sábado, 21 de novembro de 2009

104.


Foto de M

Que sabemos nós dos sonos dos meninos?

É este o título que escolho para mais um momento fotográfico na galeria de vivências que fazem parte do meu mundo. Quase indizível por palavras. A luz da serenidade. Mistério de dádiva e ternura despojada. Momento sublime, revelado na câmara escura do pensamento. Silêncio comovido do meu olhar pousado na presença.
M

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

103.


Foto de M

Chamou-me a atenção desde a primeira vez que o vi abrir a porta de casa e abeirar-se do varandim, à semelhança dos imperadores de tempos idos.
Não será de estranhar que tal pensamento me tenha surgido, dada a proximidade da Estrada Romana do Vau e das ruínas silenciosas que marcam presença na zona. Por isso mesmo não me custa admitir, e até me diverte, imaginar que a natureza imperial de antepassados nossos corra ainda como quadriga veloz no sangue de alguns dos seus habitantes.
Assomava ali todos os dias, camisa e calças imaculadas, as mãos apoiadas na cintura larga, os braços arqueados em gesto de afirmação, a cabeça rodando para um e outro lados, como se precisasse de acabar de secar o aftershave húmido no rosto escanhoado. Compreendo que se esmerasse para saudar as manhãs, claro que compreendo, mas não me agradou a habitual sofreguidão com que sorvia a brisa matutina. Parecia assumir-se como dono do mundo a esgotar o ar puro na primeira inspiração, deixando outros à míngua de tão desejado alimento purificador.
Pelo menos aparentemente, o pobre melro enfiado dentro daquela gaiola exígua suspensa entre quivis pertencia a este César do século XXI. Em desespero de causa, tentava voar levantando um pouco as belas asas negras, mas esbarrava na falta de espaço para subir alto, magoando o corpo de encontro às grades. Evidentemente que, nem pelo facto de a sua cela baloiçar como leve balão de festa popular, essa encenação surtia qualquer efeito positivo no seu anseio de liberdade.
Passei várias vezes por perto, a diversas horas, garantindo a distância razoável que me segurasse a indignação, e constatei que o desassossego do pássaro se mantinha ao longo do dia, aquietando-se apenas ao entardecer. Não sei se a recuperar forças para a luta diária que o esperava, sonhando entretanto com milheirais e relva verde nos jardins, se morrendo pouco a pouco de tristeza.
À noite já lá não estava, nem a gaiola vazia e a porta escancarada, pelo que suponho que nem nesse momento de estrelas e lua, se as houvesse, o infeliz podia sair para cantar os seus versos.
Era então que o presumível senhor do melro aproveitava a lassidão deixada pelo calor das tardes de Verão para mitigar a sede das plantas encaixadas no metro quadrado de área cimentada do seu canteiro, entre a parede da casa e o varandim. Vi-o várias vezes desenrolar vagarosamente a mangueira arrumada no suporte de ferro cravado na parede branca, a curta distância do alegrete. Abria então a torneira e arrastava pelo chão aquele peso de água enclausurada em reduzido diâmetro de borracha, oferecendo assim alguma frescura ao seu pedaço de terra sequiosa.
Espantou-me a desproporção. Se ele soubesse como é bom pegar num regador colorido e deixar que borrifos de água límpida acariciem as flores como beijos leves!...
M

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

102.


Foto de M

Fotografei-a assim, propositadamente escondendo-lhe o rosto, porque o que me cativou naquele momento foram a luz e o gesto branco, vagaroso, adivinhado na camisola posta em redor do pescoço. Como um abraço que se oferece, a serenidade pousada no silêncio da pele, personalidade pressentida no mistério que é ser-se presença casta na beleza de uma tarde de Verão.
Como uma vestal.
M

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

101.


