segunda-feira, 28 de junho de 2010

O Prazer de Viajar - 5







Fotos de M

Sete Cidades e o Caminho das Ruas. O dos seus habitantes como membros de uma comunidade que presumo activa, e o de cada um na sua singularidade. Também o meu caminho ali, porque diferente e ao mesmo tempo reconhecível nos passos que vou dando nas ruas da minha vida.
Pouco vi da intimidade da povoação, do que observei guardo apenas pinceladas de impressões, que os relógios são implacáveis com as horas marcadas por outros dentro dos nossos dias.
Chamou-me a atenção a álea imponente que acolhe a fé dos que se dirigem a pé para a igreja de São Nicolau. Contrasta com as veredas vizinhas onde flores e pássaros fazem ninho em pedras de ruínas abandonadas ao relento.
Nos quintais abrigados do vento cresciam hortas debruadas de hortênsias e um sol tímido acariciava a roupa pousada sobre a erva. Vais corar, ai vais, vais…, murmuraria a mulher que não encontrei e que adivinho divertida em segredos do coração.
Ao fundo do caminho de chão vermelho a lagoa, agora tão próxima, e aquele banco onde gostava de me sentar a sorver toda a serenidade das cores em redor.
M

sexta-feira, 25 de junho de 2010

O Prazer de Viajar - 4


Foto de M


há mãos assim, que de castas,
como as tuas,
prolongam o tempo que há dentro da cor,
e trazem o lume e o brilho da sombra
com que as horas desenham o despojo da luz.

Emanuel Jorge Botelho

21 Haiku com Asas, Urbano, e Cabras, (Segundo Livro, Urbano, de Emanuel Jorge Botelho – Urbano), Galeria 111
Poemas de Emanuel Jorge Botelho
Ilustrações de João Urbano Melo Resendes
Ambos naturais da ilha de São Miguel

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O Prazer de Viajar - 3


Foto de M

«Na minha frente entreabre-se um abismo que nos atira para fora da vida, para regiões inesperadas de sonho. A convulsão, a brutalidade e o fogo levantaram até ao céu grandes paredes vulcânicas, dispondo no fundo do caos alguns campinhos meigos e dois lagos, um inteiramente verde, outro inteiramente azul, separados por um fio de terra e quietos, adormecidos, cismáticos. As forças desencadeadas chegaram a este resultado: - Um pouco de azul, um pouco de verde, ternura e idílio…»

Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas – Notas e paisagens, Edição Artes e Letras, Açores, Setembro de 2009

O Prazer de Viajar - 2


Foto de M

«…O carácter da paisagem é delicado e oculto. Embora a gente veja o campanário e as casas minúsculas no fundo da enorme cratera, duvida, e chega a supor que a vara dum mágico fez parar o tempo, e aquilo se conserva encantado entre montes desmedidos e brutos que o guardam prisioneiro. O tempo passa, os homens passam; só ali tudo está suspenso, na atitude fixa no momento do prodígio. Na solidão mágica não se ouve cantar um pássaro, a água não bole, as flores não bolem. Tudo se mostra na amplidão da cratera aberta para o céu e num grande silêncio estarrecido…»

Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas – Notas e paisagens, Edição Artes e Letras, Açores, Setembro de 2009

O Prazer de Viajar - 1


Foto de M

Of course, SATA, I wouldn´t dare to walk outside this area…


Tenho bem a noção dos meus limites humanos, por isso nem o entusiasmo com que me instalei na barriga deste pássaro enorme ao encontro de cinco ilhas magníficas fundeadas no Atlântico me levaria à tentação de antecipar a aterragem.
Nunca foi desejo meu descer aos trambolhões entre azuis e algodão doce com a ideia de pôr os pés no chão antes da hora prevista, que tudo tem o seu tempo. Certo ou incerto, claro, todos nós o sabemos já de experiência feita, que essa particularidade é parte integrante da condição da vida. E com uma agravante, que pode ser também uma questão de fé: encontraria eu algum anjo de asas brancas disposto a amparar-me na descida e a pousar-me suavemente em solo firme? Supostamente firme, ou assim o desejamos, que a História por aquelas paragens bem tem provado o contrário.
É profundo o azul deste mar de baleias e golfinhos, láctea a espuma instável das ondas sobre as quais baloiçam barcos e cagarros ávidos de peixe. E a terra ali tão perto, em convivência espantosa de fertilidades e securas pardacentas de anos. Belíssima a presença das pedras negras na brancura das casas e nos muros que dividem campos de verde húmido. E as flores, tão harmoniosas em colorações várias, a debruar caminhos na vastidão do silêncio. Obedientes as vacas, o olhar ruminante e pensativo, pesando-lhes o leite na hora do passo lento para a ordenha. Discreto, quase tímido, o cântico dos pássaros à beira das lagoas abraçadas por árvores seculares que a bruma toca, diáfana e misteriosa.
Quem sabe não será toda esta exuberância que encontrei nos Açores uma espécie de presente oferecido, compensação generosa pelos acessos de mau génio, tantas vezes imprevisíveis, que levam as suas ilhas a cuspir o fogo e a lava que queimam a existência dos seus habitantes.
M

sábado, 5 de junho de 2010

111.


