sábado, 25 de agosto de 2012

Still there (o último post de uma série de 14)


Foto de M

Still there




Fotos de M 

« He walked listlessly round Stephen's Green and then Grafton Stret. Though his eyes took note of many elements of the crowd through which he passed (...)»

Dubliners (Two Gallants), James Joyce, Granada Publishing Limited
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«Com o espírito alheado, contornou Stephen's Green e desceu Grafton Street. Os seus olhos não deixaram de notar muitos elementos da multidão que atravessou (...)»

Dublinenses (Dois Galãs), James Joyce, Relógio D'Água Editores

Still there




Fotos de M

«Mrs Mooney's young men paid fifteen shillings a week for board and lodgings (beer or stout at dinner excluded). (...)»

Dubliners (The Boarding House)), James Joyce, Granada Publishing Limited

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«Os jovens cavalheiros de Mrs Mooney pagavam quinze xelins à semana por pensão completa (cerveja, branca ou preta, não incluída na refeição). (...)»

Dublinenses (A Casa de Hóspedes), James Joyce, Relógio D'Água Editores

Still there


Foto de M 
  
«She sat at the window watching the evening invade the avenue. Her head was leaned against the window curtains and in her nostrils was the odour of dusty cretone. She was tired.
Few people passed. The man out of the last house passed on his way home; she heard his footsteps clacking along the concrete pavement and afterwards crunching on the cinder path before the new red houses. One time there used to be a field in which they used to play every evening with other people's children. Then a man from Belfast bought the field and built houses in it – not like their little brown houses, but brick houses with shining roofs. (...)»

Dubliners (Eveline), James Joyce, Granada Publishing Limited

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«Estava sentada à janela, vendo a noite invadir a avenida. Tinha a cabeça apoiada às cortinas e o cheiro do cretone empoeirado invadia-lhe as narinas. Estava cansada.
Passava pouca gente. O homem que morava ao fundo da rua passou a caminho de casa; ouviu-lhe o ruído dos passos no passeio de cimento, e depois a rangerem na cinza prensada do caminho que ladeava as novas casas vermelhas. Em tempos houvera ali um campo onde eles costumavam brincar todas as tardes com os filhos de outros moradores. Depois um homem de Belfast comprou o campo e construiu lá casas – não como as suas pequenas casas castanhas, mas casas de cor viva, de tijolo, com telhados luzidios. (...)»

Dublinenses (Eveline), James Joyce, Relógio D'Água Editores

Still there



 
 Fotos de M 
 (Midleton Distillery)

« (…) Little Chandler allowed his whisky to be very much diluted.
- You don't know what's good for you, my boy, said Ignatius Gallaher. I drink mine neat.
- I drink very little as a rule, said Little Chandler modestly. An old half-one or so when I meet any of the old crowd: that's all.
- Ah, well, said Ignatius Gallaher, cheerfully, here's to us and to old times and old acquaintance.
They clinked glasses and drank the toast. (...)»

Dubliners (A Little Cloud), James Joyce, Granada Publishing Limited

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« (…) Little Chandler deixou que o seu uísque fosse abundantemente diluído.
«Tu não sabes o que é bom, rapaz, disse Ignatius Gallaher. «Eu bebo o meu puro.»
«Por norma bebo muito pouco», retorquiu Little Chandler com modéstia. «Meio uísque uma vez por acaso, quando encontro alguém do antigo grupo, e é tudo.»
«Pois bem», disse Ignatius Gallaher jovialmente, «cá vai à nossa, e aos bons velhos tempos e aos velhos companheiros.»
Fizeram retinir os copos e levaram-nos à boca. (...)»