Foto de M

Marca o tempo, o dele e o meu.
Foi-me oferecido há mais de vinte anos por alguém que adorava relógios e todos os instrumentos de medida. Atingiu portanto a maioridade, sem que, no entanto, alguma vez tenha mostrado intenção de se afastar de mim. Talvez porque lhe permito uma certa liberdade dentro da rotina diária que o leva a temperar o trabalho compassado a que a sua natureza o obriga com momentos de silêncio e descanso absoluto. De tal modo absoluto que, quando o aconchego no pulso, nem sempre desperta da letargia a que se habituou dentro da caixa em que se acomoda por períodos não definidos, proporcionando-me o prazer de lhe oferecer uma nova pilha para o reanimar. O que será possivelmente sentido por ele como Nasceu-me uma alma nova, frase tão vulgarmente usada por muitos de nós em situações que envolvem um final feliz para o desejo premente de quebrar hábitos e ritmos extenuantes ou insuportáveis.
Pois é verdade, fez este Setembro dois anos que o meu Swatch não saía do torpor um pouco mais demorado a que o constrangi, ainda que involuntariamente, apesar do entendimento que sempre houve entre nós os dois. Não assisti ao seu nascimento, claro, porque quem o concebeu viveria em país que não o meu, mas desde o primeiro momento em que nos conhecemos que me afeiçoei aos seus suaves azuis e verdes com uns laivos de pôr-do-sol laranja. Precisamente por essas suas características de tons harmoniosos que me encantam e me lembram rios e florestas, decidimos que ele viajaria no meu pulso apenas durante as férias possíveis, e para lugares em que ambos nos sentíssemos solidários com a Natureza.
Assim nos temos acompanhado ao longo dos anos sempre que nos afastamos do ninho habitual, e aparentemente descoordenados, cada um de acordo com o seu andamento. Ele mantendo os ponteiros activos, com a discrição que lhe é própria, eu abrandando o passo quando procuro fugir ao cansaço urbano e piso caminhos outros que o Tempo me oferece.
Sim, meu amigo de rosto redondo onde moram memórias de céus límpidos e águas tranquilas que dão de beber a girassóis e a verdes embalados pelo sopro morno do vento, este ano voltámos a encontrar-nos com os campos onde o silêncio nos fala ao ouvido e os dias duram o dobro.
Tínhamos ambos muitas saudades, não tínhamos?
M

sexta-feira, 17 de julho de 2009

100.


Foto de 1924 digitalizada por M

«Memory offers up its gifts only when jogged by something in the present. It isn’t a storehouse of fixed images and words, but a dynamic associative network in the brain that is never quiet and is subject to revision each time we retrieve an old picture or old words.»

The Sorrows of an American, Siri Hustvedt


Quando eu chegar aos cem anos…, costumava dizer, uma expressão provocatória no rosto, já por volta dos seus oitenta e tal anos. Ou ainda, visto que fazia projectos para o futuro, não sei se a brincar se porque o desejava mesmo ou se desafiava a inevitabilidade da morte. Morreu quase rente aos noventa e cinco, por causa de uma pneumonia que se aproveitou de uma perna partida provocada por uma queda.
Lembrei-me dela a propósito deste meu post número 100 e daquele excerto do livro de Siri Hustvedt ali em cima. Chamava-se Julieta e era minha tia. Ou tia Leta, para mim e para o meu irmão. Mais tarde, já depois da sua morte, por sugestão de uma amiga minha a quem contei do seu espírito criativo, passei a referir-me a ela como tia Chanel.
Conheci-lhe aquele gesto gracioso de mãos que ressalta na fotografia de 1924. Não eram esguias nem elegantes, as suas mãos, mas transformavam-se quando pegava na navette da renda de frioleira ou bordava os seus próprios desenhos nos linhos finos dos naperons, sentada na cadeira baixa, a cortina entalada de lado na dobradiça da janela do quarto para que a luz entrasse sem cerimónia. Durante algum tempo ocupou-se também a criar bonecas de pano para vender. Recortava moldes em tecido preto e, depois de os coser à máquina separadamente, enchia-os de algodão com a ajuda do bico da tesoura e unia-os dando-lhes forma de gente. Nasciam assim pequenas figuras com cerca de quinze centímetros de altura animadas de vida própria, cada boneca mostrando uma expressão distinta no rosto. Os olhos e o sorriso adivinhado nos lábios vermelhos bordados a ponto de pé de flor, o vestido colorido, uma imitação de astracã compondo-lhes o cabelo encaracolado, uma pulseira no braço, brincos, o colar de missangas a enfeitar-lhes o pescoço. Quando acabados todos os pormenores que lhes conferiam personalidade, colocava seis ou mais em cima da cama e olhava-as satisfeita. Garanto-vos que era delicioso vê-las em grupo, como se fossem meninas de verdade no recreio da escola.
Mas a tia Chanel não estava sempre naquele cantinho da sua fantasia, gostava muito de sair e fazia o seu passeio diário pelas ruas do bairro, trazendo sempre, de regresso a casa, uma história real para contar. Tão divertidas como a História do Menino Marmelada de um livro da sua infância que nos lia, a mim e ao meu irmão, os três encaixados na chaise longue de veludo verde do seu quarto. Não me lembro exactamente do livro, sei que tinha imagens coloridas e que a história me encantava.
Era com ela que subia e descia a pé a Tapada da Ajuda acompanhando as habilidades e os equilíbrios do meu irmão em cima da trotineta de estimação trazida da Alemanha pelos meus pais, à época uma novidade em Portugal, com pneus de borracha e rodas maiores do que as dos brinquedos nacionais. Quilómetros trilhados pela mão da nossa infância, entre caminhos de árvores e flores belíssimas onde o cansaço não ocupava lugar e eu me lembro de sentir a Natureza como parte de mim.
Ah e o Presépio que a tia Chanel preparava todos os Natais! Tenho que falar dele. Construía-o em cima da cómoda de um dos quartos interiores da nossa casa. Parece que estou a vê-la a amachucar ao de leve os pedaços de papel pardo pintado para lhes dar forma de montes que enfeitava com musgo verdadeiro e um ou outro pequeno espelho redondo de mala de senhora a lembrar lagos de águas límpidas. Lá no cimo, a cabana de madeira com telhado de palha, as figuras bíblicas principais no silêncio sereno da espera. Através desses caminhos inventados, os passos imaginados de pastores, carneirinhos, mulheres de cântaros à cabeça ou um cesto no braço, os três Reis Magos. E a nossa candura de meninos.

