quinta-feira, 23 de maio de 2013

PROVÉRBIOS FOTOGRAFADOS - 21


Foto de M 

«Coisas vistas à noite, de manhã outras parecem» 

Rifoneiro Português por Pedro Chaves (2ª edição), Editorial Domingos Barreira

quinta-feira, 9 de maio de 2013

191.


Foto de M

Há momentos em que me basta a simplicidade de um corrimão para que eu sinta a presença de um lugar. 
M

sexta-feira, 3 de maio de 2013

190.


Foto de M 

É bom quando o sol se senta nos bancos dos jardins e nos pega ao colo para nos contar histórias de estrelas e planetas.
M

sábado, 9 de março de 2013

189.


Foto de M

Uma espécie de casa ambulante é o que me lembram os dois Elevadores da Glória. Ora para cima ora para baixo, assim se cruzam entre carris e cabos aéreos, não vão eles querer libertar-se da rotina dos trilhos diários e passear em liberdade por outros bairros de Lisboa. Mas boas razões tenho eu em encontrar-lhes feições de residência. O espaço rectangular das carruagens com bancos corridos de costas para as janelas onde nos sentamos podia perfeitamente ser uma sala de estar de nossas casas. Ali nos olhamos uns aos outros pensando quem seremos e, fosse o tempo do trajecto mais longo, chegariam certamente à fala conversas íntimas nas mais diversas línguas a propósito dos percursos sugeridos em mapas e roteiros de viagens abertos nas mãos dos passageiros. 
Mas não só de viagens turísticas de máquina a tiracolo se vive, há quem viaje sem sair do seu lugar de trabalho aproveitando de forma aprazível os dez minutos de intervalo entre cada chegada e partida estabelecidos no horário da Carris. Pois é verdade, empoleirado no banco da cabine, além do Bom dia espontâneo e sorridente oferecido a cada pessoa que entrava ou lhe pedia informações sobre o preço dos bilhetes, o jovem guarda-freio lia as últimas páginas do livro Mataram o Sidónio, de Francisco Moita Flores.
Ao regressar dos meus afazeres no Bairro Alto encontrei o mesmo elevador à espera, e o mesmo homem embrulhado no sobretudo azul escuro da farda, protegendo-se assim do frio que atravessava grades e corpos. Não resisti a meter conversa com ele, tal a curiosidade e espanto que em mim provocara algumas horas antes. Da breve conversa, até porque dez minutos voam nas nossas vidas paradas, apenas vos deixo o que considero mais importante: Já o acabei. Amanhã trago outro livro. Gosto muito de ler. Ajuda a passar o tempo.  
Saberá este homem que até finais do século 19, durante as viagens nocturnas, a iluminação dentro da cabine era feita com velas? Presumo que, tivesse ele vivido nessa época, isso não o incomodaria, apenas seriam outros os livros. Talvez Os Mistérios de Lisboa de Camilo Castelo Branco...
M

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Talvez não completamente desadequado ao momento presente


Linhas cruzadas 
(Foto de S.)

