quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

OS CABIDES DA MINHA VIDA

Foto de M

OS CABIDES DA MINHA VIDA

Ao longo da minha vida existiram alguns cabides com impactos diversos em mim e nas casas em que morei. Não vou entrar em detalhes sobre os que vivem sufocados dentro de roupeiros, nalguns casos suportando sobre os ombros o peso de vestuário que não apreciarão usar, mas não resisto a mencionar as cruzetas de madeira que havia em casa da minha avó. Cumprindo a etimologia (relevante na simbologia aplicada neste contexto), com uma coluna vertebral a suster-lhes a exigente postura ancestral, mantinham, penduradas no varão dos altos guarda fatos, os vestidos e casacos compridos da moda do século passado.

Quero falar em particular dos cabides da espécie também conhecida por bengaleiros, residentes em espaços abertos com vistas alargadas, ainda que por vezes a afluência dos pertences neles deixados pelas pessoas lhes proporcione apenas uma nesga para observar o ambiente.

Na minha opinião, cada cabide possui a sua história antes de chegar ao lugar onde passa a residir, o que, suponho, explicará o género de ligação futura com a pessoa que o escolheu como complemento na sua vida. Transporta consigo uma cédula pessoal mais ou menos detalhada, passível de revelar também os condicionalismos da sua concepção: onde nasceu; em que casa, grande ou pequena, marcenaria ou fábrica, metalúrgica ou outra; quem o pensou e fez, com que dedicação ou gosto estético; porquê este material e não aquele outro o escolhido.

O primeiro cabide bengaleiro de que me lembro existia em casa dos meus avós paternos, onde passei a morar com os meus pais, irmão, avó e tia, depois da morte do meu avô, que não conheci por me ter atrasado a pousar neste mundo. Tinha eu então quase 5 anos, chegada de outro continente, e de uma casa de que não tenho memórias. A minha nova casa era agora um terceiro andar de fins do século 19, com uma porta de entrada de dois batentes, certamente considerada pouco resistente aos arrombamentos dos dias de hoje.

Ao abrirmos a porta, vindos do exterior, logo na frente, talvez a um metro de distância, existia uma parede onde estava fixado um cabide despretensioso, penso que em ferro forjado, sobre o qual refugiava o meu olhar, desviando-o assim do quadro enorme, e para mim assustador, que a seu lado morava. Soube mais tarde que se tratava da gravura Jangada da Medusa, de Théodore Géricault, agora na entrada de casa do meu irmão, que sempre a apreciou. Eu, pelo contrário, fugia dali rapidamente, percorria em passo apressado o corredor estreito e sombrio com estantes dos dois lados carregadas de livros antigos, e só aliviava os meus medos dentro do meu quarto. Mas claro que o problema voltava a surgir sempre que precisasse de fazer o percurso inverso para ir à rua, o qual nem mesmo adulta ultrapassei completamente até aparecer, entre outros que por lá espreitaram, um Cupido a quem dei mais importância e me levou com ele.

Passei a morar noutra zona da cidade, num prédio de arquitectura mais moderna, mas com o mesmo tipo de entrada do andar anterior. A porta de um batente abria igualmente para um espaço diminuto, com a parede logo ali defronte, onde pendurámos um cabide sem relevância estética, um compromisso com a economia disponível numa época de prioridades a aplicar nas necessidades das crianças.

Passados alguns anos, mudando novamente de casa, esta com acesso amplo ao interior, apaixonámo-nos pelo cabide da fotografia acima quando o vimos numa loja de velharias, sujo e tristonho, abandonado em escuridão poeirenta, incompleto na sua estrutura merecedora de atenção. Comprámo-lo e mandámo-lo limpar e arranjar. Não conheço a sua história de vida anterior ao nosso encontro. Vive comigo há 30 anos e parece feliz. Teve em tempos mais companhia do que agora, recebeu inúmeros casacos amigos, compridos, curtos, gabardines, carapuços de crianças, cachecóis, chapéus, bonés, chapéus de chuva, sacos, malas. Residentes ou de passagem, muita gente no seu espelho se recompôs, velhos e novos, até caretas de meninos em experiências de palhaços. A vida tornou-se mais solitária para nós os dois, mas mantemos as nossas conversas diárias. Ainda hoje me confessou a sua preocupação com o Chapim Real: Sinto-o tristonho, perdeu o pio, precisa de apanhar ar fresco. O dia está bonito, vai passear com ele. Pões o teu chapéu de sol na cabeça e acomodas aí o nosso amigo, tipo ninho ambulante. 