Foto de M

Talvez seja na desproporção do que sinto que me encontro. Na luz que atravessa as sombras do indizível, na dispersão da cor que é vínculo, no diálogo das formas embebendo o silêncio.
M

segunda-feira, 24 de maio de 2010

110.


Foto de M

É afectuoso, este rolo que sustém o silvo húmido do vento. Fez do parapeito da minha janela a sua casa, quase uma praia com flores em dunas macias sempre que o sol descansa nele, tórrido e enxuto. Ali permanece dia e noite, no silêncio de si mesmo, paciente, atento aos passos que dou e não dou, aos gestos ora indolentes ora vigorosos que me escapam dos braços, ao meu olhar por adivinhar absorvido nele. E o meu corpo nesse vaivém de tarefas que se insinuam no tempo e que com ele fogem, apenas uma ou outra pegada resistente ao anonimato desenhada no chão da memória.
M

domingo, 23 de maio de 2010

109.


Foto de M

Não faço ideia se foi gesto que me sobrou do entusiasmo com que ontem fotografei os bicharocos no Jardim Bordallo Pinheiro. O que sei é que hoje ao pequeno-almoço dei mais uma vez de caras com esta abelha atrevida que invariavelmente me provoca e zás, guardei-lhe o riso na máquina fotográfica. Para memória futura e resguardo meu, não venha a ser-me pedida explicação por algum eventual acto desesperado da minha parte, como seja, por exemplo, afogá-la de vez dentro do café com leite da manhã, que a paciência tem limites.
Há anos que se mantém ali com aquele riso abelhudo, a deitar-me a língua de fora sem razão aparente. A mim que tantas vezes me apetece deitar a língua de fora ao dia que nasce e não o faço por uma questão de educação! Ou se calhar até por consideração por ele. Deve ter fôlego de peixe! E forte resistência às ondas do micro-ondas, presumo. Esconde-se por minutos, sem um bzzz ou bater de asas, imaginem, e, depois de eu ter engolido o líquido morno, reaparece feliz, como se nada se tivesse passado. Apenas um pouco lambuzada, mas nem isso lhe perturba a boa disposição.
Bem sei que fazê-la submergir para sempre me traria amargos de boca. Deixaria de poder esvaziar a caneca (tem aquela medida certa que me satisfaz o paladar), hábito matinal que gosto de entremear com o pão torrado barrado de manteiga e mel. E o azedume do leite abandonado ali horas a fio, que nem o açúcar que lhe deito dentro o aliviaria de tamanho desconforto?
O melhor é manter-me à altura do desafio do insecto. Ou talvez a caneca um dia se faça em cacos, a abelha se liberte dos destroços e voe levando consigo a flor para um jardim do seu agrado.
M

(Projecto interessante no Jardim Bordallo Pinheiro, no Museu da Cidade, em Lisboa.)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

108. Insónia



Fotos de M

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

107.


Foto de M

Ternura. Assim a fotografei no Fotodicionário desta semana.
Palavra cheia que se oferece na voz, ou no silêncio do olhar que amacia a distância. Leveza de beijo pousado. Textura de cor tornada gesto. Empatia com a Vida.
M

domingo, 24 de janeiro de 2010

106.


Foto de M

Gostei de lhe chamar Flor de Música.
Estava de empréstimo em casa de um amigo meu que olha e toca os objectos com o coração. Contou ele que, ao entrar uma vez mais numa loja de antiguidades por onde passa a caminho de casa, o dono lhe mostrou esta peça de muitos anos e lhe falou na dificuldade em encontrar alguém capaz de a pôr a funcionar. Pelo que conheço do meu amigo, suponho que terá então retirado os óculos da cara com aquele seu gesto demorado de mãos cautelosas e examinado o “doente” com a minúcia de que sempre se serve na observação dos objectos. Imagino que assim terá acontecido, mas na verdade apenas sei o que repetiu da sua conversa com o antiquário. Estava convencido de que conseguiria resolver o problema daquele silêncio forçado… que poderia tentar restituir-lhe a voz de outros tempos… Mas o trabalho seria gratuito, isso era ponto assente. Pelo puro prazer de o fazer.
E também nós, que jantávamos nessa noite em casa do nosso amigo, tivemos o gosto de escutar o Arriverdeci Roma pela Voz do Dono… Ainda que com o som um pouco roufenho, mas isso que importa se oferecido por uma romântica Flor de Música?
M

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

105.


Foto de M

Que sabemos nós do futuro dos meninos?

Pouco. Ou até mesmo nada. Por causa do mistério da vida que nos escorrega entre os dedos. Esquiva, como se tivesse receio de se revelar por completo, mas deixando marcas, uma aqui, outra ali, e o nosso coração em sobressalto de adultos.
Talvez saibamos apenas que o caminho se fará com passos pequeninos, entre sombras e luz.
M


(Nota: Foi minha intenção que este texto/fotografia exprimissem um significado mais lato do que o aparente, por isso o publiquei exactamente no dia 1 de Janeiro, primeiro de um novo ano. Pela sua simbologia com as crianças. Também para nós, adultos, o futuro é difícil de prever e um ano novo é algo que se não revela por completo ao nascer. Depende de como o recebermos e formos capazes de o entender e aceitar na sua complexidade e mistério.)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Feliz Natal!


