
Foto de S. (No fio da navalha)
A Tentação do Corte
Suponho
que haverá quem se recoste na cadeira do barbeiro e ali desdobre
vidas que serão de seguida refeitas de modo diferente pelo discurso
de outros, depois de estadia breve em ouvidos alheios. Correrão no
entanto alguns riscos, imagino, pois que a mão viril de quem agarra
a navalha poderá eventualmente segurar, também, a tentação de
cortar o mal pela raiz. Ou seja: a barba e a palavra. Dependerá da
barba e da palavra, claro. Sensibilidades à flor da pele, uma
embirração, uma inveja que se insinua, uma indignação que sobe ao
olhar de quem escuta (ossos do ofício), cansaço de mão ou de
ouvido, sabe-se lá que mais por adivinhar. Uma questão de fio: o da
navalha que se presume afiada, e o das palavras que se desenrolam
rápidas e aguçadas na ponta da língua do cliente, para que se não
perca o fio à meada. Enquanto os movimentos circulares do pincel e
do pensamento espalham espuma e tentação sobre a pele húmida onde
a navalha abre carreiros de intenções desconhecidas. Mas há que
ter contenção e salvaguardar a arte: que os sorrisos se colem então
no espelho defronte da cadeira, enquanto a mão, agora já sem a
navalha, absorve com toalha morna os restos de espuma.
O
senhor que se segue…
M
(2006)























