Fotos de M
quarta-feira, 13 de junho de 2018
quarta-feira, 4 de abril de 2018
252.

Foto de M
Este frasco de elixir ofereceu-mo uma amiga. Tinha dentro um saco pequeno, daqueles todos dobradinhos para trazer na mala, preparados para os imprevistos que não cabem nas nossas mãos. Azul macio, com pássaros amarelos de asas abertas prontas a esvoaçar. Do meu apreço por sacos e pássaros sabe a minha amiga e com esse presente me provocou acomodando-o discretamente por detrás das palavras mágicas pintadas no vidro, certa de que ele e eu nos olharíamos com agrado. Não seria a sua casa definitiva, guardei-o no tal lugar onde os imprevistos o procurariam. Ficou vazio o frasco. Ou talvez não, pois parece-me que o invisível preserva o que desconhecemos e possui arte q.b. para preparar o composto do tal elixir desejado por todos nós. Não importa a língua em que é nomeado, cada um procura descobri-lo como pode e bebe-o de acordo com o seu paladar. Nem sempre tarefa fácil, por vezes a sombra ofusca a luz, sabemos isso por experiência própria. Neste caso, por exemplo, equilibrar o frasco na minha mão esquerda, qual aranha pronta a alimentar-se do que lhe cai na teia, e com a outra premir o botão da máquina fotográfica acoplada ao tripé, constituiu desafio moroso para conseguir uma imagem razoável. Não me admiro, se calhar a felicidade exige-nos disponibilidade para a encontrarmos entre os delicados fios de seda que vai tecendo com mestria para se abrigar do imponderável.
M
sexta-feira, 12 de janeiro de 2018
251.

Foto de M
Não oiço os músicos nem o toque efusivo dos sinos a ecoar na serra. Talvez estejam a descansar. Imóveis os sinos na torre da igreja, os homens no adro, em conversa animada depois de saborosa refeição, a chanfana e o vinho da região a seduzir-lhes os sentidos. Os mordomos encarregados de organizar as festividades da padroeira da aldeia esmeraram-se na tarefa, que o acontecimento é de relevo numa povoação determinada a manter na memória esta parte da vida que lhe pertence. Escolheu-se a banda, ter-se-ão ajustado os euros a pagar, quantos não faço ideia. As conversações terão demorado várias horas, propostas e contrapropostas, assim me diz a experiência da minha vivência naquele lugar onde cada um observa o outro, nas mãos o copo de vinho da adega da casa, ou de aguardente, oferecidos entre palavras ditas e pensamentos resguardados. O contrato habitual é que toquem os músicos na missa e, finda esta, acompanhem solenemente a procissão atrás do padre e dos andores com as imagens dos santos. Só depois almoçam no salão da Junta de Freguesia, envolvidos pela azáfama das mulheres a servir convidados e mordomos. Um dia de alvoroço na rotina da existência. Festas desejadas ainda pelos escassos habitantes e pelos seus familiares emigrados que em Setembro revivem por breves dias a história de um tempo. Sim, encontrei-os no lugar por mim previsto. A fazer a digestão dos petiscos beirões e a prepararem-se para de novo subir e descer a rua principal da aldeia a tocar, antes de regressarem às suas terras. E eu, comovida, ouvi-os. Como sempre. Naquele momento e na grata lembrança das férias de verão da minha meninice.
M
sábado, 30 de dezembro de 2017
250. MUDANÇA DE ANO - TEMPO DE LEMBRAR

Foto de M
Quando um dia vi esta miniatura numa loja comprei-a porque me trouxe ao pensamento o rapaz leiteiro que subia a pé as velhas escadas de madeira do prédio onde eu morava com a minha família, num bairro de Lisboa. Era então no patamar do nosso 3º andar que ele vertia várias vezes o leite da leiteira de alumínio para dentro das medidas, e depois para o nosso fervedor, até completar a quantidade pedida, tão hábil o seu gesto que nem uma pinga de leite caía no chão. Ainda oiço o barulho das medidas e da corrente que as segurava!
M
segunda-feira, 25 de dezembro de 2017
sexta-feira, 10 de novembro de 2017
249.