Dublinenses (Uma Pequena Nuvem), James Joyce, Relógio D'Água Editores

Still there


Foto de M
(Pub em Belfast)
 
« (...) Little Chandler finished his whisky and, after some trouble, succeeded in catching the barman's eye. He ordered the same again.
- I've been to the Moulin Rouge, Ignatius Gallaher continued when the barman removed their glasses, and I've been to all the Bohemian cafés. Hot stuff! Not for a pious chap like you, Tommy.
Little Chandler said nothing until the barman returned with the two glasses: then he touched his friend's glass lightly and reciprocated the former toast. He was beginning to feel somewhat desillusioned. Gallaher's accent and way of expressing himself did not please him. There was something vulgar in his friend which he had not observed before. But perhaps it was only the result of living in London amid the bustle and competition of the Press. The old personal charm was still there under this new gaudy manner. And, after all, Gallaher had lived, he had seen the world. Little Chandler looked at his friend enviously. (...)»

Dubliners (A Little Cloud), James Joyce, Granada Publishing Limited

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« (…) Little Chandler terminou o uísque e, com uma certa dificuldade, conseguiu atrair a atenção do barman. Pediu outra rodada igual.
«Fui ao Moulin Rouge», prosseguiu Ignatius Gallaher depois de o barman recolher os copos, «e a todos os cafés boémios. Coisa de estalo! Não é para um tipo recatado como tu, Tommy.»
Little Chandler nada disse até o barman regressar com dois copos; depois, com um toque ligeiro no copo do amigo, retribuiu o brinde anterior. Começava a sentir-se um pouco desiludido. O sotaque de Gallaher e a maneira de se expressar não lhe agradavam. Havia nele uma vulgaridade que não lhe notara antes. Mas talvez fosse apenas o resultado de viver em Londres, no meio da lufa-lufa e da concorrência do meio jornalístico. O encanto pessoal de outrora ainda subsistia sob estes novos modos exuberantes. E o que é certo é que Gallaher tinha vivido, tinha visto o mundo. Little Chandler olhou para o amigo com inveja. (...)»

Dublinenses (Uma Pequena Nuvem), James Joyce, Relógio D'Água Editores

Still there





Fotos de M 

«Mrs Malins desceu os degraus da porta da rua com a ajuda do filho e de Mr Browne e, após muitas manobras, foi içada para o fiacre. Freddy Malins trepou para a viatura a seguir e levou muito tempo a acomodá-la no assento, ajudado pelas instruções de Mr Browne. Por fim encontrou-se confortavelmente sentada, e Freddy Malins convidou Mr Browne a subir. Houve uma grande confusão de conversas e depois Mr Browne entrou no fiacre. O cocheiro ajeitou a manta sobre os joelhos, e inclinou-se para ouvir o endereço. A confusão aumentou, tendo o cocheiro recebido indicações diferentes de Freddy Malins e de Mr Browne, cada um com a cabeça de fora de uma e da outra janela. O problema era saber em que ponto do percurso deviam deixar Mr Browne, e a tia Kate, a tia Julia e Mary Jane, da soleira da porta, participavam na discussão com indicações cruzadas e contraditórias, e riso em abundância. Quanto a Freddy Malins, não conseguia falar de tanto rir. Deitava a cabeça para fora da janela a todo o instante, pondo em grande perigo o chapéu, e punha a mãe ao corrente da evolução da discussão. Até que por fim Mr Browne gritou ao atónito cocheiro, sobrepondo-se à algazarra das risadas:
«Conhece o Trinity College?
«Sim, senhor», respondeu o cocheiro.
«Pois bem, siga em frente até embater nos portões do Trinity College», disse Mr Browne, «e depois logo lhe dizemos por onde ir. Está a perceber agora?»
«Sim, senhor», respondeu o cocheiro.
«A direito que nem um passarinho até ao Trinity College.»
«Entendido, senhor», disse o homem.
Chicoteou o cavalo e o fiacre arrancou com estrépito ao longo do cais, por entre um coro de gargalhadas e adeuses.»

Dublinenses (Os Mortos), James Joyce, Relógio D'Água Editores

Nota: O texto do post abaixo é o mesmo mas na língua original.

