domingo, 24 de novembro de 2013

A mansidão da memória


Barcos em repouso 
(Foto de S.) 
   
Um Pedaço de Mar
   
É manso este teu gesto prateado de me tocar os pés descalços.
M
26 out 2005

Memórias do pensamento


Solidão 
(Foto de S.)
 

Alguém
 
Costumava acompanhar-se a si mesmo na vastidão da praia, os bolsos das calças repletos de conchas e búzios, pequenos presentes que o mar lançava nas suas mãos.
M
24 out 2005

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Silhuetas de memórias


Silhuetas de amigos 
(Foto de S.) 

Podia ser o título de um filme

Silhuetas de amigos. Podia ser o título de um filme a preto e branco. Mudo, com gestos apenas, daqueles em que se adivinham os afectos por detrás das fisionomias, desenrolados no mutismo da bobina, o argumento saltando para o ecrã do nosso silêncio. O silêncio do entendimento das imagens sem voz audível dentro de nós, o prazer da conjectura sobre o que não é claramente revelado.
Julgo que o ritual da pesca é também calado e pensativo, cada gesto lento, avaliado antes de a linha ser lançada longe. Um diálogo de palavras guardadas entre o pescador e a cana de pesca, expectativas atiradas sobre a água que corre mansa, desejos que flutuam, que mergulham, que desafiam. A tentação espetada no anzol, e o peixe lá em baixo, um pequeno isco atravessando-se na sua estrada azulada, obrigando a um desvio de caminho, a uma paragem. Um salto, um paladar a experimentar, um sabor a que se não resiste, um puxão na linha, um sinal rapidamente enrolado no carreto. Uma desilusão agarrada ao anzol? Que importa? Existem mais engodos miúdos dentro da cesta à espera dos dedos hábeis do pescador.

Acção! De novo o ritual da cilada, luz e sombra, contrastes na paisagem. Há que respeitar o fim do filme: um peixe preso num voo contrafeito, dançando o seu último bailado prateado a solo, pingando azul sobre o sorriso do pescador, debatendo-se a seus pés com a vida. Desistindo dela, impotente perante a degustação adiada de um homem paciente.
M
30 de Outubro de 2005

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Memórias


O homem que não gostava de romãs
(Foto de S.)

Numa Tarde de Outono

Convidou-o a sentar-se consigo à mesa, mas ele recusou-se a fazer-lhe companhia, respondeu-lhe que não gostava de romãs. Como se gostar ou não de romãs tivesse alguma importância numa tarde em que ela lhe queria falar dos seus medos de criança! Um pavor que ficara para sempre colado à lembrança do bramido do mar, o seu corpo de menina batido pela fúria líquida, o medo escorrendo em remoinho pelos cabelos, apossando-se dela, engasgando-a. De quase nada lhe valera a corda grossa presa entre o areal e a bóia que flutuava nas águas assanhadas. Mergulhara e subira à superfície repetidas vezes, as mãos e os braços doendo de força ao longo da corda, cada centímetro arrastado esfolando-lhe os dedos gelados e apoderando-se pouco a pouco da distância que a separava da areia. Acabara por cair extenuada em cima de um tapete de algas escorregadias, como se fosse, também ela, uma alga lançada pelo ronco medonho de uma onda sobre o areal. 
Nesta tarde de Outono ela está só, encostada a uma mesa coberta com uma toalha delicada de pedra que abana ligeiramente com a brisa. Ao longe, na vastidão da praia, o mar e o homem que não gostava de romãs.
M
27 de Outubro de 2005

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

196.


Foto de M

Não feches a porta, disse ela, debruçando-se sobre o parapeito da janela do primeiro andar. 
A amiga tinha acabado de descer as escadas que gemiam sob o peso dos seus passos e chegara naquele momento ao pátio onde as crianças da vizinhança brincavam. Acenaram uma à outra em jeito de despedida.
Não feches a porta, recomendou de novo. Deixa-a encostada. O sol e o vento gostam de se refugiar ali quando brincam às escondidas com os meninos. Lembras-te como era divertido? 
Leonor lembrava-se. Nesse tempo a porta estava pintada de verde vivo e as dobradiças não chiavam. Nem as minhas... respondeu, o sorriso gaiato a abrir caminho entre as rugas do rosto. 

M

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

195.


