sexta-feira, 23 de maio de 2014

204.


Foto de M

Eu estava de passagem e assisti, por mero acaso, àquela cena de teatro ao ar livre e às orientações dadas pelo fotógrafo encenador aos atores principais. Estranha ideia a sua de os mandar pôr os braços atrás das costas e as mãos enfiadas nos bolsos, gestos que me pareceram inestéticos e soltos num momento que supostamente se desejaria fixado para a posteridade como de partilha de emoções perante a beleza. Ouvi-o e vi-o estender o véu da noiva sobre as pedras, observei a sua azáfama a compor o cenário dentro daquele outro cenário bem mais interessante que é a velha Gordes equilibrada entre a terra e o céu. Continuei o meu caminho, eles ficaram. Não sei por quanto tempo. Só espero que, no seu zelo coreográfico, o fotógrafo não os tenha forçado a fecharem os olhos. Na beirinha havia um precipício... 

M

203.


Foto de M 

Será talvez assim parte da palidez da existência: uma correnteza de histórias anónimas morrendo à beira dos passos de quem caminha ainda de mão dada com a vida.

M

quinta-feira, 20 de março de 2014

202.


Foto de M

Desalento. Claustrofobia. Confusa a geometria do espaço, perturbante a composição dos azulejos repetida até à exaustão no chão e na parede, pouco significativa a posição dos quadrados para marcar a diferença, apenas uma ligeira rotação dissimulando a semelhança. O ambiente é fechado, restritivo. Onde encontrar a linha do trilho? Onde pousar os passos? Onde apoiar a vida? Que fazer com a ilusão? Como destruir a aresta do tédio? Onde soltar a frustração? Debruçam-se corpos anónimos sobre mesas frias, hirtos, lívidos, juntos na solidão silenciosa de cada um. Em que lugar aquecer o olhar se o céu parece enclausurado dentro de um triângulo? Em que Universo te escondes, ó sol? 

M

quarta-feira, 12 de março de 2014

201.


Foto de M


Um pouco insólita me pareceu a presença daquela rapariga à janela. Imóvel, não sei se agastada se pensativa, aparentemente decepado o corpo pela cintura. O que não me admiraria, pois a guilhotina foi expediente de franceses de outros tempos para resolver problemas de poder e esta menina estava em terras de França. Sim, eu sei, neste caso não se terá passado exactamente da mesma maneira. Ao contrário do acto sanguinário de então, sobreviveram incólumes a cabeça e parte do tronco, sendo a persiana, plástica, suponho, um meio de amputação menos pesado. Mas o melhor é considerar hipóteses mais lúdicas, como por exemplo habilidades de mágico cortando o corpo da assistente de sorriso confiante, para logo depois o recompor perante a perplexidade dos espectadores. Enfim, os pormenores da concepção e execução da obra pouco me importam. O que realmente lamento é não ter conhecido o seu autor para lhe confessar o meu apreço pela genialidade da ideia e pelo simbolismo que nela encontro. Por vezes, separar a cabeça da estrutura de que faz parte permite uma certa libertação do pensamento.

M

domingo, 9 de março de 2014

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

200.


Foto de M

O corpo e os gestos imaginados de alguém nos objectos em repouso. Um outro corpo também, o das palavras. O pensamento desenhado em consoantes e vogais, ora curvas ora alongadas, abertas umas, contidas outras na expressão criativa da linguagem humana. Associações de ideias. Talvez porque a bengala me lembra uma letra que começou a ser escrita na folha pautada de um diário por fechar. 

M

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

199.


Foto de M

Lugar de partidas e chegadas, de encontros, de desencontros, de fantasias, de desacertos, de risos e sorrisos, de lágrimas, de mentiras, de segredos, de verdades, de diálogos, de silêncios, de solidão, de partilha, de espera, de pressas, de atropelos, de amabilidade, de cansaços, de rotinas, de aventuras, de descobertas, de observação, de reflexão, de leituras, de mistério. Assim as cores da vida. Assim as tonalidades da existência humana.
M

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

198.