Still there


Fotos de M 
(A terceira fotografia a contar de cima foi retirada de um painel da fábrica Guiness)

«Mrs Malins was helped down the front steps by her son and Mr Browne and, after many manoeuvres, hoisted into the cab. Freddy Malins clambered in after her and spent a long time settling her on the seat, Mr Browne helping him with advice. At last she was settled comfortably and Freddy Malins invited Mr Browne into the cab. There was a good deal of confused talk, and then Mr Browne got into the cab. The cabman settled his rug over his knees, and bent down for the address. The confusion grew greater and the cabman was directed differently by Freddy Malins and Mr Browne, each of whom had his head out through a window of the cab. The difficulty was to know where to drop Mr Browne along the route and Aunt Kate, Aunt Julia and Mary Jane helped the discussion from the doorstep with cross-directions and contradictions and abundance of laughter. As for Freddy Malins he was speechless with laughter. He popped his head in and out of the window every moment, to the great danger of his hat, and told his mother how the discussion was progressing, till at last Mr Browne shouted to the bewildered cabman above the din of everybody's laughter:
- Do you know Trinity College?
- Yes, sir, said the cabman.
- Well, drive bang up against Trinity College gates, said Browne, and then we'll tell you where to go. You understand now?
- Yes, sir, said the cabman.
- Make like a bird for Trinity College.
- Right, sir, cried the cabman.
The horse was whipped up and the cab rattled off along the quay amid a chorus of laughter and adieus.»

Dubliners (The Dead), James Joyce, Granada Publishing Limited

Nota: O texto do post acima é uma tradução deste.

Still there


Fotos de M

«We came then near the river. (…) It was noon when we reached the quays (…) We crossed the Liffey in the ferryboat, paying our toll to be transported in the company of two labourers and a little Jew with a bag. We were serious to the point of solemnity, but once during the short voyage our eyes met and we laughed.(…) »

Dubliners (An Encounter), James Joyce, Granada Publishing Limited

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«Depois chegámos ao pé do rio. (…) Era meio-dia quando chegámos aos cais (…) Atravessámos o Liffey no ferryboat, pagando a nossa tarifa para sermos transportados na companhia de dois operários e um judeu pequenino com um saco. Estávamos tão sérios que até tínhamos um ar solene, mas a certa altura, durante a curta viagem, os nossos olhos encontraram-se e rimo-nos. (...)»

Dublinenses (Um Encontro)), James Joyce, Relógio D'Água Editores

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Still there


Fotos de M 
(Phoenix Park)

« (...) The room had already cleared and from the back room came the clatter of plates and knives.Those who still remained in the drawing-room seemed tired of dancing and were conversing quietly in little groups. Gabriel's warm trembling fingers tapped the cold pane of the window. How cool it must be outside! How pleasant it would be to walk out alone, first along by the river and then through the park! The snow would be lying on the branches of the trees and forming a bright cap on the top of the Wellington Monument. How much more pleasant it would be there than at the supper-table!»

Dubliners (The Dead), James Joyce, Granada Publishing Limited

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« (…) O salão estava quase vazio e da sala das traseiras vinha o ruído de pratos e talheres. Os que ainda se encontravam no salão pareciam cansados de dançar e conversavam tranquilamente em grupinhos. Os dedos quentes e trementes de Gabriel tamborilavam no vidro gelado da janela. Que frio devia fazer lá fora! Como seria agradável ir passear sozinho, primeiro ao longo do rio e depois pelo parque! A neve estaria amontoada sobre os ramos das árvores e teria formado um capitel resplandecente no topo do monumento a Wellington. Quão mais agradável seria estar lá do que à mesa da ceia!»