Recordo-te com saudade, Tia Leta.
M

quinta-feira, 28 de maio de 2009

99.


Foto de M

Consciência.
Encontrei-a assim em casa de amigos e gostei do que vi. Não, desta vez não meto a mão na consciência, ponho-a na máquina fotográfica, que a lente que ela tem oscila entre o detalhe e o todo conforme a perspectiva a reter. Isso agrada-me, sabem, deve ajudar a chegar ao tal sentimento de si mesmo de que falam os entendidos nestas matérias. E agora? Agora, ao espreitar através do visor, fiquei com a ideia, ou com a intuição, sei lá, de que não se tem um conhecimento imediato da própria actividade psíquica. O dicionário diz que sim, mas eu não acredito. Com tantos reflexos e texturas tão diversas de sombras e bordados Richelieu, mais as flores na fragilidade do vidro, e apesar delas, parece-me tarefa morosa a desenvolver em anos a fio. E estética, penso eu, embora o dicionário não atribua esse significado a Consciência no compartimento que lhe cabe na página. A não ser que seja ética o que lá está escrito. Não sei, nem fico com escrúpulo algum por a minha máquina fotográfica só me dar esta impressão da palavra. Talvez seja então aconselhável guardá-la no estojo, sentar-me à mesa sem pressas, e reflectir um pouco mais.

M

sexta-feira, 22 de maio de 2009

98.


Foto de M

Abandono, a palavra da semana a provocar-nos no Fotodicionário.
Foi com esta minha fotografia que a pensei. De dois modos. Um mais sombrio que tenta explicar o abandono como perda, algo que acontece quando a essência que habita e sustém o encanto de um lugar, de um objecto, de um momento, de um projecto, de um ser, se torna irreconhecível. Por razões várias, perceptíveis ou não, simples ou complexas, inexplicáveis ou até mesmo contraditórias algumas. Ou apenas porque o Tempo tem pressa de absorver o futuro e abre nele caminhos diferentes que se sobrepõem à dormência do esquecimento.
O outro meu modo de, através desta fotografia, exprimir a palavra Abandono será mais luminoso e tranquilo. Reconheço nela, também, o significado de renúncia assumida que por vezes se completa pela entrega a alguém ou a uma causa na fruição plena da escolha feita.
Tanto num caso como no outro, julgo que a presença da luz e da sombra traduz em parte o conceito de abandono.
M

quinta-feira, 30 de abril de 2009

97.


