segunda-feira, 12 de julho de 2010

O Prazer de Viajar - 21






Fotos de M e A

«Isto que de longe era roxo e diáfano, violeta e rubro, conforme a luz e o tempo, aparece agora, à medida que o barco se aproxima, negro e disforme, requeimado e negro, devorado por todo o fogo do Inferno. É um torresmo. Nunca labareda mais forte derreteu a pedra até cair em pingos e desfazer-se em cisco. É uma imagem a negro e cinzento que me mete medo. Há por aí buracos e furnas onde a lava formou colunatas e estalactites azuladas, grandes cachos pendentes, derretidos pelo calor e solidificados pelo resfriamento.»

Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas – Notas e paisagens, Edição Artes e Letras Açores, Setembro de 2009


(Cachorro, Ilha do Pico)

domingo, 11 de julho de 2010

O Prazer de Viajar - 20


Foto de A

tem os pés mais cansados
do mundo, dissera-lhe o homem
enquanto seguiam os três com
as hortênsias. a criança sentada

sobre o dorso olhava o burro e
a vida que se abria em cada curva
como uma fotografia a sépia
de que nunca se regressa. muito

mais tarde, na mesma estrada,
viu o homem sozinho, sem o burro
nem as flores, e reconheceu em si
o imenso cansaço do mundo.

Renata Correia Botelho



E Cabras (Primeiro Livro, Renata Correia Botelho – Urbano) in 21 Haiku com Asas, Urbano, e Cabras, Galeria 111


(Parque Natural Ribeira dos Caldeirões, Ilha de São Miguel)

sábado, 10 de julho de 2010

O Prazer de Viajar - 19






Fotos de A

«Há aqui gigantes diante dos quais a gente hesita e que nos arrastam para o desconhecido.
Ponho-me em comunicação com eles e não os entendo. Evidentemente eu não tenho medo duma árvore quando me habituo à sua companhia. Nem tenho medo de todas as árvores. Mas quando me são desconhecidas, quando tomam estas proporções, quando formam florestas enredadas, quando à noite se põem a murmurar umas com as outras – a minha vontade é fugir.»

Raul Brandão in As Ilhas Desconhecidas – Notas e paisagens, Edição Artes e Letras Açores, Setembro de 2009


(Ilha de São Miguel)

O Prazer de Viajar - 18


Foto de M

Dos ângulos e cores onde o meu olhar se reclina em sossego.
M


(Estufa de ananases A. Arruda na Fajã de Baixo, Ilha de São Miguel)

O Prazer de Viajar - 17

















Fotos de M

Às vezes apetece desmembrar as imagens. Para melhor apreciarmos a elegância dos traços marcados na pedra. Linda a expressão do rosto, transparente o olhar pensativo, tranquilos os gestos nos silêncios do passado.
M

(Estufa de ananases A. Arruda na Fajã de Baixo, Ilha de São Miguel)

O Prazer de Viajar - 16





Fotos de M

Da serenidade dos caminhos que me traz à lembrança o meu amado pintor chinês Ho Huai-Shuo.
Que disparate!, pensarão alguns. Bem te entendo, dirão outros.
O que é certo é que, apesar das diferenças entre estas duas realidades, me lembrei do pintor desde a primeira vez que olhei para a minha fotografia. Procurei o quadro com o qual tinha feito a associação de ideias, voltei a observar a fotografia. Olhei, olhei, olhei, quase a medo… Estarei louca?, pensei. Não sei se estou, o que sei é que me conforta ligar Ho Huai-Shuo à paisagem interior que compõe o meu pensamento.

M

(Parque Natural Ribeira dos Caldeirões, Ilha de São Miguel
e
Alley in the Rain, in Inner Realms of Ho Huai- Shuo, published in 1982 by Hibiya Co. Ltd.)