Foto de M
Quando olhei para cima lembrei-me de uma conhecida expressão usada por muitos de nós em certas ocasiões problemáticas. Pois é, ter uma pedra no sapato acontece por aí, seja de gravilha o solo que se pisa, de alcatrão, cimento ou qualquer outro, até o imaginário onde o nosso pensamento circula. Por causa daquelas pedras no telhado, não sei se periclitantes, se tenazes na postura assumida, dei comigo a questionar-me sobre a expressão Ter uma pedra no sapato e cheguei à conclusão que o seu significado extravasa matérias e territórios. Em Villafranca del Bierzo, por exemplo, há quem as tenha no telhado. E o que aconteceria se o telhado fosse de vidro? Com facilidade se partiria, julgo eu, e pronto, ficava tudo em pratos limpos, ou melhor dizendo, em pedacinhos iridescentes, o que por vezes resolve situações em equilíbrio instável.
M
terça-feira, 17 de outubro de 2017
248.
Foto de M
O cisne do lago Windermere, o meu cisne. Ontem lembrei-me dele e tirei-o da caixinha onde o guardo. Passaram já tantos anos desde que com ele me encantei numa loja em Bowness-on-Windermere e o trouxe comigo. A recordação de um lugar lindo. Julho de 1996! Tão distante e tão próximo.
M
Fotografias resguardadas num álbum de tempos.
quarta-feira, 11 de outubro de 2017
247.
quarta-feira, 4 de outubro de 2017
246.

Foto de M
Dois
livros, um legado de letras e afectos na minha vida. Le
Petit Chose,
um livro especial, a força e a beleza do título inscritas nele, com
ilustrações que desde criança me encantavam. Foi-me dado pela
minha Tia Chanel em 1957, a dedicatória manuscrita a tinta
permanente azul na página de rosto: Maria Manuela - Natal 1957. Mais
acima, a lápis, o seu nome e a data 5 de Outubro de 1909 a marcar o
dia em que fazia 15 anos. Quando mo ofereceu, tinha eu 16 anos.
Curiosa a semelhança das idades de ambas, escolha certamente
intencional, pelo gosto de partilhar uma obra que apreciava e o
desejo de que as emoções sentidas na sua adolescência se
prolongassem em mim. O facto de ser escrito em língua francesa não
foi impedimento para eu o ler. No liceu do meu tempo, além do ensino
de francês fazer parte do currículo obrigatório durante pelo menos
cinco anos, a reconhecida competência, e exigência, da minha
professora preparou-me para a leitura deste livro e de outros.
Conservei-o durante anos, folheando-o de vez em quando com muito
cuidado para evitar a sua degradação, e um dia considerei mais
avisado mandar encaderná-lo, mantendo contudo a capa mole original.
Sobre o outro, Cendrillon, não tenho memória do momento em que o recebi de presente, talvez alguns anos antes do Le Petit Chose. Deste recordo a compaixão que sentia pela vida da Gata Borralheira e o meu fascínio pela imagem daquela rapariga do vestido azul que me levava a sonhar com príncipes e princesas.
Tão diferentes os dois livros e no entanto...
Sobre o outro, Cendrillon, não tenho memória do momento em que o recebi de presente, talvez alguns anos antes do Le Petit Chose. Deste recordo a compaixão que sentia pela vida da Gata Borralheira e o meu fascínio pela imagem daquela rapariga do vestido azul que me levava a sonhar com príncipes e princesas.
Tão diferentes os dois livros e no entanto...
M
«Ce
qui me frappa d'abord, à mon arrivée au collège, c'est que j'étais
le seul avec une blouse. A Lyon, les fils de riches ne portent pas de
blouses; il n'y a que les enfants de la rue, les gones
comme on dit. Moi, j'en avais une, une petite blouse à carreaux qui
datait de la fabrique; j'avais une blouse, j'avais l'air d'un
gone...Quand j'entrai dans la classe, les élèves ricanèrent. On
disait: «Tiens! Il a une blouse!» Le professeur fit la grimace et
tout de suite me prit en aversion. Depuis lors, quand il me parla, ce
fut toujours du bout des lèvres, d'un air méprisant. Jamais il ne
m'appela par mon nom; il disait toujours: «Eh! Vous, là-bas, le
petit Chose!» Je lui avais dit pourtant plus de vingt fois que je
m'appelais Daniel Eys-set-te... A la fin, mes camarades me
surnommèrent «le petit Chose» et le surnom me resta...»