Foto de M

Fotografei este recanto apenas porque o achei singular. Só agora, ao repescar a imagem para a publicar aqui, me saltou ao pensamento um versículo do Evangelho de São Mateus: «Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que fez a direita, a fim de que a tua esmola permaneça em segredo; e teu Pai, que vê o oculto, premiar-te-á. (…)». Associações de ideias que amiúde me provocam, embora neste caso o conselho não possa ser seguido à risca. Tratando-se do corrimão de uma escada estreita que dá acesso à porta de entrada de uma casa, aquela mão esquerda que o sustém saberá, na maior parte das vezes, o que faz a direita. Não a sua porque não a tem, mas a de alguém que nele se apoie para subir os degraus com mais ligeireza. Além disso, estando ela presa à parede e sendo muda, terá menor capacidade de acção. Para quem desce, a situação será diferente. Em conformidade com a habitual constituição dos braços, a tal mão direita manterá a posição dextra no corpo a que pertence, não sendo visível do lado oposto. Encontrar-se-ão então apenas as duas esquerdas, ocasião propícia ao cumprimento mútuo, suponho, seja ele contido ou mais efusivo. Aliás, «Para baixo todos os santos ajudam», lá diz o ditado. 
M

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

197.


Foto de M

Pronto. A palavra surgiu-me de repente sem eu saber exatamente o que fazer com ela, preparava eu a agenda de desafios do Palavra Puxa Palavra para janeiro do novo ano. Deixei-a sozinha, abrigada num dos cantos do pensamento, convencida de que tinha o problema resolvido se conseguisse formar uma frase onde se sentisse bem. O pior é que as palavras brincam às escondidas e amiúde desaparecem entre fissuras diversas sem que sejamos capazes de as agarrar a tempo de lhes apresentar companhia adequada. Pronto. Pronto o quê? O fim do início de uma ideia por desenvolver? Posta de parte sem se revelar? A pergunta pressupunha desistência, o que me desagradava. Talvez «Pronto a comer», embora título demasiado conciso e comercial para tamanha doçura de um Monte Dourado. Lindo o nome, o sol escorrendo sobre alvos castelos. A lembrar-me a minha Tia Chanel e a sua sobremesa habitual nos dias de festa em casa dos meus Pais. Cozinho-a eu agora, assim presentes ambas no sabor dos ingredientes que as recordações podem conter. 

M

sábado, 28 de dezembro de 2013

2014 NO HORIZONTE


Foto de M 

A caminho de um novo ano. Que 2014 nos aconchegue.
M

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

NATAL DE 2013


Foto de M

Com os meus desejos de que sejamos capazes de encontrar alguma paz interior, apesar do mundo conturbado que nos rodeia.
M

domingo, 24 de novembro de 2013

A mansidão da memória


Barcos em repouso 
(Foto de S.) 
   
Um Pedaço de Mar
   
É manso este teu gesto prateado de me tocar os pés descalços.
M
26 out 2005

Memórias do pensamento


Solidão 
(Foto de S.)
 

Alguém
 
Costumava acompanhar-se a si mesmo na vastidão da praia, os bolsos das calças repletos de conchas e búzios, pequenos presentes que o mar lançava nas suas mãos.
M
24 out 2005

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Silhuetas de memórias


Silhuetas de amigos 
(Foto de S.) 

Podia ser o título de um filme

Silhuetas de amigos. Podia ser o título de um filme a preto e branco. Mudo, com gestos apenas, daqueles em que se adivinham os afectos por detrás das fisionomias, desenrolados no mutismo da bobina, o argumento saltando para o ecrã do nosso silêncio. O silêncio do entendimento das imagens sem voz audível dentro de nós, o prazer da conjectura sobre o que não é claramente revelado.
Julgo que o ritual da pesca é também calado e pensativo, cada gesto lento, avaliado antes de a linha ser lançada longe. Um diálogo de palavras guardadas entre o pescador e a cana de pesca, expectativas atiradas sobre a água que corre mansa, desejos que flutuam, que mergulham, que desafiam. A tentação espetada no anzol, e o peixe lá em baixo, um pequeno isco atravessando-se na sua estrada azulada, obrigando a um desvio de caminho, a uma paragem. Um salto, um paladar a experimentar, um sabor a que se não resiste, um puxão na linha, um sinal rapidamente enrolado no carreto. Uma desilusão agarrada ao anzol? Que importa? Existem mais engodos miúdos dentro da cesta à espera dos dedos hábeis do pescador.

Acção! De novo o ritual da cilada, luz e sombra, contrastes na paisagem. Há que respeitar o fim do filme: um peixe preso num voo contrafeito, dançando o seu último bailado prateado a solo, pingando azul sobre o sorriso do pescador, debatendo-se a seus pés com a vida. Desistindo dela, impotente perante a degustação adiada de um homem paciente.
M
30 de Outubro de 2005

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Memórias


O homem que não gostava de romãs
(Foto de S.)