Dublinenses (Os Mortos), James Joyce, Relógio D'Água Editores

Still there



Fotos de M
(Monumento a Wellington no Phoenix Park)

«The patting at once grew louder in encouragement and then ceased altogether. Gabriel leaned his ten trembling fingers on the tablecloth and smiled nervously at the company. Meeting a row of upturned faces he raised his eyes to the chandelier. The piano was playing a waltz tune and he could hear the skirts sweeping against the drawing-room door. People, perhaps, were standing in the snow on the quay outside, gazing up at the lighted windows and listening to the waltz music. The air was pure there. In the distance lay the park where the trees were weighted with snow. The Wellington Monument wore a gleaming cap of snow that flashed westward over the white field of Fifteen Acres.»

Dubliners (The Dead), James Joyce, Granada Publishing Limited

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«A batida na mesa cresceu num sinal de encorajamento, e depois cessou de repente. Gabriel pousou na toalha os dez dedos trementes e sorriu aos acompanhantes com um certo nervosismo. Encarando com uma fileira de rostos virados para si, ergueu os olhos para o lustre. O piano tocava em compasso de valsa e chegava-lhe aos ouvidos o frufru das saias que roçavam na porta do salão. Talvez houvesse pessoas lá fora no cais, no meio da neve, paradas a olhar para as janelas iluminadas e a escutar a valsa. Lá fora o ar era puro. Ao longe estendia-se o parque, com as árvores carregadas de neve. O monumento a Wellington tinha um capitel reluzente de neve que cintilava para ocidente, por sobre os alvos campos de Fifteen Acres.»

Dublinenses (Os Mortos), James Joyce, Relógio D'Água Editores

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Still there

  

 Fotos de M 
   
(…)
«He set to his supper and took no part in the conversation with which the table covered Lily's removal of the plates. The subject of talk was the opera company which was then at the Theatre Royal. Mr Bartell D'Arcy, the tenor, a dark-complexioned young man with a smart moustache, praised very highly the leading contralto of the company but Miss Furlong thought she had a rather vulgar style of production. Freddy Malins said there was a negro chieftain singing in the second part of the Gaiety pantomime who had one of the finest tenor voices he had ever heard.»
(…)

Dubliners (The Dead), James Joyce, Granada Publishing Limited

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(…)
«Entregou-se ao repasto sem tomar parte na conversa com que os convivas cobriam o ruído que Lily produzia a retirar os pratos. O tema da conversa era a companhia de ópera que actuava nessa altura no Teatro Royal. Mr Bartell D'Arcy, o tenor, um jovem de tez trigueira e bigode elegante, teceu largos encómios ao primeiro contralto, mas Miss Furlong achava que ela tinha uma execução muito trivial. Freddy Malins disse que um cantor negro, que actuava como chefe tribal na segunda parte da pantomima que estava em cena no Teatro Gaiety, tinha uma das melhores vozes de tenor que ele já ouvira.»
(…)

Dublinenses (Os Mortos), James Joyce, Relógio D'Água Editores

Still there


Foto de M 
 
(...)
«Lenehan walked as far as the Shelbourne Hotel where he halted and waited. After waiting for a little time he saw them coming towards him and, when they turned to the right, he followed them, stepping lightly in his white shoes, down one side of Merrion Square. As he walked on slowly, timing his pace to theirs, he watched Corley's head which turned at every moment towards the young woman's face like a big ball revolving on a pivot. He kept the pair in view until he had seen them climbing the stairs of the Donnybrook tram; then he turned about and went back the way he had come.»
(…)

Dubliners (Two Gallants), James Joyce, Granada Publishing Limited

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(…)
«Lenehan caminhou até ao Shelbourne Hotel, onde se deteve à espera. Daí a pouco viu-os vir na sua direcção e, quando viraram à direita, seguiu-os com o passo leve dos seus sapatos brancos por um dos lados de Merrion Square. Conforme ia andando devagar, acertando o passo pelo deles, observava a cabeça de Corley, que se virava a cada instante para o rosto da rapariga como uma grande bola a girar num eixo. Seguiu o par com os olhos até os ver subir os degraus do eléctrico para Donnybrook; nessa altura virou para trás e regressou pelo mesmo caminho.»
(…)