Foto de M

Quando olhei para cima e vi aquela imagem no vidro da janela pensei como seria quem ali morava. Estaria com a telha? Teria telhas? Dar-lhe-ia na telha sair porta fora por já não suportar tamanha invasão de casa alheia?
Não faço ideia mas eventualmente terão acabado por se entender pois que todos temos telhados de vidro. Ou melhor, neste caso será mais apropriado dizer-se telhado no vidro, o que tornaria a convivência mais frágil, a exigir cuidados redobrados.

M

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

194.


Foto de M 

Entre a terra e o céu, uma história verdadeira.

A menina estava na praia, entretida a brincar.
As gaivotas passavam em bando, não se sabe para onde. Ela olhou para cima e disse:
- O Avô António é uma gaivota.
- Quem te disse isso? Achas que ele está a ver-te, é? - perguntei.
Não respondeu, continuou a brincar com os baldes e a areia.
- Não sabemos onde está – acrescentei.
- Ele está sempre no sítio onde pensamos nele. Acontece assim com as pessoas de quem gostamos muito e que já morreram – disse o Pai.
Então a menina declarou com firmeza:
- Eu quero que o Avô António seja uma gaivota.
M

sábado, 24 de agosto de 2013

193.


Foto de M 

Adoro escargots. Grandes, as casas às costas ajustadas em pocinhas redondinhas escavadas no prato, imóveis em molho saboroso. Hélas!  Les pauvres! Gosto deles, sim, mas não posso pensar no que estou a comer nem olhar muito para eles. Apenas de soslaio. Coisas do paladar. E de imagens incómodas. 
Mas também gosto de os ver em marcha lenta de alpinista por montes corticeiros, caracóis de seu nome, talvez um pouco mais franzinos estes, claro. Singularidades de família. E um outro sentido estético, o deles e o meu. Mais a condizer com a Natureza.  
Ambivalências da minha natureza.
M

terça-feira, 30 de julho de 2013

192.


Foto de M 
   
O rosto da mulher era muito belo e delicado, a lembrar as Madonnas pintadas por Botticelli. Inerte, o olhar calado fixo no chão, segurava numa das mãos um copo de plástico com duas ou três moedas escuras perdidas no fundo, o braço estendido como se não lhe pertencesse. A menina, quase imóvel ainda que desperta, procurando apenas de vez em quando posição mais confortável, mais parecia fazer parte daquele corpo colado ao passeio de distante praça cosmopolita.
Perguntei-me como era possível que uma criança tão pequena – teria cerca de três anos? - se mantivesse assim quieta durante os trinta minutos em que a observei do alto do assento da camioneta em que eu viajava, estacionada por breves momentos à espera de outros passageiros.
Talvez o colo. Sim, talvez fosse o aconchego do colo que a faria esquecer o desassossego da infância. Apesar do que certamente lhe faltaria. E por causa disso.
M

quinta-feira, 23 de maio de 2013

PROVÉRBIOS FOTOGRAFADOS - 21


Foto de M 

«Coisas vistas à noite, de manhã outras parecem» 

Rifoneiro Português por Pedro Chaves (2ª edição), Editorial Domingos Barreira

quinta-feira, 9 de maio de 2013

191.


Foto de M

Há momentos em que me basta a simplicidade de um corrimão para que eu sinta a presença de um lugar. 
M

sexta-feira, 3 de maio de 2013

190.


Foto de M 

É bom quando o sol se senta nos bancos dos jardins e nos pega ao colo para nos contar histórias de estrelas e planetas.
M

sábado, 9 de março de 2013

189.