Foto de M

SER PÁSSARO EM TERRA


Tomé corria pela estrada abaixo pensando que gostava de ser um pássaro com asas muito grandes e fortes para poder voar para longe. Daqueles que jogavam às escondidas no meio dos pinhais e que de repente desapareciam com tanta velocidade que ele nunca mais os voltava a ver.
Enquanto corria lembrou-se que o avô costumava dizer-lhe “Ai pernas para que vos quero!” e que se ria muito, quando ele fugia da gata Galpinha depois de lhe puxar a cauda vezes sem conta. Não é que ele não gostasse da gata, claro que gostava, mas achava graça a arreliá- la! Só que agora, por mais que mexesse as pernas, parecia que elas não saíam do mesmo sítio. E, para tornar as coisas ainda piores, aquelas outras palavras do avô não o largavam, sempre a repisarem, a repisarem nos seus ouvidos: “Não me estejas a desinquietar!”.
Virou a cabeça para trás, mesmo sem parar de correr ― queria ter a certeza de que não vinha ninguém atrás de si ― e quase ia caindo quando uma das suas botas tropeçou na outra. Agarrou-se então com força ao raminho de um arbusto que pendia sobre a berma da estrada, tentando equilibrar-se, e dessa maneira evitar uma queda desastrosa. Até parecia o palhaço Trapalhão que às vezes via na televisão no Circo de Natal!
Recomposto do susto, chupou o sangue que lhe escorria da mão pois, sem ele saber como, tinha-se picado numa silva traiçoeira enrolada no ramo a que se agarrara. “Está quedo, rapaz! Não mexas aí, olha que te picas!”: lá estava outra vez a voz do avô Américo a sussurrar- lhe avisos ao ouvido.
De repente pareceu-lhe que o nevoeiro da manhã tinha voltado, pois os seus olhos estavam turvos e não o deixavam ver bem o caminho. Talvez alguma poeira caída da arvorezinha a que se segurara lhe tivesse entrado para os olhos. Esfregou neles a manga da camisola, procurando com esse gesto clarear a visão. Ficou surpreendido quando reparou que a lã da camisola estava húmida, mas depressa compreendeu a razão: as lágrimas contidas a custo pela raiva com que saíra de casa tinham transbordado! E tudo por causa da silva! Se não fosse ela não teria chorado! Tirou rapidamente o lenço de assoar do bolso das calças, enrolou-o com cuidado no dedo ensanguentado e, antes de recomeçar a sua corrida estrada abaixo, olhou uma vez mais para trás, para se certificar de que não era seguido.
Tomé estava agora sentado no meio de uma clareira, rodeado de troncos grossos de pinheiros e eucaliptos recém cortados que se adivinhava terem sido árvores enormes. Na sua correria desenfreada passara por ela como um foguete, mas acabara por dar meia volta e parar. Curioso como era, não resistira a inspeccionar o que da estrada lhe tinha parecido serem uns banquinhos muito engraçados, todos arrumados ao lado uns dos outros. Divertira-se então a saltitar de tronco em tronco ― e quase tinha pisado um pinheiro pequenino que espreitava do chão ― acabando por se estatelar em cima das aparas pontiagudas de um deles. Ui! Doía-lhe tanto...
Ao esfregar o rabiosque, para aliviar um pouco a dor provocada pelo trambolhão, reparou que as calças tinham um buraco de todo o tamanho, daqueles buracos enormes que fazem com que as mães se zanguem e ralhem muito. Ah, ia ter que encher a cara da mãe com beijinhos e mais beijinhos para ela não se arreliar! Mas depressa mudou de ideias: afinal não precisava de dar beijinhos nenhuns, porque quem estava zangado era ele. Pois, até já se tinha esquecido que largara porta fora muito aborrecido, mal se levantara da cama.
Deitou-se então no chão de barriga para o ar, com as mãos debaixo da cabeça, e pôs-se a ver as nuvens que corriam no céu. Era essa a sua posição preferida quando queria pensar. Se o pai ali estivesse de certeza que lhe fazia a vontade, mas ele andava sempre a caminho dos Alpes... Tinha tantas saudades dele!... Fungou um bocadinho, porque uma lágrima escorregava agora para o nariz, mesmo sem ele querer. Já não era a primeira vez que isso lhe sucedia e só gostava que alguém lhe explicasse como era possível que as lágrimas que ele guardava tão bem dentro dos olhos fugissem assim depressa para o nariz! Porquê aquela mania do pai ir cortar árvores para tão longe, se havia tantas ali pertinho?! Quando ele voltasse havia de o trazer a esta clareira para lhe mostrar que na terra deles também se encontravam árvores grandes para deitar abaixo.