Le
Petit Chose,
Alphonse Daudet, Illustration de J. Wely, Collection Illustrée
Pierre Lafitte & Cie, 90, Avenue des Champs-Élysées, Paris,
1909.
sábado, 5 de agosto de 2017
245. O MEU PÁSSARO - Epílogo
«O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir e traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. O viajante cumpre a sua obrigação: viaja e diz o que vê. Se não parece dizer tudo, será erro seu ou desatenção de quem leu.»
José
Saramago, Viagem
a Portugal,
1981
244. O MEU PÁSSARO - Dia 14
sexta-feira, 4 de agosto de 2017
243. O MEU PÁSSARO - Dia 13
Foto de M
Portugal.
Quem nos dera continuasse a ser verde, não fossem os desatinos dos
homens que lhe vão devorando a cor. Que diriam dele agora Raul
Proença e os seus ilustres colaboradores na realização da obra
Guia
de Portugal?
« (...)
E assim um dia este livro, que eu sonhei nos verdes vales, nos rios
plácidos e nas montanhas decorativas da minha terra, nas sua costas
de enseadas azuis e de esburacadas grutas misteriosas (sonoras no
marulho das ondas como enormes búzios ressonantes), no
deslumbramento da sua luz epitalâmica e sob as suas grandes estrelas
dormentes – este livro, feito pelo amor
e pelo espírito de veracidade
de alguns Portugueses para concitar e adjurar a infinita piedade
portuguesa, merecerá,
talvez, pelo muito que os outros fizeram e farão, e pelo pouco que
eu vier ainda a fazer, ser denominado com justiça – o Livro
de Amor e Devoção de Portugal.»
Raúl
Proença, Guia
de Portugal,
Prefácio da 1ª edição publicada pela Biblioteca Nacional de
Lisboa em 1924, retirado do 1º Volume Generalidades
– Lisboa e Arredores, reedição
da Fundação Calouste Gulbenkian, 1979
M
quinta-feira, 3 de agosto de 2017
242. O MEU PÁSSARO - Dia 12
Foto de M
Dos
meninos sei eu do seu gosto em subir para cima de bancos ou cadeiras
e comparar alturas entre si (Já
chego ao teu ombro...)
ou, com os pais, fazerem medições de alto a baixo, o livro pousado
na horizontal sobre a cabeça, o pescoço esticado, que há pressa de
ser grande. Fica o registo na ombreira da porta, o traço do lápis
direitinho ao lado da data. Em centímetros ou metros, conforme a
idade (Estás
tão crescido!).
E o sorriso a espreitar na boca, os lábios a abrirem-se... Ah e qual
é a largura do vosso sorriso?
Quanto
a ti, Meu Pássaro, não sei por que te empoleiraste na tartaruga.
Comparar alturas não me parece ser interesse teu, cada um tem o seu
tamanho e o seu voo, não é? Nem me lembro de alguma história de
patos, pássaros e tartarugas. Mas, de repente, pensei em Pedro
e o Lobo, uma
história contada através da música composta em 1936 por um senhor
chamado Sergei Prokofiev. As personagens são o Passarinho, o Avô, o
Lobo, o Pato, o Gato, o Pedro e os Caçadores, cada uma representada
por um instrumento musical diferente, mas não há nenhuma tartaruga.
Paciência, ouve agora o disco, vais gostar da tua imagem em flauta
transversal.
Está bem,
faço-te a vontade, mostro a primeira página do dicionário e a
outra com os ninhos. Não precisas de piar mais. Sim, eu sei
que as crianças gostam de ninhos.