(Parque Natural Ribeira dos Caldeirões, Ilha de São Miguel)



O Prazer de Viajar - 15



Fotos de M

Também as árvores morrem e me deixam um silêncio triste.
M


(Ilha de São Miguel)

quarta-feira, 7 de julho de 2010

O Prazer de Viajar - 14


Foto de M
(Poemas de Emanuel Jorge Botelho e ilustrações de Urbano, Terceiro Livro 21 Haiku Com Asas, in 21 Haiku Com Asas, Urbano, e Cabras, Galeria 111)



cada árvore é a mãe
do primeiro voo



uma pena quieta dentro do vento,
uma rosa do céu



a aurora dentro de uma asa,
a manhã descendo pelo vento


Emanuel Jorge Botelho


21 Haiku Com Asas (Terceiro Livro, Emanuel Jorge Botelho – Urbano), in 21 Haiku Com Asas, Urbano, e Cabras, Galeria 111

terça-feira, 6 de julho de 2010

O Prazer de Viajar - 13


Foto de M

Nem sempre convirá usar os parentescos como cartão de visita para preenchimento de lugares. Digo eu. Claro que dependerá das situações e dos lugares, não precisarão de mo lembrar, mas neste parque tão naturalmente belo… Sim, o tal Homo sapiens, eu sei, mais o engenho e o cérebro desenvolvido mas… é que nem a trepadeira lhe disfarça as feições e o pêlo e eu gosto de coisas bonitas.
Não percebes nada de iniciativas, dir-me-ão, as crianças acham-lhe graça.
Ah! Pois… Se calhar não entendo nada de antepassados.
M


(Parque Terra Nostra, Ilha de São Miguel)

segunda-feira, 5 de julho de 2010

O Prazer de Viajar - 12




Fotos de M

No movimento de distanciamento e proximidade do olhar sobre as coisas, o meu encontro com a singeleza das flores.
M

domingo, 4 de julho de 2010

O Prazer de Viajar - 11


Foto de M

às vezes a cor sai da moldura
e fala de ti como se fosse lábio;

é quando, sobre a água,
os peixes têm pétalas.


tudo coisas simples, afinal,
como o sal, calado,
de uma lágrima.

Emanuel Jorge Botelho


Urbano (Segundo Livro, Emanuel Jorge Botelho – Urbano), in 21 Haiku com Asas, Urbano, e Cabras, Galeria 111


(Parque Terra Nostra, Ilha de São Miguel)

sábado, 3 de julho de 2010

O Prazer de Viajar - 10


Foto de M

Do entendimento subtil entre naturezas, as pegadas deixadas pelas folhas nos caminhos dos homens.
M

(Parque Terra Nostra, Ilha de São Miguel)

O Prazer de Viajar - 9






Fotos de M

O abraço de um espantoso silêncio húmido.
M

(Caldeira Velha, Ilha de São Miguel)

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O Prazer de Viajar - 8


Foto de M

Através das estórias deste livro conheci um pouco mais daquilo a que chamo “intimidade” de um lugar e de uma sociedade. Uma escrita e desenhos reveladores de grande sensibilidade, observação, sabedoria, compreensão e sentido de humor do autor.
O prazer de viajar. Sem dúvida.
M

O Prazer de Viajar - 7


Foto de M

Rabo de Peixe, a maior vila piscatória dos Açores, também a mais desfavorecida, assim me foi dito e assim a senti no contacto directo com o lugar.
M

quarta-feira, 30 de junho de 2010

O Prazer de Viajar - 6


Foto de M

Talvez as asas do vento ou algum pássaro generoso se tenham apiedado da semente perdida nas ruas da cidade e a tenham pousado ali. Para que crescesse longe do olhar ausente dos homens de passos pesados.
M


