terça-feira, 16 de junho de 2015

218.


Foto de M
  
Tivesse eu visto o seu rosto, quem sabe seria capaz de entender o que lhe ia na alma.
Eu estava por ali e reparei nela à distância. Impressionaram-me o desalinho da sua figura e a total imobilidade em que se manteve durante a hora e meia em que permaneci no jardim. Interroguei-me, e interrogo-me ainda, sobre quais seriam os seus pensamentos. Contemplaria calada, ou até de olhos fechados, o rio da saudade de longínqua terra muito sua? Que pobreza a afligiria? Não sei, não lhe vi o rosto. Talvez estivesse feliz. Talvez lhe bastasse poder sentar-se à beira de um rio azul. Talvez fosse essa a sua única riqueza. Eu vim embora sem nada conhecer da mulher. Ela ficou.
M

quinta-feira, 21 de maio de 2015

217.


Foto de M

Eu andava pelo bairro lembrando lugares, reconhecendo-os, descobrindo diferenças trazidas pelos anos de ausência, pisando devagar as pedras do caminho que me levava ao liceu onde fui aluna durante cinco anos. A certa altura, ao olhar para cima, reparei no enquadramento da janela entreaberta: o rosa vivo, a parede fechada do outro lado, os ramos secos das árvores, o céu azul, os telhados escondendo vidas, o pedacinho da plataforma da ponte. Parei, o olhar preso lá longe, à espera que algum carro passasse e eu conseguisse captá-lo através da minha máquina fotográfica, apesar da pressa com que se deslocavam, como se, uns atrás dos outros, fugissem de mim. Aprisionei a camioneta, tão pequenina na distância. E pensei: interessante como a distância pode fazer parte do que nos está mais próximo.
Entre a brevidade dos momentos e a permanência me construo e reconstruo. Eu, a adulta de hoje, e a outra eu, a da infância e da juventude. E no entanto sempre eu, fiel companhia que me sustém no mapa da minha existência.
M

quarta-feira, 13 de maio de 2015

216.


Foto de M 

Restara apenas o cabo do guarda-chuva. Dias antes, um vendaval desabrido arrancara-lhe das mãos a haste com as varetas e arrastara-as pelo ar enroladas no tecido preto rasgado, ao encontro das nuvens cinzentas que corriam apressadas sobre a sua cabeça. Resolvera então pendurá-lo na geringonça instalada no exterior do teatro, talvez alguém achasse graça àquele ponto de interrogação ou encontrasse nele algum simbolismo. Não é o teatro um espaço de permanente reflexão sobre a vida, expressa das formas mais diversas? 
Felizmente o sol abrira-se um pouco a meio da manhã apaziguando com a sua presença os temperamentais assomos outonais. Hoje até podia fumar o seu primeiro cigarro ao ar livre sem se preocupar com imprevistos climáticos. Não o acabou, alguém lhe falava ao ouvido, o tal sensato do costume, um sensaborão. Não estranhou o sussurro, estava habituado a conviver com várias personagens dentro de si. Mergulhou a beata na água de uma das taças abandonando-a à curiosidade de algum pardalito que ali pousasse a refrescar-se. Antes escorrega de bebedouro do que beata!, pensou. Sorriu, divertiam-no os diferentes significados que as palavras podem ter. Sentindo-se mais relaxado depois do breve intervalo, entrou no edifício. Na sala, os outros actores esperavam-no para ensaiarem em conjunto a peça de teatro que assinalava o quadragésimo aniversário da companhia. 
M

(Em novembro de 2011, acompanhei uns amigos na visita à sede do Grupo de Teatro o Bando em Vale de Barris, Palmela, onde tirei esta fotografia por achar graça ao recanto.)

quinta-feira, 7 de maio de 2015

215.


Foto de M 

Debalde foi ali pousado o balde em descanso temporário, pensado como sendo de bom préstimo para quem regasse a horta ou arrecadar nele os legumes colhidos pela manhã. Mas qualquer coisa deve ter corrido mal. Alguma embirração com o seu aspecto antiquado e enferrujado, ou preferência por balde de plástico garrido comprado na feira mensal, talvez uma represália, e vá lá saber-se o motivo, nas aldeias é comum sobreporem-se as vindictas à natureza pura da terra. Em vez do estado de provisória quietude na beira do tanque, passou o balde ao estado de abandono vitalício, ainda por cima taparam-lhe a boca, nem gritar ele pode, coitado. Suplício supremo, penso eu, quase o de Tântalo. 
M

quinta-feira, 16 de abril de 2015

214.