M
quarta-feira, 2 de agosto de 2017
241. O MEU PÁSSARO - Dia 11
terça-feira, 1 de agosto de 2017
240. O MEU PÁSSARO - Dia 10
Foto de M
Um
livro com uma capa lindíssima, não é, Meu Pássaro? Julgo perceber
o teu interesse por ele. De certeza que reconheceste alguma
semelhança com paisagens onde esvoaçam penachos
brancos que se soltam dos dentes-de-leão pelo sopro do vento e nos
encantam pela leveza.
Este
dicionário pertenceu à minha Tia Chanel. Curiosa como era, usava-o
constantemente, em busca de resposta para as suas dúvidas sobre os
significados das palavras. Bem me lembro de a ver manusear as páginas
com muito cuidado e de me mostrar as gravuras que, nalguns casos,
identificam as palavras e as complementam, outras vezes apenas pelo
gosto de observar os seus traços finos e minuciosos. E também não
esqueço que nem ela nem os meus Pais me poupavam quando eu, por
preguiça, aliás frequente nas crianças nos primeiros anos de
escolaridade, tentava obter junto deles o sentido de determinada
palavra ou frase. A resposta era invariavelmente: Procura
no dicionário. Não
este, claro,
só
aprendi francês no liceu,
uma
língua lindíssima que me toca em particular.
Não
sei se foi por causa do hábito, se algum gene herdado, se a frase da
Librairie Larousse na edição de 1931 Je
sème à tout vent,
ou tudo isso junto, que tenho a mania de me apoiar em dicionários
para tentar exprimir o melhor possível o meu pensamento. Ainda por
cima o acesso à Internet veio agravar esta minha doença crónica.
Que diria a minha Tia Chanel se fosse viva? Ela que, tendo nascido em
1894 e morrido em 1988, costumava dizer com alguma ironia Nasci
no século passado.
M
segunda-feira, 31 de julho de 2017
239. O MEU PÁSSARO - Dia 9
Foto de M
O
monte de livros por ler, à espera que eu levante a pontinha de uma
página, um pequeno sinal... Deixa
o resto e abre-me.
Vais
gostar de mim.
Na
livraria, lembras-te... Eu
sei, fiquei em pé contigo na mão, e contigo, e contigo, a
folhear-vos. Trouxe-vos porque queria ler-vos, não fossem esgotar-se
as edições. Pensava eu que vos lia logo, uns a seguir aos outros,
mas depois os afazeres estragam os planos... Pois,
às vezes a fazeres coisas inúteis te perdes e nos perdes. Nem
sempre apetece estar só convosco, preciso de trocar impressões com
outras pessoas. Estás
a esquecer-te do que costumas dizer. A tua memória anda pelas ruas
da amargura. Pois vou lembrar-te: quando acabas um livro que te
fascinou, é hábito contares que te é difícil sair da história,
que conviveste com as personagens durante tanto tempo que sentes
falta da sua companhia, que tens mais interesses em comum com elas do
que... Sim,
eu sei, há conversas com certas pessoas que me frustram. Mas tentem
entender-me, existem também programas de televisão que me
interessam e me “acrescentam”, como diz uma amiga minha. E filmes
espantosos... Ora,
desculpas. Nem sempre acontece assim. Algumas vezes, em dias solitários, recostas-te no sofá e ficas a olhar para ontem. Ou para
amanhã, sei lá. Mais vale olhares para hoje. Ora
essa, depende do hoje, alguns são tão aborrecidos que me põem
amarras de inércia. Um contra- -senso, aparente, explicável por
intermitências de humor. Então
e nós, não achas que é demais termos as nossas palavras
aprisionadas há meses? Qualquer dia acabamos mudos. Ou amarelecidos
por falta de ar. Está
bem, não se zanguem comigo, o ser humano é complexo. Não estão
vocês fartos de saber isso através de quem vos escreve? Esse
convívio é habitualmente longo... E tu, Meu Pássaro, não fiques
mal impressionado com esta conversa, eles e eu somos grandes amigos.
M
domingo, 30 de julho de 2017
238. O MEU PÁSSARO - Dia 8
Foto de M
Corre,
Corre, Cabacinha foi
livro da minha infância. Não este mas um outro que já não tenho,
com formato e ilustrações diferentes. Gostava muito da história.