A Turista

Não, esta não é uma história de fadas. Como aquela da princesa que ficou tolhida no encanto de um sono por tempo indeterminado, até ao aparecimento do príncipe encantado que a despertou com um beijo. Doce, presumo. E como falo de imaginários deslumbramentos, lembro ainda as caixas russas em forma de mulheres de sorriso colorido presas umas dentro das outras, ainda que aparentemente sob a forma de uma só figura. Há quem as liberte, por curiosidade, claro, mas mesmo assim sujeitam-nas ao alinhamento a que a sua própria escala de estatura as obriga no espaço a que habitualmente estão confinadas. Não sei se por conveniência de espaço, se pela ideia generosa de possibilitar a alguns o encantamento de desdobrar encantos dentro dos encantos. Um pouco ao invés da tal princesa que não teve de desdobrar nada dentro da vida, pois dormiu e acordou no mesmo espaço ad aeternum. Pelo menos é o que me sugerem os contadores de contos de fadas.
A minha história é outra, é a de uma mulher que se dizia tolhida pelo desencanto. Encontrei-a há pouco no cais da estação de comboios, sentada num banco. Tinha a cabeça um pouco descaída sobre o peito, como se não pudesse segurar-lhe o peso, e os braços pareceram-me entrelaçados um no outro, atrás das costas. Invisivelmente atados, pois não vi corda alguma.
Estranhei vê-la ali. Costumava cruzar-me com ela pelas ruas do mundo, de mochila às costas, e até conversámos várias vezes, quando a ocasião se proporcionou. Intrigava-me, quando a conheci. Dava-me a ideia de uma turista de passagem por Lisboa mas, ao mesmo tempo, o sorriso divertido ou as respostas prontas deixadas em aberto levaram-me a crer que conhecia a minha linguagem perfeitamente e que seria residente neste país.
– Que faz aqui sentada? – perguntei, aproximando-me devagarinho.
– Como? – Ela entreabriu um pouco os olhos. – Quem é você?
– Não se lembra de mim? O meu nome é I…
– Imbecil, suponho… – interrompeu-me, agastada.
– Podia ser… – respondi-lhe, com um sorriso nos lábios. – Até podia chamar-me Imbecil, mas por acaso não acertou.
– Não acertei? Não acha a sua pergunta absurda? – E olhava para mim com um misto de irritação e de desafio. – Não vê que estou tolhida pelo desencanto?
– Confesso que me pareceu apenas cansada. Uma turista cansada… Costumávamos encontrar-nos por aí… Lembro-me de a ver de nariz no ar, sempre à procura… nem sei bem de quê. A sua mochila, aí no chão… Um dia falou-me do que guardava dentro dela…
– A minha mochila? Ah! Que importa? – Pela maneira de me olhar, pareceu-me que se recordava.
Um dia, sentadas num banco da avenida a refrescarmo-nos da caminhada, comemos juntas uma sanduíche e ela falou-me do que escondia dentro da mochila. Lembro-me que lhe achei graça. Alternava a trincadela no pão com fiambre com o que me ia mostrando: “Isto é alento, olhe aqui o ânimo, o encanto, a ilusão, o entusiasmo, este é o silêncio. Também faz falta, não acha? Preciso disto tudo, sabe. Umas vezes esvazio a mochila, porque gasto tudo, outras vezes são sobras que ficam de reserva. Depende daquilo em que tropeço, dos caminhos por onde vou, alguns cansam-me mais do que outros.”
– A sua mochila… Lembra-se? – Baixei-me ligeiramente para lhe pegar.
– Já não contém nada do que lhe mostrei um dia. Conhece o vírus das três letras? O “des”…
– O “des”? Perfeitamente. – Sorri. – Julgo que os meus dedos nem chegam para enumerar as várias doenças provocadas por ele. Despeito, desproporção, desqualificação, desrespeito, desamor, despromoção, desvalorização, desconsideração, desavergonhado… Bem, nesta última apareceu uma outra estirpe de vírus, o “a”… Não há antibiótico eficaz para ele… Por enquanto, claro. Valem-nos os avanços da medicina actual para debelar esta proliferação de enfermidades…
– Esse vírus é activo, estimula doenças em cadeia que se vão espalhando, é quase uma epidemia. O meu é de outra espécie, é restrito no seu ataque – respondeu-me rapidamente.
– Restrito?! – perguntei, admirada.
– Sim, fiquei tolhida. O vírus que atacou a minha mochila deixou-me desalento, desânimo, desencanto… Tirou-me a energia. Acha que há alguma coisa pior do que isso?
– Mas não a privou de tudo, pois não? O silêncio…?
– Ah, o silêncio está sempre calado, por isso ninguém deu por ele. Continua comigo, intacto. – Vislumbrei-lhe um olhar temporariamente divertido e provocador.
– Vá lá, nos tempos que correm traz algumas vantagens…
– Nada se aguenta eternamente sem mudança, pois não? Às vezes o silêncio também se cansa e adoece com falta de palavras ouvidas bem alto, noutros tons diferentes dos meus. Precisamos de treinar a voz, senão perdemos a capacidade de cantar.
– Um antibiótico de largo espectro será portanto o mais indicado… – Pisquei-lhe o olho.
– Afinal não é imbecil… – disse, provocando-me. – Gosto da sua companhia. Quase que apostava que sei como se chama…
– Pois sabe. Já nos conhecemos há muito tempo. Mas olhe, vou seguir o meu caminho que…
– Mas eu estou tolhida pelo desencanto, não vê? – Interrompeu-me. Pareceu-me preocupada por eu a deixar.
– Eu estou sempre consigo, só que às vezes esquece-se de mim. Vou prender-lhe entre os dentes a ponta desse fio que a tolhe.
– Entre os dentes?! – exclamou, admirada. – Dói.
– Não é uma corda, é apenas um fio. Quando conseguir rir um pouco, o fio é puxado pelo movimento do seu sorriso, o nó desfaz-se, e os seus braços ficarão livres, vai ver. A nossa vida é uma cadeia de gestos.