Foto de M

Uma espécie de casa ambulante é o que me lembram os dois Elevadores da Glória. Ora para cima ora para baixo, assim se cruzam entre carris e cabos aéreos, não vão eles querer libertar-se da rotina dos trilhos diários e passear em liberdade por outros bairros de Lisboa. Mas boas razões tenho eu em encontrar-lhes feições de residência. O espaço rectangular das carruagens com bancos corridos de costas para as janelas onde nos sentamos podia perfeitamente ser uma sala de estar de nossas casas. Ali nos olhamos uns aos outros pensando quem seremos e, fosse o tempo do trajecto mais longo, chegariam certamente à fala conversas íntimas nas mais diversas línguas a propósito dos percursos sugeridos em mapas e roteiros de viagens abertos nas mãos dos passageiros. 
Mas não só de viagens turísticas de máquina a tiracolo se vive, há quem viaje sem sair do seu lugar de trabalho aproveitando de forma aprazível os dez minutos de intervalo entre cada chegada e partida estabelecidos no horário da Carris. Pois é verdade, empoleirado no banco da cabine, além do Bom dia espontâneo e sorridente oferecido a cada pessoa que entrava ou lhe pedia informações sobre o preço dos bilhetes, o jovem guarda-freio lia as últimas páginas do livro Mataram o Sidónio, de Francisco Moita Flores.
Ao regressar dos meus afazeres no Bairro Alto encontrei o mesmo elevador à espera, e o mesmo homem embrulhado no sobretudo azul escuro da farda, protegendo-se assim do frio que atravessava grades e corpos. Não resisti a meter conversa com ele, tal a curiosidade e espanto que em mim provocara algumas horas antes. Da breve conversa, até porque dez minutos voam nas nossas vidas paradas, apenas vos deixo o que considero mais importante: Já o acabei. Amanhã trago outro livro. Gosto muito de ler. Ajuda a passar o tempo.  
Saberá este homem que até finais do século 19, durante as viagens nocturnas, a iluminação dentro da cabine era feita com velas? Presumo que, tivesse ele vivido nessa época, isso não o incomodaria, apenas seriam outros os livros. Talvez Os Mistérios de Lisboa de Camilo Castelo Branco...
M

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Talvez não completamente desadequado ao momento presente


Linhas cruzadas 
(Foto de S.)