Numa Tarde de Outono

Convidou-o a sentar-se consigo à mesa, mas ele recusou-se a fazer-lhe companhia, respondeu-lhe que não gostava de romãs. Como se gostar ou não de romãs tivesse alguma importância numa tarde em que ela lhe queria falar dos seus medos de criança! Um pavor que ficara para sempre colado à lembrança do bramido do mar, o seu corpo de menina batido pela fúria líquida, o medo escorrendo em remoinho pelos cabelos, apossando-se dela, engasgando-a. De quase nada lhe valera a corda grossa presa entre o areal e a bóia que flutuava nas águas assanhadas. Mergulhara e subira à superfície repetidas vezes, as mãos e os braços doendo de força ao longo da corda, cada centímetro arrastado esfolando-lhe os dedos gelados e apoderando-se pouco a pouco da distância que a separava da areia. Acabara por cair extenuada em cima de um tapete de algas escorregadias, como se fosse, também ela, uma alga lançada pelo ronco medonho de uma onda sobre o areal. 
Nesta tarde de Outono ela está só, encostada a uma mesa coberta com uma toalha delicada de pedra que abana ligeiramente com a brisa. Ao longe, na vastidão da praia, o mar e o homem que não gostava de romãs.
M
27 de Outubro de 2005

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

196.


Foto de M

Não feches a porta, disse ela, debruçando-se sobre o parapeito da janela do primeiro andar. 
A amiga tinha acabado de descer as escadas que gemiam sob o peso dos seus passos e chegara naquele momento ao pátio onde as crianças da vizinhança brincavam. Acenaram uma à outra em jeito de despedida.
Não feches a porta, recomendou de novo. Deixa-a encostada. O sol e o vento gostam de se refugiar ali quando brincam às escondidas com os meninos. Lembras-te como era divertido? 
Leonor lembrava-se. Nesse tempo a porta estava pintada de verde vivo e as dobradiças não chiavam. Nem as minhas... respondeu, o sorriso gaiato a abrir caminho entre as rugas do rosto. 

M

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

195.


Foto de M

Quando olhei para cima e vi aquela imagem no vidro da janela pensei como seria quem ali morava. Estaria com a telha? Teria telhas? Dar-lhe-ia na telha sair porta fora por já não suportar tamanha invasão de casa alheia?
Não faço ideia mas eventualmente terão acabado por se entender pois que todos temos telhados de vidro. Ou melhor, neste caso será mais apropriado dizer-se telhado no vidro, o que tornaria a convivência mais frágil, a exigir cuidados redobrados.

M

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

194.


Foto de M 

Entre a terra e o céu, uma história verdadeira.

A menina estava na praia, entretida a brincar.
As gaivotas passavam em bando, não se sabe para onde. Ela olhou para cima e disse:
- O Avô António é uma gaivota.
- Quem te disse isso? Achas que ele está a ver-te, é? - perguntei.
Não respondeu, continuou a brincar com os baldes e a areia.
- Não sabemos onde está – acrescentei.
- Ele está sempre no sítio onde pensamos nele. Acontece assim com as pessoas de quem gostamos muito e que já morreram – disse o Pai.
Então a menina declarou com firmeza:
- Eu quero que o Avô António seja uma gaivota.
M

sábado, 24 de agosto de 2013

193.


Foto de M 

Adoro escargots. Grandes, as casas às costas ajustadas em pocinhas redondinhas escavadas no prato, imóveis em molho saboroso. Hélas!  Les pauvres! Gosto deles, sim, mas não posso pensar no que estou a comer nem olhar muito para eles. Apenas de soslaio. Coisas do paladar. E de imagens incómodas. 
Mas também gosto de os ver em marcha lenta de alpinista por montes corticeiros, caracóis de seu nome, talvez um pouco mais franzinos estes, claro. Singularidades de família. E um outro sentido estético, o deles e o meu. Mais a condizer com a Natureza.  
Ambivalências da minha natureza.
M

terça-feira, 30 de julho de 2013

192.


Foto de M 
   
O rosto da mulher era muito belo e delicado, a lembrar as Madonnas pintadas por Botticelli. Inerte, o olhar calado fixo no chão, segurava numa das mãos um copo de plástico com duas ou três moedas escuras perdidas no fundo, o braço estendido como se não lhe pertencesse. A menina, quase imóvel ainda que desperta, procurando apenas de vez em quando posição mais confortável, mais parecia fazer parte daquele corpo colado ao passeio de distante praça cosmopolita.
Perguntei-me como era possível que uma criança tão pequena – teria cerca de três anos? - se mantivesse assim quieta durante os trinta minutos em que a observei do alto do assento da camioneta em que eu viajava, estacionada por breves momentos à espera de outros passageiros.
Talvez o colo. Sim, talvez fosse o aconchego do colo que a faria esquecer o desassossego da infância. Apesar do que certamente lhe faltaria. E por causa disso.
M

quinta-feira, 23 de maio de 2013

PROVÉRBIOS FOTOGRAFADOS - 21


Foto de M 

«Coisas vistas à noite, de manhã outras parecem» 

Rifoneiro Português por Pedro Chaves (2ª edição), Editorial Domingos Barreira

quinta-feira, 9 de maio de 2013

191.