Dublinenses (Dois Galãs), James Joyce, Relógio D'Água Editores

Still There

 

Fotos de M

(…)
«- But tell me, Gabriel, said Aunt Kate, with brisk tact. Of course, you've seen about the room. Gretta was saying...
- O, the room is all right, replied Gabriel. I've taken one in the Gresham.
- To be sure, said Aunt Kate, by far the best thing to do. And the children, Gretta, you're not anxious about them?
- O, for one night, said Mrs Conroy. Besides, Bessie will look after them.»
(…)

Dubliners (The Dead), James Joyce, Granada Publishing Limited

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(…)
«Mas diz-me, Gabriel, interveio a tia Kate com expedito tacto. «Com certeza já trataste do quarto. A Gretta estava a dizer...»
«Oh, o quarto está tratado», respondeu Gabriel. «Reservei um no Gresham.»
«Pois está claro», disse a tia Kate. «De longe o melhor que podias fazer. E as crianças, Gretta, não estás preocupada com elas?»
«Oh, por uma noite...», respondeu Mrs Conroy. «Além disso, a Bessie toma conta delas.»
(…)

Dublinenses (Os Mortos), James Joyce, Relógio D'Água Editores

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

MUSEU NACIONAL DO AZULEJO


Foto de M

Uma exposição a não perder.
 

M 

quinta-feira, 12 de julho de 2012

177.


Foto de M

Há muito que sabemos de folhas que flutuam nos lagos dos jardins. São estrelas do céu ao alcance das nossas mãos.
M

quinta-feira, 5 de julho de 2012

PROVÉRBIOS FOTOGRAFADOS - 19

 
Foto de M

«Ovo assado, meio ovo; ovo cozido, ovo inteiro; ovo frito, ovo e meio» 
 
Rifoneiro Português por Pedro Chaves (2ª edição), Editorial Domingos Barreira

quarta-feira, 4 de julho de 2012

«Com as palavras dentro do olhar» no Palavra Puxa Palavra


Foto de Justine proposta para o desafio Com as palavras dentro do olhar, em 21 de junho de 2012, no Palavra Puxa Palavra

E pôs-se ao caminho.
Recebera a notícia no dia anterior, escondia-se então o sol para lá da serrania, mas não ousara enfrentar a noite pois conhecia os seus azedumes ventosos no início da primavera. Preferiu esperar pela manhã, que sabia habitualmente mais amena por aquelas paragens.
Levantou-se cedo, abriu as portadas do quarto para perscrutar os campos em redor da casa e preparou-se para sair. Vestiu a roupa deixada de véspera sobre a cadeira à beira da cama, calçou os sapatos com sola de borracha grossa e fechou-se na casa de banho. Não se demorou. Apareceu daí a minutos na cozinha com o cabelo bem penteado preso no alto da cabeça com o seu gancho predileto, olhou para mim e sussurrou-me um
Bom dia. De pé, mastigou à pressa o naco de pão de centeio que lhe ofereci para acompanhar o café quente bebido de um trago, o pensamento longe na distância da paisagem invisível. Em seguida pousou a caneca em cima da mesa de madeira escurecida pelos anos e enfiou o pesado capote de lã serrana. Abraçou-me então demoradamente e saiu de casa encostando a porta sem fazer ruído.
Fiquei a vê-la por detrás das vidraças. Reparei que estremeceu um pouco ao sentir no corpo a friagem matinal enquanto, com mão firme, aconchegava o cabeção do casaco ao pescoço para se proteger dos farrapos de neve que teimavam em descer sobre os seus ombros.
Não olhou para trás, não voltei a ver-lhe o rosto, mas adivinhei nele a determinação de sempre.