Foto de M

História, a palavra fotografada esta semana no Fotodicionário.
Assim a interpretei. Como uma espécie de berço que recebe o corpo e a alma do mundo e onde cada um de nós sonha a vida a partir de si e dos outros. Escrita por todos, com as nossas histórias muito particulares de gestos e afectos a ampararem-nos o prazer de crescer, ou os ódios das negligências a endurecerem-nos o coração, na complexidade que é viver. Lençóis de tonalidades a tecerem a espessura do Tempo imaginado eterno, realidade e fantasia imitando-se na ânsia de ser. Um brincar de mãos e pés pequeninos traçando o futuro de adultos que se desejam felizes na plenitude da sua existência. Ao gosto de cada um, no desenho do pensamento guardado, ou tornado acção pela palavra revelada, na música do inefável, na matéria transfigurada, no amor oferecido à Natureza. Nem todos, bem sabemos, a muitos será negado o direito à candura da alegria e a tristeza inundar-lhes-á os olhos baços de vazios. Outros terão apenas farrapos sombrios a agasalhar-lhes os corpos abandonados ao relento da indiferença. E outros, e outros… Tantas as histórias, tantas as marcas deixadas na brevidade dos caminhos trilhados! Só a História habita eternamente a vida e a morte do tempo que nos cabe.

M

sexta-feira, 10 de abril de 2009

96.


Foto de M

Estava eu na esplanada junto ao jardim em conversa amena à mesa de um almoço de açorda de camarão, eis senão quando foi a pacatez do lugar usurpada por voos de pombos atrevidos a rasar as nossas cabeças. Acorreram rápidos os empregados – até àquele momento estáticos no vazio da espera de novos comensais – que, com acenos amplos de braços e mãos, os convidaram a subir aos beirais dos telhados da vizinhança. Empreendimento avisado, claro, não fossem as aves deixar vestígios indesejados sobre a tarde que se queria generosa em matéria de condimentos e degustação. Confesso, no entanto, que este movimento de aterragem e levantamento próprios de um aeroporto a contas com os controladores de tráfego aéreo me perturbou um pouco, o que me levou a desviar a atenção dos esgares preocupados de quem tinha entre mãos voos de alto risco.
Foi então que, ao olhar para cima, tentando assim fugir ao alvoroço terreno a meu lado, vi o silêncio de passos desconhecidos delicadamente pendurados num estendal e de imediato os pensei à procura de sol nas sombras dos dias. O que não me admiraria, já que a janela aberta onde esvoaçava uma cortina ao jeito de bandeira da paz mostrava um buraco negro de proporções inumanas. A não ser que se tratasse da entrada para alguma central de pombos-correios treinados para a entrega de mensagens de índole universal... O que também não me pareceria estranho neste nosso mundo de malabarismos vários usados para tentar resolver o desacerto da linguagem humana. Enfim, agarremo-nos às asas da dúvida sistemática, pois o que importa é o voo do pensamento.

M

quinta-feira, 26 de março de 2009

95.

Foto de M

Porque a palavra desta semana no Fotodicionário foi Pobreza, fotografei-a deste modo, tentando exprimir através dela as minhas reflexões sobre a sua natureza.

Penso na pobreza como resultado do desacerto entre brilhos e planuras de sombras em caminhos estreitos onde só o nada é presença, seja ele individual, social, nacional, mundial, político, económico, espiritual, ético, cultural, estético. Por culpa própria ou alheia, por incapacidades ou desistências, por ignorância, por sonegação do direito à vida inteira, por limites impostos, por arbitrariedades que aviltam o ser humano, por tantas mais razões desconhecidas que ferem ou matam o sonho da existência. Mas também olho para a palavra atribuindo-lhe um outro sentido, a que chamarei despojamento, em escolha pessoal e íntima de renúncia a tudo o que possa ser obstáculo ao desejo de sentir a pureza suprema da vida. Contudo, julgo que só depois de alguém ter possuído os bens mínimos essenciais à sua sobrevivência física e mental com a dignidade que merece, terá disponibilidade interior para fazer essa escolha.
M

sexta-feira, 20 de março de 2009

94.