Intrigante aquela cabaça a rebolar caminho abaixo, estranho alguém
caber dentro dela. Credulidade e incredulidade a bailar, ora uma ora
outra. Quem lia a história? A Tia Chanel? Eu? Não sei, apenas me
lembro que gostava de repetir: Não
vi velha nem velhinha, não vi velha nem velhão! Corre, corre,
cabacinha, corre, corre, cabação!
Era
uma vez...
M
sábado, 29 de julho de 2017
237. O MEU PÁSSARO - Dia 7
Foto de M
Apanhaste-me
aqui. No espaço de ouvir Anouar Brahem em Souvenance,
uma palavra muito bela, um disco lindo de morrer, oiço-o e oiço-o e
oiço-o mas até agora não morri para sempre, só morri de amor por
ele. E pelo outro, The
Astounding Eyes Of Rita, dedicado
à memória do poeta palestiniano Mahmoud Darwish. Se a tal morte sem
regresso for assim valeu a pena ter vivido. Ao lado, 10
Easy Pieces for Piano, os
nomes de cada uma delas em sintonia absoluta com a música composta
por Zbigniew Preisner. A lembrar uma agenda, o tempo, o nosso e o dos
outros, marcado nos dias em minutos e segundos: A
Good Morning Melody,
To
See More,
Farewell,
A Good Night Melody...
Sentida por Leszek Mozdzer em cada nota tocada. Polacos ambos,
compositor e pianista. Talking
to Myself, o
turbilhão que podem ser os estados de alma
expressos
na
limpidez
de cada som. A Polónia, a brutalidade da Segunda Guerra Mundial,
Gdansk e o âmbar a visitarem-me de novo. Saltaram da prateleira da
estante. Tu também. Vais reconhecer-te em The
Art of Flying, é
exactamente assim o voo dos pássaros.
M
sexta-feira, 28 de julho de 2017
236. O MEU PÁSSARO - Dia 6
Foto de M
O
Meu Pássaro tem-me prestado atenção desde o dia em que lhe
expliquei aquela história do nome. Noto que poisa agora
intencionalmente em determinadas prateleiras e que nelas se demora
mais do que o normal num ser da sua espécie. Hoje, por exemplo, é
um desses casos. Julgo que reparou que, estando eu recostada no sofá
diante da estante, fixo muitas vezes um olhar nostálgico em certos
livros ali arrumados. Tanto quanto sei, ele pertence a uma família
de aves espalhadas pela Europa. No entanto, não faço ideia se
Polónia, Praga ou Irlanda significam algo no seu passado, ao ponto
de se aconchegar junto delas, mas não é especialmente importante
para mim saber isso. Prefiro arriscar dizer que ele quer apenas
fazer-me companhia sempre que escrevo mentalmente as minhas memórias
de viagens no tempo. Uma questão de empatia.
M
quinta-feira, 27 de julho de 2017
235. O MEU PÁSSARO - Dia 5
Foto de M
Pelos
vistos o Meu Pássaro preferiu abandonar o poleiro da televisão e
voltar a subir às alturas. Posso imaginar a sua estranheza por não
ter ouvido qualquer notícia que o levasse a reconhecer o seu mundo:
chilreada entre as árvores de um bosque, água límpida de um riacho
a correr serra abaixo, o som de chocalhos distantes, algum zumbido de
insectos... Possivelmente sentiu-se perdido, sem referências, e
afastou-se. Para ele teria feito mais sentido um filme sobre a
Natureza do que ser apanhado pela habitual catadupa de notícias
pesadas que preocupam e sobressaltam as pessoas e são ininteligíveis
para os pássaros. Aliás,
também nós sentimos falta do
contacto com a Natureza, seja ele directo ou através de imagens. São
ninhos onde encontramos alimento para os sentidos e para uma melhor
compreensão do universo que habitamos.
De
qualquer modo, independentemente da razão que o levou a fugir da
moldura televisiva de ontem, agradou-me a sua presença nesta estante
onde vivem livros, fotografias, objectos diversos, enfim, pedaços da
minha vida que guardo e relembro sempre que os contemplo.