Boa sugestão! Apenas receio que quem comigo se cruzar na rua pense que o confinamento prolongado me tenha afectado completamente o juízo.

M

domingo, 14 de fevereiro de 2021

O PEQUENO COALA

Foto de M 
 
Trazido da Austrália por mão amiga, talvez sob efeito do jet lag, confundiu o pequeno coala o cabide bengaleiro da fotografia com um eucalipto e nele se enroscou. Aqui o deixo entretido a olhar para quem lhe achar graça, esperando não coma o meu cachecol de estimação.

M

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

CONSIDERAÇÕES SOBRE BABETES, BABAS, DENTES E BÚSSOLAS

 CONSIDERAÇÕES SOBRE BABETES, BABAS, DENTES E BÚSSOLAS

Os babetes fazem parte da nossa vida, acompanham-na anos a fio, concebidos e produzidos de acordo com as modas, materiais, desenhos, mais renda menos renda, bordados ou não, mais práticos menos práticos, mais caros menos caros. Entram na lista do enxoval dos bebés, preparados meses antes do nascimento, outros ficam fora dessas listas, não haverá dinheiro na carteira para os comprar, ou habilidade manual para os fazer. No seu devido tempo se resolverá o problema. Quando o bebé bolçar o leite materno ou o do biberão qualquer pano servirá, até a fralda por estrear. O mais importante é o colo estar lá, disponível para o afecto.

Depois… Depois vem a baba provocada pelos dentes a quererem ocupar o espaço desocupado na gengiva rosada, os dedos pequeninos enfiados boca adentro, esfregando a dor, não abranda aquela coisa esquisita. Ah mas a festa do primeiro dente chegou finalmente, registe-se a data no Livro do Bebé! (E quem não o tem?...). Pouco a pouco o sorriso desdentado vai-se compondo com irmãos e primos gémeos, pontinhos brancos à espreita, cada um com sua personalidade. Apareçam, dentinhos, esperam-vos alimentos de cores variadas para experimentar e saborear! Os imprescindíveis babetes aguardam, providos alguns de uma bolsa generosa para acolher migalhas de bolachas, ou a sopa de legumes de que se não gosta, não vá tudo espalhar-se no chão.

Pois, mas é sabido que o tempo acrescenta anos e tamanhos às crianças e impõe-se perguntar qual será depois, muito depois, o primeiro dente a cair, empurrado pelo que debaixo dele se esconde. Será o primogénito então festejado com registo em Livro de Honra? Não sabemos. Abana, abana, por fim cai, esse e os outros todos que foram habitando a casa cor de rosa. Por falar em casa cor de rosa, lembrei-me agora da Casa das Histórias Paula Rego, com aqueles blocos a parecerem chaminés de palácios e dentes pontiagudos no meio da floresta. Mas voltando ao primogénito, virá então durante a noite a Fada dos Dentes, a tal que deixa uma moeda ou um pequeno presente debaixo da almofada dos meninos se encontrar lá o pequeno dente de leite empurrado pelo mais forte. (Sempre compensa a perda…) Na minha meninice não conheci estas fadas, existiam outras, mais caseiras e menos consumistas, era a minha Avó Júlia que me arrancava os dentes tremeliques quando eles estavam quase a soltar-se. Enrolava uma linha fina de coser no dito dente indeciso, prendia-a com um nó, e pronto, a um suave puxão saía ele do ninho. Havia quem guardasse os dentes numa caixinha, mas não me lembro dos meus serem dignos dessa mordomia. Hélas! Só tenho ideia de os colocar na palma da mão e de ficar surpreendida por serem ocos. De qualquer maneira, também não me serviriam para substituir os que me vão caindo. Uma questão de tamanho, o deles e o da minha boca. Cada coisa no seu tempo e no seu lugar. 