Decidiu fechar os olhos por instantes: a luz do sol quase lhos furava e sentia a cabeça a andar à roda de tanto fixar as nuvens que corriam, corriam sem descanso. Quis depois voltar a abrir os olhos mas não foi capaz, porque as pálpebras pesavam tanto... Acabou por adormecer, embalado pelo assobio suave do vento no pinhal do outro lado da estrada.
Foi então que o Pinheirinho ― não mediria mais do que um metro de altura ― muito magrizela e fraco, com uns ramos fininhos, fininhos, resolveu meter conversa com Tomé.
― Estou intrigado contigo, rapaz. Que andas por aqui a fazer sozinho a esta hora da manhã?
― Ora, apeteceu-me passear!
― Hum! Aqui há gato!
― Não há gato nenhum! A minha gata ficou lá em casa, ninguém veio comigo ― respondeu ele com voz de poucos amigos.
― Está bem, não te zangues... não te zangues... mas eu desconfio que estás hoje muito arreliado...
― Pois estou, claro que estou.
― Ah! Bem me parecia...
― Pois, porque eu ontem vi na televisão umas árvores de Natal que se vendem nas lojas, muito grandes, todas enfeitadas, e a minha mãe não quer ir comprar uma para nós. Não são verdadeiras, sabes? Mas são tão lindas! Também... não lhe custava nada, nem era preciso ir de propósito à loja. Quando fossemos com a minha avó ao médico a Coimbra, comprávamos... Não achas que eu tenho razão?
― Olha, não sei bem... Mas tu gostas assim tanto dessas árvores?
― Pois gosto.
― Ah! E se eu te ajudar a resolver esse problema?... ― perguntou o Pinheirinho.
― Como é que tu me podes ajudar a resolver esse problema? Tu não sais daqui... não andas...
― Ora essa! Parece que não acreditas em mim.
― Está bem, não te zangues comigo... ― respondeu Tomé um pouco atrapalhado.
― Eu tenho a impressão que tu gostas de árvores e flores... já te tenho visto passar por aqui com o teu avô... e até dizes: “Avô, cheira tão bem a eucalipto!”...
― Oh! ― O menino encolheu os ombros. ― E o que é que isso tem a ver?... Pois gosto. Mas estas árvores foram cortadas... e também nunca estiveram enfeitadas como as outras que eu vi na televisão. Não têm luzes a acender e a apagar, nem neve, nem bolinhas coloridas, nem estrelas...
― Lá isso é verdade... mas... então e eu não sou ninguém?!...
― Tu?! És ainda tão pequenina! ― Tomé ria-se agora com gosto.
― Também tu!... E se eu conseguir arranjar uns enfeites?... Não são iguais aos outros que tu viste, mas são muito bonitos... e eu acho que tu até gostavas mais dos meus.
― Mas como é que tu consegues isso?
― Consigo... Tenho os meus amigos, sabes? Só tens que fechar muito bem os olhos ― disse o Pinheirinho com ar misterioso.
― Mas eu já tenho os olhos fechados! Não vês que estou a dormir?
― Pois, mas tens que os fechar ainda mais. E só os abres quando eu disser.
Tomé tapou completamente os olhos com as duas mãos e ficou à espera, os ouvidos muito atentos aos ruídos à sua volta. Estava com tanta atenção que até lhe parecia ouvir falar baixinho e apetecia-lhe mesmo espreitar mas, como não tinha licença para abrir os olhos, fez muita força com as pálpebras e com as pestanas para os fechar ainda mais.
― Já podes olhar!
― Oh! Oh! ― exclamou o menino com espanto, logo que abriu os olhos.
Mesmo na sua frente estava o Pinheirinho todo enfeitado, nem parecia o Pinheirinho magrizela! Nos seus ramos brilhavam estrelas verdadeiras, prateadas, daquelas que ele via no céu em noites quentes de luar. Oh! E borboletas amarelas, azuis, pretas salpicadas de branco... mexendo as suas asas como se dançassem ao som de uma música invisível.
― Ó mãe, já viu esta árvore de Natal? Ih! Ih! Ih! Ai, não me faça cócegas! Ih! Ih! Ih! ― Tomé acordou nesse momento e, ainda meio sonolento, admirou-se por não ver a mãe a seu lado. Mas... porque é que continuava com cócegas se ela não estava ali a brincar com ele?
Espreguiçou-se... esfregou os olhos... e só então, depois de os ter muito abertos, reparou que tinha um carreirinho de formigas a passear no seu pescoço... Levantou-se com um salto, sacudiu-as e ficou a vê-las a dar cambalhotas no chão e a correrem de um lado para o outro até formarem um comboio muito apressado. A seguir voltou para casa.
M