Ficas
tão bem sobre essa lisura luminosa, meu companheiro de voos.
M
quarta-feira, 26 de julho de 2017
234. O MEU PÁSSARO - Dia 4

Foto de M
Vejo
que o Meu Pássaro desceu à Terra. Como nos filmes de naves
espaciais que sobem e descem no desconhecido encantando crianças e
adultos fascinados por estrelas e planetas. Pousou na parte superior
do aparelho de televisão, pois pousou, mas está indiferente aos
meus chamamentos. Não sei se o aborrece ser tratado por Meu Pássaro,
se receia que, por eu usar a palavra Meu,
lhe limite a liberdade e o impeça de voar. Longe de mim tal
pensamento, o nome que escolhi para ele é carinhoso, é o mesmo que
dizer às crianças Meu
Riquinho,
ou Minha
Querida, ou
Meus
Queridos.
Por vezes apetece falar dessa maneira, são beijos e abracinhos
embrulhados em palavras que os agasalham melhor contra as intempéries
da vida. Os meninos percebem estas coisas muito bem. Hei-de explicar
tudo isto ao Meu Pássaro. Tenho a certeza que ele vai entender.
M
terça-feira, 25 de julho de 2017
233. O MEU PÁSSARO - Dia 3
Foto de M
Pouco
a pouco o Meu Pássaro vai ganhando confiança. Em si e no espaço
que o rodeia. Hoje encontrei-o ainda mais afastado da janela, sentado
em cima do abajur branco do candeeiro pousado na mesa de vidro. Mas
ele não sabe isso, pensa que está a descansar em cima da Lua, e a
recuperar o fôlego, depois de acompanhar as duas aves de graciosas
asas brancas naquele voo alto que os levou para lá das nuvens. Só
não percebeu por que razão elas continuam a esvoaçar, e ele
tão cansado. Procurarão alcançar outro planeta ou estarão apenas
a fazer um bailado para iniciarem a descida de regresso à Terra?
M
segunda-feira, 24 de julho de 2017
232. O MEU PÁSSARO - Dia 2
Foto de M
Hoje
de manhã, ao abrir devagar uma nesga da porta da sala para não
assustar o Meu Pássaro, reparei que estava empoleirado no
altifalante mais próximo da janela onde ontem se tinha refugiado.
Apesar de todo o meu cuidado a porta rangeu ligeiramente e ele mexeu
um pouco o corpo e as asas em jeito de levantar voo mas logo se
aquietou de novo quando, à distância, lhe falei baixinho. Presumo
que terá reconhecido a minha voz.
Não
faço ideia do que se terá passado durante a noite. Pergunto-me se
permaneceu atrás das cortinas, se saltitou pelo chão com a habitual
graciosidade que conhecemos nos passaritos, se esvoaçou para um e
outro lado até decidir sobre qual sofá ou móvel ou prateleira
adormecer. Independentemente das suas eventuais deambulações
nocturnas, acho natural que escolhesse aquele poiso próximo do
parapeito da janela onde na véspera se sentira mais seguro. Além
disso, certamente também a paisagem pintada pela Bisavó Fernanda no
quadro pendurado na parede lhe ofereceu confiança ao trazer-lhe à
memória espaços conhecidos. Aliás, não me admiraria que tivesse
experimentado empoleirar-se nalguma daquelas árvores, apesar do
vento que a imagem parece sugerir.
M
domingo, 23 de julho de 2017
231. O MEU PÁSSARO - Dia 1
Foto de M
Noutro
dia fui ao Jardim Gulbenkian e apaixonei-me por um pássaro que
encontrei empoleirado num raminho. Achei graça ao nome Chapim-Real
escrito na etiqueta presa numa das suas patas e logo me surgiu diante
dos olhos a imagem de passaritos a chapinharem e a bebericarem em
poças de água junto da relva. Fiz-lhe uma festa e ele cantou, como
se quisesse dizer-me qualquer coisa. Decidi trazê-lo comigo. Apanhei
algumas folhas do chão para lhe preparar um ninho dentro de um saco
de papel e pousei-o lá devagarinho, deixando uma abertura
suficientemente grande para que pudesse sentir-se confortável a
olhar o céu enquanto caminhávamos. Pareceu-me um pouco assustado,
uma reacção natural, não me conhecia nem sabia para onde era
levado. Pensei que ajudaria a acalmá-lo dizer-lhe onde eu morava,
ir-lhe falando de mim, dos objectos que fazem parte da minha vida, do
chilrear que oiço manhã cedo no parapeito da janela do meu quarto,
dos jardins que espreitam entre os prédios do meu bairro, das
varandas floridas onde pousam pombos.
