sexta-feira, 24 de julho de 2020

DO QUE GOSTO 45


Foto de S. (A ilha dourada)


Partilhas



Quando ela morreu, foi com pudor e uma enorme mágoa que os herdeiros desfizeram o que restava da sua vida. Esvaziaram armários, escolheram roupas, fizeram lotes, dividiram móveis, pegaram em cada objecto como se acabassem de os receber das mãos dela e se tocassem como antigamente. Esgotados de corpo e alma, refugiaram-se ao fim do dia na penumbra da pequena sala de estar, calados, cada um com o seu silêncio. Foi então que o mais novo abriu maquinalmente a gaveta onde ela guardava os desenhos que em criança lhe ofereciam. Conservava a mesma argola dourada onde gostava de enfiar os dedos pequeninos sempre que ela lhe pegava ao colo e se sentava na cadeira junto da mesa. Dentro, um único cartão azul, escrito naquela letra manuscrita que lhe era tão familiar. Manteve-se silencioso, os olhos baixos, alagados de recordações. Parecia que continuava a ouvi-la: “Esta gaveta é a minha ilha.” Sorriu, distraído. Por fim, leu em voz sumida: “Deixo-vos aqui os meus beijos. Os que sobraram. Sempre que não vos tinha ao pé de mim e me apetecia beijar-vos, guardava-os na minha ilha dourada. Para mais tarde. Para que, depois de eu morrer, não se sentissem tão tristes. Como sabem, sou muito organizada… ”

M



(2006)

quinta-feira, 23 de julho de 2020

DO QUE GOSTO 44


Foto de S. (Flor de pedra)

A Minha Flor


Deitou-se cheio de zanga em cima do tapete da sala. Esperneava, batia com os pés no chão em sapateado de birra, rebolava-se de um lado para o outro como se procurasse onde se acomodar, e chorava lágrimas enormes que lhe escorriam pela cara abaixo. Assim permaneceu durante algum tempo, sempre com os olhos fechados, porque, penso eu, olhava para dentro do seu desgosto de menino: Eu quero ir ao jardim ver os patos!, berrava de vez em quando.

E enquanto todo ele se desconjuntava naquela luta entre desgosto e zanga, deitei-me junto dele, de barriga para baixo, com a minha cabeça poisada sobre os braços cruzados. Deixei apenas uma nesga aberta para que os meus olhos pudessem espreitar a tempestade vizinha.

Estava eu ali de bruços, atenta ao mau humor contíguo, e talvez porque ao rebolar-se tivesse esbarrado comigo, levantou repentinamente a cabeça, abriu os olhos e perguntou-me:

– Que estás aqui a fazer?

– Estou deitada no jardim – respondi eu de dentro da pequena cova dos meus braços.

– Não estás nada no jardim – resmungou ele com ar de quem sabe do que fala. E voltou a esconder a cara dentro de si mesmo.

– Estou no meu jardim. – E acentuei a palavra meu, para lhe mostrar que também eu sabia do que falava. – Há uma flor na relva…

Reparei que me espreitava: – Onde?

– Ali.

Ergueu a cabeça e examinou a flor ao fundo:

– Essa flor não é verdadeira, é de pedra – ripostou. – Aqui não há nenhum jardim, a relva tem outra cor. Já disse que quero ir ver o lago dos patos. – E recomeçou no mesmo pranto, escorrendo-lhe de novo do nariz aquilo que me pareceu uma mescla de desgosto e birra.

– Pois para mim esta flor tem pétalas e folhas verdadeiras, e é mágica, porque aparece todos os dias com uma cor diferente. E a relva fica verde sempre que eu quiser, basta pegar no meu regador e regá-la…

Ele espreitou-me de dentro dos seus soluços. Parecia surpreendido e incrédulo.

– Estás admirado? Quando estás contente gostas de inventar histórias, não gostas? Eu também. Chega-te mais ao pé de mim. Quero dizer-te um segredo: – Às vezes, quando estou triste, é que tenho mais vontade de imaginar histórias. Tu estás triste, não estás?

– Estou… Mas também estou zangado.

– A mim acontece-me o mesmo que a ti, estar triste e zangada ao mesmo tempo… Não queres então contar-me uma história?

Ele sorriu. Pareceu-me que se teria esquecido do que o contrariava. Levantou-se de um salto, deu uma corrida até à janela, voltou a sentar-se junto de mim e disse-me a rir:

– Se calhar o dia hoje também está zangado. Já viste, até parece que não quer vestir o casaco, anda tudo pelo ar… Ele tem um casaco feito de vento. Olha!