(Igreja Matriz de Ponta Delgada)

segunda-feira, 28 de junho de 2010

O Prazer de Viajar - 5







Fotos de M

Sete Cidades e o Caminho das Ruas. O dos seus habitantes como membros de uma comunidade que presumo activa, e o de cada um na sua singularidade. Também o meu caminho ali, porque diferente e ao mesmo tempo reconhecível nos passos que vou dando nas ruas da minha vida.
Pouco vi da intimidade da povoação, do que observei guardo apenas pinceladas de impressões, que os relógios são implacáveis com as horas marcadas por outros dentro dos nossos dias.
Chamou-me a atenção a álea imponente que acolhe a fé dos que se dirigem a pé para a igreja de São Nicolau. Contrasta com as veredas vizinhas onde flores e pássaros fazem ninho em pedras de ruínas abandonadas ao relento.
Nos quintais abrigados do vento cresciam hortas debruadas de hortênsias e um sol tímido acariciava a roupa pousada sobre a erva. Vais corar, ai vais, vais…, murmuraria a mulher que não encontrei e que adivinho divertida em segredos do coração.
Ao fundo do caminho de chão vermelho a lagoa, agora tão próxima, e aquele banco onde gostava de me sentar a sorver toda a serenidade das cores em redor.
M

sexta-feira, 25 de junho de 2010

O Prazer de Viajar - 4


Foto de M


há mãos assim, que de castas,
como as tuas,
prolongam o tempo que há dentro da cor,
e trazem o lume e o brilho da sombra
com que as horas desenham o despojo da luz.

Emanuel Jorge Botelho

21 Haiku com Asas, Urbano, e Cabras, (Segundo Livro, Urbano, de Emanuel Jorge Botelho – Urbano), Galeria 111
Poemas de Emanuel Jorge Botelho
Ilustrações de João Urbano Melo Resendes
Ambos naturais da ilha de São Miguel

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O Prazer de Viajar - 3


Foto de M

«Na minha frente entreabre-se um abismo que nos atira para fora da vida, para regiões inesperadas de sonho. A convulsão, a brutalidade e o fogo levantaram até ao céu grandes paredes vulcânicas, dispondo no fundo do caos alguns campinhos meigos e dois lagos, um inteiramente verde, outro inteiramente azul, separados por um fio de terra e quietos, adormecidos, cismáticos. As forças desencadeadas chegaram a este resultado: - Um pouco de azul, um pouco de verde, ternura e idílio…»

Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas – Notas e paisagens, Edição Artes e Letras, Açores, Setembro de 2009

O Prazer de Viajar - 2


Foto de M

«…O carácter da paisagem é delicado e oculto. Embora a gente veja o campanário e as casas minúsculas no fundo da enorme cratera, duvida, e chega a supor que a vara dum mágico fez parar o tempo, e aquilo se conserva encantado entre montes desmedidos e brutos que o guardam prisioneiro. O tempo passa, os homens passam; só ali tudo está suspenso, na atitude fixa no momento do prodígio. Na solidão mágica não se ouve cantar um pássaro, a água não bole, as flores não bolem. Tudo se mostra na amplidão da cratera aberta para o céu e num grande silêncio estarrecido…»

Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas – Notas e paisagens, Edição Artes e Letras, Açores, Setembro de 2009

O Prazer de Viajar - 1


Foto de M

Of course, SATA, I wouldn´t dare to walk outside this area…


Tenho bem a noção dos meus limites humanos, por isso nem o entusiasmo com que me instalei na barriga deste pássaro enorme ao encontro de cinco ilhas magníficas fundeadas no Atlântico me levaria à tentação de antecipar a aterragem.
Nunca foi desejo meu descer aos trambolhões entre azuis e algodão doce com a ideia de pôr os pés no chão antes da hora prevista, que tudo tem o seu tempo. Certo ou incerto, claro, todos nós o sabemos já de experiência feita, que essa particularidade é parte integrante da condição da vida. E com uma agravante, que pode ser também uma questão de fé: encontraria eu algum anjo de asas brancas disposto a amparar-me na descida e a pousar-me suavemente em solo firme? Supostamente firme, ou assim o desejamos, que a História por aquelas paragens bem tem provado o contrário.
É profundo o azul deste mar de baleias e golfinhos, láctea a espuma instável das ondas sobre as quais baloiçam barcos e cagarros ávidos de peixe. E a terra ali tão perto, em convivência espantosa de fertilidades e securas pardacentas de anos. Belíssima a presença das pedras negras na brancura das casas e nos muros que dividem campos de verde húmido. E as flores, tão harmoniosas em colorações várias, a debruar caminhos na vastidão do silêncio. Obedientes as vacas, o olhar ruminante e pensativo, pesando-lhes o leite na hora do passo lento para a ordenha. Discreto, quase tímido, o cântico dos pássaros à beira das lagoas abraçadas por árvores seculares que a bruma toca, diáfana e misteriosa.
Quem sabe não será toda esta exuberância que encontrei nos Açores uma espécie de presente oferecido, compensação generosa pelos acessos de mau génio, tantas vezes imprevisíveis, que levam as suas ilhas a cuspir o fogo e a lava que queimam a existência dos seus habitantes.
M