A Turista

Não, esta não é uma história de fadas. Como aquela da princesa que ficou tolhida no encanto de um sono por tempo indeterminado, até ao aparecimento do príncipe encantado que a despertou com um beijo. Doce, presumo. E como falo de imaginários deslumbramentos, lembro ainda as caixas russas em forma de mulheres de sorriso colorido presas umas dentro das outras, ainda que aparentemente sob a forma de uma só figura. Há quem as liberte, por curiosidade, claro, mas mesmo assim sujeitam-nas ao alinhamento a que a sua própria escala de estatura as obriga no espaço a que habitualmente estão confinadas. Não sei se por conveniência de espaço, se pela ideia generosa de possibilitar a alguns o encantamento de desdobrar encantos dentro dos encantos. Um pouco ao invés da tal princesa que não teve de desdobrar nada dentro da vida, pois dormiu e acordou no mesmo espaço ad aeternum. Pelo menos é o que me sugerem os contadores de contos de fadas.
A minha história é outra, é a de uma mulher que se dizia tolhida pelo desencanto. Encontrei-a há pouco no cais da estação de comboios, sentada num banco. Tinha a cabeça um pouco descaída sobre o peito, como se não pudesse segurar-lhe o peso, e os braços pareceram-me entrelaçados um no outro, atrás das costas. Invisivelmente atados, pois não vi corda alguma.
Estranhei vê-la ali. Costumava cruzar-me com ela pelas ruas do mundo, de mochila às costas, e até conversámos várias vezes, quando a ocasião se proporcionou. Intrigava-me, quando a conheci. Dava-me a ideia de uma turista de passagem por Lisboa mas, ao mesmo tempo, o sorriso divertido ou as respostas prontas deixadas em aberto levaram-me a crer que conhecia a minha linguagem perfeitamente e que seria residente neste país.
– Que faz aqui sentada? – perguntei, aproximando-me devagarinho.
– Como? – Ela entreabriu um pouco os olhos. – Quem é você?
– Não se lembra de mim? O meu nome é I…
– Imbecil, suponho… – interrompeu-me, agastada.
– Podia ser… – respondi-lhe, com um sorriso nos lábios. – Até podia chamar-me Imbecil, mas por acaso não acertou.
– Não acertei? Não acha a sua pergunta absurda? – E olhava para mim com um misto de irritação e de desafio. – Não vê que estou tolhida pelo desencanto?
– Confesso que me pareceu apenas cansada. Uma turista cansada… Costumávamos encontrar-nos por aí… Lembro-me de a ver de nariz no ar, sempre à procura… nem sei bem de quê. A sua mochila, aí no chão… Um dia falou-me do que guardava dentro dela…
– A minha mochila? Ah! Que importa? – Pela maneira de me olhar, pareceu-me que se recordava.
Um dia, sentadas num banco da avenida a refrescarmo-nos da caminhada, comemos juntas uma sanduíche e ela falou-me do que escondia dentro da mochila. Lembro-me que lhe achei graça. Alternava a trincadela no pão com fiambre com o que me ia mostrando: “Isto é alento, olhe aqui o ânimo, o encanto, a ilusão, o entusiasmo, este é o silêncio. Também faz falta, não acha? Preciso disto tudo, sabe. Umas vezes esvazio a mochila, porque gasto tudo, outras vezes são sobras que ficam de reserva. Depende daquilo em que tropeço, dos caminhos por onde vou, alguns cansam-me mais do que outros.”
– A sua mochila… Lembra-se? – Baixei-me ligeiramente para lhe pegar.
– Já não contém nada do que lhe mostrei um dia. Conhece o vírus das três letras? O “des”…
– O “des”? Perfeitamente. – Sorri. – Julgo que os meus dedos nem chegam para enumerar as várias doenças provocadas por ele. Despeito, desproporção, desqualificação, desrespeito, desamor, despromoção, desvalorização, desconsideração, desavergonhado… Bem, nesta última apareceu uma outra estirpe de vírus, o “a”… Não há antibiótico eficaz para ele… Por enquanto, claro. Valem-nos os avanços da medicina actual para debelar esta proliferação de enfermidades…
– Esse vírus é activo, estimula doenças em cadeia que se vão espalhando, é quase uma epidemia. O meu é de outra espécie, é restrito no seu ataque – respondeu-me rapidamente.
– Restrito?! – perguntei, admirada.
– Sim, fiquei tolhida. O vírus que atacou a minha mochila deixou-me desalento, desânimo, desencanto… Tirou-me a energia. Acha que há alguma coisa pior do que isso?
– Mas não a privou de tudo, pois não? O silêncio…?
– Ah, o silêncio está sempre calado, por isso ninguém deu por ele. Continua comigo, intacto. – Vislumbrei-lhe um olhar temporariamente divertido e provocador.
– Vá lá, nos tempos que correm traz algumas vantagens…
– Nada se aguenta eternamente sem mudança, pois não? Às vezes o silêncio também se cansa e adoece com falta de palavras ouvidas bem alto, noutros tons diferentes dos meus. Precisamos de treinar a voz, senão perdemos a capacidade de cantar.
– Um antibiótico de largo espectro será portanto o mais indicado… – Pisquei-lhe o olho.
– Afinal não é imbecil… – disse, provocando-me. – Gosto da sua companhia. Quase que apostava que sei como se chama…
– Pois sabe. Já nos conhecemos há muito tempo. Mas olhe, vou seguir o meu caminho que…
– Mas eu estou tolhida pelo desencanto, não vê? – Interrompeu-me. Pareceu-me preocupada por eu a deixar.
– Eu estou sempre consigo, só que às vezes esquece-se de mim. Vou prender-lhe entre os dentes a ponta desse fio que a tolhe.
– Entre os dentes?! – exclamou, admirada. – Dói.
– Não é uma corda, é apenas um fio. Quando conseguir rir um pouco, o fio é puxado pelo movimento do seu sorriso, o nó desfaz-se, e os seus braços ficarão livres, vai ver. A nossa vida é uma cadeia de gestos.


Ironia
M


(Publicado no meu antigo blog Fotoescrita em Fevereiro de 2005)

domingo, 27 de janeiro de 2013

188.


Foto de M 

Reparei que olhava com atenção para a taça que eu tinha acabado de pousar sobre o velho móvel de família à entrada de casa.
- Gostas? - perguntei-lhe. - Pareceu-me, pelo teu olhar silencioso...
- Gosto. – Sorriu. - É bonita.
- Para mim é uma espécie de taça da vida. Foi oferecida aos teus avós maternos quando casaram. Sempre a vi lá em casa. Em dias de festa a minha Mãe cobria o fundo com um naperon de linho bordado para ali aconchegar uns biscoitos deliciosos cozinhados por ela. De resto, permanecia em cima do aparador, vazia. O seu rendilhado encanta-me. Ao fim destes anos todos resolvi guardar dentro dela as pedrinhas que me têm sido oferecidas por amigos, algumas apanhadas nos campos por onde passeamos. Pedacinhos da Natureza que me recebe... Ah como são belos aqueles tons!
- Uma taça de memórias – disse, dando-me um beijo. - Os tons... encontra-os também agora dentro de si, não é?

M

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

187.


Foto de M 

Um abraço.

M

186.


Foto de M

Apenas uma folha.

M

185.


Foto de M 

Presença.