Entretanto, voltando aos babetes… Por muito apelativos que sejam, a partir de determinada fase da infância deixam de ser bem aceites: Não preciso, já sou crescido. Nem mesmo ganhando estatura de guardanapos convencem os seus destinatários ansiosos por atingir importância de adulto: Ponho no colo. O pior é que quem toma o lugar de guardanapo são a camisola ou o vestido ou as calças, pois o tal guardanapo considerado desnecessário escorregou para o chão. Têm muita personalidade, tanto o que fugiu do colo como o dono do colo…

Para provar a minha tese de que os babetes nos acompanham ao longo da vida, quer mudem de tamanho, de nome e função, quer alguns adultos adorem regressar ao passado, conto-vos a história de um amigo meu que aprecia cozinhar e comer, e a quem a idade foi aumentando a barriga, só o ar me engorda, diz ele. Manifestou um dia vontade de ter guardanapos que lhe cobrissem a barriga proeminente, e a de outros barrigudos das suas relações, para que se pudesse usufruir refeições sem preocupações com eventuais nódoas atraídas pelas toilettes dos convidados. Ofereci-me para ajudar a resolver o problema. Comprei panos da loiça enormes, brancos e lisos, recortei em cada um o decote em formato de meia lua, debruei-os com fita de nastro, deixando duas pontas suficientemente compridas para os prender ao pescoço quando requisitados, e fiz-lhe a surpresa. Infelizmente, a pandemia não tem permitido esses convívios tão originais em casa deste meu amigo de longa data.

Terminando as minhas considerações, lembro ainda a existência de uma determinada baba, não propriamente fisiológica, que a todos nós alguma vez assomou, não sei se ao pensamento se ao coração, ou até frequentemente libertamos, com ou sem razão. O ridículo é que nem sempre ela se ajusta à realidade e não passa de vaidades usurpadas em proveito próprio. Pelo que uma bússola faz bastante falta nas nossas vidas, ajuda a encontrar o Norte quando ele se baralha ou desaparece dentro das nossas cabeças entre os outros pontos cardeais.

M

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

ABELHAS, OLIVEIRAS, AZEITONAS E "UMA ABELHA NA CHUVA"

        ABELHAS, OLIVEIRAS, AZEITONAS E UMA ABELHA NA CHUVA

São bonitas, as abelhas, em bzzzs atarefados pelos campos e jardins. As da fotografia não são verdadeiras e ficaram presas na fonte do jardim do Museu de Lisboa – Palácio Pimenta, entre outros bicharocos de encantar quem queira encantar-se. Fugiram do Museu Rafael Bordalo Pinheiro, do outro lado da rua. Chega-se lá num instante, basta atravessar o Campo Grande, onde se calhar até nos cruzamos com abelhas reais pousando de flor em flor. Ou de árvore em árvore. Do que não tenho a certeza é se aqui encontro oliveiras ou se elas apreciam as suas flores. Tenho de ir procurá-las, existem ali imensas espécies de árvores. Do mel de flor de laranjeira e do mel de eucalipto já ouvi falar mas nunca os provei, aprecio o de castanheiro misturado com queiró, delicioso, é um dos que fazem parte do meu pequeno almoço. Oliveiras tenho-as visto mais quando já carregadas de azeitonas, e bem apetitosas elas são em tacinhas sobre as mesas a completar sabores e convívios, temperadas com o primo azeite e outros condimentos. E como os pensamentos são sociáveis e se ligam entre si, dei comigo a lembrar-me do livro Uma Abelha na Chuva, do escritor Carlos de Oliveira. Quem conhece um pouco a organização social das abelhas nas suas colmeias e leu o livro, compreende o simbolismo do título e a sua relação com o conteúdo. Muito interessante. Recomendo abram o link abaixo e o leiam até ao fim. Pela minha parte ganhei em ser abelhuda, não no significado mais desagradável da palavra, que ela tem vários, mas pelo néctar que nele sorvi para acrescentar à minha necessidade de mel do conhecimento. Como todos sabemos, imensos são os benefícios que este belíssimo líquido de tons, sabores e espessuras diversas traz à nossa saúde.

M

http://www.blogletras.com/2014/09/uma-abelha-na-chuva-de-carlos-de.html