sábado, 5 de junho de 2010

111.


Foto de M

Talvez seja na desproporção do que sinto que me encontro. Na luz que atravessa as sombras do indizível, na dispersão da cor que é vínculo, no diálogo das formas embebendo o silêncio.
M

segunda-feira, 24 de maio de 2010

110.


Foto de M

É afectuoso, este rolo que sustém o silvo húmido do vento. Fez do parapeito da minha janela a sua casa, quase uma praia com flores em dunas macias sempre que o sol descansa nele, tórrido e enxuto. Ali permanece dia e noite, no silêncio de si mesmo, paciente, atento aos passos que dou e não dou, aos gestos ora indolentes ora vigorosos que me escapam dos braços, ao meu olhar por adivinhar absorvido nele. E o meu corpo nesse vaivém de tarefas que se insinuam no tempo e que com ele fogem, apenas uma ou outra pegada resistente ao anonimato desenhada no chão da memória.
M

domingo, 23 de maio de 2010

109.


Foto de M

Não faço ideia se foi gesto que me sobrou do entusiasmo com que ontem fotografei os bicharocos no Jardim Bordallo Pinheiro. O que sei é que hoje ao pequeno-almoço dei mais uma vez de caras com esta abelha atrevida que invariavelmente me provoca e zás, guardei-lhe o riso na máquina fotográfica. Para memória futura e resguardo meu, não venha a ser-me pedida explicação por algum eventual acto desesperado da minha parte, como seja, por exemplo, afogá-la de vez dentro do café com leite da manhã, que a paciência tem limites.
Há anos que se mantém ali com aquele riso abelhudo, a deitar-me a língua de fora sem razão aparente. A mim que tantas vezes me apetece deitar a língua de fora ao dia que nasce e não o faço por uma questão de educação! Ou se calhar até por consideração por ele. Deve ter fôlego de peixe! E forte resistência às ondas do micro-ondas, presumo. Esconde-se por minutos, sem um bzzz ou bater de asas, imaginem, e, depois de eu ter engolido o líquido morno, reaparece feliz, como se nada se tivesse passado. Apenas um pouco lambuzada, mas nem isso lhe perturba a boa disposição.
Bem sei que fazê-la submergir para sempre me traria amargos de boca. Deixaria de poder esvaziar a caneca (tem aquela medida certa que me satisfaz o paladar), hábito matinal que gosto de entremear com o pão torrado barrado de manteiga e mel. E o azedume do leite abandonado ali horas a fio, que nem o açúcar que lhe deito dentro o aliviaria de tamanho desconforto?
O melhor é manter-me à altura do desafio do insecto. Ou talvez a caneca um dia se faça em cacos, a abelha se liberte dos destroços e voe levando consigo a flor para um jardim do seu agrado.
M

(Projecto interessante no Jardim Bordallo Pinheiro, no Museu da Cidade, em Lisboa.)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

108. Insónia



Fotos de M

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

107.


Foto de M

Ternura. Assim a fotografei no Fotodicionário desta semana.
Palavra cheia que se oferece na voz, ou no silêncio do olhar que amacia a distância. Leveza de beijo pousado. Textura de cor tornada gesto. Empatia com a Vida.
M

domingo, 24 de janeiro de 2010

106.