Foto de M

Há momentos em que me basta a simplicidade de um corrimão para que eu sinta a presença de um lugar. 
M

sexta-feira, 3 de maio de 2013

190.


Foto de M 

É bom quando o sol se senta nos bancos dos jardins e nos pega ao colo para nos contar histórias de estrelas e planetas.
M

sábado, 9 de março de 2013

189.


Foto de M

Uma espécie de casa ambulante é o que me lembram os dois Elevadores da Glória. Ora para cima ora para baixo, assim se cruzam entre carris e cabos aéreos, não vão eles querer libertar-se da rotina dos trilhos diários e passear em liberdade por outros bairros de Lisboa. Mas boas razões tenho eu em encontrar-lhes feições de residência. O espaço rectangular das carruagens com bancos corridos de costas para as janelas onde nos sentamos podia perfeitamente ser uma sala de estar de nossas casas. Ali nos olhamos uns aos outros pensando quem seremos e, fosse o tempo do trajecto mais longo, chegariam certamente à fala conversas íntimas nas mais diversas línguas a propósito dos percursos sugeridos em mapas e roteiros de viagens abertos nas mãos dos passageiros. 
Mas não só de viagens turísticas de máquina a tiracolo se vive, há quem viaje sem sair do seu lugar de trabalho aproveitando de forma aprazível os dez minutos de intervalo entre cada chegada e partida estabelecidos no horário da Carris. Pois é verdade, empoleirado no banco da cabine, além do Bom dia espontâneo e sorridente oferecido a cada pessoa que entrava ou lhe pedia informações sobre o preço dos bilhetes, o jovem guarda-freio lia as últimas páginas do livro Mataram o Sidónio, de Francisco Moita Flores.
Ao regressar dos meus afazeres no Bairro Alto encontrei o mesmo elevador à espera, e o mesmo homem embrulhado no sobretudo azul escuro da farda, protegendo-se assim do frio que atravessava grades e corpos. Não resisti a meter conversa com ele, tal a curiosidade e espanto que em mim provocara algumas horas antes. Da breve conversa, até porque dez minutos voam nas nossas vidas paradas, apenas vos deixo o que considero mais importante: Já o acabei. Amanhã trago outro livro. Gosto muito de ler. Ajuda a passar o tempo.  
Saberá este homem que até finais do século 19, durante as viagens nocturnas, a iluminação dentro da cabine era feita com velas? Presumo que, tivesse ele vivido nessa época, isso não o incomodaria, apenas seriam outros os livros. Talvez Os Mistérios de Lisboa de Camilo Castelo Branco...
M

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Talvez não completamente desadequado ao momento presente


Linhas cruzadas 
(Foto de S.)