M

«Com as palavras dentro do olhar» no Palavra Puxa Palavra


Foto de Jawaa proposta para o desafio Com as palavras dentro do olhar, em 16 de maio de 2012, no Palavra Puxa Palavra

Sentei-me numa das pedras a sentir o silêncio da paisagem. Relativamente perto de mim, junto de uma senhora que presumi ser sua mãe, um menino segurava nas mãos pequeninas um cone de gelado de baunilha que ora lambia ora trincava, absorto no prazer do momento.Achei-lhe graça e espreitei-o de vez em quando, curiosa. A certa altura reparei que chorava, lágrimas tristes escorrendo dos seus olhos de um azul profundo.
Deixei cair o gelado na água, mamã, e agora está todo derretido.
A mãe acariciou-lhe demoradamente os cabelos e aconchegou-o a si. Não fiques triste, meu querido. Olha! Transformaste o teu gelado numa raia enorme. És um artista!
O menino olhou para a mãe, olhou para o lago, e assim permaneceu durante alguns minutos, como que suspenso nos seus pensamentos. Depois sorriu e disse: Parece a raia do Oceanário de Lisboa!

M

«Com as palavras dentro do olhar» no Palavra Puxa Palavra


Foto de Bettips proposta para o desafio Com as palavras dentro do olhar, em 19 de abril de 2012, no Palavra Puxa Palavra


Esquissos de voos. Precisamos deles como de mobiles sobre berços de meninos. À roda, à roda, provocando risos e gorjeios. Imparáveis. Estás presa por arames, dizia em tempos o meu irmão. Talvez. Ou será nas memórias que estou presa? Estranhas e brancas são as portas da memória. Às vezes confundem-se. Ou ajustam-se vezes outras na diferença entre si abrindo-se à união possível com o passado. E do futuro que me sobra e desconheço, escondido na sombra ao cimo da escada que lhe dá passagem? Onde tenho eu a chave desse mistério de vida ainda? Onde procurá-la? No patamar do presente? Dentro de mim?

M

«Com as palavras dentro do olhar» no Palavra Puxa Palavra



Foto de Agrades proposta para o desafio Com as palavras dentro do olhar, em 16 de fevereiro de 2012, no Palavra Puxa Palavra

Gasta, e no entanto tão bela, pode ser a pele do Tempo, companheiro de viagens que guardam dentro do corpo a aventura do pensamento. 

M 

domingo, 17 de junho de 2012

176.


Foto de M
 
Entretenho-me a espreitar a azáfama destas criaturinhas aladas em bzzs de impor respeito ao mais afoito citadino a deambular pelos campos. Gostaria de entender as suas conversas abelhudas, confesso. Será de Van Gogh que falam? Ah como ele amava o amarelo! 
M

quinta-feira, 7 de junho de 2012

PROVÉRBIOS FOTOGRAFADOS - 18



Foto de M

«Remenda o teu pano, chegará para o ano. Torna a remendar, tornará a chegar»

(sugerido pela Jawaa para o desafio "Provérbios Fotografados no PPP)

No Rifoneiro Português por Pedro Chaves (2ª edição), Editorial Domingos Barreira, aparece ligeiramente diferente:

«Remenda o pano, durar-te-á outro ano, torna a remendar, outro ano há-de passar»

Este postal desenhado por Stuart foi adquirido e escrito pelo meu Avô paterno e enviado a uma das suas irmãs, em 1939.

E, para quem não o conheça, aqui fica alguma informação retirada da net sobre Stuart.

M 

P.S. - Aparentemente não me terei explicado muito bem porque já houve duas pessoas que pensaram que eu era da família de Stuart, por isso esclareço aqui que não sou.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

175.