Foto de M

Gosto de cadeiras. Encontro nelas personalidade e comportamentos de gente. Simples ou não, umas mais espartanas do que outras, mais arrebique menos arrebique, com estofo ou sem ele, não resisto a fotografá-las. Reparei nesta. Lembrou-me meninos que se recostam seja onde for, de qualquer maneira, a descansar das brincadeiras, algumas vezes apenas por curiosidade em descobrir de que forma sentem no corpo cada bocadinho do chão onde se deitam. Alguém diligente a colocara ali como cancela improvisada num espaço ao ar livre onde decorria uma festa de crianças. Achei-lhe graça, mas estranhei que a nenhuma tenha passado pela cabeça desafiar aquela vedação frágil, saltando-lhe por cima ou retirando-a dali. Talvez se tenham reconhecido nela pensando que, cansada de brincar, tinha adormecido no degrau. 
M

quinta-feira, 9 de abril de 2015

213.


Foto de M

Imagina, imagina, imagina sempre. Faz como as crianças que vão crescendo num mundo muito seu de realidade- -fantasia, ou de fantasia-realidade, vá-se lá saber onde começa uma e acaba a outra. E querem tanto ser crescidas. A vontade de imitar os “grandes” é-lhes inerente e, talvez porque pressentem nesses seus heróis a existência de uma convivência natural entre realidade e fantasia, não se sentem ameaçadas. Hum!... Pois, mas em tamanho grande a qualidade, o peso e a percentagem de cada um destes dois ingredientes com sabor humano serão outros. E há prazos de validade a ter em conta, mais as balanças, de tempos a tempos aparece alguém a aferi-las, o que poderá causar alguns transtornos no que se considera ou não como certo em questões de dinâmicas vivenciais.
Imagina, imagina, imagina. Não te canses de imaginar. Para não sofreres de claustrofobia mental.
Está bem, eu digo o que vejo neste pequeno quadro: um passeio à beira-mar durante a maré baixa.
M

quinta-feira, 12 de março de 2015

212.


Foto de M 

Não te espantes com o que ainda vais encontrando nalgumas zonas rurais de Portugal, em contraste com as tecnologias do mundo actual.
Ao olhar para a senhora da minha fotografia, penso de imediato nas máquinas de lavar roupa cheias de automatismos e na facilidade que é meter-lhes dentro a roupa e esperar apenas que ela cumpra a tarefa até ao fim, de acordo com o programa escolhido. Embora no dia em que ali passei não me tenha parecido que esta senhora estivesse contrariada com o trabalho que executava, nem faço ideia se se trataria de uma escolha esporádica, na verdade todos sabemos ser muito mais penoso lavar roupa manualmente. Exige ensaboar cada peça em separado, enxaguá-la uma e outra vez, torcê-la com a força de braços e mãos, senti-las geladas, os dedos doridos, e depois carregar o fardo no alguidar, porventura à cabeça, ou amparado nos braços. Vermelho o alguidar, a lembrar o coração que se transporta sempre connosco, breve o repouso, longas as horas marcadas nas rotinas diárias. Reconheço tudo isso, mas encanta-me a arquitectura destes tanques amplos, testemunhas de ocupações e convívios antigos. Não há muitos anos era lugar de risos, de mágoas ora confessadas ora adivinhadas, de boatos, de segredos, de histórias de fugas pela calada da noite, a fronteira com Espanha tão perto, à distância de um salto arriscado. Permanecerá lugar de encontros, embora esvaziada de gente a aldeia, adormecidas as casas aguardando os emigrantes do verão?
Atravessei a pé Soutelinho da Raia em agosto de 2010 a caminho de Santiago de Compostela, abordei a senhora lavadeira com o propósito de lhe pedir autorização para a incluir na fotografia que eu desejava tirar, e ela aceitou, sorridente. Quase cinco anos passados, pergunto-me como se chamará, se ainda vive, onde mora. Sozinha? Acompanhada? Terá nascido na aldeia? E imagino-a criança, ajudando a mãe, talvez debruçada na janela à espera do pai, talvez a brincar com outros meninos ao jogo da macaca desenhado com um graveto qualquer no chão de terra batida. Talvez... Talvez...
Sem respostas às minhas interrogações, apenas sei que o tempo escorre nas diversas paisagens da existência.
M

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

211.