Nota: Escrevi este pequeno conto em Dezembro de 2001 para acompanhar os cartões de Boas Festas feitos em casa com cartolinas de cores variadas que enviei para amigos meus de longa data. Inspirei-me na vida de um menino que conheço daquele lugar magnífico que a fotografia da paisagem mostra e que é especial para mim desde criança.
E como, ao mexer em papéis antigos, reencontrei esta memória, apeteceu-me partilhá-la convosco.
Porque o Natal pode ser terno e eterno.

sábado, 21 de novembro de 2009

104.


Foto de M

Que sabemos nós dos sonos dos meninos?

É este o título que escolho para mais um momento fotográfico na galeria de vivências que fazem parte do meu mundo. Quase indizível por palavras. A luz da serenidade. Mistério de dádiva e ternura despojada. Momento sublime, revelado na câmara escura do pensamento. Silêncio comovido do meu olhar pousado na presença.
M

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

103.


Foto de M

Chamou-me a atenção desde a primeira vez que o vi abrir a porta de casa e abeirar-se do varandim, à semelhança dos imperadores de tempos idos.
Não será de estranhar que tal pensamento me tenha surgido, dada a proximidade da Estrada Romana do Vau e das ruínas silenciosas que marcam presença na zona. Por isso mesmo não me custa admitir, e até me diverte, imaginar que a natureza imperial de antepassados nossos corra ainda como quadriga veloz no sangue de alguns dos seus habitantes.
Assomava ali todos os dias, camisa e calças imaculadas, as mãos apoiadas na cintura larga, os braços arqueados em gesto de afirmação, a cabeça rodando para um e outro lados, como se precisasse de acabar de secar o aftershave húmido no rosto escanhoado. Compreendo que se esmerasse para saudar as manhãs, claro que compreendo, mas não me agradou a habitual sofreguidão com que sorvia a brisa matutina. Parecia assumir-se como dono do mundo a esgotar o ar puro na primeira inspiração, deixando outros à míngua de tão desejado alimento purificador.
Pelo menos aparentemente, o pobre melro enfiado dentro daquela gaiola exígua suspensa entre quivis pertencia a este César do século XXI. Em desespero de causa, tentava voar levantando um pouco as belas asas negras, mas esbarrava na falta de espaço para subir alto, magoando o corpo de encontro às grades. Evidentemente que, nem pelo facto de a sua cela baloiçar como leve balão de festa popular, essa encenação surtia qualquer efeito positivo no seu anseio de liberdade.
Passei várias vezes por perto, a diversas horas, garantindo a distância razoável que me segurasse a indignação, e constatei que o desassossego do pássaro se mantinha ao longo do dia, aquietando-se apenas ao entardecer. Não sei se a recuperar forças para a luta diária que o esperava, sonhando entretanto com milheirais e relva verde nos jardins, se morrendo pouco a pouco de tristeza.
À noite já lá não estava, nem a gaiola vazia e a porta escancarada, pelo que suponho que nem nesse momento de estrelas e lua, se as houvesse, o infeliz podia sair para cantar os seus versos.
Era então que o presumível senhor do melro aproveitava a lassidão deixada pelo calor das tardes de Verão para mitigar a sede das plantas encaixadas no metro quadrado de área cimentada do seu canteiro, entre a parede da casa e o varandim. Vi-o várias vezes desenrolar vagarosamente a mangueira arrumada no suporte de ferro cravado na parede branca, a curta distância do alegrete. Abria então a torneira e arrastava pelo chão aquele peso de água enclausurada em reduzido diâmetro de borracha, oferecendo assim alguma frescura ao seu pedaço de terra sequiosa.
Espantou-me a desproporção. Se ele soubesse como é bom pegar num regador colorido e deixar que borrifos de água límpida acariciem as flores como beijos leves!...
M

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

102.


Foto de M

Fotografei-a assim, propositadamente escondendo-lhe o rosto, porque o que me cativou naquele momento foram a luz e o gesto branco, vagaroso, adivinhado na camisola posta em redor do pescoço. Como um abraço que se oferece, a serenidade pousada no silêncio da pele, personalidade pressentida no mistério que é ser-se presença casta na beleza de uma tarde de Verão.
Como uma vestal.
M

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

101.


Foto de M

Marca o tempo, o dele e o meu.
Foi-me oferecido há mais de vinte anos por alguém que adorava relógios e todos os instrumentos de medida. Atingiu portanto a maioridade, sem que, no entanto, alguma vez tenha mostrado intenção de se afastar de mim. Talvez porque lhe permito uma certa liberdade dentro da rotina diária que o leva a temperar o trabalho compassado a que a sua natureza o obriga com momentos de silêncio e descanso absoluto. De tal modo absoluto que, quando o aconchego no pulso, nem sempre desperta da letargia a que se habituou dentro da caixa em que se acomoda por períodos não definidos, proporcionando-me o prazer de lhe oferecer uma nova pilha para o reanimar. O que será possivelmente sentido por ele como Nasceu-me uma alma nova, frase tão vulgarmente usada por muitos de nós em situações que envolvem um final feliz para o desejo premente de quebrar hábitos e ritmos extenuantes ou insuportáveis.
Pois é verdade, fez este Setembro dois anos que o meu Swatch não saía do torpor um pouco mais demorado a que o constrangi, ainda que involuntariamente, apesar do entendimento que sempre houve entre nós os dois. Não assisti ao seu nascimento, claro, porque quem o concebeu viveria em país que não o meu, mas desde o primeiro momento em que nos conhecemos que me afeiçoei aos seus suaves azuis e verdes com uns laivos de pôr-do-sol laranja. Precisamente por essas suas características de tons harmoniosos que me encantam e me lembram rios e florestas, decidimos que ele viajaria no meu pulso apenas durante as férias possíveis, e para lugares em que ambos nos sentíssemos solidários com a Natureza.
Assim nos temos acompanhado ao longo dos anos sempre que nos afastamos do ninho habitual, e aparentemente descoordenados, cada um de acordo com o seu andamento. Ele mantendo os ponteiros activos, com a discrição que lhe é própria, eu abrandando o passo quando procuro fugir ao cansaço urbano e piso caminhos outros que o Tempo me oferece.
Sim, meu amigo de rosto redondo onde moram memórias de céus límpidos e águas tranquilas que dão de beber a girassóis e a verdes embalados pelo sopro morno do vento, este ano voltámos a encontrar-nos com os campos onde o silêncio nos fala ao ouvido e os dias duram o dobro.
Tínhamos ambos muitas saudades, não tínhamos?
M

sexta-feira, 17 de julho de 2009

100.