Foto de M

Ao olhar para cima vi-os. Estavam à beira da estrada florestal, empoleirados entre a terra e o céu, desmembrados os corpos, negro o silêncio de gritos sem nome esvaindo-se dentro das bocas escancaradas. Medonha, desajustada e desumana esta presença pesada de materiais amassados devorando a pureza de uma mata belíssima onde espreitam coelhos e lebres entre as fragrâncias do arvoredo e o canto dos pássaros pousa leve sobre as giestas em flor. 
M

quinta-feira, 3 de maio de 2012

AVISO

O meu computador está com um problema pelo que terei que o levar à vistoria. Não sei quanto tempo estarei ausente da net.
M

PROVÉRBIOS FOTOGRAFADOS - 17

Foto de M
   
«A luz onde está, logo aparece»

Rifoneiro Português por Pedro Chaves (2ª edição), Editorial Domingos Barreira                   

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Porque a Bettips gosta muito de oliveiras, um segundo presentinho que lhe ofereço, retirado do meu baú das memórias


Contrastes
(Foto de S.)

Afastamento

Até a tua sombra me foge na distância de um abraço impossível.

M

(22 de maio de 2005)

Porque a Bettips gosta muito de oliveiras, um presentinho que lhe ofereço, retirado do meu baú das memórias


As contorcionistas
(Foto de S.
)

No Jardim

O Passarito poisou em cima da oliveira com uma ideia muito maluca dentro da cabeça: queria ter asas azuis da cor do céu!
– Mas tu tens umas asas tão bonitas, meu pequerrucho! – disse-lhe a mãe, empoleirada a seu lado. – Que ideia a tua de quereres ter asas de outra cor!
– Mas eu quero – respondeu o Passarito. E começou a fazer uma birra, abanando muito a cabeça de um lado para o outro, e abrindo e fechando o bico, como se quisesse gritar. ­– O céu não está longe, podemos muito bem ir lá buscar azul para eu me pintar.
– Está muito longe – disse a mãe, ao mesmo tempo que metia com suavidade o bico entre as penas acinzentadas do filho. Era a maneira de ela lhe fazer festas. – As tuas penas são lindas!
– Mas eu agora quero ser azul! Tu não percebes nada! Não estás mesmo a ver?...
– A ver o quê?! – A mãe olhou para ele admirada.
– Eu quero enfeitar esta árvore. Já viste como ela é? É cinzenta, mamã... Com estas minhas asas ficamos iguais, da mesma cor não tem graça nenhuma! É preciso explicar-te tudo!...
– Ah, então foi por isso que acordaste com essa ideia maluca! – respondeu a mãe. – Mas... achas que o azul é a melhor cor para enfeitares a oliveira? Anda cá, vamos voar até àquele raminho mais abaixo e tu olhas com atenção para cima...
– Para quê? Já disse que gosto de azul, e só do azul do céu! – E, como estava muito zangado, bateu as asas com tanta força que se desequilibrou e foi pelo ar a voar aos trambolhões. Estatelou-se no passeio, escorregou, mas depois lá se endireitou. E olhava para todos os lados, um bocadito envergonhado.
– Que grande voo! Até parecia que estavas a ser empurrado por alguma tempestade! – A mãe poisava agora no chão, a seu lado.
Entretanto, os pombos que por ali andavam em busca de grãozinhos de milho miravam e remiravam o Passarito, muito espantados, sem perceberem como é que ele, sendo tão pequenino, era tão refilão e fazia tanto barulho. Só o ouviam piar, piar... E eles que gostam de comer sossegados! Passam a vida de um lado para o outro, com aquelas asas compridas que me lembram o fraque que o pai da minha amiga Beatriz veste para ir a casamentos.
– Então, já passou a birra? Apanhaste um susto com esse trambolhão, não foi? – A mãe chegou-se mais para junto dele e disse-lhe baixinho: – Olha para o céu. Estás a ver o que acontecia se as tuas asas fossem azuis? Repara bem!
