
Foto de M
Maternidade.
M

Tão sozinha me pareceu na distância do meu olhar de peregrina por caminhos desconhecidos. Negras as vestes sobre o seu corpo de mulher, como estátua a vi, esculpida por artesão de um lugar de silêncios. Vértice de ecos antigos, perdidos alguns, resguardados outros na dureza da pedra ou no encantamento da memória, dispersando-se ainda outros na voragem dos dias por preencher. Naquele ermo pardacento, apenas o vermelho da caixa de correio pendurada na ombreira de uma porta fechada. Como coração que se recusa a morrer dentro de vida amortalhada.
M

Talvez, quem sabe, deixe de chover desalmadamente e ela me conceda o aconchego desta meia-luz. Aquele seu contínuo abrir e fechar de varetas nos últimos dias tem sido excessivo para as minhas já tão frágeis articulações, pensou o mais curvado dos três amigos, há anos ao serviço da meteorologia.
M

M

A madeixa do Outono e a natureza das coisas.
Breve o cântico verde das árvores, efémero o sussurro dourado do sol que lhe toma o lugar entrelaçando ilusórios fios de filigrana nos corpos cansados dos pássaros. Entorpecido o voo, encarquilhadas as asas, espreita-os o vento e deles se compadece. É suave o sopro do vento. Venham comigo. E eles vão. Descem devagar, cada um agarrado ao dorso de uma folha seca a dançar no ar o movimento do tempo nos seus permanentes avanços e retornos. Quando tocam o chão, apenas os meninos de passos leves os vêem e os levam para casa dentro das suas mãos pequeninas.
M