Depois
de abrir a porta de casa, arrumei a mala e as chaves no lugar
habitual e dediquei-me ao Meu Pássaro. Retirei-o cuidadosamente do
saco e, ainda com ele seguro na concha das minhas mãos, peguei na
tesoura que guardo na gaveta da escrivaninha que me espera sempre no
hall de entrada e cortei a tal etiqueta com o nome
Chapim-Real que o impedia de mexer as patas à vontade.
Larguei-o.
Surpreendeu-me. Esvoaçou timidamente através da minha sala de estar
e escondeu-se atrás das cortinas. Vou dar-lhe tempo. Talvez amanhã
já se sinta à vontade para explorar os recantos de que lhe falei
durante o trajecto para aqui. Há-de lembrar-se.
M
sexta-feira, 14 de julho de 2017
quinta-feira, 15 de junho de 2017
228.
Foto de Isabel (*)
Ao olhar para esta imagem lembrei-me logo da personagem Pantera Cor de Rosa e da mímica divertida e provocatória entre ela e os vários intervenientes nas séries de desenhos animados dos anos sessenta, deliciosamente acompanhados pela música de Henry Mancini.
E acrescento que o braço cor de rosa, talvez apercebendo-se de que o sujeito magrinho tinha espreitado o seu espaço redondo, não achou graça à ousadia e apertou-o, apertou-o, até lhe provocar suores frios e pensamentos negros. Quais, não sei, pois de os revelar foi impedido. Uma flor negra?, arrisco perguntar-me. Uma flor não é um pensamento mau de todo. Depois de liberto do apertão, basta que a pinte com uma cor alegre, a regue abundantemente e a prenda no chapéu em sinal de resistência às adversidades. Tenho a certeza que o gesto será deveras apreciado pelos seus conterrâneos e que passará a ser conhecido pelo nome O Homem do Pensamento Flor.
M
(*) Fotografia proposta pela Isabel para o desafio desta semana Com as palavras dentro do olhar no meu outro blog Palavra Puxa Palavra, onde ela participa. Os blogs da Isabel são:
http://fotografiasdaquiedali.blogspot.pt/
segunda-feira, 12 de junho de 2017
227.

Foto de M
O mar tem amigos que, por gostarem muito dele, chamaram Casa do Mar a esta casa, belo refúgio quando a praia transborda de gente. Apenas conjecturas minhas, não conheço quem aqui mora nem os seus hábitos, mas sei o que, em dias quentes de verão, acontece um pouco por todo o lado. Instalam-se multidões no areal, carregadas com chapéus de sol, cadeiras, toalhas, lancheiras, jornais, revistas, bolas, e tudo o mais de que precisam para entreter as horas. Os apressados, ávidos de liberdade, correm para a beira-mar, experimentam a temperatura da água, gritam e riem sempre que o mar lhes acena com ondas a crescer devagarinho lá de longe e as deixa depois cair sobre os seus corpos em desequilíbrio. Há quem enfrente a ameaça com os pés fincados no fundo invisível, a lembrar toureiros a incitar os touros na Praça do Campo Pequeno. A postura é semelhante, só lhes falta dizer Touro, é touro! e levantar os braços com uma bandarilha em cada mão. Mas aqui ninguém tem bandarilhas para espetar, os braços são como ferros a furar o bramido aquoso, arrastam o resto do corpo, e submergem por instantes no desconhecido. Continuam as ondas o seu caminho na imensidão azul verde, indiferentes a quem ousou fazer-lhes frente, e desenrolam-se sobre castelos enfeitados com algas e conchas por mãos de meninos. Oh! Que pena! Não faz mal, tem graça sentar dentro das pocinhas e desejar que a menina da história A Menina do Mar os visite, antes de aquela água rendilhada desaparecer na rotina das marés.