– Por causa da birra nem encontra as mangas para lá enfiar os braços, é? – acrescentei. Ele riu-se. – Lembra-me um menino que eu conheço que costuma andar com o casaco às voltas por cima da cabeça…

– Ah, mas eu faço isso na brincadeira. Ele está aborrecido. Se calhar tem febre.

– Febre?! – perguntei, admirada.

– Sim, quando o vento sopra quente é porque o dia tem febre. Há bocado disseste que eu estava a escaldar e puseste-me o termómetro. Disseste que era melhor vermos se eu tinha febre.

– E tinhas, lembras-te? …

Pela expressão do seu rosto, salpicado ainda de reflexos húmidos aqui e ali, calculo que estaria a pensar.

– Era bom que o dia encontrasse depressa as mangas do casaco. Vestia num instante o casaco feito de vento… Deve ficar muito gordo! Depois entrava na camioneta da escola… e ia para casa dele, muito longe daqui. Assim já podíamos ir ver os patos… Ao pé do lago o dia não tem febre, o vento é sempre tão fresquinho…

– E se esperássemos à janela pela camioneta da escola da tua irmã e deixássemos para amanhã a visita aos patos? Podemos inventar mais histórias, não te parece? É tão divertido…

M


(2005)

quarta-feira, 22 de julho de 2020

DO QUE GOSTO 43


Foto de S. (Livros velhos)

Marcas do Tempo

Silenciosamente encostados a um tempo que foi o deles, guardam nas suas páginas amarelecidas as marcas de quem os folheou com a curiosidade na ponta dos dedos.
M

(2006)

terça-feira, 21 de julho de 2020

DO QUE GOSTO 42





Foto de S. (Odisseia no Tempo)
   
Arde o Tempo


O Tempo, uma chama que se esvai na respiração da vida.

M

(2006)

DO QUE GOSTO 41


Foto de S. (Fim de tarde na parede)

Bolas de Sabão

Este vício de ir buscar o passado e de o trazer pela mão até ao presente…
Quando eu era menina, gostava de me sentar junto de uma das janelas de sacada do terceiro andar onde vivia segurando no colo uma tacinha com água e sabão azul em pequenas lascas que eu mexia com um canudo de cartão. No tempo em que as linhas de coser eram enroladas em canudos de cartão que, depois de despidos das suas vestes de algodão fino, deixavam de ter préstimo na caixa de costura da minha mãe. Ah, como era bom soprar, soprar, soprar aquela mistura aquosa e ver até onde crescia cada bola! Um desafio, quase uma luta corpo a corpo, e aguardar que elas se soltassem e se escapassem janela fora, embebidas nas cores do arco-íris. Como era engraçado vê-las a balançar na extremidade do tubo, parecendo indecisas − vou, não vou?... −, e segui-las no seu voo livre! E depois desejar que se aguentassem na sua fragilidade, que se misturassem com o azul do céu, que não rebentassem nunca. Mas algumas explodiam de imediato, reduziam-se a nada, viviam apenas instantes breves de cor e cristal. Oh! E eu voltava a soprar esses instantes, compulsivamente, até que eles se esgotassem dentro da taça que a minha mãe me tinha dado e que eu abrigava no colo.
Às vezes penso que a vida não é mais do que uma bola de sabão, daquelas que fazemos quando somos crianças.
M

(2005)

segunda-feira, 20 de julho de 2020

DO QUE GOSTO 40


Foto de S. (Águas passadas)

O Largo da Fonte



Não é bem igual, mas lembra-me a fonte de uma aldeia na zona do Buçaco onde eu, em criança, passava férias de Verão.

Nessa aldeia só existia uma rua principal que desembocava num largo com um pelourinho e uma fonte muito antiga que se avistava da minha casa. Eu tinha cerca de nove anos e uma bilha pequena que alguém me oferecera juntamente com uma rodilha, tudo na proporção do meu tamanho. Há quem chame também sogra a essa almofada que se coloca entre a cabeça e o que quer que seja que se queira transportar em cima do pensamento, mas como a mim, nessa altura, ninguém me tinha presenteado com nenhuma sogra, prefiro chamar-lhe rodilha.