M

domingo, 13 de janeiro de 2013

184.


Foto de M 
  
- Brinca comigo.
Olhei em volta. Para além de mim não havia mais ninguém no corredor, a criançada tinha-se refugiado no quarto entre risos e jogos, apenas a bola que eu acabara de fotografar permanecia imóvel junto da porta.
- Brinca comigo.
De novo aquela voz, quase sumida. Que estranho! Parecia vir do chão. Será ela que...? Não pode ser, pensei. Se calhar até pode... por magia, quem sabe...
- Foste tu que falaste? Comigo? - perguntei. Eu precisava de ter a certeza.
- Sim, estás admirada?
- Não, claro que não, mas pensava que só rebolavas...
- Também falo, estou habituada a conversar com os meninos, quando eles brincam comigo. Foram-se embora e deixaram-me aqui sozinha... As zebras estão cansadas de esperar por eles e querem dar cambalhotas. Podias brincar comigo...
- Pois é, as crianças cansam-se depressa das brincadeiras, gostam de variar, de experimentar coisas novas – respondi-lhe, tentando consolá-la. - Está bem, acho-te graça e vou fazer-te a vontade.
Baixei-me para lhe pegar e atirei-a devagarinho pelo corredor fora até ela entrar sorrateiramente no quarto onde os meninos brincavam. A porta estava aberta, por isso foi fácil rebolar direitinha e parar junto dos seus pés.
- Oh! Olhem a nossa bola! Como é que apareceu aqui?! Vamos jogar no corredor! - exclamaram.

M

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

183.


Foto de M 
   
Os muros. Esboroam-se alguns na terra dos dias, tristemente sustendo a vida que neles se agarra.

M

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

2013 vem a caminho


Foto de M

Que apontaremos nós nos dias que iremos desfolhando ao longo do ano? Antiguidades como a da imagem reciclada deste calendário que nos mostra bem como a História tem o seu tempo? Haverá ainda algum sorriso, nem que seja apenas de ironia? Espero que sim, os sorrisos ajudam a segurar a vida.  
M

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Natal de 2012


Foto de M 

Deixo-vos aqui o meu abraço natalício e o link de um blog onde é um prazer passear ao ar livre.

M
 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

NÓS E OS ESPELHOS


Foto de M 

Que dizer dos espelhos onde nos olhamos? 

 “Espelho meu, espelho meu, quem é a mulher mais bela do mundo?”, perguntava a rainha na história Branca de Neve e os Sete Anões.

E nós, neste nosso mundo de verdades e fantasias, dentro da história de cada um, que perguntamos, que vemos?

“Mã... mãmãmã… pápápá... cá… dádá… bó… papa...”. A criança está sentada no chão, surpreende-se, lambe o espelho inquebrável, morde-o, bate-lhe com a mão desajeitada, de tão pequena que é. 
“É o bebé, vês?”, diz a mãe, diz o pai, diz a avó, diz o avô, dizem todos, a família esgota-se em comentários e sorrisos. A criança olha para uns, observa outros, conversa em linguagem de espelho com alguém que é ela própria. Quem é esta personagem tão perto de mim, que me imita, que ri quando eu rio, que faz as mesmas caretas que eu?

 Ah, deixa experimentar de esguelha... Sou assim? Pensava-me diferente! Talvez um espelho maior me mostre uma imagem mais completa, quem sabe. Buscam-se as ruas, procura-se cada um a si mesmo nos inúmeros reflexos das montras das lojas: encontram-se aí rostos, expressões, silêncios, fantasias. Nada mais do que mundos desconhecidos por revelar, em imagens desfocadas sem resposta. 

Uma ruga?! Não estava cá ontem, tenho a certeza. 

Os espelhos, ai os espelhos! Perseguem-nos, protegem-nos também. Ali, em local inesperado, repara, mais parece um olho atento, num entroncamento de caminhos e perspectivas. Uma provocação, sabores a descobrir... 

M

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

182.