Foto de M

Ainda o Jean Jacques.
Encostado ao frio branco da parede, entretém-se a enroscar e a desenroscar o pensamento entre estruturas e parafusos a lembrar um esqueleto de corpo humano a que não falta também o esboço de um colo. Ri-se, o coelho, acha graça a imaginar colos em cavaletes de madeira enquanto o seu olhar passeia pelo atelier. E é no meio desta bricolage mental em que ocupa o tempo de espera que repara na mola de cabelo, agarrada com unhas e dentes a uma tábua-parapeito, em aparente desacerto entre a sua própria natureza e o lugar. Recorda-se de a ter visto na cabeça da amiga (presume que a agarrar-lhe também as ideias irrequietas). Agora o momento é outro, bem sabe, e é este que ela segura, ou nele se segura, talvez as duas coisas. Não acha estranho, está habituado a que a presença da pintora arraste consigo um torvelinho de gestos em permanente dança de engenho e estética. Mas Jean Jacques é paciente e aguarda o instante em que ela olhará para ele com ternura e lhe levantará uma das orelhas para lhe dizer um segredo.

M

sábado, 14 de março de 2009

93.


Foto de M

Quando o vi, Jean Jacques (o coelho) estava pacientemente sentado no tempo da pintora de palhaços desenhados na tela a embaraçar meteoritos caídos sobre a cidade dos desencantos. E num outro também, o da infância macia: a dele, e a da menina de riso aberto com quem costumava brincar. Ele conserva a estatura da meninice, e talvez também o pensamento, ela deixou de lhe encontrar o olhar na mesma linha do horizonte. Jean Jacques roçou o tamanho dos dias, estranhou-a nos sulcos das rugas e passou a viver dentro de recordações que abrem os silêncios do tempo em conversas de língua de trapos que ambos conhecem. Entre os dois cavaletes e não só.
M

sábado, 21 de fevereiro de 2009

92.


Foto de M

Quando a vi de longe reparei que brincava com o chapéu-de-chuva, aquele gesto vulgar que todos temos de rodar qualquer coisa na mão enquanto o pensamento voa distraído no tempo dos dias. Faria talvez a fantasia de que o sol tinha pousado ali, quase a tocar-lhe o ombro, e que era preciso ensaiar uma dança de domingo a dois. Não admira, o coreto do jardim está por perto, uns metros para cá do canteiro. Não, os músicos não estavam lá, mas isso que importa quando os ouvidos guardam dentro da memória a música de outros domingos?
M

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

91.


Foto de M

Está lá, no pátio de um colégio de meninos pousado à beira de uma rua de Lisboa. Reparei nela quando passeava a pé a palidez de um domingo de Fevereiro. É apenas uma árvore, eu sei, mas o meu olhar desenhou-lhe forma de gente e assim a guardou dentro da minha máquina fotográfica. Corpo enrugado de mulher no silêncio de si, regaço livre na sombra de gestos entrelaçados, berço, trampolim, palavra, ouvido, riso, consolo, afago, pensamento, memória.
Colinho, avó.

M

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

90.

Foto de M

Loneliness. Dei comigo a dizer a palavra baixinho enquanto discorria sobre o desvario do mundo colado aos ecrãs de televisão de nossas casas. Porquê em inglês? Talvez por causa dos momentos em que a língua materna nos magoa tanto ao falar do que nos entra na alma que preferimos ignorar a sua voz e usar uma outra que nos é mais estranha. Ou então, pelo contrário, de tão aturdidos pelo absurdo da violência que nos rodeia e nos faz sentir perdidos de nós e dos outros, procuramos palavras que nos unam no desamparo universal e nos apazigúem o medo da solidão interior. Não aguentamos sozinhos a mágoa do mundo nem a sensação de impotência perante a insanidade de governos e povos, sejam eles quais forem.
Loneliness, uma palavra de solidões.
M

domingo, 4 de janeiro de 2009

89.