Ironia
M


(Publicado no meu antigo blog Fotoescrita em Fevereiro de 2005)

domingo, 27 de janeiro de 2013

188.


Foto de M 

Reparei que olhava com atenção para a taça que eu tinha acabado de pousar sobre o velho móvel de família à entrada de casa.
- Gostas? - perguntei-lhe. - Pareceu-me, pelo teu olhar silencioso...
- Gosto. – Sorriu. - É bonita.
- Para mim é uma espécie de taça da vida. Foi oferecida aos teus avós maternos quando casaram. Sempre a vi lá em casa. Em dias de festa a minha Mãe cobria o fundo com um naperon de linho bordado para ali aconchegar uns biscoitos deliciosos cozinhados por ela. De resto, permanecia em cima do aparador, vazia. O seu rendilhado encanta-me. Ao fim destes anos todos resolvi guardar dentro dela as pedrinhas que me têm sido oferecidas por amigos, algumas apanhadas nos campos por onde passeamos. Pedacinhos da Natureza que me recebe... Ah como são belos aqueles tons!
- Uma taça de memórias – disse, dando-me um beijo. - Os tons... encontra-os também agora dentro de si, não é?

M

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

187.


Foto de M 

Um abraço.

M

186.


Foto de M

Apenas uma folha.

M

185.


Foto de M 

Presença.

M

domingo, 13 de janeiro de 2013

184.


Foto de M 
  
- Brinca comigo.
Olhei em volta. Para além de mim não havia mais ninguém no corredor, a criançada tinha-se refugiado no quarto entre risos e jogos, apenas a bola que eu acabara de fotografar permanecia imóvel junto da porta.
- Brinca comigo.
De novo aquela voz, quase sumida. Que estranho! Parecia vir do chão. Será ela que...? Não pode ser, pensei. Se calhar até pode... por magia, quem sabe...
- Foste tu que falaste? Comigo? - perguntei. Eu precisava de ter a certeza.
- Sim, estás admirada?
- Não, claro que não, mas pensava que só rebolavas...
- Também falo, estou habituada a conversar com os meninos, quando eles brincam comigo. Foram-se embora e deixaram-me aqui sozinha... As zebras estão cansadas de esperar por eles e querem dar cambalhotas. Podias brincar comigo...
- Pois é, as crianças cansam-se depressa das brincadeiras, gostam de variar, de experimentar coisas novas – respondi-lhe, tentando consolá-la. - Está bem, acho-te graça e vou fazer-te a vontade.
Baixei-me para lhe pegar e atirei-a devagarinho pelo corredor fora até ela entrar sorrateiramente no quarto onde os meninos brincavam. A porta estava aberta, por isso foi fácil rebolar direitinha e parar junto dos seus pés.
- Oh! Olhem a nossa bola! Como é que apareceu aqui?! Vamos jogar no corredor! - exclamaram.

M

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

183.


Foto de M 
   
Os muros. Esboroam-se alguns na terra dos dias, tristemente sustendo a vida que neles se agarra.

M

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

2013 vem a caminho


Foto de M

Que apontaremos nós nos dias que iremos desfolhando ao longo do ano? Antiguidades como a da imagem reciclada deste calendário que nos mostra bem como a História tem o seu tempo? Haverá ainda algum sorriso, nem que seja apenas de ironia? Espero que sim, os sorrisos ajudam a segurar a vida.  
M

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Natal de 2012


Foto de M 

Deixo-vos aqui o meu abraço natalício e o link de um blog onde é um prazer passear ao ar livre.

M
 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

NÓS E OS ESPELHOS


Foto de M 

Que dizer dos espelhos onde nos olhamos? 