Foto de M

Gostei de lhe chamar Flor de Música.
Estava de empréstimo em casa de um amigo meu que olha e toca os objectos com o coração. Contou ele que, ao entrar uma vez mais numa loja de antiguidades por onde passa a caminho de casa, o dono lhe mostrou esta peça de muitos anos e lhe falou na dificuldade em encontrar alguém capaz de a pôr a funcionar. Pelo que conheço do meu amigo, suponho que terá então retirado os óculos da cara com aquele seu gesto demorado de mãos cautelosas e examinado o “doente” com a minúcia de que sempre se serve na observação dos objectos. Imagino que assim terá acontecido, mas na verdade apenas sei o que repetiu da sua conversa com o antiquário. Estava convencido de que conseguiria resolver o problema daquele silêncio forçado… que poderia tentar restituir-lhe a voz de outros tempos… Mas o trabalho seria gratuito, isso era ponto assente. Pelo puro prazer de o fazer.
E também nós, que jantávamos nessa noite em casa do nosso amigo, tivemos o gosto de escutar o Arriverdeci Roma pela Voz do Dono… Ainda que com o som um pouco roufenho, mas isso que importa se oferecido por uma romântica Flor de Música?
M

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

105.


Foto de M

Que sabemos nós do futuro dos meninos?

Pouco. Ou até mesmo nada. Por causa do mistério da vida que nos escorrega entre os dedos. Esquiva, como se tivesse receio de se revelar por completo, mas deixando marcas, uma aqui, outra ali, e o nosso coração em sobressalto de adultos.
Talvez saibamos apenas que o caminho se fará com passos pequeninos, entre sombras e luz.
M


(Nota: Foi minha intenção que este texto/fotografia exprimissem um significado mais lato do que o aparente, por isso o publiquei exactamente no dia 1 de Janeiro, primeiro de um novo ano. Pela sua simbologia com as crianças. Também para nós, adultos, o futuro é difícil de prever e um ano novo é algo que se não revela por completo ao nascer. Depende de como o recebermos e formos capazes de o entender e aceitar na sua complexidade e mistério.)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Feliz Natal!