Foto de M

Nesga. Palavra limitada, estreita? Não, poderá não o ser, pois que é também promessa de curiosidades e incógnitas, quiçá intrépida. O que mostra nem ela sabe, apenas contém o olhar de quem a atravessa, sejam breves ou longos os instantes de passagem. É apenas um pequeno espaço de silêncios para os muitos olhos que nela pousam pelos caminhos de ver. Pois, íris pigmentadas, com flores ou céus azuis dentro, borboletas, ou até pássaros, para quem lhes ouve o canto e lhes segue o voo. E a tal pupila a que chamam menina-do-olho, nome bonito, uma questão de infância e de perguntas balbuciadas, quem sabe. A preservar a candura e o riso entre as pálpebras. Indispensável. Por causa da memória, por causa de todos nós, por causa do mundo, por causa da paz. Por causa da própria nesga, que afinal parece ser tanta coisa.
M

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

2009 vem a caminho






















Foto de M


Que no novo que se aproxima sejamos todos capazes de renovar a nossa esperança de que é possível um mundo melhor.
M

domingo, 28 de dezembro de 2008

88.






















Foto de M


Escombros no universo do pensamento.
Corpos que se degradam na dor do fim.
Almas que se entregam à inevitabilidade da condição humana.
E o azul que nos ronda? É lá que nos resguardamos da violência do nosso desmoronamento? Será a pureza azul a morada eterna dos órfãos da vida?
Ah quem me dera saber por que razão se cala a morte!

M

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

87.

Foto de M

A propósito da palavra Sangue, tema desta semana no Fotodicionário, a fotografia e a reflexão que ela me sugeriu.


Uma certa vida pendurada em muros de pedra larga descida das serranias em carros de bois de passo lento e olhar meigo. Eixe pra diante! Eixe!... Sempre a mesma cadência, o mesmo olhar doce, apesar da ferroada no dorso cor de mel. Agora já não passam na rua estreita de terra batida, de regresso ao curral. Nem vemos através das traves carcomidas da velha cancela a figura magra do Álvaro com a aguilhada ao ombro. Mas o caminho permanece estreito por baixo do alcatrão, a cancela recente range também nos gonzos antigos abrindo e fechando convívios sobre degraus de musgo marcados pelo tempo que vive e morre do cansaço de si e os antepassados perduram na memória do lugar com o olhar pousado sobre uma história que foi sua. Inevitavelmente acrescentada em risos novos e abraços que secam lágrimas, reconhecendo talvez alguns os rostos e os gestos de família que pensavam perdidos, revendo-se neles, recreando a imortalidade desejada. Outros adivinhando na dormência dos campos o eco das palavras que não sabiam seriam ditas pelos que chegaram depois, crianças de dias diferentes, flores de caminhos cruzados, seiva renovada da existência humana. Olá! Olá! Olá! Olá!... Sangue! Sangue! Sangue! Sangue!... … …
M

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

86.


Foto de M

Determinação. Palavra com postura de gente, desconstrói-se na análise de si mesma e reorganiza-se pela força de quem a toma para si.
M

domingo, 30 de novembro de 2008

85.

Foto de M

Nem sempre o que nos sussurramos em solilóquio é companheiro amigo. Às vezes é tortura aguçada dita em palavras com volume desmedido cravadas no próprio corpo do silêncio.
M

