que se reconhece ao tocar-se e assim se deixa ficar, os dedos mostrando um certo relaxamento. Talvez a expressão de quem aguarda com serenidade o que o mundo lhe traz em cada instante que passa. Ou, pelo contrário, posso também pensá-las em desalento, como sinal do que sente quem já pouco ou nada espera. Apesar das flores plastificadas, ou até por isso mesmo, e assim permanece abúlico, resguardado em pespontos. Ou, ou, ou… Tantas as suposições, tão diversos os rostos a elas associados!
M

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

76.

Foto de M

Será talvez assim a solidão dos homens: uma estufa de silêncios presos em estruturas metálicas de luz coada.
M

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

75.

Foto de M

Sayonara. Madame Butterfly. Puccini. Estufa Fria, jardim de plantas diversas onde a luz é silêncio e sombra húmida e passos serenos de corpos enlaçados em sussurros indecifráveis de países longínquos pisam a pedra miúda de caminhos nossos.
Juntei-os todos na minha imaginação quando ali fotografei esta janela que me lembrou o cenário da ópera Madame Butterfly que em tempos vi. E pensei o adeus e o amor na sua universalidade, para lá das palavras ditas e do seu entendimento. Atravessando mares e continentes, tocando culturas distintas, na fidelidade e na infidelidade, no aceno vago da fuga ou no voo da esperança no encontro. Un bel di vedremo… A comoção na voz dolorida da experiência humana do amor. A voz de cada um, qualquer que seja o lugar onde o amor pousa e o adeus se diz.
M

sábado, 2 de agosto de 2008

74.

Foto de M

Seremos pedras roliças pousadas no prato da balança que é este nosso mundo terreno suspenso no universo?

Chão corroído pelos passos do desespero em círculo?

Cada um com sua textura muito própria, será no abandono que nos sentimos uns aos outros e rejeitamos o abismo?

Perdidas as palavras do pensamento, falaremos apenas com o silêncio de um entreabrir de lábios indecisos?

Será a estética das coisas e dos sentimentos que nos resgata do lado que nos desequilibra?

Porque não perguntar?

M

quinta-feira, 31 de julho de 2008

73.

Foto de M

No Fotodicionário desta semana a palavra proposta foi Amizade. Palavra de múltiplas interpretações e facetas, penso eu, e de certo modo difícil de exprimir por fotografia.
Participei no jogo mostrando este recanto do jardim de uns amigos. É assim que sinto a amizade. Como espaço de diversidade, cores, tolerâncias e cedências, onde pequenas sementes lançadas à terra germinam sem inquietação de primazias e se oferecem com simplicidade à frescura da vida. Rebentos que se abrem em flor na exuberância dos instantes, murchando também com a morte desses mesmos instantes. E o brilho do sol a rasgar a neblina das manhãs indecisas, e a sentir-se bem na companhia das tardes amenas à beira dos caminhos. Até se perder a luz nas sombras do entardecer, deixando-se ali ficar com os olhos piscos de cansaço, entendendo o silêncio dos pássaros, adormecendo a seu lado.
M

quinta-feira, 24 de julho de 2008

72.

Foto de M

O olhar azul suspenso na curva do caminho e a mão que acena de longe um Já venho, não demoro esvoaçando ali como borboleta de asas delicadas. Momento de encontro na distância dos instantes. Até que a ausência volte a ser presença e afago macio sentido na pele. Agora, mais perto, apetece a urgência de subir e descer a vida em degraus de pedra forrados de musgo.

E haverá uma flor para oferecer. Mais logo.
M