 “Espelho meu, espelho meu, quem é a mulher mais bela do mundo?”, perguntava a rainha na história Branca de Neve e os Sete Anões.

E nós, neste nosso mundo de verdades e fantasias, dentro da história de cada um, que perguntamos, que vemos?

“Mã... mãmãmã… pápápá... cá… dádá… bó… papa...”. A criança está sentada no chão, surpreende-se, lambe o espelho inquebrável, morde-o, bate-lhe com a mão desajeitada, de tão pequena que é. 
“É o bebé, vês?”, diz a mãe, diz o pai, diz a avó, diz o avô, dizem todos, a família esgota-se em comentários e sorrisos. A criança olha para uns, observa outros, conversa em linguagem de espelho com alguém que é ela própria. Quem é esta personagem tão perto de mim, que me imita, que ri quando eu rio, que faz as mesmas caretas que eu?

 Ah, deixa experimentar de esguelha... Sou assim? Pensava-me diferente! Talvez um espelho maior me mostre uma imagem mais completa, quem sabe. Buscam-se as ruas, procura-se cada um a si mesmo nos inúmeros reflexos das montras das lojas: encontram-se aí rostos, expressões, silêncios, fantasias. Nada mais do que mundos desconhecidos por revelar, em imagens desfocadas sem resposta. 

Uma ruga?! Não estava cá ontem, tenho a certeza. 

Os espelhos, ai os espelhos! Perseguem-nos, protegem-nos também. Ali, em local inesperado, repara, mais parece um olho atento, num entroncamento de caminhos e perspectivas. Uma provocação, sabores a descobrir... 

M

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

182.


Foto de M 

Gosto de um barco à vela ao entardecer de um dia de verão. Não importa onde o barco navega nem onde o sol se põe. Um gosto meu. Podemos ter tantos! Aqui em cima da mesa encontro alguns. Ora vejam. Ainda no prato, o gosto adocicado das migalhas dos scones a lembrar conversa amena sobre as peculiaridades da cidade visitada. Tenciono embrulhá-las discretamente no guardanapo de papel e levá-las comigo quando sair da pastelaria. Mal ponha os pés fora da porta, sacudo-as num dos canteiros em redor das árvores que servem de poiso a passaritos de gosto requintado. Sei que esvoaçam por ali à procura de petiscos. E o chá a abrir-se em águas irlandesas ao canto da fotografia, também vais partilhá-lo com essas criaturinhas de asas delicadas?, perguntará a curiosidade de quem observa a imagem com atenção. Bom, não me parece que apreciem esta bebida, tenho-as visto a molhar o bico nas poças do passeio. Além do mais, cada um tem os seus hábitos.
E mais gostos haveria mas não quero cansar-vos. Ah! Não resisto a uma última confidência, antes de me ir embora daqui: Gosto de gostar. A culpa é da língua portuguesa, é muito emotiva.

M

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

181.


Foto de M 
(Claustro do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, em Coimbra)

 
Uma espécie de osteoporose no corpo da História. À semelhança dos nossos corpos de gente anquilosada descrente dos desempenhos de articulações e rendilhados ocultos dentro desta enorme complexidade que nos habita. Desconfortos. Parafusos e barras de titânio a segurarem-nos, a manterem-nos de pé, recompondo as nossas vidas, cicatrizes assinalando as nossas histórias muito particulares. Valem-nos os ortopedistas. E os arqueólogos. E os antropólogos. E os sociólogos. E os historiadores. E os cientistas. Todos eles ávidos de entendimento do universo, à procura do que nos explica e explica a vida nas suas semelhanças e diferenças ao longo dos séculos. E os artesãos. Sem pressas, o perfeccionismo guiando o ritmo de cada gesto, a imaginação em permanente viagem entre o real e o simbólico, entre o todo e o detalhe que as suas mãos são capazes de imprimir nas pedras de todos os tempos, talvez eles sejam... Sim, talvez eles sejam presenças especiais onde encontramos conforto perante a dolorosa consciência da fragilidade do mundo terreno. Porque, ao deixarem tantas vezes a sua marca de criatividade sublime na arte que fazem, exprimem o desejo de Beleza imensa sentido pelo ser humano e assim a imortalizam. Apesar das ruínas e por causa delas.