sábado, 22 de novembro de 2008

Texto com que participei no 8º Jogo das 12 Palavras no blog Eremitério

Foto de M

À GUISA DE CARTA


Prezado Eremita,

Confesso que, ao receber a lista de palavras para o 8º Jogo das 12 Palavras, dado o pouco uso de algumas na linguagem corrente dos nossos dias, pensei se estaria a viver noutra época. Vieram-me então à cabeça vários livros de escritores de séculos idos, e de tal maneira a ideia se impôs que cheguei ao ponto de me imaginar vestida com a indumentária desses tempos. Pelo sim pelo não, procurei um espelho que me mostrasse de alto a baixo e constatei que o meu aspecto era o de uma mulher do ano 2008 da era cristã. Afinal aquela fantasia nada mais tinha sido do que uma reacção primária relacionada com a minha preocupação em responder de forma adequada a este desafio de escrever textos com doze palavras obrigatórias sugeridas por outros. Tarefa difícil, pelo menos para mim. Como resolver o problema? Tomei por isso a ousadia de o pôr ao corrente do meu embaraço perante o repto que nos é feito esta semana.
Numa época em que até se comunica através de palavras mutiladas pelos dedos de mãos apressadas em manejar mensagens por telemóveis, e em que vocábulos antigos foram completamente esquecidos, suponho que o meu amigo compreenderá a minha dificuldade em escrever um texto ajustado à proposta. Que não nego poderá vir a ser muito enriquecedor para quem nos ler e assim, consoante a idade, recordará tempos de linguagem requintada, ou, no caso dos mais jovens, os levará, pelo menos e se curiosos, a manusear o dicionário. Confesso, contudo, que tenho algumas dúvidas, e imagino certos obstáculos, quanto à aplicação dessas palavras na vida actual e trivial de todos nós. Dir-me-á que uma língua se constrói na sua utilização. Claro que sim, mas também por isso mesmo, dou-lhe um exemplo que me parece elucidativo. Imagine o que seria encontrar-me eu num autocarro e, já farta de ouvir uma daquelas discussões alimentadas por inflamadas difamações que por vezes animam essas viagens, tentar apaziguar os contendores e dizer‑lhes: Deixem-se dessa aleivosia, meus senhores! De certo olhariam para mim estupefactos e diriam: Olha esta! O que é que você está a insinuar? Penso que, no aceso da disputa verbal, e do gesto esboçado, não seria avisado da minha parte explicar-lhes que é de mau tom urdir calúnias e o melhor seria remeter-me à minha insignificância, não resistindo, no entanto, a aconselhar-lhes: Não percam tempo com ninharias, que ele é uma preciosidade a resguardar nas nossas vidas. (Julgo que, pelo menos, ninharias lhes seria familiar, pois que delas temos o mundo cheio…) Depois sairia do autocarro, deixando atrás de mim, estampado nos rostos dos passageiros, o silêncio da comiseração (não sei se por mim se pelos outros) e do cansaço dos dias em busca do pão que alimenta os estômagos famintos.
Bem, mas prosseguindo na explanação das minhas dificuldades em corresponder ao seu pedido, e porque me parece a propósito, lembro-lhe que esta vida urbana é completamente diferente da que goza no seu eremitério. Aqui, a efervescência devora-nos e poucas horas sobram para o misticismo e para a reflexão filosófica sobre o que quer que seja, como por exemplo o conceito de infinitude. Aqui desejam-se soluções imediatas, aplicadas ao dia-a-dia, como uma espécie de unguento eficaz que se procura para a travessia das rotinas e das dores do corpo que transbordam para a pele ou se embebem na alma. O senhor é que tem o privilégio de poder sentar-se pela manhã à beira do seu pensamento e enriquecer os seus dias com o olhar demorado no sincelo dos beirais dos telhados. Na cidade nem de beirais damos conta, que raramente os há. Temos elevadores em prédios altos e, quando viramos a cabeça para cima à procura de qualquer coisa que nos afaste da realidade que nos consome, vemos o céu à distância. O que apesar de tudo não é mau, porque o céu pode ser um telhado.
Espero, prezado amigo, que não interprete mal a minha carta e que a tome apenas como um desabafo. Sendo o senhor um eremita habituado à reflexão, presumo saberá avaliar melhor do que ninguém as apreensões de uma citadina do século 21.
Um abraço
M

8º Jogo das 12 Palavras no Eremitério

(As 12 palavras de uso obrigatório eram: aleivosia, comiseração, eremitério, infinitude, mãos, misticismo, pão, preciosidade, silêncio, sincelo, unguento, urdir.)

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Para a Licínia Quitério






















Foi especial este último sábado 15 de Novembro. E foi bom ouvir os teus poemas ditos de modos tão diferentes pelos teus amigos, também eles tão diferentes uns dos outros. A singularidade e a universalidade em convívio ameno.

Obrigada, Licínia, por este presente tão bonito que nos ofereceste e que nos deixou felizes e mais completos.
M

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

84.