Foto de M

Atrai-me a personalidade dos objectos e a sua aparente solidão no mundo das pessoas. Atribuo-lhes alma humana, nalguns encantam-me a elegância, a delicadeza dos traços, a graciosidade dos gestos naquela espécie de movimento suspenso no tempo. As flores pintadas no corpo lácteo, tão discretas, o vestido comprido e esguio rente aos pés, os braços erguidos em jeito de dança, as cores do voo no íntimo dos pássaros. Na sala de estar de minha casa, eles pousados sobre o móvel, eu sentada no sofá onde me refugio do cansaço, olhamo-nos e comunicamos no silêncio das nossas existências. De vez em quando levanto-me e aproximo-me deles, toco-lhes, lembro-lhes histórias antigas, mudo a posição em que se encontram para que não se sintam entorpecidos. Depois, regresso devagar a tudo o resto que compõe a minha vida. 
M

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

210.


Foto de M 

Nunca te esqueças. Se o terão dito um ao outro não sei, nem faço ideia quem eram e de onde vinham. Eu andava por ali e vi-os ao longe, acompanhados pelo fotógrafo, a máquina fotográfica na mão, a de filmar pendurada ao ombro, a lente especial resguardada dentro do estojo. Ensaiavam o cenário a compor, o momento a registar na memória, o lugar. De certo modo insólita, e tão bela, aquela imagem fugidia entre arcadas de silêncios anónimos num lugar de fé esvaziado de peregrinos onde os anos foram fechando portas e costumes. Nunca te esqueças, terão prometido um ao outro. 


http://www.infopedia.pt/$santuario-de-n.-sra.-do-cabo-espichel

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

209.


Foto de M

Sonho muitas vezes durante a noite mas raramente consigo, ao despertar pela manhã, lembrar com nitidez o que viajou pela minha cabeça nesse espaço de tempo. Imediatamente esqueço o que acompanhou o meu sono e, ainda que deseje recordar tudo direitinho, sobra-me apenas a vaga ideia de uma mistura de imagens que se interligam e se estranham umas às outras, num atropelo de pensamentos, cores, sombras, pedaços de histórias, vivências, palavras, diálogos, vozes conhecidas, desconhecidas, rostos, gestos. Enfim, o melhor será sonhar acordada, deixa o futuro em aberto. 
M

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

OS MEUS VOTOS DE NATAL


Foto de M

Com os meus desejos de que o Natal seja momento e lugar de união.
M

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

208.


Foto de M 

E depois do adeus... Terríveis alguns, separados para sempre os gestos que os exprimem, o olhar, a palavra, o silêncio, o sorriso, a lágrima que se guarda dentro da tristeza. São tantos os que se vão dizendo ao longo da vida e deixam perdidos o pensamento e o coração, confuso o traço do caminho, desbotada a cor da sobrevivência. 
M

sábado, 6 de setembro de 2014

domingo, 13 de julho de 2014

207.


Foto de M 

Uma cena campestre que me trouxe Adão e Eva ao pensamento. Contudo, neste lugar, os répteis que por aqui aparecem são apenas lagartixas fugidias à procura de esconderijos nas fissuras de velhos muros. Por outro lado, independentemente da inexistência por estas paragens de répteis de maior porte, e ao contrário da maçã perfeita e luzidia das habituais imagens que acompanham a história bíblica, não me parece que algum fruto deste cesto cativasse qualquer serpente a ponto de o usar para convencer Eva e Adão a experimentar-lhe o sabor. Mas, admito, posso estar a avaliar mal o grau de exigência dessa espécie rastejante perante interesses próprios. Enfim, tivesse ela sido bem sucedida nos seus intentos, atrevo-me a imaginar um início de vida para o casal com amargos de boca a colocar em risco o sonhado paraíso.

M

quinta-feira, 10 de julho de 2014

206.