Foto de 1924 digitalizada por M

«Memory offers up its gifts only when jogged by something in the present. It isn’t a storehouse of fixed images and words, but a dynamic associative network in the brain that is never quiet and is subject to revision each time we retrieve an old picture or old words.»

The Sorrows of an American, Siri Hustvedt


Quando eu chegar aos cem anos…, costumava dizer, uma expressão provocatória no rosto, já por volta dos seus oitenta e tal anos. Ou ainda, visto que fazia projectos para o futuro, não sei se a brincar se porque o desejava mesmo ou se desafiava a inevitabilidade da morte. Morreu quase rente aos noventa e cinco, por causa de uma pneumonia que se aproveitou de uma perna partida provocada por uma queda.
Lembrei-me dela a propósito deste meu post número 100 e daquele excerto do livro de Siri Hustvedt ali em cima. Chamava-se Julieta e era minha tia. Ou tia Leta, para mim e para o meu irmão. Mais tarde, já depois da sua morte, por sugestão de uma amiga minha a quem contei do seu espírito criativo, passei a referir-me a ela como tia Chanel.
Conheci-lhe aquele gesto gracioso de mãos que ressalta na fotografia de 1924. Não eram esguias nem elegantes, as suas mãos, mas transformavam-se quando pegava na navette da renda de frioleira ou bordava os seus próprios desenhos nos linhos finos dos naperons, sentada na cadeira baixa, a cortina entalada de lado na dobradiça da janela do quarto para que a luz entrasse sem cerimónia. Durante algum tempo ocupou-se também a criar bonecas de pano para vender. Recortava moldes em tecido preto e, depois de os coser à máquina separadamente, enchia-os de algodão com a ajuda do bico da tesoura e unia-os dando-lhes forma de gente. Nasciam assim pequenas figuras com cerca de quinze centímetros de altura animadas de vida própria, cada boneca mostrando uma expressão distinta no rosto. Os olhos e o sorriso adivinhado nos lábios vermelhos bordados a ponto de pé de flor, o vestido colorido, uma imitação de astracã compondo-lhes o cabelo encaracolado, uma pulseira no braço, brincos, o colar de missangas a enfeitar-lhes o pescoço. Quando acabados todos os pormenores que lhes conferiam personalidade, colocava seis ou mais em cima da cama e olhava-as satisfeita. Garanto-vos que era delicioso vê-las em grupo, como se fossem meninas de verdade no recreio da escola.
Mas a tia Chanel não estava sempre naquele cantinho da sua fantasia, gostava muito de sair e fazia o seu passeio diário pelas ruas do bairro, trazendo sempre, de regresso a casa, uma história real para contar. Tão divertidas como a História do Menino Marmelada de um livro da sua infância que nos lia, a mim e ao meu irmão, os três encaixados na chaise longue de veludo verde do seu quarto. Não me lembro exactamente do livro, sei que tinha imagens coloridas e que a história me encantava.
Era com ela que subia e descia a pé a Tapada da Ajuda acompanhando as habilidades e os equilíbrios do meu irmão em cima da trotineta de estimação trazida da Alemanha pelos meus pais, à época uma novidade em Portugal, com pneus de borracha e rodas maiores do que as dos brinquedos nacionais. Quilómetros trilhados pela mão da nossa infância, entre caminhos de árvores e flores belíssimas onde o cansaço não ocupava lugar e eu me lembro de sentir a Natureza como parte de mim.
Ah e o Presépio que a tia Chanel preparava todos os Natais! Tenho que falar dele. Construía-o em cima da cómoda de um dos quartos interiores da nossa casa. Parece que estou a vê-la a amachucar ao de leve os pedaços de papel pardo pintado para lhes dar forma de montes que enfeitava com musgo verdadeiro e um ou outro pequeno espelho redondo de mala de senhora a lembrar lagos de águas límpidas. Lá no cimo, a cabana de madeira com telhado de palha, as figuras bíblicas principais no silêncio sereno da espera. Através desses caminhos inventados, os passos imaginados de pastores, carneirinhos, mulheres de cântaros à cabeça ou um cesto no braço, os três Reis Magos. E a nossa candura de meninos.

Recordo-te com saudade, Tia Leta.
M

quinta-feira, 28 de maio de 2009

99.


Foto de M

Consciência.
Encontrei-a assim em casa de amigos e gostei do que vi. Não, desta vez não meto a mão na consciência, ponho-a na máquina fotográfica, que a lente que ela tem oscila entre o detalhe e o todo conforme a perspectiva a reter. Isso agrada-me, sabem, deve ajudar a chegar ao tal sentimento de si mesmo de que falam os entendidos nestas matérias. E agora? Agora, ao espreitar através do visor, fiquei com a ideia, ou com a intuição, sei lá, de que não se tem um conhecimento imediato da própria actividade psíquica. O dicionário diz que sim, mas eu não acredito. Com tantos reflexos e texturas tão diversas de sombras e bordados Richelieu, mais as flores na fragilidade do vidro, e apesar delas, parece-me tarefa morosa a desenvolver em anos a fio. E estética, penso eu, embora o dicionário não atribua esse significado a Consciência no compartimento que lhe cabe na página. A não ser que seja ética o que lá está escrito. Não sei, nem fico com escrúpulo algum por a minha máquina fotográfica só me dar esta impressão da palavra. Talvez seja então aconselhável guardá-la no estojo, sentar-me à mesa sem pressas, e reflectir um pouco mais.