Pois sendo eu uma menina com a mania de imitar os hábitos de quem vivia à minha volta, deliciava-me a ir buscar água à tal fonte onde as mulheres da aldeia se deslocavam várias vezes ao dia. Não havia água canalizada em parte alguma e por isso andávamos, eu e a minha amiga Celeste, constantemente para trás e para diante a encher as bilhas. Para mim, estas caminhadas constituíam um divertimento, e para a minha amiga uma obrigação de adulto que ela carregava no alto da cabeça. Apesar do peso imposto sobre o seu corpo, − fazíamos apenas uma diferença de idades de um ou dois anos −, a tarefa de ajudar a sua mãe, quando eu a acompanhava, era igualmente sentida como uma brincadeira. Penso que ela achava uma certa graça à dimensão de boneca da minha bilha e ao facto de alguém que não pertencia à aldeia fazer esse trabalho.

Era também junto do pelourinho encostado à bica que se juntava a minha família para uma fotografia comemorativa dos meus anos. As férias de outros tempos prolongavam-se por Setembro e, como o meu aniversário calha em fins deste mês, as minhas tias e primo apareciam por lá para os festejos, chegados de Lisboa, depois de horas e horas por uma estrada nacional cheia de curvas e distâncias. Uma reunião familiar que constituía uma ocasião especial para mim, um acrescento de afectos às minhas férias passadas apenas entre os meus pais e o meu irmão.

Mas esse largo tinha outras funções. Para além de sala de espera onde as mulheres se sentavam à conversa na beira da pedra da fonte atentas à água que corria devagar, funcionava, em dias de festa, como salão de baile ao ar livre. Depois da missa cantada (e desafinada, por vezes) seguia-se a procissão que percorria a rua de alto a baixo, ao longo de colchas brilhantes debruçadas sobre os peitoris das janelas e das varandas, recolhendo depois os andores com os santos à igreja. Era então que a banda se instalava no largo e tocava as músicas de sempre, entre o acanhamento dos rapazes e das raparigas que se amontoavam em grupos, olhares e risos separados, e atavios costurados para a ocasião. Mas as modinhas tinham de certo uma função terapêutica no desfazer da timidez da juventude: passado algum tempo, ficava camuflada pela poeira levantada no terreiro por pés dançando sonhos e namoricos.

Esse largo tinha ainda um outro uso: era nele que se esbatiam as tristezas masculinas saídas dos dias de funerais, chegando mesmo a alegrar-se quem se acercasse da taberna próxima. E a alegria, por vezes, crescia de tal maneira que transbordava em violência para fora dos corações. E tudo por causa dos extremos dos sentimentos embebidos em álcool e das estremas das terras que facilmente mudavam de lugar com o auxílio secreto de uma enxada. Lembro-me claramente de uma noite (a tal mágoa disfarçada de alegria continuava habitualmente para lá do sol posto) em que vi um grupo de três ou quatro homens emaranhados uns nos outros, e à pancada, deslocando-se em volta do largo, como se dançassem uma valsa. E, como nesses tempos não existia luz eléctrica, escoltava-os uma alma caridosa (ou curiosa?), correndo com eles de um lado para o outro, alumiando-lhes o passo vacilante com uma candeia, não fossem os beligerantes errar o alvo dos seus murros pesados embrulhados em insultos entaramelados de vinho.

Foi assim há alguns anos atrás: águas passadas no largo da fonte de uma aldeia.

M



(2005)

domingo, 19 de julho de 2020

DO QUE GOSTO 39


Foto de S. (A revolta)

Uma Nesga de Azul

Desfaz-se a revolta em lágrimas que se espalham pelo mundo. Mágoas. Desajustes. Conflitos. Sofrimento. Enxurradas de desalento e morte. Interrogo-me. Tento compreender. Compreendo. Não compreendo. Volto a compreender. Sinto. Não sei se as lágrimas purificam os corações. Talvez algumas, outras não. Conforme as lágrimas e os corações. Azul do céu, porque te escondes? Porque nos deixas tão sós ardendo em labaredas de ódios que se não apagam? Aparece e apazigua a nossa inquietação. Pega-nos ao colo, mostra-nos nuvens que corram ligeiras e brancas: queremos escarranchar-nos nelas. Algodão doce de feira popular. E rir com vontade. Apesar de quem não ri nunca, nem os seus pais, nem os seus avós. Não podem, o pesadelo das suas vidas é enorme, não tem fuga no riso. Terá fuga na revolta que se desfaz em lágrimas? Não sei. Talvez a nesga de azul…
M

(2006)

sábado, 18 de julho de 2020

DO QUE GOSTO 38


Foto de S. (A toalha vaidosa)