Foto de M

Azáfama à beira-mar. Negócio de família, passado de geração em geração. Que importa se a receita do bolo de morangos não é exatamente a mesma da bisavó? Que importa se as mãos são outras? Lembram... pois, não admira. Ah e aquele sinalzinho a parecer um salpico de canela sobre a pele macia da menina? Percalços de pasteleiro. O formato moderno do balde, em plástico, tão frágil, estraga-se num instante, parte-se, pensarão os adeptos de materiais mais resistentes. Não tem importância, até é divertida a leveza do modelo comparado com os de tempos idos. Talvez este seja Made in China. Ou terá a marca de alguma pequena fábrica portuguesa do centro do país gravada no fundo? Não faço ideia. Para satisfazer curiosidades precisava de o virar ao contrário. Impensável, não quero provocar desilusões. Tanto cuidado a alisar a superfície do bolo, quase pronto para ser metido no forno ao ar livre, amplo e comunitário, a temperatura desejada ideal... Entornava-se a massa, tenho a certeza, e lá ia por água abaixo – com a agravante de ser salgada - a festa de anos imaginada, mais as velas e os enfeites, arrumadinhos ali ao lado, à espera do momento cantado.
Repetem-se os gestos, ainda que a areia escorregue entre os dedos, e permanece o sabor de infâncias comuns numa confeitaria à beira-mar.

M

quinta-feira, 12 de junho de 2014

205.


Foto de M

Foi bom voltar a vê-la passados tantos anos. Continua lá, pousada naquele lugar lindo, a casinha solitária que me encantava em criança quando passeava com a minha Tia Chanel na Tapada da Ajuda. Caminhávamos devagar ao longo da estrada ladeada de arvoredo, de flores, de sombras, a luz a esgueirar-se entre a folhagem. E eu absorvia tudo aquilo, inspirava a leveza do ar, guardava o canto dos pássaros, seguia-lhes o voo breve, tocava a presença do silêncio. Senti o mesmo agora e confirmei, uma vez mais, que entre mim e a Natureza existiu sempre um entendimento muito íntimo difícil de exprimir por palavras.

M

sexta-feira, 23 de maio de 2014

204.


Foto de M

Eu estava de passagem e assisti, por mero acaso, àquela cena de teatro ao ar livre e às orientações dadas pelo fotógrafo encenador aos atores principais. Estranha ideia a sua de os mandar pôr os braços atrás das costas e as mãos enfiadas nos bolsos, gestos que me pareceram inestéticos e soltos num momento que supostamente se desejaria fixado para a posteridade como de partilha de emoções perante a beleza. Ouvi-o e vi-o estender o véu da noiva sobre as pedras, observei a sua azáfama a compor o cenário dentro daquele outro cenário bem mais interessante que é a velha Gordes equilibrada entre a terra e o céu. Continuei o meu caminho, eles ficaram. Não sei por quanto tempo. Só espero que, no seu zelo coreográfico, o fotógrafo não os tenha forçado a fecharem os olhos. Na beirinha havia um precipício... 

M

203.


Foto de M 

Será talvez assim parte da palidez da existência: uma correnteza de histórias anónimas morrendo à beira dos passos de quem caminha ainda de mão dada com a vida.

M

quinta-feira, 20 de março de 2014

202.


Foto de M

Desalento. Claustrofobia. Confusa a geometria do espaço, perturbante a composição dos azulejos repetida até à exaustão no chão e na parede, pouco significativa a posição dos quadrados para marcar a diferença, apenas uma ligeira rotação dissimulando a semelhança. O ambiente é fechado, restritivo. Onde encontrar a linha do trilho? Onde pousar os passos? Onde apoiar a vida? Que fazer com a ilusão? Como destruir a aresta do tédio? Onde soltar a frustração? Debruçam-se corpos anónimos sobre mesas frias, hirtos, lívidos, juntos na solidão silenciosa de cada um. Em que lugar aquecer o olhar se o céu parece enclausurado dentro de um triângulo? Em que Universo te escondes, ó sol? 

M

quarta-feira, 12 de março de 2014

201.