M

sexta-feira, 22 de maio de 2009

98.


Foto de M

Abandono, a palavra da semana a provocar-nos no Fotodicionário.
Foi com esta minha fotografia que a pensei. De dois modos. Um mais sombrio que tenta explicar o abandono como perda, algo que acontece quando a essência que habita e sustém o encanto de um lugar, de um objecto, de um momento, de um projecto, de um ser, se torna irreconhecível. Por razões várias, perceptíveis ou não, simples ou complexas, inexplicáveis ou até mesmo contraditórias algumas. Ou apenas porque o Tempo tem pressa de absorver o futuro e abre nele caminhos diferentes que se sobrepõem à dormência do esquecimento.
O outro meu modo de, através desta fotografia, exprimir a palavra Abandono será mais luminoso e tranquilo. Reconheço nela, também, o significado de renúncia assumida que por vezes se completa pela entrega a alguém ou a uma causa na fruição plena da escolha feita.
Tanto num caso como no outro, julgo que a presença da luz e da sombra traduz em parte o conceito de abandono.
M

quinta-feira, 30 de abril de 2009

97.


Foto de M

História, a palavra fotografada esta semana no Fotodicionário.
Assim a interpretei. Como uma espécie de berço que recebe o corpo e a alma do mundo e onde cada um de nós sonha a vida a partir de si e dos outros. Escrita por todos, com as nossas histórias muito particulares de gestos e afectos a ampararem-nos o prazer de crescer, ou os ódios das negligências a endurecerem-nos o coração, na complexidade que é viver. Lençóis de tonalidades a tecerem a espessura do Tempo imaginado eterno, realidade e fantasia imitando-se na ânsia de ser. Um brincar de mãos e pés pequeninos traçando o futuro de adultos que se desejam felizes na plenitude da sua existência. Ao gosto de cada um, no desenho do pensamento guardado, ou tornado acção pela palavra revelada, na música do inefável, na matéria transfigurada, no amor oferecido à Natureza. Nem todos, bem sabemos, a muitos será negado o direito à candura da alegria e a tristeza inundar-lhes-á os olhos baços de vazios. Outros terão apenas farrapos sombrios a agasalhar-lhes os corpos abandonados ao relento da indiferença. E outros, e outros… Tantas as histórias, tantas as marcas deixadas na brevidade dos caminhos trilhados! Só a História habita eternamente a vida e a morte do tempo que nos cabe.

M

sexta-feira, 10 de abril de 2009

96.


Foto de M

Estava eu na esplanada junto ao jardim em conversa amena à mesa de um almoço de açorda de camarão, eis senão quando foi a pacatez do lugar usurpada por voos de pombos atrevidos a rasar as nossas cabeças. Acorreram rápidos os empregados – até àquele momento estáticos no vazio da espera de novos comensais – que, com acenos amplos de braços e mãos, os convidaram a subir aos beirais dos telhados da vizinhança. Empreendimento avisado, claro, não fossem as aves deixar vestígios indesejados sobre a tarde que se queria generosa em matéria de condimentos e degustação. Confesso, no entanto, que este movimento de aterragem e levantamento próprios de um aeroporto a contas com os controladores de tráfego aéreo me perturbou um pouco, o que me levou a desviar a atenção dos esgares preocupados de quem tinha entre mãos voos de alto risco.
Foi então que, ao olhar para cima, tentando assim fugir ao alvoroço terreno a meu lado, vi o silêncio de passos desconhecidos delicadamente pendurados num estendal e de imediato os pensei à procura de sol nas sombras dos dias. O que não me admiraria, já que a janela aberta onde esvoaçava uma cortina ao jeito de bandeira da paz mostrava um buraco negro de proporções inumanas. A não ser que se tratasse da entrada para alguma central de pombos-correios treinados para a entrega de mensagens de índole universal... O que também não me pareceria estranho neste nosso mundo de malabarismos vários usados para tentar resolver o desacerto da linguagem humana. Enfim, agarremo-nos às asas da dúvida sistemática, pois o que importa é o voo do pensamento.

M

quinta-feira, 26 de março de 2009

95.

Foto de M

Porque a palavra desta semana no Fotodicionário foi Pobreza, fotografei-a deste modo, tentando exprimir através dela as minhas reflexões sobre a sua natureza.

Penso na pobreza como resultado do desacerto entre brilhos e planuras de sombras em caminhos estreitos onde só o nada é presença, seja ele individual, social, nacional, mundial, político, económico, espiritual, ético, cultural, estético. Por culpa própria ou alheia, por incapacidades ou desistências, por ignorância, por sonegação do direito à vida inteira, por limites impostos, por arbitrariedades que aviltam o ser humano, por tantas mais razões desconhecidas que ferem ou matam o sonho da existência. Mas também olho para a palavra atribuindo-lhe um outro sentido, a que chamarei despojamento, em escolha pessoal e íntima de renúncia a tudo o que possa ser obstáculo ao desejo de sentir a pureza suprema da vida. Contudo, julgo que só depois de alguém ter possuído os bens mínimos essenciais à sua sobrevivência física e mental com a dignidade que merece, terá disponibilidade interior para fazer essa escolha.
M

sexta-feira, 20 de março de 2009

94.