M

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

180.


Foto de M 
(Claustro do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova em Coimbra)

Estava ali há muito tempo, o recorte do abandono marcado na parede, no colo o silêncio em meditação. 

M

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

179.


Fotos de M 

Estava ali, junto do lagar de azeite da aldeia que conheço desde menina: uma espécie de tríptico num silêncio de abandono que me pareceu de há muito.
Reparei primeiro no casaco pendurado no prego, a parede branca, a porta vermelha fechada. Aproximei-me, como se precisasse de descobrir-lhe a alma dentro do forro. Ao lado, o chapéu de chuva prendeu-me a atenção. Desviei o olhar, emocionada. Porquê? Há quanto tempo naquele lugar de solidão? Só depois vi a garrafa. Quase encostada ao murete, metade cheia, metade vazia, a tampa calando-lhe a medida. Que líquido? Vinho? De quem? Para quem? Porquê este desamparo sem nome?
Não muito distante, a curva do caminho de terra batida. 
Terrível este mistério de presença que me tocou naquele dia de verão. Quem seria? Quem foi? Quem é ainda?

M

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

PRECE

Adaptação de foto de B. 

PRECE
 
Meu Deus, dai-me paciência! Tende piedade de mim, desventurada criatura que sou, injustamente forçada a aturar inteligentes complexados!
Meu Deus, se sois meu verdadeiro amigo, libertai-me daqueles outros que o dizem ser!
Protegei-me das palavras vãs dos néscios, Senhor! 
Desfaleço neste caminho de pedras que me atrapalham o passo.
Deus meu, tende misericórdia desta pobre cibernauta que anda com os pés na terra e o pensamento no céu! Mas, Senhor, se for de vossa vontade, que passe eu a estar ao contrário, com os pés no céu e o pensamento na terra! Talvez assim me seja dado um melhor entendimento das coisas, nem que seja pela posição em que o meu corpo passará a estar.
Tende compaixão de mim, Senhor!

M

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

178.


Foto de M 

Como num filme. O movimento da vida em repouso e o silêncio do olhar deixado sobre a mesa.
Longe, o murmúrio do arvoredo na leveza do vento e o canto dos pássaros abrindo a manhã.
Como num filme de encontros.

M

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

PROVÉRBIOS FOTOGRAFADOS - 20


 Foto de M

«O sono é bom conselheiro»

Rifoneiro Português por Pedro Chaves (2ª edição), Editorial Domingos Barreira

sábado, 25 de agosto de 2012

Still there (o último post de uma série de 14)


Foto de M

Still there




Fotos de M 

« He walked listlessly round Stephen's Green and then Grafton Stret. Though his eyes took note of many elements of the crowd through which he passed (...)»

Dubliners (Two Gallants), James Joyce, Granada Publishing Limited
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«Com o espírito alheado, contornou Stephen's Green e desceu Grafton Street. Os seus olhos não deixaram de notar muitos elementos da multidão que atravessou (...)»

Dublinenses (Dois Galãs), James Joyce, Relógio D'Água Editores

Still there




Fotos de M

«Mrs Mooney's young men paid fifteen shillings a week for board and lodgings (beer or stout at dinner excluded). (...)»

Dubliners (The Boarding House)), James Joyce, Granada Publishing Limited

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«Os jovens cavalheiros de Mrs Mooney pagavam quinze xelins à semana por pensão completa (cerveja, branca ou preta, não incluída na refeição). (...)»

Dublinenses (A Casa de Hóspedes), James Joyce, Relógio D'Água Editores

Still there


Foto de M 
  
«She sat at the window watching the evening invade the avenue. Her head was leaned against the window curtains and in her nostrils was the odour of dusty cretone. She was tired.
Few people passed. The man out of the last house passed on his way home; she heard his footsteps clacking along the concrete pavement and afterwards crunching on the cinder path before the new red houses. One time there used to be a field in which they used to play every evening with other people's children. Then a man from Belfast bought the field and built houses in it – not like their little brown houses, but brick houses with shining roofs. (...)»