Foto de M 

Gosto de um barco à vela ao entardecer de um dia de verão. Não importa onde o barco navega nem onde o sol se põe. Um gosto meu. Podemos ter tantos! Aqui em cima da mesa encontro alguns. Ora vejam. Ainda no prato, o gosto adocicado das migalhas dos scones a lembrar conversa amena sobre as peculiaridades da cidade visitada. Tenciono embrulhá-las discretamente no guardanapo de papel e levá-las comigo quando sair da pastelaria. Mal ponha os pés fora da porta, sacudo-as num dos canteiros em redor das árvores que servem de poiso a passaritos de gosto requintado. Sei que esvoaçam por ali à procura de petiscos. E o chá a abrir-se em águas irlandesas ao canto da fotografia, também vais partilhá-lo com essas criaturinhas de asas delicadas?, perguntará a curiosidade de quem observa a imagem com atenção. Bom, não me parece que apreciem esta bebida, tenho-as visto a molhar o bico nas poças do passeio. Além do mais, cada um tem os seus hábitos.
E mais gostos haveria mas não quero cansar-vos. Ah! Não resisto a uma última confidência, antes de me ir embora daqui: Gosto de gostar. A culpa é da língua portuguesa, é muito emotiva.

M

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

181.


Foto de M 
(Claustro do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, em Coimbra)

 
Uma espécie de osteoporose no corpo da História. À semelhança dos nossos corpos de gente anquilosada descrente dos desempenhos de articulações e rendilhados ocultos dentro desta enorme complexidade que nos habita. Desconfortos. Parafusos e barras de titânio a segurarem-nos, a manterem-nos de pé, recompondo as nossas vidas, cicatrizes assinalando as nossas histórias muito particulares. Valem-nos os ortopedistas. E os arqueólogos. E os antropólogos. E os sociólogos. E os historiadores. E os cientistas. Todos eles ávidos de entendimento do universo, à procura do que nos explica e explica a vida nas suas semelhanças e diferenças ao longo dos séculos. E os artesãos. Sem pressas, o perfeccionismo guiando o ritmo de cada gesto, a imaginação em permanente viagem entre o real e o simbólico, entre o todo e o detalhe que as suas mãos são capazes de imprimir nas pedras de todos os tempos, talvez eles sejam... Sim, talvez eles sejam presenças especiais onde encontramos conforto perante a dolorosa consciência da fragilidade do mundo terreno. Porque, ao deixarem tantas vezes a sua marca de criatividade sublime na arte que fazem, exprimem o desejo de Beleza imensa sentido pelo ser humano e assim a imortalizam. Apesar das ruínas e por causa delas.

M

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

180.


Foto de M 
(Claustro do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova em Coimbra)

Estava ali há muito tempo, o recorte do abandono marcado na parede, no colo o silêncio em meditação. 

M

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

179.


Fotos de M 

Estava ali, junto do lagar de azeite da aldeia que conheço desde menina: uma espécie de tríptico num silêncio de abandono que me pareceu de há muito.
Reparei primeiro no casaco pendurado no prego, a parede branca, a porta vermelha fechada. Aproximei-me, como se precisasse de descobrir-lhe a alma dentro do forro. Ao lado, o chapéu de chuva prendeu-me a atenção. Desviei o olhar, emocionada. Porquê? Há quanto tempo naquele lugar de solidão? Só depois vi a garrafa. Quase encostada ao murete, metade cheia, metade vazia, a tampa calando-lhe a medida. Que líquido? Vinho? De quem? Para quem? Porquê este desamparo sem nome?
Não muito distante, a curva do caminho de terra batida. 
Terrível este mistério de presença que me tocou naquele dia de verão. Quem seria? Quem foi? Quem é ainda?

M

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

PRECE

Adaptação de foto de B. 

PRECE
 
Meu Deus, dai-me paciência! Tende piedade de mim, desventurada criatura que sou, injustamente forçada a aturar inteligentes complexados!
Meu Deus, se sois meu verdadeiro amigo, libertai-me daqueles outros que o dizem ser!
Protegei-me das palavras vãs dos néscios, Senhor! 
Desfaleço neste caminho de pedras que me atrapalham o passo.
Deus meu, tende misericórdia desta pobre cibernauta que anda com os pés na terra e o pensamento no céu! Mas, Senhor, se for de vossa vontade, que passe eu a estar ao contrário, com os pés no céu e o pensamento na terra! Talvez assim me seja dado um melhor entendimento das coisas, nem que seja pela posição em que o meu corpo passará a estar.
Tende compaixão de mim, Senhor!

M

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

178.


Foto de M 

Como num filme. O movimento da vida em repouso e o silêncio do olhar deixado sobre a mesa.
Longe, o murmúrio do arvoredo na leveza do vento e o canto dos pássaros abrindo a manhã.
Como num filme de encontros.

M