Foto de M

Ainda o Jean Jacques.
Encostado ao frio branco da parede, entretém-se a enroscar e a desenroscar o pensamento entre estruturas e parafusos a lembrar um esqueleto de corpo humano a que não falta também o esboço de um colo. Ri-se, o coelho, acha graça a imaginar colos em cavaletes de madeira enquanto o seu olhar passeia pelo atelier. E é no meio desta bricolage mental em que ocupa o tempo de espera que repara na mola de cabelo, agarrada com unhas e dentes a uma tábua-parapeito, em aparente desacerto entre a sua própria natureza e o lugar. Recorda-se de a ter visto na cabeça da amiga (presume que a agarrar-lhe também as ideias irrequietas). Agora o momento é outro, bem sabe, e é este que ela segura, ou nele se segura, talvez as duas coisas. Não acha estranho, está habituado a que a presença da pintora arraste consigo um torvelinho de gestos em permanente dança de engenho e estética. Mas Jean Jacques é paciente e aguarda o instante em que ela olhará para ele com ternura e lhe levantará uma das orelhas para lhe dizer um segredo.

M

sábado, 14 de março de 2009

93.


Foto de M

Quando o vi, Jean Jacques (o coelho) estava pacientemente sentado no tempo da pintora de palhaços desenhados na tela a embaraçar meteoritos caídos sobre a cidade dos desencantos. E num outro também, o da infância macia: a dele, e a da menina de riso aberto com quem costumava brincar. Ele conserva a estatura da meninice, e talvez também o pensamento, ela deixou de lhe encontrar o olhar na mesma linha do horizonte. Jean Jacques roçou o tamanho dos dias, estranhou-a nos sulcos das rugas e passou a viver dentro de recordações que abrem os silêncios do tempo em conversas de língua de trapos que ambos conhecem. Entre os dois cavaletes e não só.
M

sábado, 21 de fevereiro de 2009

92.


Foto de M

Quando a vi de longe reparei que brincava com o chapéu-de-chuva, aquele gesto vulgar que todos temos de rodar qualquer coisa na mão enquanto o pensamento voa distraído no tempo dos dias. Faria talvez a fantasia de que o sol tinha pousado ali, quase a tocar-lhe o ombro, e que era preciso ensaiar uma dança de domingo a dois. Não admira, o coreto do jardim está por perto, uns metros para cá do canteiro. Não, os músicos não estavam lá, mas isso que importa quando os ouvidos guardam dentro da memória a música de outros domingos?
M

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

91.


Foto de M

Está lá, no pátio de um colégio de meninos pousado à beira de uma rua de Lisboa. Reparei nela quando passeava a pé a palidez de um domingo de Fevereiro. É apenas uma árvore, eu sei, mas o meu olhar desenhou-lhe forma de gente e assim a guardou dentro da minha máquina fotográfica. Corpo enrugado de mulher no silêncio de si, regaço livre na sombra de gestos entrelaçados, berço, trampolim, palavra, ouvido, riso, consolo, afago, pensamento, memória.
Colinho, avó.

M

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

90.

Foto de M

Loneliness. Dei comigo a dizer a palavra baixinho enquanto discorria sobre o desvario do mundo colado aos ecrãs de televisão de nossas casas. Porquê em inglês? Talvez por causa dos momentos em que a língua materna nos magoa tanto ao falar do que nos entra na alma que preferimos ignorar a sua voz e usar uma outra que nos é mais estranha. Ou então, pelo contrário, de tão aturdidos pelo absurdo da violência que nos rodeia e nos faz sentir perdidos de nós e dos outros, procuramos palavras que nos unam no desamparo universal e nos apazigúem o medo da solidão interior. Não aguentamos sozinhos a mágoa do mundo nem a sensação de impotência perante a insanidade de governos e povos, sejam eles quais forem.
Loneliness, uma palavra de solidões.
M

domingo, 4 de janeiro de 2009

89.


Foto de M

Nesga. Palavra limitada, estreita? Não, poderá não o ser, pois que é também promessa de curiosidades e incógnitas, quiçá intrépida. O que mostra nem ela sabe, apenas contém o olhar de quem a atravessa, sejam breves ou longos os instantes de passagem. É apenas um pequeno espaço de silêncios para os muitos olhos que nela pousam pelos caminhos de ver. Pois, íris pigmentadas, com flores ou céus azuis dentro, borboletas, ou até pássaros, para quem lhes ouve o canto e lhes segue o voo. E a tal pupila a que chamam menina-do-olho, nome bonito, uma questão de infância e de perguntas balbuciadas, quem sabe. A preservar a candura e o riso entre as pálpebras. Indispensável. Por causa da memória, por causa de todos nós, por causa do mundo, por causa da paz. Por causa da própria nesga, que afinal parece ser tanta coisa.
M