A Turista

Não, esta não é uma história de fadas. Como aquela da princesa que ficou tolhida no encanto de um sono por tempo indeterminado, até ao aparecimento do príncipe encantado que a despertou com um beijo. Doce, presumo. E como falo de imaginários deslumbramentos, lembro ainda as caixas russas em forma de mulheres de sorriso colorido presas umas dentro das outras, ainda que aparentemente sob a forma de uma só figura. Há quem as liberte, por curiosidade, claro, mas mesmo assim sujeitam-nas ao alinhamento a que a sua própria escala de estatura as obriga no espaço a que habitualmente estão confinadas. Não sei se por conveniência de espaço, se pela ideia generosa de possibilitar a alguns o encantamento de desdobrar encantos dentro dos encantos. Um pouco ao invés da tal princesa que não teve de desdobrar nada dentro da vida, pois dormiu e acordou no mesmo espaço ad aeternum. Pelo menos é o que me sugerem os contadores de contos de fadas.
A minha história é outra, é a de uma mulher que se dizia tolhida pelo desencanto. Encontrei-a há pouco no cais da estação de comboios, sentada num banco. Tinha a cabeça um pouco descaída sobre o peito, como se não pudesse segurar-lhe o peso, e os braços pareceram-me entrelaçados um no outro, atrás das costas. Invisivelmente atados, pois não vi corda alguma.
Estranhei vê-la ali. Costumava cruzar-me com ela pelas ruas do mundo, de mochila às costas, e até conversámos várias vezes, quando a ocasião se proporcionou. Intrigava-me, quando a conheci. Dava-me a ideia de uma turista de passagem por Lisboa mas, ao mesmo tempo, o sorriso divertido ou as respostas prontas deixadas em aberto levaram-me a crer que conhecia a minha linguagem perfeitamente e que seria residente neste país.
– Que faz aqui sentada? – perguntei, aproximando-me devagarinho.
– Como? – Ela entreabriu um pouco os olhos. – Quem é você?
– Não se lembra de mim? O meu nome é I…
– Imbecil, suponho… – interrompeu-me, agastada.
– Podia ser… – respondi-lhe, com um sorriso nos lábios. – Até podia chamar-me Imbecil, mas por acaso não acertou.
– Não acertei? Não acha a sua pergunta absurda? – E olhava para mim com um misto de irritação e de desafio. – Não vê que estou tolhida pelo desencanto?
– Confesso que me pareceu apenas cansada. Uma turista cansada… Costumávamos encontrar-nos por aí… Lembro-me de a ver de nariz no ar, sempre à procura… nem sei bem de quê. A sua mochila, aí no chão… Um dia falou-me do que guardava dentro dela…
– A minha mochila? Ah! Que importa? – Pela maneira de me olhar, pareceu-me que se recordava.
Um dia, sentadas num banco da avenida a refrescarmo-nos da caminhada, comemos juntas uma sanduíche e ela falou-me do que escondia dentro da mochila. Lembro-me que lhe achei graça. Alternava a trincadela no pão com fiambre com o que me ia mostrando: “Isto é alento, olhe aqui o ânimo, o encanto, a ilusão, o entusiasmo, este é o silêncio. Também faz falta, não acha? Preciso disto tudo, sabe. Umas vezes esvazio a mochila, porque gasto tudo, outras vezes são sobras que ficam de reserva. Depende daquilo em que tropeço, dos caminhos por onde vou, alguns cansam-me mais do que outros.”
– A sua mochila… Lembra-se? – Baixei-me ligeiramente para lhe pegar.
– Já não contém nada do que lhe mostrei um dia. Conhece o vírus das três letras? O “des”…
– O “des”? Perfeitamente. – Sorri. – Julgo que os meus dedos nem chegam para enumerar as várias doenças provocadas por ele. Despeito, desproporção, desqualificação, desrespeito, desamor, despromoção, desvalorização, desconsideração, desavergonhado… Bem, nesta última apareceu uma outra estirpe de vírus, o “a”… Não há antibiótico eficaz para ele… Por enquanto, claro. Valem-nos os avanços da medicina actual para debelar esta proliferação de enfermidades…
– Esse vírus é activo, estimula doenças em cadeia que se vão espalhando, é quase uma epidemia. O meu é de outra espécie, é restrito no seu ataque – respondeu-me rapidamente.
– Restrito?! – perguntei, admirada.
– Sim, fiquei tolhida. O vírus que atacou a minha mochila deixou-me desalento, desânimo, desencanto… Tirou-me a energia. Acha que há alguma coisa pior do que isso?
– Mas não a privou de tudo, pois não? O silêncio…?
– Ah, o silêncio está sempre calado, por isso ninguém deu por ele. Continua comigo, intacto. – Vislumbrei-lhe um olhar temporariamente divertido e provocador.
– Vá lá, nos tempos que correm traz algumas vantagens…
– Nada se aguenta eternamente sem mudança, pois não? Às vezes o silêncio também se cansa e adoece com falta de palavras ouvidas bem alto, noutros tons diferentes dos meus. Precisamos de treinar a voz, senão perdemos a capacidade de cantar.
– Um antibiótico de largo espectro será portanto o mais indicado… – Pisquei-lhe o olho.
– Afinal não é imbecil… – disse, provocando-me. – Gosto da sua companhia. Quase que apostava que sei como se chama…
– Pois sabe. Já nos conhecemos há muito tempo. Mas olhe, vou seguir o meu caminho que…
– Mas eu estou tolhida pelo desencanto, não vê? – Interrompeu-me. Pareceu-me preocupada por eu a deixar.
– Eu estou sempre consigo, só que às vezes esquece-se de mim. Vou prender-lhe entre os dentes a ponta desse fio que a tolhe.
– Entre os dentes?! – exclamou, admirada. – Dói.
– Não é uma corda, é apenas um fio. Quando conseguir rir um pouco, o fio é puxado pelo movimento do seu sorriso, o nó desfaz-se, e os seus braços ficarão livres, vai ver. A nossa vida é uma cadeia de gestos.


Ironia
M


(Publicado no meu antigo blog Fotoescrita em Fevereiro de 2005)