Foto de M


Um pouco insólita me pareceu a presença daquela rapariga à janela. Imóvel, não sei se agastada se pensativa, aparentemente decepado o corpo pela cintura. O que não me admiraria, pois a guilhotina foi expediente de franceses de outros tempos para resolver problemas de poder e esta menina estava em terras de França. Sim, eu sei, neste caso não se terá passado exactamente da mesma maneira. Ao contrário do acto sanguinário de então, sobreviveram incólumes a cabeça e parte do tronco, sendo a persiana, plástica, suponho, um meio de amputação menos pesado. Mas o melhor é considerar hipóteses mais lúdicas, como por exemplo habilidades de mágico cortando o corpo da assistente de sorriso confiante, para logo depois o recompor perante a perplexidade dos espectadores. Enfim, os pormenores da concepção e execução da obra pouco me importam. O que realmente lamento é não ter conhecido o seu autor para lhe confessar o meu apreço pela genialidade da ideia e pelo simbolismo que nela encontro. Por vezes, separar a cabeça da estrutura de que faz parte permite uma certa libertação do pensamento.

M

domingo, 9 de março de 2014

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

200.


Foto de M

O corpo e os gestos imaginados de alguém nos objectos em repouso. Um outro corpo também, o das palavras. O pensamento desenhado em consoantes e vogais, ora curvas ora alongadas, abertas umas, contidas outras na expressão criativa da linguagem humana. Associações de ideias. Talvez porque a bengala me lembra uma letra que começou a ser escrita na folha pautada de um diário por fechar. 

M

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

199.


Foto de M

Lugar de partidas e chegadas, de encontros, de desencontros, de fantasias, de desacertos, de risos e sorrisos, de lágrimas, de mentiras, de segredos, de verdades, de diálogos, de silêncios, de solidão, de partilha, de espera, de pressas, de atropelos, de amabilidade, de cansaços, de rotinas, de aventuras, de descobertas, de observação, de reflexão, de leituras, de mistério. Assim as cores da vida. Assim as tonalidades da existência humana.
M

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

198.


Foto de M

Fotografei este recanto apenas porque o achei singular. Só agora, ao repescar a imagem para a publicar aqui, me saltou ao pensamento um versículo do Evangelho de São Mateus: «Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que fez a direita, a fim de que a tua esmola permaneça em segredo; e teu Pai, que vê o oculto, premiar-te-á. (…)». Associações de ideias que amiúde me provocam, embora neste caso o conselho não possa ser seguido à risca. Tratando-se do corrimão de uma escada estreita que dá acesso à porta de entrada de uma casa, aquela mão esquerda que o sustém saberá, na maior parte das vezes, o que faz a direita. Não a sua porque não a tem, mas a de alguém que nele se apoie para subir os degraus com mais ligeireza. Além disso, estando ela presa à parede e sendo muda, terá menor capacidade de acção. Para quem desce, a situação será diferente. Em conformidade com a habitual constituição dos braços, a tal mão direita manterá a posição dextra no corpo a que pertence, não sendo visível do lado oposto. Encontrar-se-ão então apenas as duas esquerdas, ocasião propícia ao cumprimento mútuo, suponho, seja ele contido ou mais efusivo. Aliás, «Para baixo todos os santos ajudam», lá diz o ditado. 
M

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

197.


Foto de M

Pronto. A palavra surgiu-me de repente sem eu saber exatamente o que fazer com ela, preparava eu a agenda de desafios do Palavra Puxa Palavra para janeiro do novo ano. Deixei-a sozinha, abrigada num dos cantos do pensamento, convencida de que tinha o problema resolvido se conseguisse formar uma frase onde se sentisse bem. O pior é que as palavras brincam às escondidas e amiúde desaparecem entre fissuras diversas sem que sejamos capazes de as agarrar a tempo de lhes apresentar companhia adequada. Pronto. Pronto o quê? O fim do início de uma ideia por desenvolver? Posta de parte sem se revelar? A pergunta pressupunha desistência, o que me desagradava. Talvez «Pronto a comer», embora título demasiado conciso e comercial para tamanha doçura de um Monte Dourado. Lindo o nome, o sol escorrendo sobre alvos castelos. A lembrar-me a minha Tia Chanel e a sua sobremesa habitual nos dias de festa em casa dos meus Pais. Cozinho-a eu agora, assim presentes ambas no sabor dos ingredientes que as recordações podem conter. 

M

sábado, 28 de dezembro de 2013

2014 NO HORIZONTE


Foto de M 

A caminho de um novo ano. Que 2014 nos aconchegue.
M