Dubliners (Eveline), James Joyce, Granada Publishing Limited

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«Estava sentada à janela, vendo a noite invadir a avenida. Tinha a cabeça apoiada às cortinas e o cheiro do cretone empoeirado invadia-lhe as narinas. Estava cansada.
Passava pouca gente. O homem que morava ao fundo da rua passou a caminho de casa; ouviu-lhe o ruído dos passos no passeio de cimento, e depois a rangerem na cinza prensada do caminho que ladeava as novas casas vermelhas. Em tempos houvera ali um campo onde eles costumavam brincar todas as tardes com os filhos de outros moradores. Depois um homem de Belfast comprou o campo e construiu lá casas – não como as suas pequenas casas castanhas, mas casas de cor viva, de tijolo, com telhados luzidios. (...)»

Dublinenses (Eveline), James Joyce, Relógio D'Água Editores

Still there



 
 Fotos de M 
 (Midleton Distillery)

« (…) Little Chandler allowed his whisky to be very much diluted.
- You don't know what's good for you, my boy, said Ignatius Gallaher. I drink mine neat.
- I drink very little as a rule, said Little Chandler modestly. An old half-one or so when I meet any of the old crowd: that's all.
- Ah, well, said Ignatius Gallaher, cheerfully, here's to us and to old times and old acquaintance.
They clinked glasses and drank the toast. (...)»

Dubliners (A Little Cloud), James Joyce, Granada Publishing Limited

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« (…) Little Chandler deixou que o seu uísque fosse abundantemente diluído.
«Tu não sabes o que é bom, rapaz, disse Ignatius Gallaher. «Eu bebo o meu puro.»
«Por norma bebo muito pouco», retorquiu Little Chandler com modéstia. «Meio uísque uma vez por acaso, quando encontro alguém do antigo grupo, e é tudo.»
«Pois bem», disse Ignatius Gallaher jovialmente, «cá vai à nossa, e aos bons velhos tempos e aos velhos companheiros.»
Fizeram retinir os copos e levaram-nos à boca. (...)»

Dublinenses (Uma Pequena Nuvem), James Joyce, Relógio D'Água Editores

Still there


Foto de M
(Pub em Belfast)
 
« (...) Little Chandler finished his whisky and, after some trouble, succeeded in catching the barman's eye. He ordered the same again.
- I've been to the Moulin Rouge, Ignatius Gallaher continued when the barman removed their glasses, and I've been to all the Bohemian cafés. Hot stuff! Not for a pious chap like you, Tommy.
Little Chandler said nothing until the barman returned with the two glasses: then he touched his friend's glass lightly and reciprocated the former toast. He was beginning to feel somewhat desillusioned. Gallaher's accent and way of expressing himself did not please him. There was something vulgar in his friend which he had not observed before. But perhaps it was only the result of living in London amid the bustle and competition of the Press. The old personal charm was still there under this new gaudy manner. And, after all, Gallaher had lived, he had seen the world. Little Chandler looked at his friend enviously. (...)»

Dubliners (A Little Cloud), James Joyce, Granada Publishing Limited

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« (…) Little Chandler terminou o uísque e, com uma certa dificuldade, conseguiu atrair a atenção do barman. Pediu outra rodada igual.
«Fui ao Moulin Rouge», prosseguiu Ignatius Gallaher depois de o barman recolher os copos, «e a todos os cafés boémios. Coisa de estalo! Não é para um tipo recatado como tu, Tommy.»
Little Chandler nada disse até o barman regressar com dois copos; depois, com um toque ligeiro no copo do amigo, retribuiu o brinde anterior. Começava a sentir-se um pouco desiludido. O sotaque de Gallaher e a maneira de se expressar não lhe agradavam. Havia nele uma vulgaridade que não lhe notara antes. Mas talvez fosse apenas o resultado de viver em Londres, no meio da lufa-lufa e da concorrência do meio jornalístico. O encanto pessoal de outrora ainda subsistia sob estes novos modos exuberantes. E o que é certo é que Gallaher tinha vivido, tinha visto o mundo. Little Chandler olhou para o amigo com inveja. (...)»