O Passarito levantou a cabeça, um bocado contrariado, claro, e espreitou lá para cima.
– Não achas que quem olhasse cá de baixo via tudo azul? - perguntou a mãe. - Ninguém reparava em ti... Vamos pensar numa outra cor... Que tal um amarelo?
– Amarelo?! – Ele não estava lá muito convencido com a ideia da mãe.
– Sim, o amarelo daquelas folhas caídas sobre a relva ali ao fundo... É tão bonito! – sugeriu ela.
– Oh, esse já não está amarelo, está quase castanho...
– Achas? Pois eu acho-o lindo. Até tenho encontrado aqui um homem a apanhar folhas iguais a estas e a guardá-las dentro de um carrinho de rodas. E é muito engraçada a vassoura com que ele varre a rua...
O Passarito olhava para a mãe, olhava para as folhas, olhava para o céu, voltava a olhar para a mãe... Parecia indeciso, mas como era um bocadinho teimoso...
– Então e como é que eu faço? – perguntou por fim, baixinho, porque não queria que os pombos o ouvissem. Depois daquela birra de há pouco era uma vergonha. – As folhas estão secas e partem-se se eu lhes tocar...
– Vamos fazer assim: continuas com as tuas asas, que são lindas...
– Mas tu disseste...
– Espera, tem calma! Ficas na mesma com as tuas asas acinzentadas e eu escolho uma folha das mais bonitas, grande, e seguro-a na tua cabeça, como se fosse uma coroa. Achas bem?
– Mas... como é que se segura? – O Passarito começava a pensar que a ideia da mãe talvez não fosse de desprezar.
– Vamos procurar um fiozinho, daqueles que às vezes andam por aí... Nunca reparaste que algumas pessoas atiram coisas para o chão? Olha, ainda ontem vi uma senhora deixar cair um cordel no passeio. Quando abriu o saco do milho para os pombos e meteu a mão dentro... ele escorregou. E era encarnado! Ficava mesmo bem a segurar a coroa... Que te parece?
O Passarito abriu muito os olhos e, sempre aos saltinhos, procurou, procurou, até que encontrou o que queria.
– Encontrei um! – Ele estava agora muito contente.
– E eu descobri esta folha linda, olha! Vais parecer um príncipe! – E a mãe, pegando cuidadosamente na folha com o bico, prendeu-a com o fiozinho encarnado à cabeça do filho.
– Estou bonito? – perguntou o Passarito.
– Estás lindo! – disse a mãe, toda vaidosa.
– Então e agora? – Ele não parava de fazer perguntas.
– Agora já podes voar até ao cimo da árvore. Com cuidado… – E ficou a admirá-lo, enquanto ele subia até ao ramo mais alto da oliveira, devagarinho para não estragar a coroa.

M

(31 de maio de 2005)

domingo, 8 de abril de 2012

PROVÉRBIOS FOTOGRAFADOS - 16


Foto de M

«Asado é o pau para a colher»

Rifoneiro Português por Pedro Chaves (2ª edição), Editorial Domingos Barreira

quarta-feira, 7 de março de 2012

174.


Foto de M

Era uma vez um edifício muito alto que morava numa cidade à beira-rio. Reparei nele. Sobressaía num bairro de ancestralidades e estilos diferentes do seu pelo que dei comigo a pensar no que teria sentido ao ir pouco a pouco tomando consistência entre a terra e o céu, encaixado naquele espaço de criações outras que não a sua. E imaginei que poderia ter estranhado vizinhança tão diversa, o que o levaria a recolher-se atrás dos pequenos rectângulos marcados no corpo que, à distância do meu olhar, me pareciam janelas fechadas. Mas, tanto quanto me é dado fantasiar, a presumível desconfiança e desajuste iniciais entre os residentes ter-se-á dissipado com a convivência diária. E de tal forma íntima ela se tornou, suponho, que a ampla parede do jovem edifício passou a ser lugar de encontro para o pensamento do olhar.
M