Foto de M

SER PÁSSARO EM TERRA


Tomé corria pela estrada abaixo pensando que gostava de ser um pássaro com asas muito grandes e fortes para poder voar para longe. Daqueles que jogavam às escondidas no meio dos pinhais e que de repente desapareciam com tanta velocidade que ele nunca mais os voltava a ver.
Enquanto corria lembrou-se que o avô costumava dizer-lhe “Ai pernas para que vos quero!” e que se ria muito, quando ele fugia da gata Galpinha depois de lhe puxar a cauda vezes sem conta. Não é que ele não gostasse da gata, claro que gostava, mas achava graça a arreliá- la! Só que agora, por mais que mexesse as pernas, parecia que elas não saíam do mesmo sítio. E, para tornar as coisas ainda piores, aquelas outras palavras do avô não o largavam, sempre a repisarem, a repisarem nos seus ouvidos: “Não me estejas a desinquietar!”.
Virou a cabeça para trás, mesmo sem parar de correr ― queria ter a certeza de que não vinha ninguém atrás de si ― e quase ia caindo quando uma das suas botas tropeçou na outra. Agarrou-se então com força ao raminho de um arbusto que pendia sobre a berma da estrada, tentando equilibrar-se, e dessa maneira evitar uma queda desastrosa. Até parecia o palhaço Trapalhão que às vezes via na televisão no Circo de Natal!
Recomposto do susto, chupou o sangue que lhe escorria da mão pois, sem ele saber como, tinha-se picado numa silva traiçoeira enrolada no ramo a que se agarrara. “Está quedo, rapaz! Não mexas aí, olha que te picas!”: lá estava outra vez a voz do avô Américo a sussurrar- lhe avisos ao ouvido.
De repente pareceu-lhe que o nevoeiro da manhã tinha voltado, pois os seus olhos estavam turvos e não o deixavam ver bem o caminho. Talvez alguma poeira caída da arvorezinha a que se segurara lhe tivesse entrado para os olhos. Esfregou neles a manga da camisola, procurando com esse gesto clarear a visão. Ficou surpreendido quando reparou que a lã da camisola estava húmida, mas depressa compreendeu a razão: as lágrimas contidas a custo pela raiva com que saíra de casa tinham transbordado! E tudo por causa da silva! Se não fosse ela não teria chorado! Tirou rapidamente o lenço de assoar do bolso das calças, enrolou-o com cuidado no dedo ensanguentado e, antes de recomeçar a sua corrida estrada abaixo, olhou uma vez mais para trás, para se certificar de que não era seguido.
Tomé estava agora sentado no meio de uma clareira, rodeado de troncos grossos de pinheiros e eucaliptos recém cortados que se adivinhava terem sido árvores enormes. Na sua correria desenfreada passara por ela como um foguete, mas acabara por dar meia volta e parar. Curioso como era, não resistira a inspeccionar o que da estrada lhe tinha parecido serem uns banquinhos muito engraçados, todos arrumados ao lado uns dos outros. Divertira-se então a saltitar de tronco em tronco ― e quase tinha pisado um pinheiro pequenino que espreitava do chão ― acabando por se estatelar em cima das aparas pontiagudas de um deles. Ui! Doía-lhe tanto...
Ao esfregar o rabiosque, para aliviar um pouco a dor provocada pelo trambolhão, reparou que as calças tinham um buraco de todo o tamanho, daqueles buracos enormes que fazem com que as mães se zanguem e ralhem muito. Ah, ia ter que encher a cara da mãe com beijinhos e mais beijinhos para ela não se arreliar! Mas depressa mudou de ideias: afinal não precisava de dar beijinhos nenhuns, porque quem estava zangado era ele. Pois, até já se tinha esquecido que largara porta fora muito aborrecido, mal se levantara da cama.
Deitou-se então no chão de barriga para o ar, com as mãos debaixo da cabeça, e pôs-se a ver as nuvens que corriam no céu. Era essa a sua posição preferida quando queria pensar. Se o pai ali estivesse de certeza que lhe fazia a vontade, mas ele andava sempre a caminho dos Alpes... Tinha tantas saudades dele!... Fungou um bocadinho, porque uma lágrima escorregava agora para o nariz, mesmo sem ele querer. Já não era a primeira vez que isso lhe sucedia e só gostava que alguém lhe explicasse como era possível que as lágrimas que ele guardava tão bem dentro dos olhos fugissem assim depressa para o nariz! Porquê aquela mania do pai ir cortar árvores para tão longe, se havia tantas ali pertinho?! Quando ele voltasse havia de o trazer a esta clareira para lhe mostrar que na terra deles também se encontravam árvores grandes para deitar abaixo.
