domingo, 4 de outubro de 2020

JARDIM BOTÂNICO TROPICAL DE BELÉM XII

Ao passar por ela, junto ao muro que separa o jardim do aglomerado de casas no exterior, associei aquele enquadramento de luz e sombras aos teatros de sombras. Sendo uma arte antiga tradicional em países asiáticos e existindo uma lenda chinesa sobre a origem do teatro de sombras, achei que o meu pensamento se aplicava às características e história do Jardim Botânico Tropical.

O passado e o presente em convivência. Do outro lado do muro, a chaminé moderna a trazer-me ao pensamento a proximidade da Fábrica dos Pastéis de Belém, o amarelo da casa à espreita atrás das árvores enormes a lembrar-me o delicioso creme salpicado de canela e açúcar dos célebres pastéis aconchegados em massa estaladiça.

E também do outro lado do muro, quase escondido no emaranhado de casas e ruelas, o Padrão do Beco do Chão Salgado, memória de uma data de violência e ódio relacionada com o Processo dos Távoras.

Hei-de voltar um destes dias ao Jardim Botânico Tropical. Mas tenciono ir primeiro buscar um ou dois pastéis de Belém ainda mornos e saboreá-los sentada num dos bancos com a velha marca ALBA. Tenho esperança que nesse dia já não existam empregados com viseiras na cara à porta da pastelaria a indicar as entradas e saídas em função do bem comum.

M

Fotos de M

  https://pt.wikipedia.org/wiki/Teatro_de_sombras

https://pasteisdebelem.pt/history/ 

https://toponimialisboa.wordpress.com/2017/07/17/o-beco-do-chao-salgado-dos-tavora/

 https://pt.wikipedia.org/wiki/Processo_dos_T%C3%A1voras

sábado, 3 de outubro de 2020

JARDIM BOTÂNICO TROPICAL DE BELÉM XI

Desconformidade e Incómodo, duas palavras presentes na minha cabeça desde aquele dia de agosto em que visitei o jardim. De início um pouco baças, hesitantes, sem eu saber exactamente se eram as palavras que melhor se adequavam ao que sentia, foram-se tornando mais claras à medida que voltei lá através da Internet. 

O meu olhar fixou-se nas árvores e plantas magníficas e únicas trazidas de outros continentes, e quase ignorei algumas obras ainda em curso. Apesar de, antes da reabertura do jardim ao público no início de 2020, tivessem sido feitas intervenções nas infraestruturas básicas como os caminhos, o lago, as condutas de águas, da rega, da energia e alguns edifícios, encontrei ainda outros a necessitar de melhores dias. Pelo que li, farão parte de uma segunda fase de reabilitações.  

Longa é a história do jardim, desde a sua criação como «(…) Jardim Colonial a 25 de Janeiro de 1906 pelo rei D. Carlos I, sob tutela do antigo Instituto Superior de Agronomia, localizando-se nas Estufas do Conde de Farrobo (actualmente o Jardim Zoológico de Lisboa). Funcionaria posteriormente como centro de investigação do Instituto das Ciências Tropicais.» Mais tarde, em 1912, foi instalado no espaço actual, passando a funcionar no Palácio dos Condes da Calheta o Museu Agrícola e Colonial e a implantação do jardim nos terrenos em Belém dirigida por Henry Navel, jardineiro paisagista francês. «Durante a Exposição do Mundo Português, em 1940, o jardim albergou a Secção Colonial, tendo na "Ilha das Fruteiras", localizada no centro do lago, chegado a habitar membros de uma tribo do Arquipélago dos Bijagós, na Guiné-Bissau, à semelhança do que aconteceu noutros "Zoos Humanos" da época. De entre as alterações que se realizaram temporariamente para a Exposição conta-se ainda a construção de pequenos pavilhões que pretendiam representar a totalidade das colónias portuguesas. "Angola e Moçambique" estavam representadas juntas num só pavilhão desenhado por António Lino (construído em torno do Palácio dos Condes da Calheta), a "Guiné" num pavilhão desenhado por Gonçalo de Mello Breyner, as "Possessões Insulares" (Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor) eram representadas por um pavilhão da autoria de Vasco Regaleira, por fim a "Índia" encontrava-se instalada numa típica casa colonial, como (erradamente) se esperava que todas fossem nas colónias portuguesas. Foi também temporariamente erguida uma igreja da autoria de Raul Xavier. (...)»

O Arco de Macau, uma das duas entradas de acesso ao Jardim Oriental é uma réplica do arco do pagode da barra de Macau construída para a Exposição do Mundo Português de 1940. Em 1944, mais uma alteração de nome. Passa a chamar-se Jardim e Museu Agrícola Colonial, ficando a depender da Junta de Investigações do Ultramar. 
Por fim, depois de ainda algumas mudanças, é classificado em 2007 pelo Ministério da Cultura como Monumento Nacional, passando a chamar-se Jardim Botânico Tropical e é actualmente gerido em conjunto com o Museu Nacional de História Natural e o Jardim Botânico de Lisboa. 
O que vi e li sobre este jardim, desde os nomes que lhe têm sido atribuídos, as entidades de quem tem dependido, as intervenções feitas pelas políticas vigentes ao longo dos 114 anos da sua existência na História do país explicam por que razão escolhi no início do meu post as palavras Desconformidade e Incómodo. Felizmente, o nome actual parece-me fazer mais sentido e revelar maior liberdade de pensamento.

M

Fotos de M 

https://museus.ulisboa.pt/pt-pt/jardim-botanico-tropical

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

JARDIM BOTÂNICO TROPICAL DE BELÉM X

Fotos de M

O ganso andava por ali e parou quando me viu. Como uma das minhas características é encontrar semelhanças físicas entre os animais e as pessoas, e vice-versa, encontrei nele postura altiva de senhor importante em defesa do seu reino. No caso deste habitante do jardim, reparem no olhar e no bico fechado no cimo do longo pescoço, a posição do corpo, nem de frente nem de lado, pouco definida. Está vigilante, como proprietário confrontando algum intruso nos seus domínios e deixando-o na dúvida de quais as reacções irá tomar. Apenas uma questão de postura: em vez de mãos nos bolsos tem asas; em vez de expressão de poucos amigos e dois olhos visíveis no mesmo plano, o bico fechado e um olho de cada lado; no lugar de pés bem assentes no chão, patas. Quanto aos reinos, frequentam ambos o mundo terrestre e o aquático, os modos de andar e de nadar é que são ligeiramente diferentes.

M