Foto de M

Foi com esta fotografia que participei no Fotodicionário desta semana no Palavra Puxa Palavra. Assim interpretei a palavra “Saúde”, pensando em três dos seus vastos e possíveis aspectos.
A saúde do corpo que nos permite liberdade de movimentos e de construção de vida em todas as suas facetas humanas.
A saúde mental que nos faculta a lucidez necessária para agir de modo mais consentâneo com a nossa vivência como verdadeiros seres humanos. Ou que, mesmo em situações extremas de desamparo, frustrações ou desgostos, nos oferece a capacidade de ver e sentir as cores do mundo tornando-nos assim menos sombrios.
A saúde a que chamo social e que depende das políticas que os governos de cada país tomam com verdadeiro empenho pelo bem-estar dos seus cidadãos.
Depois, será com maior motivo de regozijo que, em conjunto, poderemos erguer os nossos copos e exclamar: Tchim! Tchim! À nossa!
M

domingo, 26 de outubro de 2008

Texto com que participei no 7º Jogo das 12 Palavras no blog Eremitério

Foto de M

Um bailarino, uma bailarina, e o gesto partilhado de música dançada abrindo luz na escuridão de um palco de teatro.
Na sala, entre a assistência, flutua a liberdade que o prazer dos instantes oferece a cada um de modo diverso, mas quer-se arredado do lugar o galanteio falaz dito em surdina ao ouvido do sentimento vago. Desejamos mais do que o esforço inútil gasto em palavras frívolas, desejamos mais do que capitulação atrás de capitulação. Dos outros e de nós mesmos. É no silêncio do olhar puro que nos tocamos em sintonia apetecida. Talvez breve, sim, talvez breve o encontro, mas que importa a sua brevidade se a harmonia existe naquele momento de Arte, vivida assim a experiência humana da essência das coisas?
M

7º Jogo das 12 Palavras no Eremitério

(As 12 palavras de uso obrigatório eram: Bailarino/a, Capitulação, Escuridão, Esforço, Falaz, Galanteio, Gesto, Harmonia, Liberdade, Luz, Sentimento, Sintonia.)

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

83.






















Foto de M


Íntimo. Lugar de coisas. Lugar de nós mesmos, seres que se reconhecem e igualmente se estranham, que se aproximam ou se distanciam de tanto se sentirem e pensarem. Ninho de pássaros. Voos amplos, alguns, perdidos outros, quebrados os bicos dos pássaros nos gritos lançados ao vento. Águas mansas de azul puro abrindo os silêncios das flores em botão nos jardins. Vulcões estilhaçando espessuras, vomitando lava, queimando a vida. Palavras trancadas em paralisias várias, morrendo-lhes desarticuladas as sílabas dentro da própria boca. Nem sempre. Há palavras que renascem da morte e pousam no tempo de espera. Como borboletas.

Mistério este de viver paredes meias com um ser de nome Íntimo que apenas comunica comigo através de mim.
M

domingo, 5 de outubro de 2008

82.


















Foto de M

Neste silêncio de música em lugar de sombras e luz, como é bom recordar-te, mulher de vida calada que vendias as pevides e os tremoços da minha infância, sentada num canto do mundo!

Assim senti esta minha fotografia em tempos idos. Volto hoje a olhá-la. Por causa do que começa e acaba em cada instante e do que nos oferecemos a nós próprios entre um pensamento e outro. O fim e o princípio das coisas em diálogo renovado na presença dos lugares de sempre. Hoje é o gesto musical de festa adivinhado por detrás do silêncio dos instrumentos que se sobrepõe à imagem da mulher que vendia as pevides e os tremoços da minha infância. Assim recostados num tempo de pausa, e quase em jeito de gente, são rebentos de memórias num canto do meu mundo.
M

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

81.


Foto de M


Assim fotografei a palavra “Ruína”, tema desta semana no jogo Fotodicionário, e aqui lhe acrescento o pensamento que me levou a escolhê-la.

Porque me parece que a degradação, qualquer que seja o corpo que habita, poderá fechar a porta ao amor pela vida nas suas diversas e complexas expressões. É ferrugem que corrói, que cava buracos fundos, que prende a esperança em trincos por abrir.
M

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

80.

Foto de M

Por causa da desproporção entre o olhar lançado do alto e as flores rente ao chão apetece pôr-me de cócoras como as crianças e assim me deixar ficar em silêncio de entendimentos. Contemplá-las minutos a fio, sorver-lhes a cor, a delicadeza do recorte, a simplicidade, a luz, a serenidade da sua presença. Tocar em cada uma ao de leve com a ponta dos meus dedos entorpecidos, como se elas fossem pequenos sóis ardentes caídos do céu. E depois, num ímpeto, abraçá-las com o gesto amplo de braçado de flores.
M