Decidiu fechar os olhos por instantes: a luz do sol quase lhos furava e sentia a cabeça a andar à roda de tanto fixar as nuvens que corriam, corriam sem descanso. Quis depois voltar a abrir os olhos mas não foi capaz, porque as pálpebras pesavam tanto... Acabou por adormecer, embalado pelo assobio suave do vento no pinhal do outro lado da estrada.
Foi então que o Pinheirinho ― não mediria mais do que um metro de altura ― muito magrizela e fraco, com uns ramos fininhos, fininhos, resolveu meter conversa com Tomé.
― Estou intrigado contigo, rapaz. Que andas por aqui a fazer sozinho a esta hora da manhã?
― Ora, apeteceu-me passear!
― Hum! Aqui há gato!
― Não há gato nenhum! A minha gata ficou lá em casa, ninguém veio comigo ― respondeu ele com voz de poucos amigos.
― Está bem, não te zangues... não te zangues... mas eu desconfio que estás hoje muito arreliado...
― Pois estou, claro que estou.
― Ah! Bem me parecia...
― Pois, porque eu ontem vi na televisão umas árvores de Natal que se vendem nas lojas, muito grandes, todas enfeitadas, e a minha mãe não quer ir comprar uma para nós. Não são verdadeiras, sabes? Mas são tão lindas! Também... não lhe custava nada, nem era preciso ir de propósito à loja. Quando fossemos com a minha avó ao médico a Coimbra, comprávamos... Não achas que eu tenho razão?
― Olha, não sei bem... Mas tu gostas assim tanto dessas árvores?
― Pois gosto.
― Ah! E se eu te ajudar a resolver esse problema?... ― perguntou o Pinheirinho.
― Como é que tu me podes ajudar a resolver esse problema? Tu não sais daqui... não andas...
― Ora essa! Parece que não acreditas em mim.
― Está bem, não te zangues comigo... ― respondeu Tomé um pouco atrapalhado.
― Eu tenho a impressão que tu gostas de árvores e flores... já te tenho visto passar por aqui com o teu avô... e até dizes: “Avô, cheira tão bem a eucalipto!”...
― Oh! ― O menino encolheu os ombros. ― E o que é que isso tem a ver?... Pois gosto. Mas estas árvores foram cortadas... e também nunca estiveram enfeitadas como as outras que eu vi na televisão. Não têm luzes a acender e a apagar, nem neve, nem bolinhas coloridas, nem estrelas...
― Lá isso é verdade... mas... então e eu não sou ninguém?!...
― Tu?! És ainda tão pequenina! ― Tomé ria-se agora com gosto.
― Também tu!... E se eu conseguir arranjar uns enfeites?... Não são iguais aos outros que tu viste, mas são muito bonitos... e eu acho que tu até gostavas mais dos meus.
― Mas como é que tu consegues isso?
― Consigo... Tenho os meus amigos, sabes? Só tens que fechar muito bem os olhos ― disse o Pinheirinho com ar misterioso.
― Mas eu já tenho os olhos fechados! Não vês que estou a dormir?
― Pois, mas tens que os fechar ainda mais. E só os abres quando eu disser.
Tomé tapou completamente os olhos com as duas mãos e ficou à espera, os ouvidos muito atentos aos ruídos à sua volta. Estava com tanta atenção que até lhe parecia ouvir falar baixinho e apetecia-lhe mesmo espreitar mas, como não tinha licença para abrir os olhos, fez muita força com as pálpebras e com as pestanas para os fechar ainda mais.
― Já podes olhar!
― Oh! Oh! ― exclamou o menino com espanto, logo que abriu os olhos.
Mesmo na sua frente estava o Pinheirinho todo enfeitado, nem parecia o Pinheirinho magrizela! Nos seus ramos brilhavam estrelas verdadeiras, prateadas, daquelas que ele via no céu em noites quentes de luar. Oh! E borboletas amarelas, azuis, pretas salpicadas de branco... mexendo as suas asas como se dançassem ao som de uma música invisível.
― Ó mãe, já viu esta árvore de Natal? Ih! Ih! Ih! Ai, não me faça cócegas! Ih! Ih! Ih! ― Tomé acordou nesse momento e, ainda meio sonolento, admirou-se por não ver a mãe a seu lado. Mas... porque é que continuava com cócegas se ela não estava ali a brincar com ele?
Espreguiçou-se... esfregou os olhos... e só então, depois de os ter muito abertos, reparou que tinha um carreirinho de formigas a passear no seu pescoço... Levantou-se com um salto, sacudiu-as e ficou a vê-las a dar cambalhotas no chão e a correrem de um lado para o outro até formarem um comboio muito apressado. A seguir voltou para casa.
M

Nota: Escrevi este pequeno conto em Dezembro de 2001 para acompanhar os cartões de Boas Festas feitos em casa com cartolinas de cores variadas que enviei para amigos meus de longa data. Inspirei-me na vida de um menino que conheço daquele lugar magnífico que a fotografia da paisagem mostra e que é especial para mim desde criança.
E como, ao mexer em papéis antigos, reencontrei esta memória, apeteceu-me partilhá-la convosco.
Porque o Natal pode ser terno e eterno.