Dublinenses (Uma Pequena Nuvem), James Joyce, Relógio D'Água Editores

Still there





Fotos de M 

«Mrs Malins desceu os degraus da porta da rua com a ajuda do filho e de Mr Browne e, após muitas manobras, foi içada para o fiacre. Freddy Malins trepou para a viatura a seguir e levou muito tempo a acomodá-la no assento, ajudado pelas instruções de Mr Browne. Por fim encontrou-se confortavelmente sentada, e Freddy Malins convidou Mr Browne a subir. Houve uma grande confusão de conversas e depois Mr Browne entrou no fiacre. O cocheiro ajeitou a manta sobre os joelhos, e inclinou-se para ouvir o endereço. A confusão aumentou, tendo o cocheiro recebido indicações diferentes de Freddy Malins e de Mr Browne, cada um com a cabeça de fora de uma e da outra janela. O problema era saber em que ponto do percurso deviam deixar Mr Browne, e a tia Kate, a tia Julia e Mary Jane, da soleira da porta, participavam na discussão com indicações cruzadas e contraditórias, e riso em abundância. Quanto a Freddy Malins, não conseguia falar de tanto rir. Deitava a cabeça para fora da janela a todo o instante, pondo em grande perigo o chapéu, e punha a mãe ao corrente da evolução da discussão. Até que por fim Mr Browne gritou ao atónito cocheiro, sobrepondo-se à algazarra das risadas:
«Conhece o Trinity College?
«Sim, senhor», respondeu o cocheiro.
«Pois bem, siga em frente até embater nos portões do Trinity College», disse Mr Browne, «e depois logo lhe dizemos por onde ir. Está a perceber agora?»
«Sim, senhor», respondeu o cocheiro.
«A direito que nem um passarinho até ao Trinity College.»
«Entendido, senhor», disse o homem.
Chicoteou o cavalo e o fiacre arrancou com estrépito ao longo do cais, por entre um coro de gargalhadas e adeuses.»

Dublinenses (Os Mortos), James Joyce, Relógio D'Água Editores

Nota: O texto do post abaixo é o mesmo mas na língua original.

Still there


Fotos de M 
(A terceira fotografia a contar de cima foi retirada de um painel da fábrica Guiness)

«Mrs Malins was helped down the front steps by her son and Mr Browne and, after many manoeuvres, hoisted into the cab. Freddy Malins clambered in after her and spent a long time settling her on the seat, Mr Browne helping him with advice. At last she was settled comfortably and Freddy Malins invited Mr Browne into the cab. There was a good deal of confused talk, and then Mr Browne got into the cab. The cabman settled his rug over his knees, and bent down for the address. The confusion grew greater and the cabman was directed differently by Freddy Malins and Mr Browne, each of whom had his head out through a window of the cab. The difficulty was to know where to drop Mr Browne along the route and Aunt Kate, Aunt Julia and Mary Jane helped the discussion from the doorstep with cross-directions and contradictions and abundance of laughter. As for Freddy Malins he was speechless with laughter. He popped his head in and out of the window every moment, to the great danger of his hat, and told his mother how the discussion was progressing, till at last Mr Browne shouted to the bewildered cabman above the din of everybody's laughter:
- Do you know Trinity College?
- Yes, sir, said the cabman.
- Well, drive bang up against Trinity College gates, said Browne, and then we'll tell you where to go. You understand now?
- Yes, sir, said the cabman.
- Make like a bird for Trinity College.
- Right, sir, cried the cabman.
The horse was whipped up and the cab rattled off along the quay amid a chorus of laughter and adieus.»

Dubliners (The Dead), James Joyce, Granada Publishing Limited

Nota: O texto do post acima é uma tradução deste.

Still there


Fotos de M

«We came then near the river. (…) It was noon when we reached the quays (…) We crossed the Liffey in the ferryboat, paying our toll to be transported in the company of two labourers and a little Jew with a bag. We were serious to the point of solemnity, but once during the short voyage our eyes met and we laughed.(…) »

Dubliners (An Encounter), James Joyce, Granada Publishing Limited

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«Depois chegámos ao pé do rio. (…) Era meio-dia quando chegámos aos cais (…) Atravessámos o Liffey no ferryboat, pagando a nossa tarifa para sermos transportados na companhia de dois operários e um judeu pequenino com um saco. Estávamos tão sérios que até tínhamos um ar solene, mas a certa altura, durante a curta viagem, os nossos olhos encontraram-se e rimo-nos. (...)»

Dublinenses (Um Encontro)), James Joyce, Relógio D'Água Editores