A Coroa do Rei

No país das linhas rectas paralelas havia um rei que tinha uma coroa de prata lisa e brilhante como um lago onde não toca uma aragem. Sempre que saía, colocava a coroa na cabeça e olhava-se ao espelho para ver se estava elegante. Depois descia vagarosamente a escadaria de pedra do palácio, com o corpo muito direito para não deixar cair a coroa. O rei gostava de passear de carruagem pelo seu reino, por isso exigia que ela estivesse à sua espera, à porta do palácio, com o cocheiro e o lacaio de libré que, com uma grande vénia, lhe abria a porta. Baixava então ligeiramente a cabeça para entrar no coche, segurando a coroa com a mão enluvada, e sentava-se à janela com um sorriso de rei nos lábios.
Naquela cidade, assim como no resto do país, e porque o rei tinha proibido todas as curvas, as ruas eram paralelas e em linha recta, terminando abruptamente sob um arco aberto para um descampado. Como se pode imaginar, esta arquitectura urbanística provocava enormes confusões no trânsito. Os peões andavam constantemente a direito e, quando precisavam de mudar de direcção, faziam-no em ângulo recto, o que era uma complicação. E uma perda de tempo, sempre que queriam entrar ou sair de suas casas, das casas dos amigos, de alguma loja, ou dos autocarros. Mas o pior de tudo era quando iam cheios de pressa e se enganavam no caminho: não podiam dar rapidamente meia volta e virar para trás, como toda a gente faz em qualquer parte do mundo. Ou quando alguém mais distraído, depois de todo o esforço dispendido nos ângulos rectos, tocava à campainha de uma casa de que não conhecia o dono.
Quem é?, perguntavam do andar lá de cima. É o Felismino. O senhor Doutor Aloísio está?, respondiam cá de baixo. Doutor?! Não mora aqui nenhum doutor. Deve estar enganado, esganiçava-se a voz da empregada. Ah, desculpe. Desfeita a confusão, e não sei se menos atarantado, voltava o transeunte ao trilho certo, olhando o polícia de giro pelo canto do olho. Impõe-se-me aqui esclarecer os leitores mais atentos: os polícias podiam circular à vontade apenas em serviço, por razões de agilidade de movimentos na sua função de guardiães da ordem. Fora disso, obedeciam às mesmas regras dos outros cidadãos.
Com os carros o rebuliço era ainda maior, pois os condutores, quer se enganassem quer não, tinham sempre que ir até ao fim da rua, transpor o arco, dar a volta na parte de fora, nos campos sem caminhos marcados (propositadamente pensados para isso), e regressar de novo ao interior da cidade. Não era autorizada qualquer manobra em marcha-atrás, pois para além do transtorno que poderiam causar ao trânsito, nem todos os automobilistas tinham mão firme no volante. Nem campo de visão perfeito para a retaguarda que lhes assegurasse recuar exactamente a direito por cima dos riscos traçados no chão.
Mas o rei não se importava nada com a agitação, pois achava que a cidade ficava linda com todas aquelas linhas ordenadas no pavimento. Comprazia-se a admirar a estética da sua obra e espreitava para fora da janela da carruagem, respondendo com acenos demorados ao gesto amável de algum dos seus súbditos. Mas um dia, ao pôr a cabeça de fora para apreciar melhor, e à distância, a vista de todas aquelas linhas perfeitamente paralelas, caiu-lhe a coroa. Foi então que uma criança que caminhava com um pé à frente do outro sobre uma das linhas marcadas no chão desatou a rir e disse muito alto:
A coroa do rei está cheia de caminhos!
M

(2005)

sexta-feira, 17 de julho de 2020

DO QUE GOSTO 37


Foto de S. (Rua de São Paulo)


Uma Casa Ambulante

Tem a sua graça que um ascensor público exiba número de porta, como se de gente a morar em residência privada se tratasse e quase fazendo lembrar a frontaria de uma casa senhorial de outros tempos. Mas, pensando bem, na verdade este elevador é uma casa ambulante com janelas, portas e assentos, e para muitos um espaço de convívio, ainda que breve. E é bonita esta casa amarela que sobe e desce a colina com pessoas lá dentro. Trajecto curto e íngreme, passageiros de todos os dias, olhares cúmplices, sorrisos resguardados, palavras soltas, sussurradas e acauteladas outras, a curiosidade poisada de esguelha nos que nunca ali foram vistos. Olhares lançados também janelas fora sobre quem pisa em passos lentos os degraus dos dois passeios estreitos, um de cada lado, rente aos carris do elevador. Hábitos antigos e vagarosos cruzando-se com as urgências dos nossos dias, indiferentes à sua passagem, resvés com as portas e varandas das casas que debruam esta rua acanhada.
Uma parte do mundo, apenas uma parte das suas cores, numa colina de Lisboa.
M