M
quinta-feira, 11 de maio de 2017
226.
Apenas coisas, início de frase proposto pela Bettips para o desafio de hoje no Palavra Puxa Palavra, levou-me a pensar que talvez nem sempre seja linear considerar as coisas como apenas coisas. Ligada a palavra apenas à que se lhe segue, julgo que nalguns contextos lhe retira a substância da sua individualidade, noutros, pelo contrário, acrescentará qualidade ao que se pretende exprimir. Importará conhecer o que se enuncia, de que se trata. Objectos, ideias ou casos, argumentos relevantes ou não, reflexões, tudo isso pode ser considerado coisas. Dependerá de cada pessoa o valor que lhes atribui, o afecto que as une, de como as olha, como delas se serve. Esta fotografia campestre, por exemplo, mostra um conjunto de objectos com significado muito especial para o seu dono, meu irmão. Para ele não são apenas coisas, são pedaços de recordações saborosas que deseja continuem a tomar parte activa no presente. Foram intencionalmente colocados ali para seduzir preguiças ou espevitar gostos e artes rurais, pacientemente ordenados na quietude sem tempo, à margem da urgência ou da indiferença de quem neles venha a reparar. Conheço bem este plano sorrateiro, a composição cuidada, porventura até estética nos pormenores, é-me familiar o gesto silenciosamente provocador de expor e esperar pela reacção de alguém, a tentação dos frutos. Depois é o pegar de novo no livro que abandonou sobre a mesa em breve pousio, sentar-se à distância na sombra da árvore e ir libertando o olhar num vaivém entre as páginas da história e aquela espécie de isco e logo se vê o que acontece. À mão de semear: adequada a expressão à função intrínseca dos utensílios aprisionados.
M
quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
225.

Foto de M
Pouco passava do meio dia quando deixei Santiago de Compostela a caminho de casa. Já tinha visitado algumas partes da cidade mas faltava-me espreitar uns certos recantos assinalados na agenda da viagem. Foi então que o vi, empoleirado no alto da parede. Lá estava ele, com o elegante ferro cravado no corpo a marcar a passagem do tempo: 9 horas e 35 minutos, segundo a leitura de um amigo mais entendido nestas coisas do que eu. Nada de pressas, ainda a manhã começava a adaptar-se à luz e o ambiente de séculos convidava-me a permanecer naquele claustro até ao limite possível concedido pelo guia galego que acompanhava o grupo. Esta mania de o sol ditar a nossa vida contraria- -me, restringe-me os passos, atormenta o tempo que me pertence. A mim e a outros, talvez por isso há quem fique para trás a provocar horas e avisos. Seja como for, parece-me que esta coisa da sombra na pedra nos dá a sensação de que a vida se demora naquele jogo de sombras e luz. Tão diferente dos mostradores de relógios com ponteiros a rodar em conversas desencontradas de horas, minutos e segundos, dentro de caixas fechadas sem escapatória possível, à prova de água, à prova de choques, à prova de publicidade. Tão diferente também dos outros relógios onde se desdobram algarismos a um ritmo de presença e fuga diante dos nossos olhos. Apesar da inevitável interferência solar nas nossas existências, é bem mais bonito este rectângulo de pedra ao ar livre onde poisa o canto dos pássaros e escorrem gotas de água embaladas pelo vento. No entanto, para lá deste meu fervor idílico, imagino que talvez este tipo de relógio traga problemas a algumas pessoas: quando o sol se esconde e leva consigo os sinais de orientação, há quem possa ficar desatinado sem saber que rumo tomar. No caso dos nossos antepassados, resolveriam esse contratempo usando clepsidras para medir o tempo durante a noite. Quem as pudesse pagar, claro, a maioria das pessoas seria obrigada a contentar-se com a informação dada pelos sinos das igrejas.
M
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