(2006)

quinta-feira, 16 de julho de 2020

DO QUE GOSTO 36


Foto de S. (Olhe, faz favor)

Ziguezagues
 
– Olhe, faz favor, arrume a minha vida numa dessas prateleiras – disse, entaramelando palavras e gestos. E saiu porta fora, levando ziguezagues até à rua. Parou na beira do passeio, voltou-se e gritou para dentro do café:
– Não chores, ficas mais bem acompanhada com todos esses cavalheiros do que comigo. Ah! Ah! Pois então, eles têm letreiros bem parecidos… Eu não presto, ouviste? Qualquer dia venho cá visitar-te. Deu meia volta e seguiu caminho. O homem estava bêbado de tristeza.
M

(2004)

quarta-feira, 15 de julho de 2020

DO QUE GOSTO 35


Foto de S. (Desencontros)
 
Um Banco de Jardim

Esta coisa de um banco passar horas num jardim dá-lhe, julgo eu, carácter, pensamentos e sentir de gente. Pelo convívio com as pessoas, suponho. Vem um e senta-se, vem outro e mete conversa com o primeiro, depois chega outro e conta a sua vida, um quarto adormece as suas horas vazias… Enfim, uma socialização ao ar livre: Dá-me licença que me sente? Faça favor…, responde o sorriso de alguém. Parece-me que a conheço…, alvitra o dono do cãozito que ladra com voz esganiçada. Está calado, Farrusco! A necessidade de palavras ditas e ouvidas vai-se desobstruindo: É natural, vivo neste bairro há muitos anos. A sua cara também não me é estranha… E o que à partida poderia parecer tratar-se apenas de um banco, passa a ser considerado um colo. Leva o seu tempo, claro, humanizar a madeira rija de um banco, mas o contacto com os corpos que nele se sentam vai pouco a pouco amaciando as ripas da sua estrutura.
   A princípio, ainda no armazém, entre os seus inúmeros companheiros a sofrerem acabamentos e retoques e o cheiro incomodativo de tintas e vernizes, interrogara-se para que lugar o levariam. Tinha ouvido alguém falar de uma rua com passeios largos onde havia a intenção de colocar bancos, para que as pessoas neles pudessem descansar o seu afogadilho, e os muito velhos, à falta de melhor distracção, se sentassem a caturrar e a ver correr os apressados. Ficou apreensivo a pensar no que lhe cairia em sorte, pois que preferia outras vistas às de uma rua buliçosa, cheia de ruído e de pressas. Sempre se tinha imaginado a um canto de um jardim pacato, com árvores frondosas e flores delicadas, chilreada de pássaros e fragrâncias frescas no ar. Acalmou um pouco quando mais tarde, ainda que apertado entre vários bancos dentro da camioneta da Câmara Municipal, percebeu, pela conversa dos empregados, que o iam levar para um jardim. Aliás, aquele corvo preto pousado sobre o verde da porta da camioneta, e que num relance lhe parecera verdadeiro, tinha-lhe dado a esperança de que o seu destino fosse mesmo esse. Se também trazem um pássaro, pensou, é bom sinal… Espero que seja para o soltarem num jardim… Mas depressa se apercebeu de que o corvo não passava de um desenho e que por essa razão se mantivera imóvel durante o longo percurso pelas ruas íngremes da cidade.
Finalmente tinham acabado as curvas e contracurvas, as subidas e descidas, o trânsito lento por ruelas apertadas, os infernais solavancos sobre o empedrado de basalto, as travagens súbitas e os impropérios lançados janela fora pelo motorista! Agora o banco estava num lugar que lhe agradava. Sentia-se bem naquele canto, o céu espreitando-o lá do alto por entre as árvores debruçadas sobre o pequeno lago a seus pés, a fina renda de ferro forjado verde debruando a sua casa desprovida de paredes.
Mal teve tempo de dormitar na meia-luz da tarde. Ouviu passos esmagando ao de leve os grãos de milho espalhados sobre as pedras brancas do chão, pezinhos de criança correndo para ele, trepando por ele acima, regozijando-se com a descoberta. Avó, este banco não estava aqui ontem! Senta-te ao pé de mim. Recostou-se, acariciou-o com as suas mãos de menina, sentou nele a sua boneca. E ali permaneceu, apenas durante o tempo que as crianças são capazes de guardar, um tempo curto que salta de banco em banco e de colo em colo.
M

(2005)